(pt) Comunicado nº 42 da União Popular Anarquista UNIPA - "Anarquistas de governo": o triste fim do revisionismo libertário no Brasil e na América Latina

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Domingo, 8 de Fevereiro de 2015 - 12:25:09 CET


A UNIPA vem há mais de dez anos travando a luta teórica e ideológica contra o revisionismo 
do anarquismo. Essa luta foi interpretada equivocadamente, ou oportunistamente, como sinal 
de "intransigência", "autoritarismo". Na realidade essas acusações serviam como cortina de 
fumaça para encobrir os erros de linha política e mesmo um reformismo latente. Agora, 
depois de quase dez anos, a prática, como sempre, explicita a verdade. Hoje muitos dos que 
se reivindicam "anarquistas" ou "libertários" assumem uma defesa aberta de uma política 
socialdemocrata, caindo nas mais grotescas contradições, como apoiar o governismo. Esse 
texto denuncia e analisa teoricamente esse processo. ---- 1 - Os fatos: o anarquismo 
social (democrata) como apêndice do governismo nos movimentos de massa

Podemos dizer que alguns fatos vêm se apresentando e ajudando a explicitar essas 
contradições. Iremos começar pelo relato dos mais recentes eventos. No Rio de Janeiro 
ocorreram, em janeiro de 2015, cinco plenárias de luta organizadas pelo "MPL" (Movimento 
Passe Livre). Nessas plenárias vimos, e todos viram, os militantes da FARJ (Federação 
Anarquista do Rio de Janeiro/integrante da CAB - Coordenação Anarquista Brasileira) 
cumprirem o papel de força auxiliar do governismo.

Os setores revolucionários, diante do fato de que o PCdoB e correntes do PT estavam 
atuando para dar a feição as plenárias que interessam ao governismo, ou seja, dar uma 
direção política corporativista, economicista e que separe a luta imediata de problemas 
histórico-estruturais da classe, tentaram levantar o debate sobre o participação ou não 
dessas forças nas plenárias. Como os revisionistas libertários atuaram em tal plenária? 
Representantes da FARJ, ante a proposta de não permitir representantes do PT e do PCdoB 
nas plenárias, se manifestaram favoráveis a presença da UJS, do Levante Popular da 
Juventude. Seu argumento foi que "O governo é da Dilma, não do PT" e "uma coisa é ser 
governo, outra é ser petista". Essa defesa da presença do PT e do PCdoB foi fundamentada 
em argumentos que tentavam isentar esses partidos da responsabilidade política do Governo, 
tratando o Governo Dilma como a política de um "individuo" solto no ar, sem nenhuma 
condição social de sustentação.

Mas esta defesa, que poderia ser considerada como um desvio de "democratismo" abstrato, na 
realidade se conjugou com outra, mais séria, mais danosa e muito mais irresponsável. Os 
presos políticos do Rio de Janeiro, presos de toda nossa classe, combatentes do povo, 
estão sofrendo nas masmorras do Estado brasileiro por terem lutado por direitos, inclusive 
dos transportes. Coerentemente se colocou que uma das linhas de ação do ato deveria ser 
pela "Liberdade dos Presos Políticos", bandeira que qualquer reformista digno 
subscreveria. Mas qual foi a defesa dos governistas, que contaram com o apoio da FARJ? 
Defenderam contrariamente que se levantasse a bandeira pela liberdade dos presos políticos 
porque isso seria fugir do foco da luta que "era apenas evitar os aumentos e obter 
transporte público". Essa posição é, acima de qualquer coisa, uma traição, perfeitamente 
coerente com a política dos governos e o cinismo do PT e do PCdoB, mas não com a revolta 
popular.

Além destas práticas locais da FARJ (poderia se dizer que é um desvio de uma organização 
regional) é importante indicar o padrão das ações, primeiramente do FAO (Fórum do 
Anarquismo Organizado, que depois assumiria o nome de Coordenação Anarquista Brasileira).

Entre 2005-2006, quando as lutas contra as reformas da previdência e trabalhista 
resultaram num movimento de cisão em relação à CUT e denuncia do governismo, qual foi a 
posição do FAO? Eles não assumiram a luta contra o governismo e optaram por assumir o 
discurso da inviabilidade de condições históricas para uma ruptura (quando esta ruptura já 
estava objetivamente acontecendo) ou do sectarismo frente ao trotskismo. Erroneamente, 
justificaram se manter fora da luta contra o governismo por não querer se aliar ao 
trotskismo quando um grande número de correntes governistas são, ainda, trotskistas. De 
fato, não acompanharam o movimento de uma parcela da classe que explicitava as 
contradições e o impulso de romper com a CUT, com todas as contradições desse processo. 
Além disso, sua atividade dentro do campo da "Intersindical/CUT" não produziu nenhum 
antagonismo, não vimos nenhum debate de fundo político ser conduzido para expressar que 
esse setor estava "disputando" com os governistas.

