(pt) Anarkismo.net: A Estratégia do Especifismo by Felipe Corrêa IV. (4/4)

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Domingo, 14 de Setembro de 2014 - 16:36:49 CEST


A parte de cima e a de baixo como campos homogêneos. A desestruturação do velho ---- Um 
processo revolucionário tem de ser realizado de baixo para cima, como dizia Bakunin, e não 
inversamente, como quase sempre tem ocorrido. Ele não deve envolver hierarquia, mas 
instâncias organizativas sociais que sejam constituídas pelo próprio povo, de baixo para 
cima, por aqueles mesmos que sofrem as consequências do sistema, que resistem, criam e 
buscam formas organizativas para se defender.  ---- Isso exige que a militância produza 
uma cultura para o processo da transformação social proposta. Exige, também, algumas 
mudanças, uma internalização do projeto, uma modificação no "estilo" e no comportamento 
militante. Pois, como diria um mestiço, "com batatas é difícil fazer doce de abóbora".

A tarefa de remover o velho, modificá-lo, desconstruir sua estrutura é algo diário e não 
pontual e episódico. Contribuímos com a constituição de uma determinada conjuntura e 
nossas possibilidades de aproveitá-la dependerão daquilo que tivermos realizado anteriormente.

Esta tarefa diária deve ser realizada em meio às diversas expressões populares, buscando 
ampla sintonia com as inquietudes e urgências do povo e fazendo com que esteja presente a 
necessária condição de participação popular. Não devemos levar a cabo práticas solitárias 
e nem operar à margem dos sentimentos populares. Isso só fará com que nos aborreçamos com 
o povo.

Sustentar esta posição não implica seguir cegamente os hábitos impostos por séculos de 
construção de um sujeito que foi criado para um sistema determinado, mas realizar uma 
atividade diária, militar para a desconstrução destes hábitos no próprio seio do povo e 
como parte dele. Implica atacar as estruturas que têm sua genealogia, seus desdobramentos 
e que residem em distintos "territórios" do sistema.

Trata-se de uma tarefa a ser feita em território inimigo, vinculada às múltiplas 
resistências e lutas, a maioria delas reivindicativas, que exigem melhorias, reformas 
daquilo que existe hoje.

Mas, como bem dizia nosso teórico Malatesta, a questão não é somente conquistar reformas, 
mas se concentrar no espírito em que ela é buscada, qual é o pano de fundo envolvido neste 
processo. Ele agregava ainda que lutar por reformas não é a mesma coisa que ser 
reformista; aquilo que for sendo construindo em termos de poder popular deve ter um norte: 
o socialismo. Sem este norte, não haverá futuro emancipatório.

Este processo de construção do poder popular pode ir arrancando melhorias e não se alinhar 
com as premissas um tanto mágicas do "quanto pior, melhor" ou do "é tudo a mesma coisa", 
que encobrem as especificidades dos diferentes processos que, mesmo podendo ter elementos 
próprios do sistema, e assim é o mundo capitalista, possuem, ao mesmo tempo, 
singularidades que proporcionam espaços particulares que devem ser aproveitados. Não é a 
mesma coisa viver no capitalismo sob uma ditadura e sob uma democracia burguesa clássica. 
Sem emitir um juízo de valor, é possível dizer que, em ambas as situações, há espaços de 
ação com possibilidades distintas.

Por que os anarquistas sempre buscam um processo revolucionário? Não é uma escolha 
romântica e nem nostálgica, mas algo quase descaradamente racional. Esta escolha tem por 
fundamento uma lógica que este século capitalista, de tantos horrores, nos indica. O que 
são tais coisas tão horríveis que exigem transformações tão amplas? Alguns dados podem 
ajudar a responder.


As transnacionais, o neoliberalismo e o poder imperial

Trabalharei com dados que não podem ser considerados radicais e raivosos. Sem dúvidas, é 
interessante o balanço que foi feito na Contracúpula de Viena, há não muito tempo. "As 
corporações transnacionais exercem um poder enorme no mundo, um poder que afeta a vida de 
todos. As transnacionais seguem no mundo enfrentando-se com trabalhadores, comunidades e, 
inclusive, regiões e países inteiros, gerando uma competição desumana em que os direitos 
humanos terminam sendo solapados em todas as partes. As transnacionais são atores 
indiscutíveis na promoção da ideologia neoliberal, companheira de estrada 'desta 
globalização'. A América Latina e o Caribe são as duas regiões do mundo que mais têm 
sofrido com consequências devastadoras: desemprego e precarização do trabalho, crescimento 
da pobreza e da marginalidade, destruição dos sistemas agrícolas em prol do monopólio do 
agronegócio, violação dos direitos das populações originárias e camponesas, espoliação dos 
recursos naturais, privatização de serviços públicos, desindustrialização, diminuição dos 
Estados e governos para regular suas economias."

Aqueles que decretaram morto o imperialismo não servem para ser coveiros. O imperialismo 
vive e oprime como nunca. Ao mesmo tempo em que os Estados de países mais industrializados 
vêm multiplicando suas funções em diversos campos, é certo que outra forma de Estado 
capitalista tem deixado de se ocupar de algumas de suas antigas funções e assumido outras.

Trata-se de uma forma de Estado que possui relação com a presente etapa, em que as grandes 
transnacionais têm um papel distinto das empresas clássicas de etapas anteriores, e em que 
o capital financeiro internacional se envolve diariamente com o nível político. São 
estruturas econômicas, jurídico-políticas e ideológico-culturais que possuem hoje uma 
articulação muito específica.


Nossa América Latina e a construção do poder popular

Creio ser importante mencionar alguns fatos históricos, já que estamos fazendo uma 
discussão mais ou menos teórica.

Há diversas mobilizações sociais: movimentos indígenas com determinadas reivindicações 
parciais e gerais; luta armada, como na Colômbia e no México, coexistindo com movimentos 
sociais; levantes populares contra governos reivindicando nacionalizações de riquezas 
naturais contra o saque imperial; plebiscitos populares contra decisões governamentais ou 
em favor de determinadas questões sociais e políticas; repetidas insurreições, como no 
caso da Bolívia; resistências que atravessam fronteiras e que se transformam em uma só 
voz, como no caso das mobilizações contra a ALCA; movimentos ecologistas em defesa da tão 
maltratada natureza, que vem sendo devastada pelo sistema; descontentes que se expressam 
em eleições tradicionais, votando contra aquilo que lhes parece repugnante, tendo 
esperanças de distintos níveis e esperando a chegada de coisas novas e melhores; eleições 
que, em geral, frustram as pequenas ou as grandes expectativas existentes.

