(pt) ORL, CONTRA O EXTERMÍNIO DE NEGRAS E NEGROS DA PERIFERIA E DE TODA POPULAÇÃO POBRE!

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Terça-Feira, 1 de Dezembro de 2015 - 10:49:03 CET


Boletim da Organização Resistência Libertária (ORL/CAB) | Novembro de 2015 | Fortaleza - 
Ceará ---- Contra o extermínio de Negras e Negros da Periferia e de toda População Pobre! 
---- Não tem escolar, não tem lazer, Só crack, arma, polícia pra te corromper, O sistema é 
maquiavélico, estratégico, não erra, arma todo esse cenário de guerra ---- Leandro Mc/FOME 
---- Lutamos cotidianamente contra as estatísticas da morte de nosso povo, negro e pobre. 
E essas estatísticas trazem resultados alarmantes. Um desses resultados nos diz que um 
jovem negro no Brasil tem três vezes mais chance de ser assassinado do que um branco, 
sendo que 77% das vítimas de assassinatos são negros. A polícia brasileira é a que mais 
mata no planeta e os números apontam que seu principal alvo tem: cor/raça e classe social.

Para a maior parte da população, e principalmente para os programas policialescos e as 
forças repressoras do Estado, "bandido bom é bandido morto". Mas, na realidade tal pena de 
morte só é aplicada a população negra e pobre, o que resulta num verdadeiro holocausto na 
periferia.

A polícia civil e militar, um dos braços armados do Estado, é uma instituição que tem 
forma, poder e uma articulação intrínseca com as estruturas da nossa sociedade (que é 
dividida em classes). Sua forma é hierárquica, sendo pautada cotidianamente pela repressão 
violenta, visando defender o Estado, o Capital, a supremacia branca e o patriarcado.

O Estado tem o monopólio da repressão através das forças armadas, mas também devemos 
considerar as relações de poder entre as forças armadas/militar e o Estado (expressão 
político-institucional), em um determinado momento. A esfera política/jurídica/militar 
traz um mar de relações corruptas e uma série de violências brutais para o nosso povo, 
negro e pobre.

Os Estados programam formas que possam encarcerar a população negra, pobre e lutadora. O 
controle social é um mecanismo utilizado pelo Estado que visa, exclusivamente, punir quem 
não ler na sua cartilha, quem não concorda com o seu "circo". Manifestações radicalizadas 
que possam surgir contra o ajuste fiscal, direitos das mulheres e redução da maioridade 
penal estão seriamente ameaçadas. São exemplos de controle social: a Lei Antiterrorismo 
(de autoria do Poder Executivo, o projeto de lei segue como PL 2016/2015 na Câmara e PL 
499/2013 no Senado), surge para tentar calar os setores mais combativos e revolucionários. 
O texto "antiterror" diz: "incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de 
transporte ou qualquer bem público ou privado". Para se ter apenas um exemplo, o 
"incêndio" foi o mecanismo utilizado pela comunidade do São Miguel horas depois da chacina 
da Messejana na entrada do bairro, essa foi à arma que os populares tinham para chamar a 
atenção da sociedade sobre o caso. A defesa da propriedade privada e da ordem burguesa é 
clara na lei, de maneira que nada possa ameaçar este esquizofrênico sistema desigual, 
opressor e racista. A redução da maioridade penal também é um exemplo de controle social 
que tem no encarceramento a solução para um Estado cada vez mais militarizado.

A origem da polícia remonta ao período escravocrata tendo a função de capturar e matar 
negras e negros que foram escravizadas/os, defender a propriedade privada e o abominável 
sistema escravista, negando dessa forma, heranças culturais, corporeidade, sexualidade e 
um mundo afro. Desde a invasão portuguesa "O estupro, o linchamento e o genocídio dos 
povos originais e do povo negro são elementos estruturantes da nossa realidade histórica." (1)

Quantas Anastácias não foram capturadas e silenciadas com uma máscara de ferro, tendo sua 
ancestralidade negada e sua vida ceifada pelos horrores da exploração? Quantas Claúdias 
não foram arrastadas e mortas? De lá pra cá nunca existiu polícia cidadã ou polícia amiga, 
o que vemos é uma articulação repressora e exterminadora da polícia - civil e militar. 
Precisamos mudar radicalmente a sociedade e não fazer uso das ferramentas do opressor, 
pois "as ferramentas do mestre nunca vão desmantelar a casa-grande" (Audre Lorde).

