(pt) anarkismo.net: América Latina: guinada à direita e contraposição estratégica by BrunoL

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Quarta-Feira, 30 de Dezembro de 2015 - 16:50:45 CET


Nos últimos seis meses, a América Latina vem sofrendo com uma nova guinada à direita, 
orientada para os desígnios do pós-Consenso de Washington e, ideologicamente, voltada para 
o eixo de domínio financeiro entre Nova York e Londres. O eterno contraponto em nosso 
continente se dá em dois contrapontos visíveis, sendo que neste texto faço o aporte de um 
terceiro, com identidade coletiva e as opções daí derivadas. ---- Eis o artigo. ---- A 
única possibilidade de avançarmos para uma segunda independência é conquistar mais espaços 
de participação política e a ampliação de experimentalismos institucionais. ---- Nos 
últimos seis meses, a América Latina vem sofrendo com uma nova guinada à direita, 
orientada para os desígnios do pós-Consenso de Washington e, ideologicamente, voltada para 
o eixo de domínio financeiro entre Nova York e Londres. O eterno contraponto em nosso 
continente se dá em dois contrapontos visíveis, sendo que neste texto faço o aporte de um 
terceiro, com identidade coletiva e as opções daí derivadas.

O primeiro contraponto que temos aqui deriva do fato de sermos total ou parcialmente 
dominados por uma herança colonial maldita através do criollismo das famílias europeias 
dos vice-reinados, cujo exemplo mais radical é o brasileiro, onde o que resta de elite 
quatrocentrona segue tendo pouca ou nenhuma identificação com nosso próprio povo, fazendo 
a permanente opção pelo eixo eurocêntrico e especificamente anglo-saxão do mundo 
contemporâneo. Nota-se tal modelo nas manifestações mais à direita, mesmo as de corte 
liberal (liberal-democrata), e na formação de frações de classe dominante que não hesitam 
em liquidar patrimônio, recusando-se em ser classe dominante de países emergentes ou com 
vocação para potência média (como é o caso brasileiro).

O segundo contraponto é mais reivindicável, embora tenha esgotado seu ciclo e, em termos 
de estratégia econômica e teoria do desenvolvimento, venha tendo voos de galinha e 
maximizando ainda a herança colonial. Refiro-me, obviamente, a chamada virada democrática 
iniciada com a eleição de Hugo Chávez para a Presidência da Venezuela (em dezembro de 
1998) e cujo fim de ciclo percebe-se no país hoje governado por Nicolás Maduro, assim como 
na eleição de um menemista para a Casa Rosada na Argentina (Mauricio Macri) e a crise 
política brasileira que não termina. Brasil (através do pacto lulista), Argentina (com a 
linha Kirchner e a reconfiguração de um peronismo “nacionalista”), Paraguai (que sofrera 
golpe branco), Venezuela (chavista e pouco bolivariana), Honduras (também passando por um 
golpe branco), Chile (cuja adesão ao modelo foi sempre parcial), Nicarágua (com a eleição 
de Ortega e o alinhamento chinês e russo), El Salvador (com a FMLN transformada em tímido 
partido social-democrata), Uruguai (com a Frente Ampla flertando assinar Tratado de Livre 
Comércio com os EUA), Peru (com o falso alvaradismo de Ollanta Humala), além de Bolívia 
(com Evo) e Equador (com Correa) aplicando reformas constitucionais para a reedição 
permanente de mandatos, são a prova viva de que nossos países não completaram sequer uma 
institucionalização republicana inclusiva, que dirá poder exercer em grande medida uma 
política soberana de seus próprios recursos estratégicos, a começar por minérios e 
recursos hídricos.

Insisto neste segundo contraponto, pois aí se dá a ilusão do exercício do Poder Executivo 
e a necessidade de conformar uma elite dirigente com passado no campo nacional-popular e 
desejando servir a uma classe dominante com vocação latino-americanista. Tal setor de 
classe não existe e, seguindo a conta da geopolitik como reflexo internacional da real 
politik e das variáveis do realismo, terminamos por aderir de forma total ou parcial aos 
seguintes equívocos: políticas de curto prazo reforçando exploração hidromineral; 
alinhamento com o eixo dos BRICS (o que em termos globais é correto), mas sem uma projeção 
distinta além da promoção das Transnacionais (TNCs) brasileiras em novas fronteiras 
econômicas (como na África); falta de concertação estratégica para diminuir a dependência 
financeira e também político-jurídica junto ao capital parasitário a corroer a maior parte 
dos recursos de nossos países (vide o caso na nova inflexão de Guido Mantega à frente da 
pasta da Fazenda no primeiro governo Dilma e o orçamento limitado diante dos gastos com o 
espólio rentista).

Se somarmos estas escolhas do Poder Executivo comandado por militantes de ex-esquerda (ao 
menos assim o eram no período da Bi-polaridade ou na democratização), mais ao 
posicionamento da direita ideológica da América Latina, perceberemos que o desafio de um 
capitalismo periférico em nossos países é justamente a necessidade de planejamento 
estratégico e concertação entre elites dirigentes, tecnocracia e setores de classe 
dominante dispostos a confrontar suas matrizes político-ideológico-jurídicas do “ocidente” 
capitalista. É justo neste quesito que as teorias do desenvolvimento, em maior ou menor 
grau, se deparam com o dilema da dependência e sua limitação do posicionamento do andar de 
cima da pirâmide social e a presença de grupos de TNCs não latino-americanas aprofundando 
a interdependência e a perda de poder de tomada de decisão por parte dos governos de 
turno. Ou seja, saídas estruturais implicam em posicionamentos pós-coloniais e não em 
reedições de inserção periférica no capitalismo do século XXI.

Assim, a dimensão do terceiro contraponto é a ausência do que vamos afirmar aqui. A única 
possibilidade de avançarmos para uma segunda independência é conquistar mais espaços de 
participação política e a ampliação de experimentalismos institucionais para radicalizar 
nossas democracias, ultrapassando o formalismo e o arranjo entre poderes republicanos já 
estabelecidos. Assim, o que afirmei acima como segundo contraponto não coaduna com a 
capacidade de realização. Por exemplo, na Bolívia, a constituição pós-Evo prevê formas 
comunais de Justiça, mas toda esta realização depende necessariamente da permanência do 
MAS e do próprio Morales no centro do poder político. Obviamente, se a longevidade das 
instituições leva ao seu aprimoramento, o mesmo vale também para a institucionalidade que 
nasce do poder do povo, em especial se esta tem raízes na resistência latino-americana 
anticolonial. O exemplo dado acima pode ser universalizado dentro do desafio de proteger 
territórios e criar outras formas de vida, de modo a ter na base de nossas sociedades, 
poderosas organizações populares com poder de veto sobre o sistema jurídico e político, 
criando uma correlação de forças distinta da atual, onde a legitimidade anda distante da 
legalidade, a começar pelo modelo de democracia de representação e partidos de tipo 
burguês, com intermediários profissionais e carreiras políticas longevas.

Superadas as ilusões do capitalismo periférico e do pacto de classes como alternativa a 
nossas sociedades latino-americanas, é possível antever que durante o caos da nova 
restauração burguesa e neoliberal (a exemplo dos anos ’90), tenhamos o emergir de 
vigorosos movimentos populares de perfil latino-americano e anti-colonial.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28914


More information about the A-infos-pt mailing list