Essas experiências, vinculadas aos processos e instituições eleitorais, ainda que não 
contribuam diretamente para a criação de poder popular, devem ser levadas em conta, como 
parte de uma realidade distinta de outros momentos históricos.

Isso foi dito outras vezes. As eleições podem ser consideradas pesquisas, que evidenciam 
descontentamentos e aspirações de parte da população, visto que as eleições e toda a 
tecnologia política dos de cima que nelas está implicada não conseguem anular um certo 
estado de consciência que conjunturalmente se expressa neste mecanismo de fantasia. O 
mecanismo eleitoral não corresponde ao desenlace das lutas que apontam para outros 
horizontes, como no caso da Bolívia, e nele, em alguns momentos, as coisas ficam bastante 
confusas.

Em que pese toda a influência destas pesquisas, podemos notar, em algumas oportunidades, 
que setores sociais importantes e ativos, de expressões organizadas ou espontâneas, 
posicionam-se decididamente em favor das mudanças profundas e, por algum momento, 
desperdiçam seus esforços no campo institucional, em função do poder simbólico que essa 
teia possui, ainda, em certos imaginários. Outras vezes, o rechaço popular à política 
governamental também tem algo a dizer. É claro que devemos levar em conta, em todos os 
processos eleitorais, os mecanismos que colocam em jogo as alianças de direta e de 
centro-direita, o papel fundamental dos meios de comunicação de massas, das 
multinacionais, da embaixada dos Estados Unidos etc.

A questão eleitoral confunde-se com variadas e distintas expressões de poder popular, de 
ação direta dos movimentos sociais em busca de novas formas de organização social com 
outro nível de participação popular. Expressões que reagem contra as velhas práticas, mas 
que aparecem, em momentos "oportunos", junto com toda a parafernália eleitoral e com os 
discursos que tocam, mesmo com exaltação, em aspectos centrais das reivindicações do povo.

Neste campo, das eleições episódicas, é assim que as coisas funcionam; chega-se a ter 
preferência por figuras que, na verdade, pouco ou nada representam o povo, e que, 
rapidamente, tratam de desmobilizar os elementos de maior potencialidade transformadora. 
Há um mundo simbólico muito perverso que possui força e que, conforme se pode notar, 
continuará se projetando no tempo e impedindo autênticas mudanças.

No entanto, não parecem rigorosas as posições, permeadas de muito elitismo e vanguardismo, 
de que todas estas expressões e lutas de poder popular têm pouca serventia e terminam, 
finalmente, sem vitórias relevantes em termos eleitorais.

As vitórias devem ser buscadas em outro campo; elas possuem um ritmo que, talvez, não seja 
adequado para os ansiosos verem seus frutos. Devemos procurá-las na multiplicação de 
expressões de ação direta, de autogestão em diversos campos, de organização popular com 
formas que não apontam à institucionalização, de descrença no crescimento da clássica 
democracia burguesa, da "casta" política e de uma determinada forma de fazer política.

Por exemplo, na Bolívia, depuseram Gonzalo Sánchez de Lozada e Carlos Mesa o sucedeu, 
dando seguimento a uma política semelhante. Entretanto, o movimento popular colocou-se 
novamente na rua e depôs Mesa, um indicador de que sua experiência organizativa e sua 
consciência participativa não haviam morrido diante da frustração. Isso não significa que, 
agora, Evo Morales represente estas demandas, mas não lhe restam muitas alternativas senão 
tomar em conta parte delas, pois nisso se baseia sua vida política.

Viu-se que, mesmo com as infames regressões, promovidas principalmente pelos partidos 
chamados progressistas, as lutas dos de baixo não morrem; elas possuem raízes com certa 
profundidade. Há estruturas reacionárias e propostas políticas cheias de "novas" 
promessas, que implicam escolhas neste universo relativamente novo que vem surgindo, de 
caminhos que, às vezes, são arriscados; surgem caminhos provisórios em instâncias 
concretas e enganosas que, todavia, não são completamente abandonados. Somente o serão 
quando os de baixo conseguirem conformar sua própria proposta geral de novas relações 
sociais, o que não virá de fora, mas de dentro. Para criá-la, será necessário ter certa 
força social-política.

Temos visto que, na América Latina, as lutas pelo poder popular começam nas lutas 
cotidianas. Os movimentos de massa vêm tendo, em alguns momentos, grande capacidade de 
acumular forças, em bairros, em comissões que se articulam em torno de temas concretos, 
como foi o caso da luta pela água em Cochabamba e das reivindicações de terras e de 
respeito à vida comunitária, no caso das populações indígenas. Sindicatos operários e 
camponeses, além de movimentos indígenas, surgiram em alguns momentos, formando um tecido 
social forte, combativo, que ganhou as ruas e levantou consignas que, em geral, nenhum 
partido de esquerda tinha em sua agenda.

São conhecidas as diversas expressões populares, com incidência decisiva nas organizações 
sociais, que têm sustentado lutas contra o sistema nos últimos 15 anos. Na Argentina, 
pode-se mencionar o "que se vayan todos". Caíram governos na Bolívia, no Equador - três, 
somente nos últimos cinco anos - e no Peru. Estas expressões também tiveram um papel 
fundamental para impedir o golpe de direita na Venezuela.

Hoje mesmo está em curso um levante popular em Honduras. Devo dizer que nos solidarizamos 
sensivelmente com as posições antiditatoriais desta vigorosa mobilização, na qual estão 
intervindo variadas organizações sociais. Esse acontecimento, neste momento voltado 
essencialmente à oposição ao golpe, constitui algo muito mais complexo do que o simples 
retorno do presidente constitucionalmente eleito.