Não podemos reformar a polícia nesta sociedade que é capitalista, racista e patriarcal. Se 
há um grupo de policiais que verdadeiramente é contra o tripé repressor de nossa sociedade 
eles devem sair da polícia, pois lá são e continuarão sendo cúmplices do extermínio do 
nosso povo.

O mesmo se aplica ao processo eleitoral, pois nenhuma eleição irá barrar o extermínio de 
negras e negros da periferia e de toda população pobre. A eleição como farsa, sempre teve 
o papel de eleger fantoches e supostos representantes. Obama nos Estados Unidos é só mais 
um exemplo de como esse processo é fraudulento e racista, pois a justiça, o governo Obama 
e as forças repressivas norte americana continuam encarcerando a população negra, 
condenando a prisão perpétua e levando milhares negras/os e latinas/os para o corredor da 
morte. O ex-pantera negra Mumia-Abu Jamal é só mais um exemplo.

A ditadura civil-militar teve seu fim na década de 1980? Há um regime ditatorial e 
autoritário vigente, a ditadura não cessou para a periferia e todas as classes populares. 
As práticas repressivas continuam e o extermínio não dá sinais de parar para periferia. Os 
anos de 1990 deram continuidade ao derramamento de sangue no chão. Só para citar dois 
exemplos, as forças do Estado estiveram envolvidas no massacre do Carandiru (1992) e da 
chacina da Candelária (1993). O projeto de Estado brasileiro sempre foi genocida e 
racista, vivemos na democracia da morte para o povo negro e pobre, em que o encarceramento 
e a pena de morte nos são oferecida pelo Estado.

A crescente militarização da sociedade é uma realidade. São mais UPPs, expansão massiva do 
Raio (Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas), supostas armas "não letais" para o 
conjunto da guarda municipal e gestão militar nas escolas, como é o caso de Goiás, em que 
o governador Marconi Perillo (PSDB) propôs em meados deste ano um projeto de militarização 
de algumas escolas, trazendo mudanças na estrutura organizativa da escola, implementando o 
código disciplinar militar e criando algumas taxas. (2)

Racismo institucional, chacina e sequestros já fazem parte de nosso cotidiano. Forjamento 
de flagrantes em homens e mulheres da periferia já é prática corriqueira. Tudo que difere 
do padrão vigente, que é excludente e preconceituoso, em termos de raça, classe, 
sexualidade, comportamento e idade, já são estigmatizados e considerados indesejados.

Quando não nos matam cotidianamente com vários tiros de diversos calibres, nos matam com a 
ausência dos serviços básicos sociais, nos matam com a humilhação diária e com a 
precarização de tudo que é considerado "público". Portanto perguntamos: "Cadê o que tu 
prometeu pra minha favela, pra minha periferia não vejo nada nela" (Mc Frank/FOME). O 
Estado aprofunda a segregação, faz uso do racismo institucional para humilhar os jovens da 
periferia. A polícia vem realizando uma espécie de blitz nas vias de acesso aos bairros 
periféricos, em que os "suspeitos", de maioria negra, são obrigados a descer do ônibus. O 
assédio policial humilha, criminaliza e estigmatiza a população periférica negra e pobre.

