(pt) Organização Anarquista Terra e Liberdade - Histórias de um ex-detento (relato de um aluno do Pre-Vestibular Comunitário e militante do GEP)

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Terça-Feira, 16 de Setembro de 2014 - 15:39:56 CEST


Todo preso é um preso político! ---- "Tanto na prisão de grade como na sem grade você vive 
sem oportunidade e quem faz as coisas funcionarem não é o Estado, mas o convívio das 
pessoas. E eu tenho essa visão até hoje. Apesar desses problemas, de morte, eu lembro 
muito disso na cadeia, dessa união pra resolver as coisas. E aqui fora também.... as 
pessoas se unem nas suas semelhanças. O estado te dá muito pouco recurso, quem te estende 
a mão são pessoas comuns que estão ao seu lado". ---- Fui preso no dia 22 de Janeiro de 
2007 por furto e enquadrado em outro artigo, 157, "assalto à mão armada". Roubei um 
celular e uma carteira, em Madureira. Não encontraram nenhuma arma comigo, mas a palavra 
da vítima foi tomada como verdade e fui preso por outro artigo. Na 30 DP o delegado não me 
ouviu. O adjunto mandou assinar os papeis e só permitiu que eu ligasse pro advogado se eu 
assinasse. Logo que cheguei fui confinado nessa delegacia e depois transferido para a 39 
DP, na Pavuna. Lá tudo é totalmente desumano, muito pior do que em Bangu. Fiquei no xadrez 
X, local de 4 metros por 5 com aproximadamente 100 homens, um "boi" (buraco no chão) e um 
chuveiro. O convívio lá era o seguinte: você tinha direito a 3 banhos por dia, 3 minuto 
cada, 3 voltas no relógio. Tudo era organizado pelos presos. Você recebia a quentinha 
azeda. Tinha direito à sol se você pagasse e você também podia usufrir de um milhão de 
regalias se você tivesse dinheiro para usufruí-las.

Lá na DP tinha gente no xadrez vip, com 4 pessoas numa cela igual a minha. Na hora de 
dormir a gente revezava porque não tinha como todo mundo dormir ao mesmo tempo. A gente 
fazia o revezamento de 12 horas. Metade dormia de meia-noite à 6h e a outra metade de 6h à 
meio-dia. Não tinha cama. A gente dormia "valetado". "Valete à fiado", um dormindo de pé 
pro outro, e também de costas pro outro. No local que eu dormia também tinha esgoto no 
chão do xadrez. Uma condição bem louca de se viver e eu vivi nessa condição por 2 semanas, 
até conseguir uma casa de custódia em Bangu. Lá você é recepcionado por alguns DESIPES, os 
carcereiros, e essa recepção é acompanhada por raspagem de cabelo, máquina zero, e você 
sofre todo aquele processo de terror psicológico, de terror da autoridade, de cabeça 
baixa. Perguntam qual a sua facção, se tem facção, porque aí se você tiver você não pode 
ficar lá. Você não pode olhar nos olhos deles, porque se fizer isso eles te agridem. Os 
presos que tem morte de policial nas costas apanham muito. E também quem comete estupro. 
Eles ficam fora do convívio social. Ficam no chamado "seguro". O pior processo é pra quem 
é estuprador, ou acusado injustamente de estuprador. Você apanha muito dos guardas e fica 
nesse "seguro", que é pra onde os presos correm na fuga.

? Nessa casa de custódia onde fiquei tinha dez convívios, de "A" até "J", e viviam lá 
aproximadamente de 70 a 80 homens em cada convívio desse. Neles você tem uma pedra pra 
dormir, você tem direito a esse beliche de pedra pra dormir. Você é conduzido 
aleatoriamente pra um desses convívios. São vários os processos que a gente passa 
dia-a-dia lá na prisão. O desipe não deixa você ficar muito tempo sem revista, pra você 
não se sentir acomodado. Na parte da manhã e da tarde sempre tem contagem dos presos. Na 
casa de custódia você tinha direito a 2 horas por semana de banho de sol. Dentro de uma 
casa de custódia tem as mesmas coisas que existe aqui fora. Tem celular e aí você fala com 
seus parentes ou também ele pode ser usado pra extorsão, que é geralmente feita pela 
recarga do celular. Gera um tipo de comércio. Tem também o comércio de droga: maconha, 
cocaína, craque.