Há variadas expressões da capacidade dos movimentos sociais para atuar e desafiar os 
piores regimes governamentais e as medidas que eles produzem. Estes movimentos têm 
enfrentado com sangue e fogo, nas ruas, a repressão policial e militar. Vêm adotando 
distintas formas organizativas e hoje se mobilizam em torno de problemas sociais e 
econômicos, lutas por saúde, água, emprego, estradas, eletricidade, direitos humanos, 
direitos de populações indígenas, contra as ditaduras. São movimentos que, constantemente, 
passam de sociais a políticos, porque suas reivindicações atingem interesses do poder 
dominante e o Estado intervém rapidamente para reprimi-los. Além disso, em médio prazo, em 
geral, ocorrem esforços de empurrá-los para os caminhos da domesticação institucional 
burguesa.

Algumas vezes se diz que, depois destas lutas, sobra pouco ou nada de proveitoso. Esta 
visão resulta de um critério que, pode-se dizer, está constituído sobre categorias de 
velhos discursos, que não se adéquam a uma leitura do presente. Em muitos destes 
discursos, vemos que está implícito que se o velho partido de vanguarda não estiver 
presente, com seu grupo de profissionais e técnicos, não há saída. Não se concebe, assim, 
outra forma de fazer política; esta elite esclarecida deve estar presente para guiar a todos.

A organização política segue sendo algo da maior importância para a libertação, a ruptura 
e a desestruturação do capitalismo, assim como para o início de um outro processo, 
conformado em bases distintas. No entanto, a forma política que se deve buscar é outra. A 
organização política não deve constituir uma vanguarda, mas um nível ou campo distinto 
desta própria luta e operar dentro dela, como parte dela, o que constitui uma condição 
imprescindível.

Quero sublinhar algo que já foi dito. Todas estas lutas, reivindicações, enfrentamentos, 
implicam um processo de participação ativa da população, acúmulo de conhecimento a partir 
de experiências e enfoques que fermentam em favor de soluções legítimas, questões que são 
fundamentais para a construção do poder popular, em meio às quais devemos estar a todo 
tempo. A organização política deve estar completamente dentro e nunca fora destes 
processos, com a dupla articulação que algo dessa natureza exige.


Pode ser nosso momento?

Tudo isso que foi dito nos leva a estabelecer o papel da organização política libertária 
neste período histórico: sua estratégia, sua forma de organização, sua maneira de atuar no 
presente. Os partidos de "vanguarda", aqueles que "representavam" o proletariado e o povo, 
parecem estar, mais do que nunca, numa bancarrota. Se considerarmos nossa América Latina 
nas últimas décadas, há ricos exemplos de como estes partidos estiveram à margem, ou 
reproduzindo as posições dominantes, nas várias mobilizações radicalizadas e manifestações 
que os de baixo levaram a cabo, em grande parte impulsionados por amplas organizações 
sociais. A Bolívia foi o caso mais paradigmático. Mas sabemos que não foi o único, que 
esta situação foi como um rio, que correu por distintos pontos de nosso mapa.

No entanto, os movimentos populares, ao mesmo tempo em que protagonizam lutas sociais e 
políticas relevantes e vão além das posições dos partidos de "esquerda", em determinados 
momentos se esvaem e deixam um vazio que logo é preenchido pelos velhos conhecidos de 
sempre. Há aqueles que avaliam este vazio, quase sempre, em função da lógica da ausência 
de partidos de vanguarda que proponham tomar espaços no Estado, com vistas a iniciar um 
processo a partir disso. Vale dizer que estas pessoas analisam ou propõem esse tipo de 
coisa partindo da mesma lógica que fez com que os partidos de "esquerda" estivessem 
ausentes ou negando que estes caminhos populares fossem válidos.

Quase não se menciona que a questão refere-se a uma outra forma de fazer política e a uma 
outra maneira de conceber a organização política. Qual é o papel que deve ter o político, 
hoje, à luz da experiência histórica que tivemos? Acreditamos que a noção de "correia de 
transmissão"não possui mais serventia; o que funciona, visto desde outra lógica, é a noção 
da organização política como "pequeno motor", que foi anteriormente mencionada. Sem 
dúvidas, o papel da organização política continua a ser válido e abarca um espaço distinto 
da ação das organizações sociais. Mas, cada vez mais, parece ser necessário precisar 
detalhadamente sua área de ação e as práticas que lhe dizem respeito. Essa é outra de 
nossas tarefas.

E nos parece que é o anarquismo que possui sintonia com essas mobilizações e que têm 
defendido, em linhas gerais, ações políticas deste tipo, necessárias como corolário de 
tais processos.


FC - A FAU teve, juntamente com as outras atividades, uma tarefa específica de luta 
armada. Isso gerou problemas organizativos de relevância? A estrutura orgânica sofreu 
alterações importantes?

JCM - Este é um tema relevante e que deve ser relacionado à organização interna, à 
preparação e à formação da militância no quadro das conjunturas históricas que precisam 
ser enfrentadas. É sabido que as organizações especifistas, assim como outras, possuem 
documentos como Declaração de Princípios e Carta Orgânica.

As linhas político-sociais de trabalho e as experiências instrumentalizam estas linhas nos 
distintos campos sociais, fazendo, juntamente com as variações conjunturais importantes, 
com que a Carta Orgânica seja ocasionalmente modificada. A Declaração de Princípios de um 
período da organização também não permanece a mesma depois de vários anos de trabalho 
militante. Mas, em geral, tenho a impressão, de acordo com nossa experiência, que ela é 
menos modificável. Isso também depende de como está elaborada a Declaração de Princípios. 
Se ela aborda aspectos conjunturais ou etapas históricas, ela deverá ser mais modificada. 
Os princípios gerais são ajustados, desenvolvidos, atualizados em função do avanço do 
conhecimento, mas, em geral, num ritmo mais lento. Há elementos ideológicos, não teóricos, 
que constituem nossa coletividade, que envolvem imaginário e coesão e que, mesmo não sendo 
dogmas, constituem certezas sobre o caminho buscado e, por isso mesmo, não variam muito.

De todo modo, estes instrumentos que se articulam com o conjunto das tarefas não foram 
concebidos como meios, mas como parte da concepção geral da dinâmica militante. 
Considerações que são elementos constitutivos do anarquismo organizado e que possuem o 
mesmo valor que outros elementos. Sabemos que em nosso ambiente libertário há uma velha 
discussão em relação à organização constituir somente um meio ou não. Assumir a 
organização somente como um meio, para nós, significa separar da prática a forma como ela 
se realiza; posição que implica um problema significativo.