A ordem para o controle social é abater. Na chacina da Messejana (São Miguel, Lagoa 
Redonda e Curió), no último dia 11 de novembro, onze periféricos foram mortos, são eles: 
Patrício, 16; Allison, Jardel, Marcelo s. Mendes, Alef, Marcelo S. Pereira, Erick, todos 
tinham 17; Pedro, 18; Jandson, 19; Elenildo, 41; Valmir, 37. Todo o grupo de extermínio 
que praticou a ação estava encapuzado, os mesmos arrombaram portas, arrastaram as vítimas 
para fora de casa e executaram. Nenhuma das vitimas tinham passagem pelo polícia pelos 
ditos crimes graves. Sete outras vítimas foram lesionadas a bala e/ou lesão corporal no 
momento da chacina. Um dos projetos de controle social, do programa "Crack é possível 
vencer" (uma unidade fixa), a UPP de Fortaleza, situada no São Miguel, um dos locais da 
chacina, não viu nenhuma movimentação mesmo com todas as suas câmeras de segurança.

Outras chacinas também ocorreram nos últimos meses em outros Estados. Em Salvador, por 
exemplo, no dia 6 de fevereiro, 16 foram mortos na chacina do Cabula. A dita "segurança 
pública" da gestão de Rui Costa, do PT, executou sumariamente a juventude negra e pobre. 
Perseguir, capturar e executar sempre fez parte do código da polícia, seja ela civil ou 
militar.

A perseguição aos indígenas, quilombolas e periféricos, negras/os e pobres continua. No 
Ceará, diversas comunidades indígenas sofrem com o assédio policial nas áreas de 
retomadas. Os quilombolas do Cumbe, Aracati, foram despejados/as violentamente em agosto 
de 2013 pela PM/Cotar de uma área ocupada por eles/as para fins de recuperação ambiental, 
em um local que antes era um viveiro de camarão.

As mulheres negras também são as que mais sofrem. Números indicam que houve um aumento de 
54% em termos de homicídios (mapa da violência, 2013) praticados contra a mulher negra, 
enquanto em relação a mulher branca houve uma queda de 9,8%. Outro gravíssimo problema é 
na unidade prisional feminina da região metropolitana de Fortaleza, Auri Moura Costa, o 
presídio hoje amontoa cerca de 700 mulheres e nos últimos cinco meses já foram registrados 
duas mortes (Ana Claúdia e Joelma de Souza).

O defasado sistema socioeducativo também abriga em sua maior parcela adolescentes negras e 
negros e pobres. Depois de um 2015 de muitas manifestações por parte dos jovens, por conta 
da superlotação, maus tratos e péssimas condições sanitárias, o pior ocorreu. O 
adolescente Márcio, 17, foi morto pelo BCPM no momento de uma manifestação no Centro 
"Socioeducativo" São Miguel e no C. "Socioeducativo" São Francisco, no dia 6 de novembro. 
O caso provavelmente será registrado como auto de resistência, ou seja, resistência (do 
policial) seguida de morte. É uma forma de legalizar e legitimar a violência cometida 
pelas forças policiais, e sendo assim, quando registrado como auto de resistência, os 
homicídios realizados pelo braço armado do Estado acabam não sendo investigados. Algumas 
semanas depois da morte de Márcio, vários instrutores foram presos por conta de uma surra 
generalizada em um dos centros.

E os abusos continuam! O sequestro também faz parte do cardápio das forças policiais. Foi 
o que ocorreu com o frentista João Paulo, 20, que não possui passagem pela polícia. Visto 
pela última vez no dia 30 de setembro na Av. Cônego de Castro, no Parque Santa Rosa, o 
mesmo aparece no referido dia em imagens de uma câmera de segurança sendo abordado por uma 
patrulha militar e sendo conduzido para um veículo de passeio. O grupo de sequestro e 
extorsão foi "preso" e é formado por três policiais da Força Tática de Apoio (FTA)/BPM de 
Maracanaú e um sargento da reserva da PM. João Paulo até agora não apareceu!

