(pt) Impressões de um anarquista cubano na Feira do Livro Anarquista de Londres (Parte I) Por Marcelo “Liberato” Salinas

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Domingo, 27 de Dezembro de 2015 - 11:00:50 CET


Na manhã de 24 de outubro passado acordei em uma pequena e quente habitação em Willesden 
Junction, um bairro no subúrbio de Londres [Reino Unido], num espaço que, em um gesto 
inesquecível, nascido da limpa afinidade de ideias, me ofereceu C., uma companheira da 
Federação Anarquista de Londres que em poucas horas tornou-se íntima companhia naquela 
cidade. ---- Depois de uma viagem de quase 20 horas de Havana-Moscou-Londres, fui recebido 
dois dias antes no aeroporto de Londres por A. que seria um suporte logístico e afetivo 
decisivo durante toda a minha estadia nessas terras, graças à contribuição solidária da 
Afed (Anarquist Federation) nas Ilhas Britânicas. ---- Em seguida seria E., que me pegou 
em um café de um bairro cujo nome não me lembro, quente companheira que me acompanhou 
durante toda a tarde fria do dia 23 e me levou para a excelente livraria Freedom, onde 
participei de um workshop que aconteceu na livraria sobre “linguagem e dominação”, até que 
por volta das 9 horas ela e C. me levaram para Willesden Junction, onde passei a minha 
segunda noite em Londres.

Cheio de emoção me preparei para encontrar com E. para ir a Granary Building, espaço onde 
aconteceria durante todo o dia 24 de outubro a Feira do Livro Anarquista. Ao longo do 
caminho encontramos M. que foi de uma gentileza inesquecível e que se empenhou muito com 
sua companheira em termos de nossa viagem e já na Feira seria uma acompanhante essencial 
para nos apresentar ao resto dos compas das federações locais de Brighton, Bristol, 
Liverpool, Edinburg, Glasgow, que dias depois me receberam em seus espaços.

O edifício da Central St Martins foi a sede que acolheu a Feira, um espaço universitário 
alugado pelos compas da Federação Anarquista e que a meus olhos foi agradavelmente 
inesperado… um lugar enorme cheio de companheiros, exposições de livros, revistas, 
folhetos, fanzines, jornais, cartazes, salas laterais com um programa simultâneo de 
dezenas de apresentações… uma festa dos sentidos para os olhos de qualquer pessoa 
proveniente de Cuba, onde dispor de um mínimo espaço tem, para começar, custos morais 
elevadíssimos.

O conceito organizacional da Feira do Livro Anarquista de Londres é uma sessão de um dia 
onde ocorre uma grande exposição e venda de materiais impressos de todos os projetos 
editoriais convidados e simultaneamente mais de 50 apresentações temáticas de livros, 
experiências, painéis, espaços de debate, de audiovisual, salas de jogos para crianças e 
adolescentes. Com tantas opções interessantes não soube o que escolher e preferi conhecer 
as editoras que estavam no grande espaço e os companheiros que as representavam.

Por volta do meio-dia M. me convidou para comer alguma coisa e me levou a um lugar, no 
meio da selva de concreto, que é a sede de uma interessantíssima experiência de 
reabilitação florestal em uma área industrial abandonada, onde as crianças e adolescentes 
urbanos podem ter uma experiência diferente. Ali almoçamos um excelente lanche vegano, 
servido por voluntários envolvidos no projeto.

Dessa experiência interessante me dispus a participar do diálogo e da apresentação do 
livro “Ecology or Catastrophe: The Life of Murray Bookchin” de Janet Biehl, uma 
substancial biografia de um dos pensadores anarquistas mais importantes e polêmicos dos 
últimos 25 anos. Uma apresentação protagonizada pela companheira de Bookchin em seus 
últimos anos e uma das autoras mais significativas da corrente anarquista conhecida como 
Ecologia Social, que resultou em um grande debate sobre o processo de libertação que está 
acontecendo em Rojava, algo que o sistema midiático estatal cubano e Telesur têm se 
esforçado para silenciar.