Mas vou me ater mais à sua pergunta. Incorporar um aparelho armado específico para operar 
regularmente requer uma série de técnicas consequentes com a especificidade das tarefas 
que devem ser encaradas e levadas adiante. Além disso, e essa questão é fundamental, sua 
existência possui efeitos sobre o conjunto da organização. Não é como agregar uma 
atividade a mais, além daquelas que a organização já possui. Isso significa reestruturar 
toda a organização para que sua articulação com o resto das atividades fique coerentemente 
compreendida dentro da estratégia e, naturalmente, dentro da ideologia geral que envolve 
este conjunto de ação social-política.

Neste aspecto concreto, da ação armada, a FAU não partiu do zero e nem se somou à moda de 
ação guerrilheira que foi chamada de "foco". Não partiu do zero porque o anarquismo 
possuía toda uma história de ação direta armada muito fecunda: heroica, justiceira, 
expropriadora, de enfrentamentos cruéis e sangrentos com a repressão. Para dizer 
rapidamente, as lutas e episódios anarquistas foram muito importantes na história, como no 
caso dos Mártires de Chicago, de Sacco e Vanzetti, da Revolução Espanhola, da Coluna de 
Ferro de Durruti, e também aqui no Rio da Prata, com a Semana Trágica, a luta e o massacre 
da Patagônia, os trabalhadores vingadores que executaram verdugos... A lista seria muito 
ampla, mas quero somente dar alguns exemplos.

Estes exemplos não são genéricos, mas estavam no imaginário e na sensibilidade de grande 
parte da militância que fundou a FAU; perseguições atrozes, prisões, assassinatos de 
anarquistas, execuções e "desaparecimentos". Este universo não era ignorado. Muitos destes 
fatos foram temas de conversações regulares em distintos centros de atividade anarquista, 
algumas vezes com muitos detalhalhes, mas não somente em nível formal, em material de 
propaganda escrita ou em debates. Eles também foram contados, em conversas fraternais, por 
companheiros que conheceram ou participaram de atividades deste tipo: os espanhóis 
radicados no Uruguai, que fizeram parte da Revolução Espanhola; os expropriadores que 
sofreram torturas e longas prisões; os trabalhadores que foram ferozmente perseguidos, 
torturados, na Argentina e alguns no próprio Uruguai.

Tínhamos consciência de que a luta não era nada fácil e que tampouco a revolução seria 
algo que aconteceria rapidamente. As correntes guerrilheiras que estavam surgindo naquele 
momento tinham outra visão do inimigo e havia, inclusive, aqueles que pensavam, e até 
diziam, que a revolução estava logo ali. O marxismo na América Latina contava com uma 
história muito distinta e com um imaginário quase sem pontos de convergência com o nosso. 
Os marxistas tinham em mente, naquele momento, o episódio revolucionário cubano, que era 
atípico à linha de coexistência pacífica defendida pelos partidos políticos do continente, 
os quais constituíam a maior força marxista.

Por isso, a transposição automática da estratégia guerrilheira expressada no "foco" nunca 
foi compartilhada por nós. Víamos a luta armada de outro modo, em outra perspectiva 
histórica. Tínhamos muito presente a história de nossos países. Assim como não houve 
coincidência, não houve, tampouco, conflitos com aqueles que estavam dedicando suas vidas 
a uma estratégia distinta da nossa. Caminhamos por vias distintas, e, muitas vezes, 
coordenamos ações técnicas pontuais.

Falarei um pouco mais deste tema, não por simples devaneio, mas porque, em determinados 
meios libertários, nos identificaram com o "foco" ou com o "guerrilheirismo", como diziam, 
e isso nunca foi assim; trata-se de uma noção equivocada.

A decisão de montar um aparelho armado não foi tomada de um dia para o outro; houve todo 
um processo prévio. Nele, foram se adequando formas organizativas, infraestrutura para 
casos de emergência, locais alternativos onde atuariam os companheiros sindicais e sociais 
no meio público em momentos de perseguição, estabelecimento de critérios e mecanismos 
básicos de segurança, tanto para a militância pública como para aquela que já realizava um 
trabalho armado ou de apoio mais duro ao meio sindical.

Isso começou a ser articulado em 1962. Em 1963 ficou um pouco parado, pois quando se 
colocou a necessidade de ajustar a instância orgânica geral para um funcionamento de 
acordo com os duros tempos que prevíamos, houve um grupo de companheiros que discordou, 
pois já possuíam outra proposta estratégica, fundamentalmente de base não violenta, e que 
discordaram completamente de nossa decisão. Esse foi um dos motivos da cisão de alguns 
companheiros da FAU em 1963.

Depois, a FAU deu continuidade à tarefa de ajuste de Carta Orgânica, de acordo com a 
avaliação que havia sido feita sobre a conjuntura que tínhamos adiante, e que esperávamos 
que logo fosse piorar. É claro que isso exigia finanças e, para isso, foram feitas 
expropriações, fundamentalmente de bancos. Assim, nossa Carta Orgânica terminou mantendo 
uma parte importante quase intacta, mas também incorporou uma parte nova, que abordava 
novos órgãos, comissões, secretarias e funções para poder cobrir de maneira organizada o 
conjunto das medidas planejadas.

Havia uma lógica que nos dizia enfaticamente que, se uma análise de conjuntura sugeria uma 
ação determinada, não poderíamos, depois de saber disso, dizer coisas como: Está bem, mas 
não podemos encarar muitas destas tarefas porque elas alteram nossos princípios e implicam 
riscos de desvio. Estaríamos, se fizéssemos isso, decretando a inviabilidade do anarquismo 
como corrente social que pretende transformar o sistema. Enterraríamos o anarquismo ou o 
deixaríamos como uma referência longínqua do passado.

Naquela época, assim como hoje, encarávamos as coisas desta maneira. Temos e executamos 
uma proposta que, cremos, está de acordo com as exigências populares; do contrário, 
estaríamos deixando espaço para que outros, com outras concepções, o fizessem. E, nisso, 
não há possibilidade de retorno.

