(pt) Federação Anarquista Gaúcha - FAG (CAB) - O GOLPE EM CURSO SE CHAMA "AJUSTE FISCAL" (en)

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Quarta-Feira, 26 de Agosto de 2015 - 10:55:41 CEST


Passe o que passe no andar de cima, a faca do ajuste nunca deixa de cortar na carne dos 
trabalhadores e setores populares. A recessão do país castiga, como sempre, as classes 
oprimidas. Corta direitos, salários e empregos e levam os serviços públicos à falência. 
Autoriza o saque do capitalismo de mercado sobre os bens púbicos e comuns, sobre a riqueza 
criada pelas sucessivas gerações de trabalhadores. "Administra" a pobreza pelos mecanismos 
criminais da justiça-polícia-prisão. Cria o sujeito indesejável, que perturba a segurança 
da ordem, o discurso punitivo que encarna o sentido comum do dia-a-dia e acomoda a 
banalização de uma guerra repressiva e genocida sobre negros e pobres, especialmente a 
juventude. Qualifica o bom e o mau protesto.

A briga desatada no palco do poder político passa longe do ajuste econômico e o Estado 
Penal. Em todos os cenários que podemos imaginar o sistema dominante trata de defender as 
medidas e as práticas de governo que empurram mais austeridade. Os trabalhadores 
brasileiros já estão pagando com o sacrifício dos sonhos e esperanças de dias melhores a 
farra financeira e criminal do capitalismo global. O fantasma das políticas miseráveis que 
castigam o povo grego, com desemprego em massa, arrocho salarial, perda de aposentadorias 
e demais direitos é um exemplo bem fresco.

Recessão e ajuste. O pacto social foi pro ralo.

O modelo que fez os ricos mais ricos e deu uma beirada de consumo, crédito e programas 
sociais para integrar os setores populares ao mercado já não tem mais vez. Só a indústria 
automotiva já demitiu 39 mil operários no primeiro semestre. A construção civil prevê 480 
mil cortes de postos de trabalho durante o ano. O endividamento popular cresce e aperta o 
orçamento das famílias. A inflação criada pela subida dos preços administrados pelo Estado 
amplia a carestia de vida e corrói os salários. Não para por ai. O governo de Dilma e do 
PT condenou a juventude trabalhadora ao mexer nas regras do seguro-desemprego, esticando o 
tempo de trabalho para 18 meses. As burocracias sindicais arriaram uma bandeira histórica 
do movimento operário concertando com a indústria e o governo o programa de redução de 
jornada com redução salarial, o Pograma de Proteção ao Emprego (PPE), um plano de socorro 
dos patrões. Por sua vez, o lucro dos banqueiros tem recordes históricos às custas de uma 
dívida pública infame que arrocha investimentos na saúde, educação, moradia, etc.

No nível dos Estados e municípios a situação também é calamitosa. O achaque feroz da 
dívida pública, a sonegação e as insenções fiscais da patronal amordaçam o orçamento e os 
governos como no RS e em GO atacam o funcionalismo com congelamento e parcelamento de 
salários, corte de verbas sociais e planos de privatizações, concessões e extinção de 
órgãos e serviços públicos.

O pacto social que prometeu pela mão do desenvolvimento capitalista uma margem de 
melhorias sociais que chegassem na vida dos mais pobres fracassou. Com ele toda a 
narrativa triunfalista do crescimento que fez imaginário de uma pretensa prosperidade 
social fundada no sonho do consumo, no indivíduo flexível e "competitivo" ao gosto do 
mercado, na moral compensativa do trabalho precário e estafante, na privação dos espaços 
públicos e dos bens comuns em benefício de interesses especulativos. Quando as estruturas 
do poder e a riqueza ajustam o jogo todos sabemos onde é que a corda arrebenta.

A política como gestão dos controles do sistema.