Participei também de uma palestra organizada pelos compas tchecos sobre a situação dos 
espaços antiautoritários e a repressão estatal naquele país, algo que me impressionou 
profundamente, porque apesar das grandes diferenças que nos separam, tchecos e cubanos 
compartilhamos o que podemos chamar de uma mesma condição pós-comunista que marcam nossas 
ações. Os compas tchecos falaram de como, apesar da escassa trajetória das ideias e 
experiências organizacionais em seu país, em contraste com Cuba, graças à sua localização 
geográfica, têm conseguido ancorar na realidade tcheca de forma relevante em poucos anos.

Estando em Londres tivemos acesso a informações sobre a chamada “Operação Antifenix” que 
desde julho do ano passado leva a cabo o Estado tcheco contra o movimento anarquista e 
contra os ativistas pró-direito dos animais nesse país, com base em uma grande campanha de 
desinformação, alucinadas acusações de “terrorismo ultra-esquerdista”, detenções 
arbitrárias de dezenas de companheiros em várias cidades, invadindo espaços, tomando 
computadores pessoais e especialmente o encarceramento dos compas Peter, Martin, Ales e 
Ivan que, dentre outras coisas, mostram que a transição do totalitarismo para a democracia 
não significa muito mais do que uma simples mudança de máscara do Estado policialesco de 
sempre.

Para mais informações e contatos sobre este caso, você pode aproveitar os novos espaços de 
Internet que abriram nosso delicioso governo e acessar antifenix.noblogs.org e também 
podes entrar em contato com os compas (em inglês ou russo) através do e-mail 
antifenix  riseup.net.

Por volta das 16 horas foi a apresentação da palestra “Anarquismo em Cuba” na sala do 
Black Lab, onde fui o palestrante. Dois minutos antes de entrar na sala, porque eu estava 
em uma conversa muito agradável com compas espanhóis da Solidarity Federation radicados em 
Brighton e os compas da editora Grillo Libertário de Barcelona. A sala estava 
completamente cheia, com pessoas no chão, pessoas de todas as cores, enfim, que desde que 
eu sentei na cadeira percebi um ambiente de forte expectativa fraternal que me emocionou 
muitíssimo.

Em uma apresentação apertada de aproximadamente vinte minutos abordei a trajetória do 
nosso “Taller Libertario Alfredo López”, no âmbito da “Red Observatorio Crítico” no 
contexto sócio-político cubano, que foi seguido de uma animada rodada de perguntas e 
respostas que abriram interessantes reflexões e comentários sobre nossa realidade e nossas 
ações em Cuba.

Momento particular foi em que abordamos a experiência de nossa Federação Anarquista do 
Caribe, um espaço inédito na nossa região e um grande desafio para nós mesmos que será uma 
prova concreta do que podemos fazer neste contexto caribenho, cheio de impossibilidades e 
adversidades de todos os tipos, mas que pode ser um ponto de virada para abrir um caminho 
antiautoritário sem precedentes nesta região.

A adiantada noite outonal do Atlântico Norte surpreendeu a todos nós nestes diálogos 
informais entre companheiros, pedra angular de qualquer sociabilidade libertária, que 
sabe-se, inevitavelmente, vai passar à história pessoal de cada um dos envolvidos. 
Desmontar mesas de exposição, recolher as caixas de materiais, limpar o espaço, a pressão 
dos funcionários encarregados das instalações para atender a seus superiores, assim fomos 
nos dispersando para nos reunirmos novamente em outros espaços, sob uma chuva sutil e fria 
que convida a estar a salvo no calor da fraternidade entre companheiros.

Fonte: 
http://observatoriocriticocuba.org/2015/12/21/mis-impresiones-de-la-34-feria-del-libro-anarquista-de-londres-i-parte/

http://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2015/12/23/impressoes-de-um-anarquista-cubano-na-feira-do-livro-anarquista-de-londres-parte-i/


More information about the A-infos-pt mailing list