Naquela altura, a organização já necessitava desenvolver um aparelho armado, para várias 
funções, e também para crescer. Para poder direcionar simpatias e lutas que chegavam a 
nós, para impulsionar iniciativas de certa envergadura, para dar novos passos 
organizativos, e tudo isso também exigia, imediatamente, uma quantia de dinheiro. É claro 
que isso não era a prioridade da Organização Popular Revolucionária (OPR), principalmente 
se levarmos em conta o momento em que ela mais se desenvolveu. No entanto, esta seria uma 
das atividades a ser encarada permanentemente e, inicialmente, era algo prioritário, pelas 
razões colocadas.

A repressão era alta naquele momento, pois a guerrilha dos Tupamaros já estava operando, e 
isso exigia capacitar tecnicamente, e de maneira adequada, nosso pessoal, para que ele 
pudesse cumprir seus objetivos e sair com vida deste processo. A cooperação para 
determinadas ações armadas naquela conjuntura repressiva já não funcionava. A base do 
aparelho armado era composta de trabalhadores, que investiram fortemente em sua própria 
preparação, e fizeram isso com muita modéstia e responsabilidade, tendo claro que algumas 
coisas seriam aprendidas com o desenrolar do processo.

Entretanto, creio que sua pergunta se refere mais ao aspecto teórico, relacionado à forma 
organizativa - neste caso, a Carta Orgânica -, que estabelecia os organismos, as funções, 
os direitos e os deveres dos companheiros militantes.

Buscamos não deixar questões abertas nos assuntos relevantes, de maneira que pudessem, 
depois, gerar dúvidas intermináveis. As instâncias congressuais decidiam quaisquer 
diferenças interpretativas ou insuficiências da Carta. Sempre consideramos que o coletivo 
deveria lidar com estas questões.

As discussões, os diferentes enfoques, a mudança de opiniões se davam, fundamentalmente, 
nas análises políticas e sociais. E isso era, e sempre será, muito construtivo; a produção 
de uma cultura de análise e discussão séria não constitui uma tarefa menor da organização 
política.

É imoportante mencionar, mesmo que sem o devido aprofundamento, que a OPR (parte armada) 
não tinha independência estratégica. Ou seja, expropriações, sequestros etc. não eram 
decididos por ela, mas pela organização política, por meio do organismo que a representava 
e que estava coletivamente legitimado. Este modelo era diferente de praticamente todas as 
outras atividades guerrilheiras da América Latina daquele momento, com exceção do 
Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR) chileno, que pode ser considerado um partido; 
mas, que fique claro, um partido marxista-leninista, com seu correspondente centralismo.


FC - Fica claro o caráter distinto da OPR em relação ao foco. Você poderia detalhar um 
pouco o funcionamento desta tarefa técnica armada? Dentro de nossa concepção libertária, 
como se encarou o funcionamento do aparelho armado?

JCM - Esta foi uma grande preocupação desde o começo da tarefa regular da OPR. A 
experiência libertária neste sentido era muito pequena. Não no que diz respeito à ação em 
si, é claro, mas em relação ao trabalho de ação direta armada dentro de um marco 
organizativo e em relação adequada com uma estratégia geral, com responsabilidade, 
autodisciplina e disciplina. Um processo em que um conjunto de companheiros atuava como 
mais uma parte da organização e firmava seu compromisso com as resoluções coletivas das 
quais participavam como os demais companheiros.

Há um companheiro, Carmelo, que esteve preso em outro país e, na prisão, durante muitos 
anos, conviveu com companheiros de outras organizações. Ele nos contou que os militantes 
de outras organizações achavam estranho, e ao mesmo tempo interessante, a maneira como 
havíamos encarado a luta armada.

Carmelo é um velho companheiro, com muita experiência e uma formação teórico-política 
muito boa, e há muitos anos tem estado preocupado em escrever sobre o tema, ampliando a 
tentativa que levei a cabo, sinteticamente, no tomo IV de Acción Directa Anarquista: una 
história de FAU. Ou seja, este tema continua a nos interessar e, oportunamente, teremos um 
material mais elaborado sobre ele. Agora, recorrerei ao livro que mencionei.

Sem dúvidas, a luta armada é uma tarefa que pode contribuir com muitos desvios e, também, 
para que as coisas sejam observadas de um ponto de vista distinto do nosso; em alguns 
casos, o que é ainda pior, ela pode gerar comportamentos com os quais nada temos a ver e 
que constituem o oposto do que queremos em nossa luta.

Mas, como eu disse, não havia uma pedra sagrada anarquista, da qual poderíamos retirar 
orientações e sugestões. Tínhamos que experimentar, tendo como guia aspectos fundamentais 
de nossa ideologia. Era um desafio, mas, ao mesmo tempo, uma verdadeira obrigação política.

Dizia-se muitas vezes: "Temos que tomar cuidado para não perder o sentido das coisas. 
Determinados valores que nos são fundamentais não devem ser abandonados no caminho. Essa é 
uma atividade que pode acabar em complicadas deformações e ter graves consequências."

Nem seria necessário dizer que estas precauções tinham como base nossa concepção 
libertária e as experiências conhecidas, tanto históricas, como recentes, que vinham se 
dando nos movimentos guerrilheiros que existiam em vários países.

É possível dizer que havia um conceito libertário sobre como esta atividade armada, que 
dava seus primeiros passos, deveria se dar. Havia um conjunto de ideias que, conforme 
acreditávamos, poderia dar um caráter diferenciado a este trabalho, tomando por base a 
concepção e as práticas clássicas. Tínhamos que realizar experimentações, com base em 
determinados critérios de nossa matriz libertária.

Para começar, dávamos muita importância às palavras utilizadas, que possuíam relação com 
as funções necessárias, por razão desta mágica relação existente entre as palavras e as 
coisas. Junto com a palavra vem o conteúdo, e também o desvio. Nada de "chefe" em lugar 
algum; os companheiros com determinadas responsabilidades deveriam ser chamados de 
"encarregados". Isso foi resolvido, estabelecido e praticado.

