(pt) Coordenação Anarquista Brasileira CAB - Contra a Crise e o Oportunismo: Ação Direta com as/os De Baixo by FARJ

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Sexta-Feira, 11 de Dezembro de 2015 - 08:49:06 CET


A Coordenação Anarquista Brasileira manifesta sua opinião sobre os recentes acontecimentos 
resultantes da lógica dominante do capital financeiro especulativo, nacional e 
internacional, que opera seus interesses por meio do Estado e suas estruturas jurídicas, 
políticas, repressoras e midiáticas. São expressões disso as defesas de um terceiro turno 
por parte do PSDB, as investidas nos avanços dos cortes de direitos trabalhistas e 
sociais, os cortes de verbas à educação e a lei antiterror que o PT colocou em pauta, e o 
caso das quatro contas bancárias em paraíso fiscal por parte de Eduardo Cunha (PMDB). ---- 
Aqui, declaramos nossa opção de luta classista, que prima a organização com os debaixo na 
luta cotidiana, ombro a ombro, na luta diária. Vemos que existem questões mais profundas, 
estruturais, que vão além da chantagem da direita declarada no jogo político (representada 
por Cunha e pelo PSDB) ou pela manutenção de uma esquerda institucional (PT e seus 
comparsas). Lembremo-nos das declarações do EZLN de que a “esquerda institucional nada 
mais é do que uma direita envergonhada”. O PT, PSDB, PMDB e tantas outras siglas não se 
envergonham do que fazem, nem têm tentado esconder o que pensam. São carrascos e traidores 
da luta popular, e devem ser tratados, denunciados e combatidos como tal.

Repudiamos a manipulação da Rede Globo e demais empresas da mídia burguesa. Empresas que 
fazem campanha pela desestabilização do país, colaborando com os interesses do capital 
financeiro especulativo e industrial de governos e empresas dos EUA e da Europa. Esses que 
veem o caos no Brasil como porta aberta para avançar nas políticas de privatização e 
redefinição dos critérios de exploração do pré-sal, privatização da Petrobras e demais 
setores estratégicos e lucrativos como os da energia, recursos naturais e transportes. 
Assim, podem fazer avançar ainda mais as políticas neoliberais de privatizações e de 
austeridade, já em profunda aplicação nos países da União Europeia. A ganância do capital 
e os interesses mesquinhos dos políticos não autorizam o PT, o PMDB, o PSDB, Cunha e sua 
quadrilha a fazerem um “governo de reféns”. Quem de fato sofre e se torna refém é o povo, 
que é quem sente na carne com desemprego, cortes sociais, especulação imobiliária e perda 
de direitos básicos como: saúde, moradia, educação e transporte.

Entendemos que grande parte dessa situação é resultado das escolhas mais do que 
conscientes do PT nos treze anos de governos Lula e Dilma. Resulta também de uma política 
de coalizão de classes, que já chegou ao seu esgotamento e da política de barganhas a 
qualquer preço para garantir a manutenção da governabilidade e de seu projeto de Poder. Um 
caminho tomado de forma planejada e pragmática pelo PT e que só poderia levar a essa 
situação, dadas as concessões e negociações com o capital e poderosos – não esquecendo da 
sua aliança permanente com o próprio PMDB.

O povo está refém de partidos e políticos que só defendem seus próprios interesses e de 
seus financiadores. A “estagnação” do país é conveniente apenas para determinadas pautas, 
em meio a chantagens, permutas e disputas internas. No entanto, quando se faz necessário, 
a direita e os governistas esquecem supostas divergências e comerciam de forma conjunta 
para fazer duros cortes no social e transferir o pagamento da “crise” para as/os 
trabalhadoras/es. Tal situação pode ser observada com clareza no congresso que trabalha de 
modo rápido, eficiente e articulado para onerar o povo. Esse é o caminho da política 
institucional e parlamentar, palco de propinas, barganhas, pilantragens e roubalheiras 
sistemáticas, praticadas hoje por PT, PMDB, PSDB e toda essa corja de parasitas do 
Congresso, Senado e judiciário. Ou seja, independente do partido que está no governo, as 
reais demandas do nosso povo nunca foram, nem serão, prioridades da via 
institucional-parlamentar.