Nosso chão sagrado foi manchado de sangue e a luta cotidiana cobrará o extermínio da 
população negra e pobre

O que deve ser exterminado é o preconceito racial dentro de nós, o discurso racista da 
extrema- direita e até de alguns setores da esquerda. Tanto direita como parte da esquerda 
defendem um projeto político hegemônico branco/eurocêntrico. Alguns setores afirmam que 
não há o racismo e outros enxergam como uma questão secundária. Para nós, da Organização 
Resistência Libertária [ORL-CAB], o debate e prática da luta antirracista não é 
secundário. Acreditamos que devemos descolonizar a consciência e deixar a briga pelo poder 
centralizado do Estado de lado. Muitos setores não querem discutir privilégios e acreditam 
que estão fazendo seu papel ao buscarem colocar algum representante nas cadeiras do 
legislativo ou em alguma secretaria sobre a questão racial. O Estado enquanto instrumento 
político tem suas bases cimentadas no capitalismo, no patriarcalismo, no racismo, na 
heteronormatividade e outras mil e uma opressões.

A reforma será sempre parcial, nunca devendo mexer nem um milímetro nas bases do Estado. A 
luta antiautoritária negra (3) deve partir de baixo para cima, a partir de nossas 
experiências, vivências e práticas comunitárias em torno da igualdade entre os iguais e 
não de estruturas hierarquizadas, como o Estado, partidos e as relações econômicas.

Acreditamos na autoidentificação racial e entendemos que o reconhecimento enquanto negra e 
negro deve ser o combustível para o fortalecimento da luta específica, independente, 
autônoma e coletiva com os outros setores. Se nós não nos reconhecemos, o Estado, Polícia 
e todos os opressores nos reconhecem e nos discriminam. Não podemos aceitar essa máscara 
de ferro sutil e violenta, não devemos nos silenciar! O projeto capitalista, racista e 
machista nos retira tudo e sua consequência é sermos exterminadas/os, capturadas/os e 
levadas/os para os presídios, sistema "socioeducativos", tráfico, exploração infantil e o 
turismo sexual. Qual a diferença entre a relação do senhor de engenho com as negras e os 
negros do período escravocrata com os dias de hoje?

Nós, negras e negros, temos muito a dizer sobre tudo e em todos os espaços, e não só sobre 
a questão negra, afrodescendente. É necessária a equidade racial em todos os lugares, mas 
sabemos dessa dificuldade, pois vivemos sob um projeto de limpeza social racista que nos 
quer ver mortas/os, trancafiadas/os e servindo de mercadoria sexual para o bel prazer do 
senhor. A real mudança desse quadro racista passa por nossas comunidades, nossos quilombos 
periféricos, seja na cidade ou no campo. Devemos refletir nossos problemas e pensar a 
partir de nossas possibilidades, não nos cabe fechar nossas consciências apenas as teorias 
eurocêntricas, sobretudo aquelas que pesam o histórico de dominação.

A luta antiautoritária negra não terá intermediação burocrática, já está se organizando na 
periferia e combaterá qualquer forma de subserviência. Nenhum partido nos forçará dar um 
passo atrás, a luta antirracista diz e dirá: Nenhum passo atrás! Reaja ou será mortx! 
(Campanha Reaja ou Será Mortx). Podemos até está no mesmo barco, mas nosso povo NEGRO 
continua sofrendo com o preconceito, discriminação e o racismo, mas estamos saindo dos 
porões dos navios negreiros para destruir os senhores que estão na parte superior dos 
vários "La Amistad". (4)

Nós da Organização Resistência Libertária reafirmamos nosso compromisso com xs de baixo e 
o nosso repudio a todas as formas de opressões. Por isso dizemos não a redução da 
maioridade penal e não ao extermínio da juventude negra e pobre. Lutaremos para impedir 
que a marcha fúnebre prossiga!

Nosso sangue é NEGRO e VERMELHO e nosso corpo é sinônimo de Resistência!

Zumbi e Dandara somos nós!!!

(1) Coletivo Editorial Sunguilar. Anarquismo e Revolução Negra, 2015.
(2) Passa Palavra, Goiás: comunidade se mobiliza contra militarização de escola
(3) Lorenzo Kom 'Boa Ervin. Falando de Racismo e libertação Negra
(4) Navio negreiro tomado por negros e negras no século XIX, no Oceano Atlântico

http://www.resistencialibertaria.org/index.php?option=com_content&view=article&id=159:2015-11-29-01-22-14&catid=99:negras-e-negros&Itemid=56


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