(pt) Portugal, ait-sp: PEDAGOGIA LIBERTÁRIA, EDUCAÇÃO POPULAR E ANARQUISMO*

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Domingo, 20 de Dezembro de 2015 - 10:34:48 CET


Ao abordar o tema PEDAGOGIA (ou PEDAGOGIAS) LIBERTÁRIA não podemos deixar de o ligar à sua 
génese ANARQUISTA e à figura de Ferrer Guardia e à sua ligação ao movimento 
anarco-sindicalista do início do século 20. Mais do que qualquer outra, a ideia de uma 
escola moderna, e de uma educação baseada no racionalismo e na desmontagem de todas as 
superstições religiosas sociais e políticas, a iniciativa de Ferrer Guardia ia a par do 
desenvolvimento de um proletariado combativo e organizado contra a exploração capitalista 
e a opressão do Estado – e tinha como alvo a educação integral das crianças filhas do 
proletariado, fora das mordaças das igrejas e dos poderes do Estado e do Capital. E foi 
por isso, no seguimento dos grandes levantamentos operários e populares, sobretudo na 
Catalunha, que Ferrer Guardia foi condenado à morte e fuzilado, aliás, no mesmo ano (1906) 
em que é criada a anarco-sindicalista CNT – Confederación Nacional del Trabajo. À 
monarquia espanhola e aos privilegiados latifundiários e senhores da indústria, não 
convinha uma escola que ensinasse aos proletários e seus filhos, que não é no “Céu”, 
depois de mortos, que há que alcançar qualquer “paraíso” mas sim aqui na Terra, onde as 
desigualdades, as opressões , as injustiças existem…-e que há que lhes pôr fim.

Com efeito, nesse período, não apenas em Espanha mas em muitos outros países –e em 
Portugal também – o desenvolvimento do movimento anarquista e das organizações operárias, 
como os sindicatos revolucionários (UON primeiro e CGT mais tarde), associações populares, 
cooperativas, ia a par da criação de escolas operárias nesses organismos de base, de 
círculos de estudos sociais, de grupos de alfabetização, dos quais, os principais centros 
industriais como o Porto, Lisboa, Setúbal , foram férteis. Nesse mesmo período, em 
Inglaterra foi criada a “Pleb´s League”, a Liga dos Plebeus, com o objectivo expresso de 
cultivar e instruir o proletariado inglês daquele tempo, a braços com a exploração infame 
a que a “democrática” burguesia britânica o submetia, com jornadas de trabalho de sol a 
sol, com trabalho infantil, com aviltantes e terríveis condições de trabalho…

A par do desenvolvimento das lutas sociais foram-se sempre desenvolvendo entre os meios 
laborais experiências de (auto-)educação popular, desde as experiências da escola de 
Goulai-Poulai, na Ucrânia, animada por Tolstoi em meados do século 19, à Alemanha dos anos 
20 com as Comunas Infantis em Berlim e Hamburgo, ligadas ao desenvolvimento da FAU-D 
(Freie Arbeiter Union – Deutschland , secção alemã da AIT ) como de resto, na mesma época, 
em Inglaterra, na Suiça, na Itália, na França, na Áustria e na Holanda, e nada disso está 
separado de movimentos operários – que tentam contrabalançar o crescendo nacionalista, 
fascista e nazi.

Seguir-se-ão as experiências de redes de educação popular , durante a ocupação nazi da 
França, animadas pelo autodidata Freinet, e mais tarde, a alfabetização e educação popular 
nas favelas brasileiras, impulsionadas através das ideias da Pedagogia do Oprimido, de 
Paulo Freire, às escolas dos “assentos” dos Sem Terra, nas ocupações de terras do Brasil e 
nas ocupações no México do ZPLN e dos Magonistas.
Algumas destas experiências decerto que escapam por vezes à classificação de LIBERTÁRIAS 
no sentido ideológico do termo, mas abrem brechas na chamada “educação institucional”- 
sempre tendente a formatar crianças e adultos nos “valores” dominantes ( a competição, o 
afastamento da lutas sociais, o egoísmo social, etc.).

Algo profundamente ligado ao conceito de EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA é o AUTO-DIDATISMO 
organizado, e as várias experiências surgidas na Suécia (O. Olssen) e na Alemanha após a 
II Guerra Mundial e durante os anos 60 e 80: os Círculos de Estudos, organizados pelas 
próprias pessoas interessadas num dado tema e que tanto serviriam para apreender em 
pequeno grupo uma qualquer técnica como para conhecer uma qualquer obra literária. Um seu 
desenvolvimento na Berlim “alternativa” dos anos 80 foram também as “Bolsas de 
Aprendizagem” (Lernen Boerse), orientadas segundo uma “velha” máxima de B.Brecht, que 
dizia que “se o que não sabe é um ignorante, o que sabe e não passa aos demais aquilo que 
sabe é um criminoso”…

Muitos outros exemplos se poderão dar ainda de movimentos activos de educação e pedagogia 
libertária e educação popular no mundo inteiro. Também hoje, aqui e agora , frente à 
“crise” que banqueiros e governantes impõem que seja a maior parte da população 
pauperizada a pagar, frente ao aumento do ”intox” oficial (consome, consome, 
“empreendedorismo”, lixa-o-parceiro-do-lado-para-
teres suce$$o, etc, etc…) nos tentam a todas e todos fazer aceitar as soluções vindas do 
alto da burra ou do alto do Estado. E enquanto nos preocupamos com que nós e os nossos 
filhos possamos ter o último modelo de “té-lé-lé”, ELE$, os de cima e os de sempre, 
vão-nos roubando o tempo e a vida! É tempo de os recuperarmos! É tempo de ler mais e ver 
menos TV!

É tempo de criarmos entre nós CIRCULOS DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS, GRUPOS DE AR LIVRE E 
AVENTURA COM OS MAIS NOVOS – a par de todas as iniciativas populares e laborais com que 
possamos “meter o pauzinho nas engrenagens que nos apertam”…

Por nós, tentamos dar alguma ajuda nesse sentido.

*Texto de Zé P. (militante anarco-sindicalista)
Dez.2015

Círculo de Estudos Sociais Libertários – c/ Sindicato de Ofícios Vários da A.I.T.-SP, Porto

http://www.ait-sp.blogspot.pt/2015/12/pedagogia-libertaria-educacao-popular-e.html


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