Depois do levante popular de 2013, organizações aderentes da CAB, tem tido posicionamentos 
contraditórios. De maneira geral, a CAB já tinha manifestado sua condenação da violência 
de massas (defendida mesmo por Malatesta e pela FAU histórica, supostamente referências 
desse campo), primeiramente subscrevendo a condenação dos anarquistas gregos realizada por 
Frank Mintz. Não é então surpreendente que depois de junho de 2013 a OASL (Organização 
Anarquista Socialismo Libertário, também da CAB) e a FARJ tenham atacado os "Black Blocs" 
, argumentando que a tática Black Bloc "afasta" as massas, que a "violência" afasta os 
trabalhadores, invertendo o efeito pela causa e vendo-as de cabeça para baixo. A exaltação 
do "anarquismo histórico" (também chamado de violento, de terrorista) gera então uma 
flagrante contradição.

No mesmo período em que condenavam os protestos violentos na Grécia, os setores da CAB tem 
internacionalmente promovido campanhas juntamente com a FARV (Federação Anarquista 
Revolucionária da Venezuela), que é "chavista", defende o Governo Chavez e suas políticas 
de capitalismo nacional. Além disso, tem também apoiado organizações que participaram de 
"Frentes Populares" com partidos burgueses, tal como organizações "anarquistas" que 
apoiaram a Bachelet no Chile.

A grande questão é: denunciar esses fatos é um dever de classe, de todos os que defendem a 
luta da classe trabalhadora e explorada. Analisar esses fatos e explicá-los é um dever 
revolucionário, pois eles servem para formar a consciência estratégica da própria classe e 
esta compreensão auxilia a enfrentar os desafios da luta.

Podemos dizer que esta política da FARJ/CAB é o resultado de uma atividade de diferentes 
naturezas: de um lado uma linha teórica e ideológica revisionista. Esta linha equivocada 
impede que essa organização desenvolva uma linha de massas, e a ausência de uma linha de 
massas autônoma leva a sua integração no governismo e nas frentes populares de esquerda da 
América Latina. Em 2006 já havíamos advertido que a recusa em aprofundar a luta teórica e 
ideológica, em assumir o bakuninismo, levaria ao oportunismo (ver Comunicado nº 15, 
"Anarquismo e Ecletismo, em geral e particularmente no Brasil"). Muitos tentaram falsear 
nosso argumento, acusando de "dogmatismo", "sectarismo". A fraseologia agora mostra seu 
resultado: porque a FARJ/CAB defende a presença do PT, e mais que isso, legitima o 
argumento de que o PT é diferente do governo? É o individualismo analítico e seu 
idealismo. O problema são os indivíduos, como o indivíduo se "considera subjetivamente". 
Assim, eles defenderam a separação absoluta entre o Governo Dilma Rousseff e o PT/PCdoB 
porque os "indivíduos/filiados" não são do governo, e logo ser governista não é a mesma 
coisa que ser do PT. Ou seja, o individualismo cobra agora sua dívida, fazendo com que a 
teoria dos "anarquistas especifistas", o "anarquismo social", seja velho individualismo 
com outra roupagem.

O mesmo sobre a negação do materialismo: essa negação leva ao efeito prático de separar o 
indivíduo das condições e relações sociais. Assim, o problema é a "Dilma" e não as 
relações sociais, de classe, de poder, ideológicas que englobam a ação individual mas não 
podem ser reduzidas a ela. Assim, o PT, o PCdoB, suas práticas ideológicas cotidianas 
desaparecem e surgem apenas os "super-indivíduos", herói ou vilão, típicos das novelas 
burguesas.

É interessante que essa defesa se dá no momento em que Lula, por uma opção tática, tenta 
se "distanciar de Dilma" para poder se colocar como "terceira via" nas eleições de 2018, 
retornando como "salvador da nação". Essa defesa da separação entre o PT e seu bloco 
sindical-popular do modelo econômico e político vigente é apenas uma tática do PT para 
prolongar a vida do Lulismo. A CUT também está encenando uma guinada à esquerda, para 
renovar sua legitimidade.

