(pt) anarkio.net: Aurora Obreira #49

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Quarta-Feira, 22 de Abril de 2015 - 15:22:30 CEST


Extraído da obra A Evolução, a Revolução e o Ideal Anarquista, lançada pela Editora 
Imaginário em 2002. O título é nosso. (retirado do blog 
http://www.coletivopaem.blogspot.com/ do coletivo PAEM de Dourados e lançado na BPI) ---- 
As boas almas esperam que, não obstante, tudo se arranjará, e que, em um dia de revolução 
pacífica, veremos os defensores do privilégio cederem de bom grado à pressão vinda de 
baixo. ---- É verdade, confiamos que eles cederão um dia, mas então o sentimento que os 
guiará não será certamente de origem espontânea: a apreensão do futuro e principalmente a 
percepção de "fatos consumados", portanto o caráter do irrevogável, impor-lhes-ão uma 
mudança de rumo; eles se modificarão, sem dúvida, mas quando houver para eles 
impossibilidade absoluta de continuar os erros seguidos. Esses tempos ainda estão distantes.

Faz parte da própria natureza das coisas que todo organismo funcione no sentido de seu 
desenvolvimento normal: ele pode parar, quebrar-se, mas não funcionar às avessas.
Toda autoridade procura crescer às expensas de um maior número de indivíduos; toda 
monarquia tende forçosamente a se tornar monarquia universal.

Para um Carlos V, que, refugiado em um convento, assiste de longe a tragicomédia dos 
povos, quantos outros soberanos cuja ambição de comandar nunca será satisfeita e que, 
exceto a glória e o gênio, são outros tantos Alexandres, Césares e Átilas? Assim também, 
os financista que, cansados de ganhar, dão todos os seus haveres a uma bela causa, são 
seres relativamente raros: mesmo aqueles que tivessem a sabedoria de moderar seus desejos 
não podem parar diante dessa fantasia: o meio no qual eles se encontram continua a 
trabalhar para eles; os capitais não cessam de reproduzir-se em rendimentos a juros compostos.

Tão logo um homem é investido de uma autoridade qualquer, sacerdotal, militar, 
administrativa ou financeira, sua tendência natural é usá-la, e sem controle; não existe 
carcereiro que não gire sua chave na fechadura com um sentimento glorioso de sua 
onipotência; não há guarda campestre que não vigie a propriedade dos senhores com olhares 
de ódio contra o ladrão de frutas; não há oficial de justiça que não sinta um soberbo 
desprezo pelo pobre diabo ao qual ele intima.

E se os indivíduos isolados já estão enamorados pela "parte de realeza" que 
imprudentemente se lhes distribuiu, muito mais ainda os corpos constituídos com tradições 
de poder hereditário e um ponto de honra coletivo!

Compreende-se que um indivíduo, submetido a uma influência particular, possa estar 
acessível à razão ou à bondade, e que, tocado por uma repentina piedade, abdique de seu 
poder ou entregue sua fortuna, feliz de reencontrar a paz e ser acolhido como um irmão por 
aqueles que outrora oprimia sem seu conhecimento ou inconscientemente; mas como esperar 
semelhante ato de toda uma casta de homens ligados, uns aos outros, por uma corrente de 
interesses, pelas ilusões e pelas convenções profissionais, pelas amizades e pelas 
cumplicidades, e até mesmo pelos crimes?

E quando as garras da hierarquia e o chamariz da promoção controlam o conjunto do corpo 
dirigente como uma massa compacta, que esperança se pode ter de vê-lo melhorar 
repentinamente; que benção poderia humanizar essa casta inimiga - exército, magistratura, 
clero?

É possível imaginar-se logicamente que um semelhante grupo possa ter acessos de virtude 
coletiva e ceder a outras razões senão ao medo?

É uma máquina, viva, é verdade, e composta de engrenagens humanas; mas ela caminha à sua 
frente, como animada por uma força cega, e, para detê-la, será preciso nada menos que a 
força coletiva, insuperável, de uma revolução.

Admitindo, todavia, que os "bons ricos", tendo ingressado todos no "caminho de Damasco", 
fossem iluminados repentinamente por um astro resplandecente e fossem convertidos, 
renovados como por um raio, admitindo - o que nos parece impossível - que eles tivessem 
consciência de seu egoísmo passado e que, livrando-se apressadamente de sua fortuna em 
proveito daqueles que lesaram, devolvessem tudo e se apresentassem de mãos abertas na 
assembléia dos pobres dizendo-lhes: "Tomai!", se eles fizessem todas essas coisas, pois 
bem, ainda assim não seria feita justiça; eles conservariam o belo papel que não lhes 
pertence e a história os apresentaria de modo mentiroso.

Foi assim que bajuladores, interessados em louvar os pais para se servirem dos filhos, 
exaltaram em termos eloqüentes a noite de 4 de agosto, como se o momento em que os nobres 
abandonaram seus títulos e privilégios, já abolidos pelo povo, tivesse resumido todo o 
ideal da Revolução Francesa.

Se se envolve com essa auréola gloriosa um abandono fictício, consentido sob a pressão do 
fato consumado, o que não se diria de um abandono real e espontâneo da fortuna 
mal-adquirida pelos antigos exploradores? Seria temerário que a admiração e o 
reconhecimento públicos os reintegrasse no seu lugar usurpado. Não, é preciso, para que a 
justiça se faça, para que as coisas retomem seu equilíbrio natural, é preciso que os 
oprimidos se ergam por sua própria força, que os espoliados recuperem o que é seu, que os 
escravos reconquistem a liberdade. Eles só a obterão realmente depois de tê-la ganhado por 
intensa luta.

http://anarkio.net/index.php/arti/812-ricos-generosos


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