(pt) Federação Anarquista do Rio de Janeiro FARJ - Libera #163 - A divisão é entre exploradores e explorados: análise sobre a eleição 2014 (en, it)

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Terça-Feira, 20 de Janeiro de 2015 - 15:02:00 CET


"O primeiro erro, o mais funesto, que pesou sobre a humanidade, foi ter colocado o governo 
acima da sociedade." ---- Pierre-Joseph Proudhon ---- As eleições acabaram e evidenciaram 
dois projetos de gerência do capitalismo no Brasil. A disputa entre tucanos e petistas no 
período eleitoral foi a mais acirrada da história. Mas cabe lembrar (Coordenação 
Anarquista Brasileira, Elementos de Conjuntura 2014) que apesar de PT e PSDB não serem 
iguais, ambos são partidos da ordem burguesa que disputam a gestão do aparelho e do 
capital, não um projeto de transformação da sociedade. ---- Longe de ser o reflexo da 
vontade popular, quando olhamos para o congresso brasileiro o que vemos é, na realidade, a 
configuração das forças que, além de defenderem seus próprios interesses, estão na linha 
de frente das agendas do capital. Afinal, as campanhas políticas vitoriosas são em sua 
esmagadora maioria financiadas por grandes empresas e representam interesses da burguesia.

Para o próximo mandato, além desse cenário, convivemos com o avanço da organização da 
direita ultra-conservadora. Esse foi o "resultado" do projeto democrático-popular do PT (e 
apoiado por seus satélites), que ao invés de "avançar massivamente a consciência de 
classe" permitiu que as forças mais reacionárias pudessem se organizar melhor e avançassem 
assimetricamente sem um projeto popular que pudesse barrá-las.

Durante o período eleitoral, alguns acreditam que a participação nas eleições é um caminho 
válido, ou mesmo "complementar", para avançar as pautas dos/as trabalhadores/as. Contudo, 
a via eleitoral além de estar totalmente dominada por esses poderes econômicos e 
políticos, legitima os mecanismos conservadores do Estado e dos oligopólios da mídia para 
que as transformações radicais nas estruturas do sistema de dominação nunca sejam 
realizadas. Esta pode até permitir uma oposição republicana e moderada de alguns partidos 
da esquerda não governistas, mas jamais essa oposição se tornará aguda a ponto de colocar 
em xeque o sistema vigente. Esses partidos tendem a moderar suas pautas e discursos, e o 
gasto de energia nas lutas populares praticamente acaba dando espaço à corrida eleitoral. 
Ao fim e ao cabo, estes acabam legitimando o processo eleitoral, que finge ser democrático 
com a presença da esquerda no seu interior. Nesse sentido, não compartilhamos da 
estratégia na qual ao ocuparmos postos no Estado (organização política da classe 
dominante) possamos fazer avançar o poder popular. O próprio PT que tem um "verniz de 
esquerda" vem, na prática, governando para e com a direita afim apenas de manter seu 
governo e aprofundar a exploração e violência sobre o povo. O PT representa, no atual 
cenário, o governo de turno da classe dominante, prometendo assim, para o próximo período 
o que há de pior aos trabalhadores e trabalhadoras. Basta vermos a escolha de Kátia Abreu 
para o Ministério da Agricultura, representante da burguesia rural e do agronegócio, e o 
anúncio de uma política econômica voltada para atender as exigências do mercado. Engana-se 
quem acha que o governo do PT pode ser disputado. O governo do PT nunca esteve em disputa, 
é um governo de pacto de classes e continuará a retirar os direitos dos trabalhadores, a 
fazer avançar o agronegócio no campo, a manter o controle militar nas favelas, ainda que 
jogue algumas "migalhas" do banquete em forma de políticas de acesso a crédito (estímulo 
ao consumo).

