(pt) Federação Anarquista do Rio de Janeiro CAB, Contribuições de Bakunin ao debate sobre a organização política anarquista – Felipe Corrêa e Rafael V. da Silva[1]

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Quarta-Feira, 16 de Dezembro de 2015 - 10:37:34 CET


Apesar das obras completas de Bakunin terem sido publicadas recentemente em francês – na 
edição de 2000 do IIHS de Amsterdã, depois de tentativas importantes de compilar parte 
significativa de sua obra –, seus escritos sobre as chamadas “Fraternidade”, de 1864, e 
“Aliança”, de 1868, para utilizar a terminologia proposta por Max Nettlau, são pouquíssimo 
conhecidos. A estratégia de massas de Bakunin vem sendo melhor discutida, em textos 
relevantes como, por exemplo, Bakunin: fundador do sindicalismo revolucionário, de Gastón 
Leval [2] e vários outros de René Berthier. [3] ---- No entanto, sua teoria da organização 
política, amplamente abordada em documentos escritos com o intuito de fundamentar – em 
termos de princípios, programa, estratégia e organicidade – suas propostas 
políticoorganizativas, é pouco ou quase nada discutida.

Parece haver, em especial entre os anarquistas franceses, certo constrangimento desses 
escritos, como se constituíssem parte de uma herança autoritária, talvez de inspiração 
blanquista e jacobina, que permaneceu no pensamento do autor e que não deveria ser trazida 
a tona.[4] Consideramos que as posições de Bakunin sobre a organização política 
anarquista, de 1868 em diante, podem ser conciliadas plenamente com sua estratégia de 
massas, proposta para a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), e, assim, ser 
considerada parte relevante de seu anarquismo. Tais posições parecem ter força, ainda 
hoje, para subsidiar reflexões frutíferas acerca do modelo organizativo mais adequado para 
uma intervenção anarquista na realidade.

Bakunin sustentou que a Aliança da Democracia Socialista (ADS) deveria ter um duplo 
objetivo; por um lado, estimular o crescimento e o fortalecimento da AIT; [5] por outro, 
aglutinar em torno de princípios, de um programa e de uma estratégia comum, aqueles que 
tivessem afinidades político-ideológicas com o anarquismo – ou, como em geral se chamava à 
época, do socialismo ou coletivismo revolucionário. [6] Em suma, criar/fortalecer uma 
organização política e um movimento de massas, o dualismo organizacional:
Eles [os militantes da ADS] formarão a alma inspiradora e vivificante desse imenso corpo a 
que chamamos Associação Internacional dos Trabalhadores […]; em seguida, se ocuparão das 
questões que são impossíveis de serem tratadas publicamente – eles formarão a ponte 
necessária entre a propaganda das teorias socialistas e a prática revolucionária. [7]

Para Bakunin, a ADS não precisaria ter uma quantidade muito grande de militantes: “o 
número desses indivíduos não deve, pois, ser imenso”; ela deveria constituir uma 
organização política, pública e secreta, de minoria ativa, com responsabilidade coletiva 
entre os integrantes, que reunisse “os membros mais seguros, os mais devotados, os mais 
inteligentes e os mais enérgicos, em uma palavra, os mais íntimos”, nucleados em diversos 
países, com condições influenciar determinantemente as massas trabalhadoras.[8] Essa 
organização deveria ter por base comum um regulamento interno e um programa estratégico, 
os quais estabeleceriam, respectivamente, seu funcionamento orgânico, suas bases 
político-ideológicas e programático-estratégicas, forjando um eixo comum para a atuação 
anarquista.
Poderia tornar-se membro da organização somente “aquele que tiver francamente aceitado 
todo o programa com todas suas consequências teóricas e práticas e que, junto à 
inteligência, à energia, à honestidade e à discrição, tenham ainda a paixão 
revolucionária”.[9]

Internamente, a organização política bakuniniana não possui hierarquia entre os membros e 
as decisões são tomadas de baixo para cima, em geral por maioria (variando do consenso à 
maioria simples, a depender da relevância da questão), e com todos os membros acatando as 
decisões tomadas coletivamente. Isso significa aplicar o federalismo – defendido como 
forma de organização social, que deve descentralizar o poder e criar “uma organização 
revolucionária de baixo para cima e da circunferência ao centro” – nas instâncias internas 
da organização anarquista. Externamente, a ADS não deve exercer relação de dominação e/ou 
hierarquia sobre a AIT, mas a complementar; o inverso também seria verdadeiro. Juntas, 
essas duas instâncias organizativas se complementam e potencializam o projeto 
revolucionário dos trabalhadores, sem a submissão de qualquer uma das partes.
A Aliança é o complemento necessário da Internacional… – Mas a Internacional e a Aliança, 
tendendo para o mesmo objetivo final, perseguem ao mesmo tempo objetivos diferentes. Uma 
tem por missão reunir as massas operárias, os milhões de trabalhadores, com suas 
diferenças de profissões e países, através das fronteiras de todos os Estados, em um só 
corpo imenso e compacto; a outra, a Aliança, tem por missão dar às massas uma direção 
realmente revolucionária. Os programas de uma e de outra, sem serem de modo algum opostos, 
são diferentes pelo próprio grau do seu desenvolvimento respectivo. O da Internacional, se 
tomado a sério, contém em germe, mas somente em germe, todo o programa da Aliança. O 
programa da Aliança é a explicação última do [programa] da Internacional.[10]

