(pt) Anarkismo.net: A Estratégia do Especifismo by Felipe Corrêa II. (2/4)

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Domingo, 14 de Setembro de 2014 - 16:36:28 CEST


FC - Dentro das correntes socialistas, autoritárias e antiautoritárias, há setores que, 
como nós, defendem esta separação entre a organização política e o movimento popular. Você 
poderia explicitar qual é a diferença das relações entre a organização anarquista e os 
movimentos populares e as relações dos partidos leninistas/trotskistas com estes 
movimentos? Ou seja, o que diferencia uma organização anarquista especifista de um partido 
autoritário? Você poderia falar um pouco sobre a relação entre a organização anarquista e 
os movimentos populares? ---- JCM - Vou separar os temas para que a resposta fique mais 
clara. Abordarei, inicialmente, o que se chamou, tradicionalmente, de partidos 
autoritários. Este tema nos leva a um outro, a necessidade de uma nova forma de fazer 
política, que equivale, simultaneamente, a encarar a organização política de outra 
maneira, enfatizando aspectos opostos aos grupos e organizações marxistas em geral.

Todos estes possuem estratégias que consideram uma participação mínima ou mesmo passiva da 
classe trabalhadora e do movimento popular em geral. Eles acreditam representar os 
interesses dos trabalhadores, e que é o partido que deve ser fortalecido, já que as 
transformações, ou, em alguns casos, os acontecimentos revolucionários, vêm de cima e são 
determinados pelo partido. Em todos os casos, em alguns mais e em outros menos, as 
chamadas "massas" funcionam como correias de transmissão. É o partido que dirige o 
processo, determinando o que se deve fazer, não deixando ao movimento de "massas" qualquer 
alternativa de participação decisória relevante.

Sem dúvidas, devemos diferenciar as estratégias destes partidos: os socialdemocratas e os 
marxistas-leninistas.

A história das socialdemocracias é muito conhecida, ainda que, apesar de tudo, com uma ou 
outra roupagem, elas sempre reapareçam. As posições reformistas da socialdemocracia da 
Segunda Internacional reivindicavam as transformações graduais pelas reformas, 
transformações estas que não colocavam em xeque a estrutura de dominação. Estes partidos, 
muito rapidamente, transformaram-se em paladinos das pequenas mudanças ou dos ajustes 
secundários no funcionamento sistêmico. Ainda que mencionada, a palavra socialismo, em 
seus discursos, e logo nos fatos, renunciou toda possibilidade real de superação do 
capitalismo. O reformismo não adotou uma estratégia de poder, mas acomodou-se em seu seio 
até integrar-se ao conjunto das estruturas, ao funcionamento, às instituições do 
capitalismo; sua lógica desenvolveu-se no mesmo sentido: pedindo votos ao povo e dizendo 
representar-lhe. Finalmente, a socialdemocracia fez do capitalismo seu melhor ambiente de 
existência e de reprodução. Hoje fala pouco, ou nem sequer fala, de socialismo e da busca 
de transformações de fundo por meio das melhorias do capitalismo. Tanto é assim, que, em 
muitos países, ela fez acordos com partidos de direita.

Por outro lado temos o caso de Lênin que, apropriando-se da tese de Kautsky, de que a 
ideologia vem de fora, confia ao partido, também, a ideologia do proletariado. Sendo 
assim, é o partido que faz a política e que é o portador esclarecido da ideologia das 
multidões de trabalhadores. Uma concepção claramente vanguardista, que, apropriando-se de 
tudo, finalmente, deposita todas suas expectativas nos intelectuais, quase todos eles 
provenientes de setores abastados ou da classe média alta da sociedade.

Aqui, é necessário fazer um parêntese, para ressaltar a importância de um tema que é a 
confusão entre dois conceitos muito distintos: a ideologia e a teoria, que abordaremos 
adiante de maneira sintética. Mas voltemos ao marxismo-leninismo.