Essa concepção teórica individualista isenta-se da necessidade de uma linha de massas. E 
por não terem uma linha própria, assumem a linha do governismo e do sindicalismo de 
Estado. A negação do "apoio aos presos políticos" é uma prática economicista e 
conservadora, da separação das lutas imediatas e históricas, típicas da socialdemocracia e 
do sindicalismo de Estado de tipo varguista. A ausência de uma linha de massas própria 
conduz a defesa da linha de massas estatista (socialdemocrata, comunista), e isto conduz a 
integração em diferentes graus, nas coalizões "governamentais". Malatesta usou o termo 
"anarquistas de governo" para denunciar Kropoktin e outros por sua adesão à política 
imperialista; os "Amigos de Durruti denunciaram na Espanha em 1937 o "ministerialismo", a 
participação de "anarquistas" como ministros e defensores dos Governos burgueses. Essas 
são apenas as formas mais avançadas da diluição desse reformismo libertário dentro das 
organizações reformistas e dos governos. Ela se nega a colocar todas as complexas 
determinações (ideológicas, organizativas, econômicas) e assume o economicismo como 
solução fácil. Assim, a prática de luta econômica (luta pela redução da tarifa é 
completamente separada da luta política contra o Governo, nunca sendo o momento de colocar 
a vinculação das duas). Exatamente como os reformistas tentam fazer todo o tempo.

Eles negam que a prática de resistência gera a prática revolucionária e que a prática de 
colaboração só pode gerar a prática contrarrevolucionária. Essa afirmação é fundamental 
pois o que se trata aqui é de ver como contribuir para o processo revolucionário. A luta 
ideológica e teórica não é uma opção, não há prática revolucionária sem teoria 
revolucionária, não há pratica revolucionária sem prática de resistência. Logo, se o 
anarquismo é revolucionário, ele não pode ter agora, antes da revolução, uma prática 
colaboracionista. Se ele tem uma prática colaboracionista, é porque ele nega a revolução e 
cai, portanto, no revisionismo.

Por isso a expressão "anarquistas de governo" é uma ironia histórica, uma contradição em 
termos; ou se é anarquista ou se é governista, mas os anarquistas de governo gostam de 
preservar o título de "anarquistas". Como não estamos preocupados com monopólios sobre 
etiquetas, cada um pode dizer que é o que quer que seja (FHC dizia que não era 
neoliberal), mas deve arcar com as consequências políticas de seus posicionamentos e atos. 
Para compreender os novos anarquistas de governo precisamos compreender os "antigos". É 
isso que iremos analisar agora.

2 - Do reformismo libertário da CNT aos "anarquistas do PT": ou porque o "especificismo" e 
o anarquismo social não são nada

?
Bandeiras da UNE, UJS, PSOL e PSTU a frente do ato contra o aumento em SP. A disputa já 
está dada, o combate ao governismo e reformismo é uma necessidade. Mas o revisionismo 
defende a "coexistência pacífica" com os governistas.

Podemos dizer que a integração de ideologias críticas no sistema capitalista é um fato 
recorrente. Mas também é recorrente a crítica e a denúncia desse processo. Dessa forma, 
tão logo o anarquismo foi formulado no século XIX, alguns operários tentaram dar uma 
interpretação reformista das teses de Proudhon, e formularam "O Manifesto dos 60 Operários 
do Sena", que defendia as candidaturas operárias. Proudhoun elaborou uma carta em que 
dizia "Nada de eleições, nada de candidatos", e depois formulou o projeto da organização 
da capacidade política operária fora das instituições estatais. Bakunin irá aprofundar 
esse desenvolvimento, dando forma clara a organização revolucionária (Aliança) e da 
organização das massas (AIT - Associação Internacional dos Trabalhadores), que se tornaria 
o modelo de linha de massas defendido pelos sindicalistas revolucionários em todo mundo 
durante um século.

Mas ao mesmo tempo, republicanos burgueses tentaram dar outro sentido as teses 
anarquistas, atribuindo um conteúdo individualista e mesmo capitalista. Esse processo foi 
concomitante a repressão que se deu depois da Comuna de Paris de 1871. Foi então a base da 
concepção anarco-comunista de Kropotkin que negou o bakuninismo e o coletivismo. O mesmo 
acontecendo com o individualismo de Benjamim Tucker nos EUA, centrando a estratégia na 
ação educativa de indivíduos sobre as massas. Os críticos dessa visão foram especialmente 
os sindicalistas revolucionários. Assim, historicamente existe uma luta entre os que 
tentam atribuir ao anarquismo uma proposta individualista e republicana e outra que 
entende o anarquismo como força revolucionária de massas.