O dualismo organizacional bakuniniano caracteriza-se pela união dessas duas organizações – 
uma política, de minorias (quadros); outra social, de maiorias (massas) – e sua 
articulação horizontal e permanente potencializaria a força dos trabalhadores e aumentaria 
as chances do processo de transformação social com fins anarquistas.
Dentro do movimento de massas, a organização política dá mais eficácia aos anarquistas nas 
disputa de posições e na construção de um projeto revolucionário. Ela contrapõe, 
organizadamente e em favor de seu programa, forças que agem em sentido distinto e que 
buscam: elevar à condição de princípio uma das diferentes posições político-ideológicas 
e/ou religiosas, minimizar seu caráter eminentemente classista, fortalecer as posições 
reformistas (que veem as reformas como um fim) e a perda de combatividade do movimento, 
estabelecer hierarquias internas e/ou relações de dominação, direcionar a força dos 
trabalhadores para as eleições e/ou para estratégias de mudança que envolvam a tomada do 
Estado, atrelar o movimento a partidos, Estados ou outros organismos que retiram, neste 
processo, o protagonismo das classes oprimidas e de suas instituições.

[1] Este texto é um excerto (com novo título) extraído da cartilha de formação “BAKUNIN, 
MALATESTA E O DEBATE DA PLATAFORMA A QUESTÃO DA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA ANARQUISTA”. O leitor 
pode ler o artigo completo no site do Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA).

[2] LEVAL, Gaston. Bakunin, Fundador do Sindicalismo Revolucionário. São Paulo: 
Imaginário/Faísca, 2007

[3] Cf., por exemplo: BERTHIER, René. “Bakounine: une théorie de l’organisation”. In: 
Monde Nouveau, 2012. Idem. “Postface”. In: ANTONIOLI, Maurizio. Bakounine: entre 
syndicalisme révolutionnaire et anarchisme. Paris: Noir et Rouge, 2014.

[4] Nas últimas décadas, o constrangimento dos anarquistas franceses com parte da obra de 
Bakunin é notável, especialmente no que diz respeito ao tema da organização política. 
Praticamente nenhum dos numerosos programas da Aliança da Democracia Socialista foi 
incluído nos livros publicados deste anarquista. Talvez isso possa ser explicado pela 
hipótese de René Berthier, relatada numa palestra de 2014 no Brasil. Para ele, durante 
muito tempo, os franceses aproximaram Bakunin do marxismo ou mesmo de um suposto “marxismo 
libertário” defendido por Daniel Guérin. Poder-se-ia justificar, assim, ainda segundo ele, 
o fato de uma revista como Itineraire, que dedicou seus números aos “grandes anarquistas” 
da história, não ter um número sobre Bakunin. É o próprio Berthier que, em certa medida, e 
junto com alguns outros pesquisadores e militantes, tem retomado mais recentemente a 
discussão da obra bakuninana.

[5] A maior realização histórica concreta de militantes que estiveram envolvidos com a ADS 
foi a criação da AIT em países onde ela ainda não existia e o estabelecimento de novas 
seções da Internacional onde ela já estava em funcionamento; tais foram os casos da 
Espanha, da Itália, de Portugal e da Suíça, além de casos na América Latina, estimulados 
por correspondências. Cf. CORRÊA, Felipe. Surgimento e Breve Perspectiva Histórica do 
Anarquismo (1868-2012). São Paulo: Biblioteca Virtual Faísca, 2013.

[6]BAKUNIN, Mikhail. “Carta a Morago de 21 de maio de 1872”. In: CD-ROM Bakounine: Ouvres 
Completes, IIHS de Amsterdã, 2000.

[7] Idem. “Carta a Cerretti de 13-27 de março de 1872”. In: CD-BOC.

[8] Idem. “Status Secrets de l’Alliance: programme et objet de l’organization 
révolutionnaire des frères internationaux”. In: CD-BOC. Idem. “Carta a Cerretti de 13-27 
de março de 1872”. In: CD-BOC. Idem. “Carta a Morago de 21 de maio de 1872”. In: CD-BOC.

[9] Idem. “Status Secrets de l’Alliance: organization de l’Alliance des frères 
internationaux”. In: CD-BOC. Idem. “Status Secrets de l’Alliance: programme et objet de 
l’organization révolutionnaire des frères internationaux”. In: CD-BOC.

[10] Idem. “Carta a Morago de 21 de maio de 1872”. In: CD-BOC.

https://anarquismorj.wordpress.com/2015/12/13/contribuicoes-de-bakunin-ao-debate-sobre-a-organizacao-politica-anarquista-felipe-correa-e-rafael-v-da-silva/


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