Os "de baixo" - vou utilizar esse termo, que me parece claro e é próximo daqueles que 
Bakunin usava em certas ocasiões -, para os marxistas-leninistas, ficam subordinados em 
relação a tudo o que não fossem as reivindicações. E, isso, sempre que estas 
reivindicações não colocassem em xeque as alianças e as prioridades estabelecidas pelo 
partido. Neste esquema, há, de fato, somente uma direção: do partido para a classe e toda 
a população. A crença fundamental é que a população - e seu sujeito histórico, "a classe" 
- deve permanecer subordinada ao partido, já que, sozinha, a classe é incapaz de criar 
instâncias de libertação. Falou-se, frequentemente, que a classe "não tinha consciência 
para si". Sustentou-se, também, que no seio da sociedade capitalista não seria possível 
gerar, desde baixo, as condições fundamentais para a ruptura. Não importa, assim, o nível 
de desenvolvimento, de auto-organização, de autogestão das instâncias populares. No fundo, 
não se trata de criar um povo forte, mas um partido forte.

Uma vez que o marxismo leninismo chegou ao poder, essa lógica não mudou. O proletariado e 
o povo deveriam permanecer fiéis ao partido, sob pena de serem tratados como traidores 
daqueles que os representavam e promoviam seus interesses. O pilar da continuidade do 
regime sustentava-se em um povo obediente ou que não manifestava claramente suas 
discordâncias.

Podemos dizer que nós, anarquistas especifistas, não separamos os dois níveis, e, muito 
menos, subordinamos um nível a outro. Acreditamos que são níveis específicos, que cumprem 
funções sociais distintas e que devem estar em interação constante.

A forma organizativa não é algo menos importante. O centralismo "democrático" é uma 
concepção que se articula com a dinâmica vanguardista do partido; sem esta ferramenta 
organizativa, tal orientação não seria possível. Portanto, esta forma organizativa deve 
ser avaliada como uma parte importante da estrutura conceitual dessas organizações. Nas 
nossas organizações, o federalismo cumpre este papel.

Há outras correntes históricas do marxismo, mas é possível dizer que elas possuem um 
denominador comum: a concepção vanguardista. Muitas vezes maquiadas, mas que não modificam 
o eixo de sua ação política fundamental. Todas elas consideram o Estado um centro, a 
partir do qual se devem promover as transformações que propõem realizar.

Entretanto, há algumas correntes antiautoritárias que, talvez, não possam ser definidas 
com rigor, se estabelecermos um padrão comum. Historicamente, no Rio da Prata houve grupos 
de peso, fundamentalmente na Argentina, que se denominavam antiorganizadores. Com o tempo, 
e por meio de um complexo processo, incorporaram-se no trabalho sindical e impulsionaram 
um sindicalismo de tipo revolucionário.

Nesta região, há o anarcossindicalismo, que constitui um movimento antiautoritário 
bastante singular; em termos práticos, faz política e ideologia a partir do próprio 
trabalho sindical. Os anarquistas sindicalistas defendem uma concepção de que o sindicato 
é capaz de promover a revolução e, posteriormente, reconstruir a sociedade sobre bases 
distintas, socialistas e libertárias. Mas, diferente da maioria de outros grupos 
antiautoritários, estão inseridos no meio sindical e lidam diariamente com as 
reivindicações, com as exigências e lutas da classe trabalhadora, à qual eles encontram-se 
vinculados.