Podemos dizer que depois da insurreição e Guerra Civil espanhola (1936), a linha 
republicana ganhou a CNT (Confederação Nacional dos Trabalhadores) e tornou-se hegemônica 
internacionalmente. Lá, a agrupação "Amigos de Durruti" cumpriu o papel de denunciar a 
integração de setores da CNT e FAI (Federação Anarquista Ibérica) no Estado burguês, o 
"ministerialismo". Mas o fundamental é que essa linha não desapareceu. Os exilados 
espanhóis reformistas na França durante os anos 1960 assimilaram o novo liberalismo 
cultural como sinônimo de anarquismo, e ao longo dos anos 1970 Diego Abad Santillan, o 
mestre do "reformismo libertário", formulou de maneira clara e categórica a renúncia à 
revolução. Em seu livro "estratégia e tática. Ontem, hoje, amanhã", Santillan apresenta as 
linhas finais da evolução de seu pensamento e de sua política:

"Primeiro: [...] o capitalismo nao e mais uma massa uniforme e petrificada, e um conjunto 
de atitude e de categorias que nao se mostra sempre solidaria nem sequer frente aos 
adversarios comuns; Existe um capitalismo que poderiamos qualificar de compreensivo e 
progressista, que observa a evolucao obrigada da economia atual; [...] Segundo: A grande 
revolucao de hoje e a reforma; a barricada ja cumpriu sua missao, se e que teve uma 
missao, e nas condicoes atuais e muito mais um caminho para a contrarrevolução do que para 
a realizacao de um progresso efetivo e de uma autentica libertacao; A propagam e recorrem 
a ela precisamente os que nao aspiram a liberdade nem a democracia, senao a instauracao de 
novos despotismos. Terceiro: Resumindo, achamos que hoje importa muita mais a luta contra 
o totalitarismo estatal que contra o sistema capitalista que ja mostra fissuras 
suficientes para que o espirito de iniciativa e desejo criador podem praticar formas de 
vida economica nao-capitalista".

É nessa base histórica que os chamados "especifistas" e o "anarquismo social" tentam se 
apoiar. Estes setores, ao negarem o debate teórico e procurarem uma posição "democrática", 
de conciliar todas as tendências, assimilam mecanicamente essa linha do "reformismo 
libertário", que se tornou uma espécie de "republicanismo".

No Brasil, o terreno foi preparado ainda pelo fenômeno dos "anarquistas do PT". Nos anos 
1980 a crítica ao stalinismo e ao PCB levou a um resgate romântico do anarquismo 
(exaltação do período do sindicalismo revolucionário pré-1930). Assim, muitos indivíduos 
dentro do PT se diziam anarquistas, por entenderem que anarquismo era "anticomunismo". 
Ainda hoje existem petistas que se dizem anarquistas, e são também os maiores defensores 
da indefinição teórica, do anarquismo como "etiqueta ideológica", pois o debate teórico 
desmascara sua posição.

No Brasil, esse revisionismo surgiu historicamente pela presença do individualismo liberal 
e culturalista, que não tem nenhuma relação com o sindicalismo revolucionário dos anos 
1910-30. Nos anos 1990, com a tentativa de resgate de um anarquismo classista, esse campo 
se diversificou, surgindo a proposta de um anarquismo de massas. Mas setores queriam 
conciliar com essa tradição liberal e também agregar os "anarquistas do PT". Um debate 
interno levou a uma cisão entre militantes, e esse processo resultou na formação de dois 
projetos: o anarquismo revolucionário defendido pela UNIPA e o revisionismo que se 
consolidou numa rede de organizações denominada de FAO (Fórum do Anarquismo Organizado e 
que depois assumiria o nome de CAB, Coordenação Anarquista Brasileira) que tentava 
conciliar elementos do classismo característico do anarquismo revolucionário, com o 
individualismo, camuflando suas posições sob uma aura de "prudência".

Em 2006 afirmamos no Comunicado nº 15 que, caso esses militantes não rompessem com essa 
posição titubeante seriam levados a uma posição centrista e capituladora. Pois bem, essa 
posição começa a se expressar de forma a clarear as suas contradições. De 2011 até agora, 
tanto internacionalmente, como nacionalmente, a CAB e outras organizações tem se diluído 
dentro das frentes populares, tornando-se meros apêndices das políticas socialdemocratas. 
Dessa forma, a ausência de um debate teórico sério tem alimentado o oportunismo que é a 
base da ação da FARJ, mas também da linha internacional anarco-governista.