Assim, a atividade da OPR nunca teve chefes e nem comandantes. Teve encarregados, e o 
conteúdo disso ocasionou resultados muito diferentes. É claro que, junto com isso, havia 
outras coisas que formavam uma unidade nessa tentativa de criar uma cultura de resistência 
às chefias e ao militarismo. Junto às distintas práticas cotidianas, amarradas 
internamente por uma ideologia, priorizávamos a formação dos companheiros; contávamos com 
uma ampla formação.

Falarei, inicialmente, de algumas destas pequenas e cotidianas práticas, que tanto 
ajudavam na formação; as práticas diárias que têm tanta eficácia.

"A autocrítica e os valores não devem ser discursos vazios, desvinculados daquilo que 
fazemos todos os dias." Isso se dizia, se sentia e se fazia.

O problema dos valores era vivenciado diariamente. Todas as células da OPR tinham uma 
ficha de avaliação com foco no comportamento dos militantes. Periodicamente, mensalmente 
ou a cada dois meses, esta tarefa de avaliação era realizada. A própria célula se 
autoavaliava e, nesta instância, se analisava tanto o encarregado de célula como o de liga 
(órgão formado por três células).

A ficha de avaliação continha valores como solidariedade, fraternidade, modéstia e 
capacidade de entrega, os quais precediam a capacidade operativa "militar" que, é claro, 
também era devidamente avaliada.

Isso tinha efeitos muito positivos. Para começar, a crítica e a autocrítica não eram 
palavras vazias, não eram algo que se falava e não se fazia. Dessa forma, era normal, 
totalmente legítimo e natural, que um encarregado fosse questionado e, mesmo, que se 
pedisse que mudasse de função.

Rompia-se, assim, com os recursos arbitrários de poder, que, visível ou invisivelmente, 
terminam por gerar práticas perversas. Havia uma tendência expressa de minimizar e 
desvalorizar tais coisas. Era um processo que exigia um trabalho significativo, visto que 
isso não ocorre automaticamente. Pelo menos, nessa cultura "ocidental, cristã e 
capitalista", a questão do poder e da exaltação do ego nunca devem ser desconsideradas. 
Sem dúvida, não era a mesma coisa potencializar estes recursos e combatê-los.

"O companheiro encarregado da liga deve melhorar muito. Sua modéstia deixa a desejar." 
Comentários como este, de um integrante de célula, eram normais e positivos. Por isso, ao 
constituir um direito real, e não uma fraseologia formal, o coletivo ia melhorando e 
tornava-se difícil um encarregado manter-se arbitrariamente.

Não era como se um chefe um dia acordasse justo e dissesse: Vamos fazer crítica e 
autocrítica. Como contrapartida lógica, muitos, por medo do que poderia acontecer depois, 
transformavam isso em puro conformismo. E, dessa maneira, tudo ficava como antes e assim 
permanecia. Como se diz, em alguns casos, jocosamente: "Toda crítica que seja para dizer 
que está tudo bem é bem-vinda".

Deve-se ressaltar que a prática cotidiana destes valores não fazia com que se perdesse de 
vista o caráter específico da atividade. Havia instâncias puramente executivas e tarefas 
permanentes que deviam ser realizadas de uma maneira determinada. Por exemplo, ninguém 
colocava em questão que, no momento da operação, era o encarregado que decidia sobre os 
problemas que pudessem ocorrer e que, por ventura, tivessem ficado de fora do planejamento 
prévio, o imponderável. Esse não é um momento para assembleias.

"Sim, a atividade pode ser tecnicamente militar, mas devemos nos acostumar a mencionar o 
mínimo possível esta palavra. Devemos usar termos como ação política revolucionária", 
dizia Gerardo Gatti numa instância decisória da FAU.

Com posições deste tipo, foram sendo criados rudimentos culturais importantes que 
materializavam os valores que priorizávamos. Foram-se criando hábitos que faziam com que o 
militante visse com clareza seus direitos e deveres. Muitas coisas começaram a ser 
"naturais". Ser autoritário, arbitrário, não ter modéstia, solidariedade não eram coisas 
que passavam em branco e nunca eram toleradas em silêncio.

O termo "comandante" era utilizado somente como brincadeira. Havia uma ideologia que 
impulsionava e animava tudo aquilo. Alguns companheiros haviam sido formados em conversas 
sobre episódios de luta, reivindicações de liberdade, sociedades futuras humanamente 
justas e respeitosas.

Repudiavam-se todos os mecanismos de poder que exigiam submissão, que glorificam as 
autoridades e os heróis de cartão. Rechaçavam-se completamente os instrumentos de 
robotização humana a serviço dos poderosos, como os aparelhos repressivos. A verdade é 
que, nos marcos daquela cultura, parecer um milico não gratificava a ninguém.

Era um ambiente libertário. Dali emanavam preocupações de não produzir soldados da 
revolução, mas companheiros revolucionários. Havia uma forte resistência aos desvios 
militaristas e às práticas autoritárias. Por isso, era normal que o aparelho armado 
estivesse subordinado ao político; que as coisas fossem realizadas em função da estratégia 
geral da organização, de suas avaliações conjunturais. A soberania das armas não 
encontrava terreno fértil e nem a soberba em geral.

Essa maneira de encarar a disciplina e a autodisciplina, o protagonismo coletivo, a 
ausência de militarismo, o respeito militante como entidade humana, o trato igualitário, o 
rechaço do autoritarismo, debilitava a eficácia, o desenvolvimento e o desempenho do 
trabalho especificamente armado? Posso afirmar que não.

Mesmo tomando em conta o curto período desta experiência, podemos tirar muitas conclusões.

Não se pode dizer, de modo algum, que as coisas funcionaram perfeitamente. Não tenho 
interesse de idealizar a questão. Mas, considerando os erros e os problemas que foram 
sendo encarados e que buscamos superar, vimos que a ganhávamos eficácia e fortalecíamos o 
exercício das tarefas. Vimos que a autodisciplina e o companheiro convencido faziam 
milagres. Mesmo com grandes limitações e falta de recursos, as coisas funcionavam. Havia 
entrega, disposição, capacidade de cada um para resolver as coisas; havia um nível 
aceitável de continuidade e crescimento.