Por exemplo, setores da Confederación General del Trabajo (CGT) espanhola, claramente 
anarquistas, impulsionaram, anos atrás, uma instância que servia de encontro e diálogo aos 
grupos anarquistas interessados em revitalizar nossa ideologia. Essa iniciativa chamou-se 
Solidariedade Internacional Libertária (SIL) e José Maria Olaizola, naquele momento 
secretário da CGT, foi quem impulsionou esta iniciativa. Foi uma instância em que podíamos 
analisar nossa atual situação com companheiros de diferentes países. A nova comissão que 
assumiu a CGT, designada pelo congresso, não deu continuidade à SIL, que acabou deixando 
de existir. Os companheiros que defendiam a formação da SIL, em sua maioria, formaram o 
grupo Apoio Mútuo, e seguem com a mesma preocupação. Este núcleo é organicista e possui 
relações muito próximas com organizações específicas, tanto na Europa quanto na América 
Latina. Este é um exemplo que demonstra as singularidades de alguns destes movimentos e os 
pontos em comum que podemos ter com eles.

Refiro-me, brevemente, a uma resolução do congresso da FAU, de 1986, pois me parece que 
ela tem muito a ver com este tema. Naquela resolução, ratificada no congresso de 1988, 
estabeleceu-se que deveríamos fazer o máximo possível para realizar trabalhos pontuais e 
acordos básicos, no seio das organizações sociais, com todos os companheiros libertários 
que estivessem militando em níveis abarcados pela organização. Estabeleceu-se, também, que 
deveríamos evitar ao máximo as polêmicas, tão empobrecedoras e infecundas em outros 
momentos, e que ameaçavam retornar. Deveríamos ter em mente, para estabelecer qualquer 
tipo de ação conjunta pontual, que estes outros agrupamentos anarquistas possuíam outras 
concepções, outras preferências e outras estratégias. Dentro destes marcos, 
coordenaríamos, como organização diferenciada com estratégia própria, aquilo que fosse 
possível, em termos de ação social. Sabíamos que haveria grupos que desejariam fazer isso 
e outros não. Deliberou-se que as discussões a serem realizadas nestas situações deveriam 
se dar, unicamente, em torno dos pontos concretos em questão.

Na prática, isso aconteceu em várias oportunidades. Houve coordenação com outros grupos e 
companheiros anarquistas, por exemplo, durante a guerra contra o Iraque, nas datas que 
recordavam anarquistas como Sacco e Vanzetti e acontecimentos como a Revolução Espanhola. 
Mas, não há dúvida, esta coordenação depende de cada lugar e das relações estabelecidas.

Em relação à pergunta sobre a questão do partido, devo dizer que se vem identificando, 
especialmente nos últimos tempos, os conceitos de partido e política; além disso, o 
partido tem sido identificado com uma maneira de fazer política bastante desprestigiada em 
diversos setores. Geralmente, fala-se que os partidos eleitorais e de estrutura 
centralista-democrática levam o povo em consideração somente em períodos eleitorais. No 
tempo restante, a distância entre os partidos e o povo é imensa. Em alguns casos, há 
políticos que apoiam a repressão de seus próprios eleitores, por estarem se mobilizando em 
torno de alguma questão.

Nós, assim como muitos outros grupos libertários, não concebemos a política desta maneira. 
Entretanto, não podemos jogar fora o bebê junto com a água do banho.

Tratarei agora das relações entre as organizações sociais e políticas. Abordarei, neste 
momento, somente alguns aspectos, e deixarei as questões sobre poder popular para serem 
tratadas um pouco mais adiante.

Um primeiro aspecto, que me parece ser necessário abordar, é a questão da independência de 
classe. Por classe, refiro-me, aqui, ao conjunto das classes oprimidas, produzido neste 
período histórico. Esta relação entre as classes e o período histórico será também 
desenvolvida um pouco mais à frente. A questão da independência de classe está 
estreitamente vinculada com a possibilidade de criar poder popular; ou, como dizia a FAU 
nos anos 1960, de "criar um povo forte". A produção de um discurso correspondente também 
é, sem dúvidas, de fundamental importância. Como dizem alguns estudiosos deste assunto, 
"em qualquer sociedade, múltiplas relações de poder atravessam, caracterizam e constituem 
o corpo social. Essas relações de poder não podem dissociar-se, estabelecer-se ou 
funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação, um funcionamento dos discursos".