Desse modo, com que cinismo o PT vem pedir mobilização permanente em defesa de seu 
governo? Um governo que não avança um milímetro na defesa dos reais interesses do povo, 
mas só recua seus direitos e o violenta, com recessão, políticas de austeridade, 
fechamento de escolas do campo e da cidade. Degrada hospitais públicos, deixa a reforma 
agrária estagnada, mas privilegia o empresariado e o mercado internacional. O PT foi 
conivente e opera as políticas de direita, criando espaço para o conservadorismo e 
negociando com a agiotagem do FMI (e o capital especulativo), mas se pinta de vermelho 
quando convém. Com isso, possibilitou o avanço da direita mais retrógrada e de setores 
conservadores que cada vez mais conseguem implementar suas pautas, o que, pelo que tem 
demonstrado, são suas também.

Com que argumento o PT vai pedir apoio se continua sangrando o povo? Mantendo a mesma 
lógica de exploração da classe trabalhadora com uma política social mínima e uma economia 
baseada nas taxas de juros beneficiando a agiotagem do setor financeiro especulativo, e no 
modelo de exploração e venda de commodities oriundos da mineração e da monocultura 
extensiva do agronegócio? Como pedir apoio se assistimos ao maior desastre ambiental da 
história do país, protagonizado por parte da terrorista Vale por meio de sua testa de 
ferro SAMARCO, e o governo apresenta uma lentidão inacreditável sem aplicar nenhum tipo de 
punição ou ação proporcional que obrigue esta multibilionária empresa a se responsabilizar 
e custear os irreparáveis danos sociais e ambientais causados?

O resultado dessa política do PT/PMDB é que o povo paga a conta da crise. É o povo que 
fica sem terra e sem condições para plantar e viver no campo. Fica sem moradia, sem 
hospitais e escolas, sem transporte e sem direitos sociais garantidos. O povo negro é 
exterminado diariamente nas periferias com a política de segurança e os pobres e 
movimentos sociais são criminalizados. Mulheres e indígenas têm seus direitos 
sequestrados, mas os ricos, banqueiros, empresários, latifundiários e demais poderosos, 
continuam a ser beneficiados e priorizados pelas políticas do governo.

Retomar os legítimos valores da luta da classe trabalhadora: por independência de classe e 
organização pela base!

Os setores políticos progressistas dizem que a democracia está em risco com essa disputa 
política, mas são os valores e conquistas históricas da luta popular classista construída 
pela força das/os de baixo que estão realmente em risco, e não é de hoje! Os movimentos 
sociais não podem mais ficar esperando e acreditando que vão conseguir pautar ou disputar 
o governo. Esse governo (muito menos outros) não está em disputa, como prova o final da 
última eleição, quando muitos trabalhadores apoiaram “criticamente” o PT e este 
simplesmente executou grande parte da agenda neoliberal do adversário derrotado, o tucano 
Aécio Neves.

A esquerda em geral, os movimentos sociais e sindicatos não podem se deixar mais cooptar 
pelo PT no governo nem pelo governismo. Assim como foi com Lula e com a reeleição de 
Dilma, não podemos deixar se repetir mais uma situação ridícula de mobilização da esquerda 
em apoio ao PT, seguida de mais recuo nas pautas sociais por parte do governo. Foi 
justamente isso que ocorreu com a reeleição de Dilma e é eminente que se repita com esse 
processo de impeachment. Acontecendo ou não o impeachment da presidenta, o que vale para 
eles nesse jogo político é construir uma base de apoio ao governo e um amplo consenso para 
manter a dominação de classe no próximo período. O central da pauta conservadora já está 
estabelecido, agora a disputa é entre quem se candidata a executá-la nos próximos anos.

O nosso entendimento é de que a esquerda e os movimentos sociais devem romper com essa 
lógica suicida do governismo, se não querem ir para o fundo do poço junto com o PT. Não se 
pode ser revolucionário e crítico e, ao mesmo tempo, manter apoio incondicional a um 
governo que permite e é cúmplice da lei antiterrorismo. Um governo que é cúmplice dos 
avanços das políticas conservadoras contra mulheres, LGBTTs e o genocídio do povo negro e 
dos povos originários e aumenta a criminalização dos pobres; que nomeia uma ministra 
ruralista para dar mais poder ao agronegócio e piora ainda mais a situação de sem-terras e 
camponeses. Um governo em que indígenas, ribeirinhos, catadores de caranguejo, 
quebradeiras de coco babaçu, pescadores e pescadoras artesanais são cada vez mais 
violentados e perdem seus territórios para os ruralistas que têm bancada no congresso; que 
assume uma política neoliberal com um verniz progressista sacrificando os pobres para 
satisfazer os interesses dos investidores e do FMI.