Fomento (Junta Federal), Aguilar (organismo responsável pela parte armada), Ligas (colunas 
compostas de três células de cinco integrantes cada) e Células (organismo básico de cinco 
integrantes) mesclavam-se e criavam uma cultura de militância armada distinta. Ela não 
tinha como referência aquilo que surgia naquele momento histórico, que se espalhava pelo 
continente e que era muito imitado; apesar de grandes e respeitáveis heroísmos, aquilo não 
tinha nada a ver com nossos propósitos.

"Temos que ir criando as nossas coisas, com nossas próprias concepções, mantendo-as em 
relação à história desse lugar e às nossas ideias. A imitação não é uma boa conselheira." 
Esse era um critério bastante compartilhado.

Foi-se criando algo que não poderia ser realizado por decretos, por resoluções de reuniões 
e nem por bons manuais. Foi-se desenvolvendo uma capacidade de reflexão e de participação 
efetiva dos militantes, de maneira que a criar um amor e um entendimento da causa que se 
defendia.

Obviamente, esta experiência, além de ter sido breve, teve problemas. No entanto, ela nos 
deixou convencidos de uma coisa: é possível desenvolver uma atividade "militar" libertária 
e é um mito que, para que isso ocorra, tudo pode ser mais adequadamente articulado por 
meio do autoritarismo e das hierarquias. "A organização deve ter valores que prefigurem o 
que queremos amanhã." Isso era sempre afirmado e norteava todas as nossas tarefas.

Em relação à preocupação de formação dos militantes, do desenvolvimento de sua capacidade 
reflexiva, há uma experiência concreta que permite aprofundar a compreensão dessa 
situação: A "Escuelita".

A atividade ficou conhecida por este diminutivo, concebido, talvez, no intuito de 
retirar-lhe a solenidade, buscando coerência com a noção de modéstia, tão enfatizada nas 
avaliações de célula. O que foi a Escuelita? Foi uma experiência realizada com jovens da 
OPR que estavam assumindo maiores responsabilidades. Ela abarcou uma atividade de 
transferência de conhecimentos acerca de diferentes temas: filosofia, psicologia, 
história, pedagogia. Buscava-se gerar discussões e reflexões sobre estes temas. Vários 
companheiros especializados, professores na maioria, se encarregavam do processo de formação.

A atividade foi realizada com regularidade e continuidade, produzindo resultados fecundos. 
Nando e Silva foram dois de seus grandes animadores.

Para que se note a importância que se dava à tarefa de formação, é necessário retomar o 
contexto social em que ela foi levada a cabo. Era um tempo em que a repressão estava a 
toda. Patrulhamento constante nas ruas, perseguições, invasões de domicílios e vigilância 
de lugares suspeitos. Em tais condições, era necessário reunir os companheiros do aparelho 
armado que não pertenciam a uma mesma liga aos especialistas e professores. Ao mesmo 
tempo, era importante cuidar da segurança geral e da compartimentação dos companheiros.

Além disso, a casa era desconhecida para quase todos. Isso demandava um esforço extra, 
pois era necessário levar os companheiros assegurando-se que não soubessem aonde estavam. 
As reuniões eram feitas com os militantes usando capuzes que lhes escondiam os rostos. Mas 
todos estavam convencidos de que o objetivo valia o esforço e o risco.

Esta iniciativa surgiu no Fomento (Junta Federal), orgão deliberativo da FAU. Nem foi 
necessária muita discussão, pois havia consenso sobre o assunto. Era o tipo de tarefa que 
se previa, pois a formação militante era algo sempre bem visto. Havia toda uma história 
por trás disso. Somente Silva, que depois seria um forte animador, teve algumas dúvidas, 
que eram basicamente as seguintes: Não seria esta uma tarefa a ser realizada um pouco mais 
para a frente? Haveria uma receptividade que compensaria o esforço? Os companheiros da OPR 
que participariam viam isso como uma necessidade?

Sanadas as dúvidas, decidimos prosseguir com a atividade, que seria organizada por 
Rogelio. Nando faria a primeira parte, formando uma célula que trabalharia com ele e 
constituindo um grupo que produziria testes que seriam, em seguida, aplicados em todos os 
integrantes da OPR. Depois, estes testes seriam discutidos numa reunião conjunta.

O companheiro Nando era psicólogo, considerado do mais alto nível técnico, uma pessoa de 
excelentes qualidades humanas e que se comunicava muito bem. Os outros companheiros, que, 
naquela oportunidade, formavam a célula junto a ele, eram também profissionais. Este grupo 
trabalhou intensa e continuamente na elaboração e na aplicação dos testes. Uma vez 
terminada esta parte, realizaram-se as reuniões regulares coletivas, nas quais foram 
tratadas várias outras questões.

Os resultados desta experiências foram considerados muito bons. Mas, sobre isso, é melhor 
deixarmos um dos participantes falar, um "discípulo" que se integrou com entusiasmo à 
atividade, um companheiro operário, creio que do ramo têxtil.

"- Ruben, o que você se lembra da Escuelita?

- A primeira questão foi aquele processo de teste psicológico ao qual fomos submetidos. Me 
lembro que isso ocorreu durante alguns dias no anfiteatro de um hospital, e contou com uma 
bateria de testes, de desenhos, de histórias, de mapas. Todos os testes utilizados naquele 
momento, e que eram reexaminados na leitura dos companheiros, tinham por base uma 
perspectiva crítica da psicanálise. E isso foi importante.

O marxismo, distintamente, nunca deu bola a esta perspectiva, equiparando-a à psiquiatria 
farmacológica. Para mim, este processo foi algo muito importante e me abriu todo um mundo 
novo de leituras. Depois, com a escola funcionando, verificou-se que os resultados dos 
testes foram espetaculares, visto que acertaram, conforme veríamos depois, 90% das avaliações.

Os testes foram somente uma introdução. Logo foram abordadas questões teóricas e práticas. 
Em termos práticos, foram dadas as primeiras noções sobre explosivos, armas e táticas. 
Lembro também que se trataram de questões históricas e filosóficas, e recordo-me de um 
gráfico, que tinha um quadrado que podíamos pôr e tirar, além de toda uma discussão sobre 
a ciência.