Fiquei na casa de custódia 7 meses, esperando minha sentença sair. Uma coisa da nossa 
rotina é a questão das visitas de familiar. Eles só podem te visitar depois de 1 mês, após 
sair a carteirinha. Antes eles podem te mandar roupa, pequenas coisas, porque lá eles não 
te dão nada. A comida também é muito ruim. Nesse mês que eu fiquei sem visita eu passei 
muita fome. De manhã tem a "marroca", que é o pão com manteiga, e o almoço que a gente 
chama de "brilhosa". O almoço chega entre 11h30 e 12h e a janta chega às 16h, pelo menos 
no período que eu fiquei lá. Então de 4h da tarde até o café você passa fome, não tem o 
que comer. Aí com a visita mudou. Você tem direito a 2 horas de visita por semana. A tua 
família passa um constrangimento terrível nessa hora. Minha mãe tinha que agachar em baixo 
de um espelho. Toda comida que ela fazia com carinho era mexida. Era um processo muito 
doloroso pra minha família... revistarem a comida que ela fez com amor pro seu filho, pela 
suspeita e medo de entrar alguma coisa, quando tudo tinha lá... Esse procedimento era só 
pra humilhar nossas famílias.

Na casa de custódia eu fiquei sabendo que fui sentenciado à 5 anos e 4 meses. Depois que 
minha sentença saiu eu fui transferido para um presídio considerado de segurança máxima, 
que é o Bangu 6, e lá eu tive contato com pessoas que cometeram crimes "extratosféricos", 
como assalto armado de banco, homicídios, tráfico de drogas. Por isso a gente chama a 
prisão de "faculdade". Eu conheci um cara que tava lá porque usou um riocard de outra 
pessoa e foi misturado com outras pessoas com crimes bem diferentes e pesados. Tem esse 
processo de mistura, essa disparidade. Também não tem qualquer tipo de atividade dentro da 
prisão, de ressocialização do preso. Outra coisa que marca muito são os "acertos de 
conta", que acabam em morte. Aí tem enforcamento, pessoas são decapitadas, tomam mais de 
100 estocadas, 100 facadas a partir dos ferros. O estoque é pra estocar mesmo, pra tu 
ferir o outro. Às vezes as pessoas morriam com 100 facadas. As brigas eram diárias. 
Enfermarias. As mortes eram mais espaçadas e aconteciam geralmente por causa do craque. A 
pessoa usava o craque, prometia pagar, a família dizia que ia trazer o dinheiro, não 
trazia, e ele pegava com a própria vida.

Tinha um cara que era viciado em craque e não tinha como pagar. A sua mulher teve que 
deitar com o traficante pra ele não morrer e isso era uma constante em todos os presídios 
que eu passei. Foi uma coisa que me marcou.

Eu tive uma experiência dentro da prisão que foi de morar dentro de um convívio com 
evangélicos. Foi o local mais tranquilo que eu tive, onde se respeitavam mais, não tinha 
muito uso de droga.

Eu fiquei em Bangu 6 aproximadamente 3 meses, quando eu fui transferido pra uma prisão 
semi-aberta. Você fica o período do dia de 7h até as 16h num determinado espaço aberto com 
uma quadra de futebol e uma mesa de ping-pong. Esse presídio é o Sá-carvalho. Eu fiquei lá 
2 meses. No presíido semi-aberto você pode ganhar alguns benefícios, como o VPL (visita 
periódico ao lar) ou o extra-muro, que você sai pra trabalhar e volta pra dormir. No VPL 
você tem o direito de em 15 em 15 dias visitar sua família. Sai de dia e volta de noite. O 
beneficio que eu ganhei lá foi o da prisão aberta. De lá eu fui para uma prisão aberta e 
no dia 18 de Janeiro de 2008, quase um ano depois, eu vi a rua de novo. A prisão aberta 
fica do lado do batalhão prisional da polícia, em Benfica. Casa do albergado Crispim 
Ventino. Lá você tem direito de sair de dia e voltar à noite pra dormir. Nos finais de 
semana você fica lá pra dormir também. Porém, lá tem o suborno. Como a fiscalização não é 
muito rígida você podia subornar o desipe e passar um dia ou uma semana em casa. Depende 
de quanto você dava pro desipe. Eu fiquei nesse processo de ida e volta na casa de 
albergado durante 9 meses. Depois que eu cumpri esse processo eu fiquei apenas indo lá de 
3 em 3 meses pra assinar uma caderneta até que um dia acabou e eu fiquei em liberdade 
definitiva.