De todos os lados a pressão ajoelha o governo do PT e o andar de cima cobra caro pela 
sobrevida. A rejeição cresce de pesquisa em pesquisa. A direita opositora se reagrupa pelo 
alinhamento de Eduardo Cunha com o PSDB, o DEM e os partidos que pulam do barco furado do 
governismo. Aparecem manobras judiciais pelo TCU e o TSE para criar uma situação política 
favorável ao impeachment ou empurrar a renúncia da presidente Dilma. Buscando jogar água 
nesse moinho, no último dia 16 de agosto mais uma vez o "antipetismo" foi às ruas por 
convocação de grupos liberais, conservadores e ultra-reacionários, ao que o governismo 
pretende contestar com a convocatória do dia 20 de agosto.

A operação Lava Jato, entre outros sentidos, tem reforçado a noção de uma solução 
judicial-repressiva para a crise. Juízes, promotores e agentes federais caídos nas graças 
da imprensa burguesa e das ruas. Políticos e altos burocratas do Estado e dos partidos na 
parede. Em menor medida, empresários graúdos figurando nos processos. Sem dúvidas ganha 
certa evidência um modus operanti que faz conexões entre as instituições políticas e o 
mundo corporativo empresarial. Mas há em tudo isso uma idéia sedutora, que faz vetor pro 
conservadorismo, de que a faxina deve ser feita pelos mesmos aparelhos de poder que punem 
implacavelmente a pobreza com as grades e o extermínio.

Em todos os casos, o sistema sempre reserva para si, bem longe dos mecanismos de 
participação popular, o direito de cortar cabeças seletivamente para não entregar o ouro. 
As redes de corrupção, sonegação e impunidade dos poderes políticos, econômicos e 
midiáticos são parte da estrutura, moeda corrente da representação burguesa. O que 
interessa ao andar de cima é deixar a política sempre no domínio privilegiado do 
parlamento, da justiça burguesa e/ou órgãos auxiliares. Normatizar os de baixo, quando 
muito, como eleitores.

Agenda de Renan e Levy. A ordem é arrumar uma saída pelo andar de cima.

A mão avarenta e fisiologista do PMDB, por conchavo das velhas raposas, segura, sabe-se lá 
por quanto tempo, o governismo na beira do precipício. Tudo tem seu preço. A arte de 
governar o país antes de tudo é a gestão estável dos interesses dos poderosos. As 
organizações patronais FIESP e FIRJAN além do Bradesco passaram o recado que querem, 
dentre todas as tramas para sair da crise política, um cenário que não toque no ajuste 
fiscal e na sua ofensiva sobre os direitos dos trabalhadores. Os editoriais de O Globo e 
Zero Hora assinam embaixo. Sangrar o governo Dilma e ajoelhar o PT até beijar os pés de 
quem pode mais agrada os senhores que não pretendem deixar o problema para a 
imprevisibilidade das ruas.

Nessa perspectiva, a Agenda Brasil anunciada na última semana é um pacote ao gosto das 
classes dominantes. Obra de um arranjo conservador do governo, tribunais e o senado, onde 
brilham Renan Calheiros, o PMDB e a política da tesoura do ministro Joaquim Levy. 
Consumação de uma virada governista ainda mais à direita, que reza missa pra aquelas 
imagens e lembranças da infame década de 1990 evocadas na campanha eleitoral de 2014. 
Chantagem barata que recrutava "voto crítico" no "menos pior".

A saída que vem de cima faz agenda pelo ajuste e corta mais fundo. Com terceirizações e 
precarização do trabalho, ataque ao sistema gratuito e universal da saúde pública, desvio 
de receitas para o sistema da dívida. O atropelo de territórios indígenas, quilombolas, 
bens naturais e normas ambientais para a exploração brutal das mineradoras, construtoras e 
o agronegócio.

Para consagrar, tramita no congresso por ação do governo o projeto da Lei Antiterrorista. 
Endurecimento jurídico-represssivo sobre as rebeldias que não são canalizadas pela ordem. 
Punição dos militantes e das lutas que criam resistência e escapam dos controles 
burocráticos do Estado.