Já passou a hora dos movimentos sociais irem para as ruas sim, não para defender este 
governo, que é totalmente indefensável, mas para fazer frente ao avanço dos setores 
conservadores e de direita e também contra as políticas de direita do governo.

O governismo também é nosso inimigo, pois atua dentro dos movimentos barrando a revolta 
popular. Muitas das recentes experiências de luta, como as ocupações de escolas em São 
Paulo, mostram que as práticas governistas e burocráticas são incapazes de pautar o 
significado e a direção das lutas quando há métodos de empoderamento popular desde a base, 
dotados de princípios organizativos como a ação direta e a autonomia. Mas o governo ainda 
tem seus aliados e muitas direções de movimentos se deixaram cooptar. É preciso romper com 
a subordinação da luta de massas e a suspensão de bandeiras de luta ao calendário 
eleitoral, aos conchavos do Estado e às disputas internas dos políticos profissionais.

Essa polarização, impeachment ou o governismo aferrado, sustentada pelos petistas, 
burocracias sindicais e certas direções de movimentos sociais não são alternativas para a 
luta contra o ajuste que golpeia a vida da classe oprimida. Os consertos e os arranjos 
oligárquicos que vêm de cima, o sistema corrupto e criminal que faz estelionato eleitoral 
com a democracia burguesa, não produzem mudança real. A democracia que tem de ser peleada 
nessa hora é a democracia de base e tem de ser a afirmação da independência de classe em 
relação aos sistemas de representação burguesa. Assembleias nas escolas ocupadas, nos 
locais de trabalho onde a patronal corta direitos, salários e ameaça demitir. Assembleias 
nas comunidades da periferia que é perseguida pela violência policial e privada de 
serviços públicos, luta nos territórios de resistência indígena, quilombola e camponês, 
extensão e radicalização de uma participação decisiva que não aceita intermediação 
burocrática e faz exercícios de poder popular.

Só um povo forte e organizado pode exigir seus direitos e mudanças nessa política, que não 
é apenas do Levy, da Kátia Abreu ou do Congresso Nacional, mas sim da lógica perversa e 
opressora do capitalismo e do Estado, a qual o PT soube se adaptar e barganhar muito bem 
desde a “Carta ao Povo Brasileiro”. E isso não aconteceu por acaso, foram décadas de uma 
prática burocrática de setores da esquerda, que abandonaram o trabalho de base e que agora 
cobram seu preço. Treze anos de acomodações de muitos movimentos sociais se deixando 
cooptar pelo governo PT agora cobram seu preço. O imaginário popular da esquerda foi 
abalado e as práticas do PT no governo têm grande parcela de culpa nesse processo. O 
avanço conservador é a derrota do discurso de que este governo é um projeto 
“democrático-popular”, quando na verdade é o avanço de um governo que caminha cada vez 
mais e abertamente para a aplicação do projeto neoliberal.

Lutar com as/os de baixo, pela construção de um Povo Forte e Organizado que deve caminhar 
pela via da Independência de Classe ao Poder Popular

O jogo está posto e quem tem perdido com essa disputa entre elites, somos nós: pobres, 
trabalhadores, negras/os, quilombolas, moradoras/es das favelas e periferias, indígenas, 
mulheres, LGBTTs, campesinas/os e povos originários – nós, as/os de baixo. É mais que 
necessário e urgente a nossa organização contra o verdadeiro golpe que tem sido aplicado 
pelos de cima (os opressores), na retirada de direitos conquistados e na precarização dos 
nossos direitos básicos: saúde, educação, moradia e transporte etc.

Defendemos a retomada dos valores classistas e práticas históricas de luta da classe 
trabalhadora. Com ação direta, federalismo e democracia direta na construção e condução 
das lutas. Fortalecendo organismos populares de base, desburocratizados e organizados em 
espaços e movimentos sociais, com autonomia e unidos pela solidariedade de classe e apoio 
mútuo. Só podemos construir o Poder Popular com o protagonismo desde as bases e 
radicalizando a democracia em todas as esferas. Lutando com as/os de baixo nos processos 
cotidianos, como único caminho para construção do Poder Popular e de um sujeito de 
transformação social com vias a um novo mundo, Socialista e Libertário.

Coordenação Anarquista Brasileira

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