Uma concepção e uma prática de poder popular têm sua produção específica, seu próprio 
discurso; possuem sua própria produção. Para que esta concepção e esta prática intervenham 
como uma força transformadora, para que condicionem a conjuntura e produzam avanços 
desestruturantes, há uma condição necessária: elas devem manter, a todo tempo, sua 
independência. Em outros momentos do desenvolvimento histórico falávamos em "independência 
de classe"; hoje, diríamos, nos ajustando ao novo contexto, "independência das classes 
oprimidas", ou seja, de todos os movimentos sociais. Com esta categoria, queremos abarcar 
as características particulares de cada formação social, sua história, suas 
transformações, sem descuidar daquilo que há de comum com outros países, fundamentalmente 
com os de nossa região, e das condicionantes estabelecidas pelas estruturas mundiais de poder.

Sabe-se bem que as redes do poder dominante trituram, manipulam e moldam; englobam 
partidos, ideologias, movimentos e histórias, moldando-os e transformando-os em bons 
seguidores daquilo que é velho e em reprodutores do que aí está. Este mecanismo repete-se 
constantemente. Incomensuráveis forças confirmam tal lógica e fazem girar essa roda da 
loucura. Estes dispositivos devem ser combatidos com propostas e ações de conteúdo 
distinto, com uma coerência que possibilite a firmeza. Não é demais, portanto, reafirmar 
que a imensa circulação das mesmas dinâmicas e lógicas não pode criar algo novo. Ela só 
pode recriar aquilo que já existe, com maior ou menor fantasia.

Para que outras relações sociais possam ser estabelecidas, os fatos parecem indicar a 
necessidade da utilização de outros materiais para essa nova construção: outro enfoque, 
outra perspectiva, outra lógica, outras práticas, outros mecanismos e outro ponto de 
partida. Isso não tem nada de original. Trata-se da nova civilização esboçada pelos velhos 
socialistas. Este processo deve apoiar-se e desenvolver-se por meio de uma independência 
férrea das classes oprimidas, de um povo que construa seu destino, na medida em que as 
condições históricas possibilitem.

Os obstáculos, as relações, as próprias alianças tácitas e explícitas devem ser feitas a 
partir desta perspectiva de independência. Como não podemos e nem devemos nos isolar, como 
devemos fazer parte da "confusão" e dos complexos e variáveis acontecimentos sociais, este 
fator adquire, em termos estratégicos, uma importância de primeira ordem.

Vimos que as populações muitas vezes realizam suas reivindicações, seus protestos e suas 
exigências fora dos canais tradicionais. Entretanto, não foram somente as lutas amplas, 
que derrubaram governos ou impediram golpes de Estado de direita, mas também combates 
reivindicativos de ação direta em torno de temas pontuais e que, algumas vezes, exerceram 
justiça popular.

Nestes últimos tempos, não têm sido os governos e nem os partidos socialdemocratas que vêm 
buscando frear efetivamente a investida neoliberal que avança. Como nos mostra a história 
recente, as únicas forças sociais que atuaram, realmente, buscando bloquear, resistir e, 
inclusive, derrotar regimes neoliberais foram as forças dos movimentos das classes 
oprimidas que ganharam as ruas. Depois chegaram governos "progressistas" de diferentes 
tipos, mas isso é um outro assunto.

Aqueles que se fundamentam em paradigmas de um passado que já não mais existe falam em 
canalizar essa expressão popular e suas lutas para vias autorizadas e buscam fazer isso. 
Não querem convencer-se de que estas vias só domesticam corpos e têm resultados perversos 
na satisfação das urgências e dos anseios populares; querem levar a energia e a esperança 
que ressurgem a caminhos sem saída.