Luta sem governo, patrões e pelegos. Organizar a resistência dos de baixo

Dos últimos 05 anos emerge uma nova onda de lutas que marcam o caminho por onde é preciso 
avançar para que os oprimidos construam, por sua própria força, uma saída do cenário de 
ataques que se agravam. Ocupações por direito a moradia, greves radicalizadas pela base 
que se voltam contra as direções burocráticas, governistas e patronais dos sindicatos, 
lutas da juventude por educação e transporte coletivo de qualidade, resistência combativa 
de indígenas e quilombolas.

A violenta ofensiva da patronal e dos governos contra os de baixo exige a construção de 
uma alternativa que se gesta nos locais de trabalho, estudo e moradia, que crie 
resistência e acumule forças para derrubar o andar de cima. Urge a necessidade de superar 
definitivamente a derrota trágica e inapelável de uma formação política nascida 
diretamente das organizações operárias e populares que dirigiu uma estratégia obstinada a 
chegar à presidência, custe o que custar; que afirmou premissas teórico-ideológicas que 
formaram o credo de toda uma geração da esquerda brasileira e que ainda hoje forma 
paisagem, inclusive, para setores da burocracia radicalizada que se opõe aos governos do 
PT por esquerda. Chegar ao "poder" pela via eleitoral, simplificar esse problema pela 
direção dos aparelhos estatais e atribuir ao Estado o caráter de uma máquina que funciona 
ao gosto de seus pilotos de turno, que não está penetrado por relações sociais de poder e 
dominação, mecanismos internos de reprodução de dinâmicas burocráticas e oligárquicas. Uma 
concepção viciada que se manifesta nos mais diversos conflitos em curso, em métodos que 
fazem das lutas uma mera força de pressão que visa "persuadir" um possível eleitorado por 
via de discursos, palavras de ordem e da promoção de lideranças carismáticas ao passo que 
marginaliza o protagonismo e a organização de base.

A saída para a situação que vem se colocando aos trabalhadores não é uma saída pela 
eleição de novas direções mas, fundamentalmente, pela organização de base e ação direta 
popular. Processo que não é uniforme, requer paciência, firmeza, ação metódica, trabalho 
de base, por vezes silencioso. Distante do barulho que grita uma "alternativa" política 
que se relaciona com a promoção de lideranças "caudilhistas" que pretendem se alçar como 
intermediários, fiadores do protesto popular. O lastro ideológico bastardo do petismo é 
vasto e faz com que ainda se tenha preferência, por exemplo, em atos com carros de som ou 
os reiterados "encontros" formais onde futuros presidenciáveis possam se manifestar, onde 
correntes se "cheiram", procuram "enquadrar" aquelas que julgam "centristas", fazem 
chamados e exigências umas as outras, tiram fotos e retornam às suas casas a um piquete ou 
bloqueio que tranque os serviços, a produção ou a circulação em áreas estratégicas, que 
ocupe espaços públicos ou privados. O protagonismo do partido na promoção da figura de seu 
dirigente ainda se sobrepõem ao protagonismo coletivo da classe, na avaliação, nos riscos 
assumidos, nas vitórias e derrotas.

A superação do legado reformista, social-democrata, que deixou o PT na esquerda ainda 
requer muito empenho, inserção social e luta política e ideológica a ser travada, 
fundamentalmente desde as mobilizações em curso. Um período de ofensiva dos de cima e 
resistência dos baixo requer, antes de mais nada, fortalecer a organização e o 
protagonismo de base em cada local de trabalho, estudo e moradia que estamos vinculados, 
acionando a mais ampla solidariedade de classe às lutas em curso, para que os de baixo se 
afirmem enquanto os verdadeiros protagonistas da construção de uma saída que barre o 
ajuste e acumule forças para a construção de uma nova sociedade, socialista e libertária.

Porto Alegre, 19 de Agosto de 2015
Federação Anarquista Gaúcha (FAG), Organização integrada à Coordenação Anarquista 
Brasileira (CAB).

https://www.facebook.com/felipe.c.pedro/posts/928962290476188


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