Existem diferenças dentro da CAB? Sim, ela é heterogênea. O especifismo, que é a panaceia 
da FAG (Federação Anarquista Gaúcha), que defende o "voto nulo" no Brasil mas se alia com 
organizações chavistas e bachelistas internacionalmente, não caiu ainda no grau de 
oportunismo da FARJ, mas nem por isso é isenta de responsabilidade sobre o desenvolvimento 
do reformismo libertário. O que é o especifismo? É uma limitação da apropriação mecânica 
de uma categoria formada num contexto histórico já superado, o Uruguai dos anos 1950. 
Naquele período fazia sentido defender a organização específica contra um setor do 
individualismo desorganizador. Isso resultou numa linha de massas, na defesa da greve 
geral, no combate à linha reformista do PC dentro da PIT-CNT (confederação sindical), na 
formação de uma corrente própria (Resistência Operária Estudantil) e na aliança com 
setores combativos (Tendência Combativa, que agregava especialmente setores maoístas).

O especifismo de hoje congela o debate e o desvirtua: ao invés de combater o 
individualismo, concilia com ele; ao invés de combater o reformismo, concilia com ele; 
reduz as múltiplas tarefas teórico-políticas do anarquismo a apenas uma: defender a 
organização como princípio "em si". Essa redução conduz ao nada, servindo como posição 
negativa frente aos desorganizadores. Não enfrenta os problemas complexos de como se 
organizar, com que estratégia, observando que teses e etc. Pois, na realidade, mesmo 
setores reacionários podem defender a organização. A questão é: organização de que tipo? E 
nesse terreno o especifismo não avança. Se furta de ter uma posição construtiva, de 
apontar qual deve ser a linha de massas, fica numa denúncia genérica do governo, mas não 
disputa uma concepção e projetos; não tem uma proposta de sindicalismo revolucionário (que 
tem em Malatesta um dos seus principais teóricos e, contraditoriamente, o especifismo que 
tem em Malatesta uma referência, não usa a teoria de Malatesta para agir no movimento de 
massas). O anarquismo social é um cavalo de Tróia: é uma transformação da linha de 
Santillan, um republicanismo socialdemocrata com retórica libertária, daí o nome de 
anarquismo social (democrata) ou socialdemocracia libertária que os revolucionários na 
Europa lhe deram.

Logo, o especifismo e o anarquismo social não podem ser nada em termos dos desafios 
histórico-estruturais do movimento de massas. Eles só podem ser um apêndice do reformismo. 
A organização como princípio "abstrato" e "em si" legitima que eles tenham unidade com 
todos os que supostamente defendem a "organização" (a UJS, a CTB, a Articulação Sindical, 
a ASS), da mesma forma que defendem ferrenhamente a unidade do anarquismo como síntese do 
individualismo com o "social", e daí seu flerte com o liberalismo, acusando de 
autoritarismo todos que rompam com essa dinâmica. A prática dos anarquistas de governo 
está assim ancorada em elementos de teoria individualista e no republicanismo "democrático".

3 - A unidade na resistência e as minorias ativas: chamado aos anarquistas para o combate 
ao individualismo e ao reformismo libertário

"Que o sindicalismo não tem natureza própria, ao contrário do que há muito tempo afirmava 
um camarada - prova-o o fato de que pode ser socialdemocrata ou bolchevique... ou 
católico, anarquista. Não sendo mais que o nome dado ao movimento operário, ele terá o 
caráter que lhe infundam com sua mentalidade e seu temperamento as minorias ativas que o 
orientem. As discrepâncias de pensamento suscitadas no seio da Internacional motivadas 
pela orientação que se deveria dar as sociedades de resistência apresentaram um importante 
problema aos militantes das mesmas: a escolha dos meios condizentes ao fim comum de 
transformar a sociedade. É conhecida a diferença de critério a este respeito quanto ao 
método de luta entre os chamados marxistas e bakuninistas, entre autoritários e 
libertários. O congresso antiautoritário celebrado em setembro de 1872 em Saint-Imier 
representa a rebeldia da liberdade - que inspirou a fundação da AIT - contra o dogma 
autoritário e o espírito de dominação, encarnado em Karl Marx e os seus amigos. Desde 
então até hoje, a separação das organizações proletárias em todos os países, seguiram 
direções diferentes, é inevitável. Muito empenho foi posto e muito boas intenções têem 
sido consagradas ao propósito de retornar a unidade. Grande número de companheiros 
anarquistas tem sofrido, obcecados por esta idéia, de excessiva ingenuidade. Felizmente 
parece que as duras lições oferecidas pelo tempo, chegaram a estabelecer um acordo dentro 
do mesmo marco de luta para alcançar o ideal comum de emancipação. Mas nem tudo está 
esclarecido no referente a esta questão. É sabido que quando estava para fazer-se a luta, 
uma nova corrente de vontades fez a sua aparição para pretendendo incorporar as idéias 
socialistas - com a denominação de socialismo - uma nova doutrina social. Cerrando os 
olhos ante a investigação serena do passado, ante a realidade instrutiva do presente e em 
face aos verdadeiros destinos do futuro, anunciou-se ao mundo operário a descoberta de uma 
nova orientação. Para alcançar o fim, em cuja direção tinha que encaminhar-se, rotas 
diferentes das já conhecidas haveria de seguir. E para não sofrer extravio, disporia 
também de uma bussola especial O novo horizonte de onde m a seguir, viria a luz, era o 
sindicalismo como fim, as organizações corporativas como órgãos de reprodução da futura 
sociedade. (Edgard Leuenroth, Jornal "A Plebe")