Um processo de avanço do socialismo é resultado de determinadas práticas que permitem uma 
formação real de consciência do próprio objetivo, e nisso a solidariedade tem um papel 
mais do que importante, assim como a mobilização e a organização das distintas expressões 
populares, de todo esse universo dos de baixo. Sabe-se que o socialismo não será decretado 
e nem realizado somente pelos partidos que se reivindicam socialistas.

Uma organização política em sintonia com seu tempo e com o movimento popular tem um papel 
fundamental a cumprir. Entretanto, a força encontra-se no próprio povo, tanto no que diz 
respeito à etapa prévia, quanto à etapa posterior. A independência do movimento popular, 
de todas suas formas organizativas - autogeridas, auto-organizadas, efetivamente 
participativas e federalistas -, é o que dará solidez ao processo e proporcionará as 
possibilidades reais para uma transformação socialista.

Há outros que se arriscam em opiniões um tanto ousadas. Dizem-nos que, nestas 
mobilizações, há o germe do novo, da sociedade "pós-capitalista", e que se trata de um 
processo que não pode ser detido. Nenhum fatalismo é bom. Serão necessárias organização e 
vontade das forças sociais para que se produzam transformações profundas e que se 
estabeleça a linha de um processo consequente. No entanto, isso é função da organização 
política; em sintonia com esse processo, ela se torna imprescindível.


FC - Existe um socialismo científico? Pode-se produzir um corpo conceitual que conduza a 
ele? Se não existe nenhuma fatalidade que nos leve ao socialismo, como de fato não há, 
como definiríamos então o socialismo, em nosso caso, o socialismo libertário?

JCM - Utilizou-se com certa regularidade dois conceitos como sinônimos, como se tratassem 
da mesma coisa, e o chamado "socialismo científico" tem relação com isso. Explico. Teoria 
(campo da ciência) é uma coisa, e, ideologia, é outra, bem diferente. Talvez seja mais 
didático tratar esta questão da ideologia e da teoria antes de abordarmos o socialismo 
científico. Há escritos de diferentes momentos da organização que abordaram essa 
problemática e buscarei retomá-los.

A teoria - no âmbito social, que é nosso objeto neste momento - aponta para a elaboração 
de instrumentos conceituais para pensar e conhecer tudo o que puder ser conhecido, de 
maneira rigorosa, profunda, deste conjunto social concreto, ou seja, da formação social 
que corresponde ao conjunto de suas estruturas e práticas. Nesse sentido, pode-se falar da 
teoria como equivalente da ciência, e é assim que ela deve ser pensada.

A ideologia, por outro lado, possui elementos de natureza não científica, que contribuem 
para dinamizar a ação e para motivá-la, com base em circunstâncias que, ainda que possuam 
relação com as condições sociais existentes, não derivam delas em sentido estrito; a ação 
não é determinada mecanicamente por aquilo que, em algum momento, chamou-se de objetivo e 
nem mesmo pela infraestrutura. São componentes de primeira ordem da ideologia: as ideias, 
as representações, os comportamentos, os reflexos e a sensibilidade. Pertencem também ao 
campo da ideologia a expressão de motivações, as propostas de objetivos, de aspirações, de 
metas ideais, as utopias, as esperanças, os ódios e os desejos.

A análise rigorosa de uma situação concreta é, assim, uma análise teórica, que deve ser a 
mais científica possível. A teoria precisa e circunstancia as condições da ação política.

Certamente, há uma vinculação estreita entre teoria e ideologia, já que as propostas 
ideológicas fundem-se com as conclusões das análises teóricas, se apoiam nelas e as 
instrumentam. Uma ideologia é mais eficaz como motor da ação política, quanto mais 
firmemente ela estiver apoiada nos aportes da teoria.

O trabalho teórico sempre se sustenta e se baseia naquilo que acontece na realidade 
histórica. No entanto, trata-se de um trabalho que se situa completamente no campo do 
pensamento: não há conceitos que sejam mais reais que outros, assim como a ideologia é tão 
real quanto as forças produtivas.

Cabe, portanto, pontuar algumas coisas que serão tratadas a seguir.