A prisão aberta tem um índice de evasão muito grande. Geralmente 90% dos presos não voltam 
pra dormir de noite, porque é sujo, sem estrutura, e a mínima estrutura quem oferece é o 
próprio preso, o que não é nada diferente das outras prisões. E lá você não tem qualquer 
tipo de apoio, de um psicólogo, alguém que pode te indicar algum trabalho, algum curso, 
pré-vestibular, algum caminho.

Revendo tudo, não acho que o período que eu passei foi grande, porque eu conheci gente que 
ficou 16, 20 anos preso. Mas quando você sai é aquilo... Quando você vê a rua de novo você 
fica tonto. As milhares de oportunidades que você pode realizar. Você fica primeiro 
assustado com a rua, com todo aquele movimento de carro, de pessoas. Parece que você tá 
nascendo de novo. Parece que você volta a ser criança. Tudo é novidade. Um prato de comida 
que a sua mãe bota é sensacional, você poder tomar uma decisão que não podia tomar, isso é 
incrível. Com o tempo isso vai passando e a rotina vai voltando, desemprego, procurar 
trabalho, e você volta pra outro tipo de prisão, que é essa prisão sem grades onde você 
não tem oportunidades. Tanto na prisão de grade como na sem grade você vive sem 
oportunidade e quem faz as coisas funcionarem não é o Estado, mas o convívio das pessoas. 
E eu tenho essa visão até hoje. Apesar desses problemas, de morte, eu lembro muito disso 
na cadeia, dessa união pra resolver as coisas. E aqui fora também.... as pessoas se unem 
nas suas semelhanças. O estado te dá muito pouco recurso, quem te estende a mão são 
pessoas comuns que estão ao seu lado. Você se abriga muito mais numa pessoa comum, do que 
no governo.

(Todo preso é um preso político?)

A sociedade precisa, de alguma forma, punir seus transgressores, seus "delinquentes" e 
geralmente essa forma não é através do diálogo, de uma benfeitoria. As pessoas tem muito 
aquela visão de revanchismo, apodrecer na cadeia, como se isso fosse melhorar alguma 
coisa. A punição de alguém que comete um crime, seja qual for, deveria passar primeiro 
pelo pensamento de ressocializar a pessoa e não de confinar, isolar ela e colocá-la em 
condições horríveis, pois aí piora a situação dela. Você coloca ela num lugar podre, 
horrível, e diz que aí a pessoa vai melhorar. Mas ao fazer isso pode-se gerar alguma coisa 
positiva? Esse é o questionamento que eu tenho e por isso eu acho que todo preso é um 
preso político. A prisão está lotada de pessoas de classes mais humildes, você não vê 
pessoa rica lá dentro. A maioria das pessoas estão presas por crimes banais. A senhora que 
roubou uma margarina. O Rafael Braga por portar pinho sol. E se você parar na porta de 
Bangu e perguntar pras pessoas quais são os seus crimes você vai ver que são coisas 
pequenas, coisas que nem fizeram, ou não mereciam levar elas presas pra um lugar como aquele.

De todo o horror, a experiência e lembrança bonita que levo é o momento da visita. Ali os 
familiares eram cúmplices. Os que eram novos, que iam passar por aquela humilhação, eram 
acolhidos pelas pessoas mais antigas que iam confortá-las, se uniam, é uma lembrança boa. 
Todas as coisas bonitas e boas vem das pessoas comuns, nunca do Estado.

Felipe, 29 anos, auxiliar administrativo, estudante do Pré-Vestibular Machado de Assis e 
militante do GEP (Grupo de Educação Popular).


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