A análise de Edgard Leuenroth é fundamental. Não há sindicalismo puro. Cada ideologia tem 
seu modelo de organização de massas. E a unidade não se dá abdicando do modelo 
organizativo. Um dos centros da ideologia anarquista é justamente seu modelo de 
organização de massas. Ser minoria ativa e ser oposição aos modelos católico, estatal, 
socialdemocrata, de movimento.

Nossa análise não é uma mera denúncia. Sabemos que existem companheiros sinceros nas 
organizações anarquistas citadas, dispersos e mesmo em organizações reformistas. Mas não 
se trata do que os indivíduos pensam, trata-se de como suas ações e relações sociais 
contribuem ou não para um processo revolucionário. E por isso eles têm a responsabilidade 
de se posicionar frente a tais questões. E nesse momento fazemos um chamado a estes 
companheiros sinceros a uma autocrítica profunda e correção de linha política. E 
conclamamos todos aqueles que se consideram anarquistas a ter um posicionamento firme na 
luta de classes, combatendo o governismo, o reformismo libertário e o individualismo. 
Nosso chamado indica que:

1) É preciso que os anarquistas sejam coerentes com a sua linha histórica classista e 
revolucionária, e isso implica em atuar como minoria ativa, ou seja, praticar a unidade na 
resistência concreta, nas lutas econômico-políticas mas sem abdicar da defesa do seu 
modelo de sindicalismo revolucionário e de sua concepção de organização;

2) Os anarquistas, mesmo com divergências de entendimento, devem estar organizados dentro 
de uma corrente de oposição de base independente, formada de acordo com o modelo de 
sindicalismo revolucionário e fazer uma denúncia intransigente do papel jogado pelo 
governismo como força desorganizadora, do sindicalismo de Estado e apresentar formas de 
organização de base alternativas para fazer a disputa ideológica através da prática de 
resistência, ao invés de deixar essa luta para um futuro indefinido;

3) Combater o sectarismo, mas sem cair no democratismo republicano e liberal, e por isso, 
a unidade com outros setores em luta se deve fazer pela base, pelo chamado a construção de 
uma confederação de oposições de tipo sindicalista revolucionária. Isso significa que os 
chamados devem ser as bases em luta e não a correntes e direções reformistas e governistas 
ou mesmo vanguardas revolucionárias.

4) É preciso ter coerência, não adianta ter uma linha nacional, uma estadual e outra 
internacional como álibi para justificar as incoerências éticas e políticas. É preciso 
denunciar os governos de Frente Popular na América Latina e reconstruir as organizações 
regionais do tipo AIT para enfrentar a crise do capitalismo. Unidade teórica e unidade 
tática significa, em última instância, isso: compromisso ético-político com a causa do povo.

Esse documento então é um chamado a unidade, mas a unidade positivamente assentada sobre 
fundamentos teórico-programáticos. A nossa unidade não implica abandonar a luta 
teórico-ideológica. Iremos continuar denunciando as capitulações e de agora em diante 
ninguém mais poderá se esconder atrás dos mitos do reformismo libertário.

Anarquismo é Luta!


https://uniaoanarquista.wordpress.com/2015/02/05/anarquistas-de-governo-o-triste-fim-do-revisionismo-libertario-no-brasil-e-na-america-latina/#more-1697


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