Não se pode afirmar, ao nosso ver, que exista dimensão ou argumento tático de defesa do 
"voto crítico", pois as urnas não são o espaço de luta. Como vimos, o essencial na 
perpetuação desse sistema está garantido e não será modificado pelo voto. Muitas agências 
e organismos internacionais e nacionais funcionarão independente dos eleitos e estão 
blindados contra qualquer "pressão" do voto, pois por ele não são afetados. Para termos 
uma ideia, 42% do orçamento público já está comprometido com o pagamento de juros da 
dívida púlica ao capital especulativo financeiro, e ambas as candidaturas foram 
financiadas por grandes empreiteiras e bancos. O PT e o PSDB mesmo tendo projetos com 
algumas características distintas e, "simbolicamente" antagônicos, estão dentro desse 
sistema político e econômico. Representam assim duas "formas" para um mesmo conteúdo. Não 
se trata de um ser menos pior (PT de Dilma) que o outro (PSDB de Aécio) mas sim, cenários 
distintos que se apresentam e que só podem ser enfrentados no terreno real da luta de 
classes. Esse terreno não é a disputa dentro do Estado, mas sim a vida cotidiana dos/as 
trabalhadores/as e suas entidades classistas. Podem até se revezar de tempos em tempos, 
como os dois grandes partidos norte-americanos (o Democrata e o Republicano), mas na 
prática operam modelos de dominação e exploração, diga-se de passagem, cada vez mais 
parecidos.

Entendemos que este país continua dividido em explorados e exploradores e que não será 
nenhum governo da ordem, aliado da burguesia, que fará com que isso se modifique. A 
reeleição conquistada pelo PT não irá modificar esse rumo. Nada conquistaremos sem a 
construção e fortalecimento de estruturas e organizações sociais de caráter popular e 
permanente. Estruturas essas que o PT, vale lembrar, há décadas vem ajudando a enfraquecer 
e burocratizar. Portanto, é preciso construir, a partir do que já existe, as bases da 
futura sociedade.

As mudanças que se ensaiaram vieram todas das ruas e somente aí, se apresenta uma saída à 
esquerda para o próximo período sob o governo petista. Mas isso só pode ser feito se 
tivermos movimentos populares, organismos de base sindical e movimentos camponeses muito 
bem organizados e que tenham pautas objetivas de intervenção na realidade (educação, 
saúde, moradia, terra etc), para que as ruas não sejam esvaziadas e despolitizadas. É 
importante fortalecermos desde já uma alternativa com métodos e práticas autônomos e 
independentes do governo e partidos.

  As dimensões do poder vão muito além das eleições, e por isso não buscamos encontrar nas 
urnas a solução para as mazelas sociais, mas sim nas ruas e nas lutas cotidianas das 
mulheres, negros e LGBTTs, na favela, no sindicato, no campo e nas universidades, é a 
partir dessas lutas e espaços que começamos a construir o mundo livre com que sonhamos. 
Que cada militante entenda a importância de fortalecermos movimentos combativos e 
autônomos, ou corremos o risco de continuar reclamando da burocratização, do reformismo e 
das eleições, no mesmo ritual de escolha do "menos pior".

É fundamental reconstruirmos e criarmos grupos de base sindical que possam romper com o 
governismo, com a burocracia e superar a prática autoritária de se transformar essas 
entidades classistas em "correias de transmissão" de vanguardas e correntes partidárias. É 
preciso avançar de acordo com o contexto e a consciência de classe que se apresenta, mas 
sem um projeto de poder popular classista e independente de governos, repetiremos os erros 
que levaram grande parte da esquerda que lutava nos movimentos populares, décadas atrás, a 
assumir hoje o lugar dos exploradores de plantão.

Referências: CALC, Breve Análise Socialista Libertária sobre o resultado das urnas em 2014 
[http://anarquismopr.org/2014/10/28/breve-analise-socialista-libertaria-sobre-o-resultado-das-urnas-em-2014%5D

https://anarquismorj.wordpress.com/2015/01/17/a-divisao-e-entre-exploradores-e-explorados-analise-sobre-a-eleicao-2014/


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