A Escuelita também estimulou que os militantes lessem por conta própria, por iniciativa de 
cada um. Se a compararmos com as escolas de quadros da Argentina e de outros lugares, 
veremos que a Escuelita não tem nada a ver com elas. Por exemplo, o Partido Revolucionário 
de los Trabajadores (PRT), argentino, era muito ideologizado e, no que tange às armas, 
havia muito lirismo. Os montoneros investiam muito em formação militar e pouco na 
ideológica. A Escuelita abarcava um leque de coisas. Em todo sistema de ensino, sempre há 
uma relação, uma base de transferência de conhecimento.

Outra coisa que me lembro é que as baterias de testes eram utilizadas criticamente. 
Porque, se não fosse assim, se se aplicasse o critério ortodoxo, seríamos todos 
considerados psicopatas inadaptados. Os técnicos tinham que reavaliar todos os testes com 
este critério distinto, e isso dava muito trabalho. Havia grande preocupação com o bom 
funcionamento da Escuelita.

Eu ainda agregaria que, ao comparar aquilo que me recordo da Escuelita com a experiência 
marxista argentina, pude compreender mais claramente a Escuelita, tanto em sua modéstia, 
quando em sua grandeza; tanto em suas técnicas psicanalíticas, quanto em suas preocupações 
humanas e dúvidas filosóficas.

Isso de que é só a luta de classes que move a história, somente um marxista pode afirmar. 
Foi bom encher a cabeça de dúvidas e certezas, a partir das quais julgamos a vida. Isso 
resume o aspecto maravilhoso de um sistema de ensino."


FC - Outras contribuições importantes de nossa corrente para o anarquismo são posições 
sobre compromisso militante e dedicação à causa, no marco de uma organização política 
anarquista. Você poderia falar um pouco sobre a importância destes aspectos para um 
projeto de transformação revolucionária? Finalmente, que termos você prefere: socialismo 
libertário ou anarquismo? Gostaria de dizer algumas palavras finais?

JCM - Por aqui, há um velho dito: "O anarquismo é uma forma de viver". Isso era falado 
pelos velhos companheiros no início dos anos 1900, que militavam desde 1905, 1910, 1920 e 
assim por diante. Quando a FAU foi organizada, este dito, que tantas vezes tinha partido 
daqueles sóbrios, modestos e abnegados companheiros, passou a compor um elemento 
ideológico-ético de primeira ordem. Algo tão simples e que teve tanta importância. Quanto 
isso foi importante! Não nada de soberba ou de elitismo. Buscávamos sintetizar em uma 
frase algo como a entrega completa à causa, senti-la e praticá-la todos os dias, ser 
consequente, resistir à cumplicidade com o sistema por meio de condutas que lhes sejam 
afins, combater a superficialidade da palavra etérea e vaidosa.

Estes antigos militantes queriam dizer que há algumas coisas pelas quais vale a pena 
entregar a vida, dentre as quais se encontra a busca de uma sociedade justa, livre e 
solidária. Queriam dizer que era impossível ver tantas infâmias e atrocidades e permanecer 
indiferente ou preocupado apenas com questões pessoais, vendo o resto como algo secundário.

Mas não vamos nos equivocar achando que isso implicava o isolamento ou o desprezo de 
costumes distintos. Não. Estes militantes encontravam-se em meio ao povo, organizavam 
festivais fraternais, clubes de futebol, bandas de carnaval, teatros, piqueniques e tinham 
um contato humano completamente normal em suas comunidades, assim como em sua vida 
familiar, que era como a de qualquer outro vizinho. Para eles, era necessário corrigir 
permanentemente os defeitos enraizados e dedicar todo o tempo possível à luta e à 
propagação do ideal; à preparação da revolução.

Creio que o compromisso com a causa deve ser profundo, assim como o compromisso com a 
organização política que possui um projeto social de transformação, a organização 
anarquista que pretende organizar tudo distintamente, de modo que o coletivo não anule, 
mas potencialize o indivíduo.

Com relação à pergunta sobre o anarquismo ou socialismo libertário, eu os considero 
sinônimos. Entretanto, devo dizer que prefiro o termo "anarquismo". É uma questão 
sentimental, que envolve emoções e recordações.

Volto agora ao tempo presente e finalizo nossa conversação. Para as palavras finais sobre 
compromisso com a causa, eu deixaria que falassem, por meio de sua conduta, todos os 
companheiros da FAU que foram torturados, assassinados, "desaparecidos", fuzilados, como 
tantos outros em nossa querida história. Eles desejavam, do fundo de suas "almas", esse 
amanhã de socialismo e liberdade, e não tiveram dúvidas em dedicar-se completamente a ele. 
São eles que sempre estão nos dizendo: Vamos! Vamos! Porque esta causa merece tudo!



NOTAS

1. Juan Carlos Mechoso. Acción Directa Anarquista: una história de FAU. Tomos I, II, III e 
IV. Montevidéu: Recortes, 2011, 2005, 2006, 2009.

2. Ver os documentos de Volin e Sébastien Faure, ambos chamados "A Síntese Anarquista": 
[Volin: http://www.anarkismo.net/arti-cle/20027] [Faure: 
http://www.anarkis-mo.net/article/12392].

3. Dielo Truda. "Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários" 
[http://www.nestormakhno.info/portuguese/platform2/org_p...t.htm]. O nome correto deste 
documento, de acordo com as novas traduções, é: "A Plataforma Organizacional da União 
Geral dos Anarquistas (Projeto)".

4. FAKB. "Plataforma da Federação dos Anarco-Comunistas da Bulgária". In: Michael Schmidt. 
Anarquismo Búlgaro em Armas. São Paulo: Faísca, 2009.

5. Georges Fontenis. "Manifiesto Comunista Libertario". 
[http://flag.blackened.net/revolt/inter/groups/cuac/comu....html].

6. Trata-se do livro Historia del Movimiento Makhnovista (1918-1921), escrito por Piotr 
Arshinov [http://www.nodo50.org/bpji/Libros/Historia%20del%20movi...o.pdf]. Em português, 
ver: Piotr Arshinov. História do Movimento Macknovista: a insurreição dos camponeses na 
Ucrânia. Lisboa: Assírio e Alvim, 1976.



Entrevista realizada entre maio e agosto de 2009.


* Tradução e revisão: Felipe Corrêa


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