Primeiramente, a distinção entre a realidade existente, os processos reais históricos, por 
um lado, e os processos do pensamento, que apontam para o conhecimento e a compreensão da 
realidade, por outro. Pode-se dizer, em relação a isso, que o processo de pensamento 
constitui uma realidade distinta que cumpre determinadas funções. A produção científica, 
teórica, tem seu caráter específico e deve ser abordada com precisão e sem confusão. Ela 
conta com um esforço para o conhecimento, com a utilização das ferramentas que cada época 
fornece, visando tratar do objeto com o maior rigor científico possível. A "caixa de 
ferramentas" científicas a ser utilizada não exclui as criações e as possíveis 
descontinuidades, por mais que elas sejam episódicas na história do conhecimento. De todo 
modo, é a partir de determinado nível de saber que se torna possível a criação de um novo 
conhecimento, o qual afetará a episteme utilizada.

Mas voltemos à questão da teoria política, que é o que, neste momento, nos interessa. O 
trabalho teórico, neste campo, é sempre realizado a partir de uma matéria prima 
determinada. No entanto, deve-se destacar que ele parte de informações, dados e noções 
sobre o tema em questão. No processo de trabalho teórico, este material primário é tratado 
por meio de certos instrumentos conceituais, de certos instrumentos de pensamento. O 
produto deste tratamento, deste trabalho, é o conhecimento.

Em termos mais adequados, pode-se dizer que só existem objetos singulares: situações 
históricas determinadas, em sociedades determinadas, em momentos determinados. O 
conhecimento teórico tem como fim, como propósito, conhecer estas singularidades o máximo 
possível. No processo de produção do conhecimento, portanto, transforma-se a matéria prima 
(percepção superficial) em um produto (conhecimento rigoroso, científico). Muitas 
produções passam a ser instrumentos, que já não se referem ao singular; são conceitos 
gerais, como é o caso, por exemplo, do conceito de classe.

Quero dizer, com isso, que o processo de conhecimento do conjunto da realidade social é 
suscetível de um aprofundamento teórico infinito, pois o conhecimento, como tal, é 
infinito. Assim, não se pode esperar um conhecimento "acabado" da realidade social em seu 
conjunto para começar a atuar sobre ela, no intuito de transformá-la. Não se pode, também, 
tentar transformá-la sem conhecê-la adequadamente.

O socialismo, a ideia e a aspiração de uma sociedade diferente, do estabelecimento de 
relações sociais justas e solidárias, dos "sonhos" de igualdade e de liberdade são 
elementos que pertencem ao campo da ideologia. A ideologia, seja qual for, é inerente à 
condição humana, a este ser humano social; não existe ser humano sem ideologia, não há um 
parque jurássico para ele. As aspirações, os "sonhos", os ódios, os desejos, os amores - 
todos os quais convivem, muitas vezes, com os deuses - sempre estiveram dentro do ser 
humano. É claro que estes conceitos, que são de épocas distintas, não expressam, nem de 
perto, todos aqueles sentimentos.

Não há um sujeito em si, universal, uma invenção de nossos tempos; os sujeitos são bem 
distintos nos diferentes momentos. O sujeito como produção histórica é filho de seu tempo. 
Para nós, hoje, interessa o sujeito e a ideologia nessa estrutura de dominação chamada 
capitalismo.

É nesse contexto de diferenciação da teoria e da ideologia que se pode falar - e que, 
efetivamente, falamos - de certeza ideológica e de "ignorância filosófica", como dizia 
Malatesta. "Ignorância" no sentido de que o conhecimento é infinito, algo que não nos 
isenta de tentar conhecer o máximo possível os nossos tempos, para que nossa atuação 
política e social não seja realizada desorientadamente.

Não há socialismo científico. Nenhuma lei social nos fará chegar, necessariamente, a esta 
sublime aspiração. Tampouco será possível conhecer as leis gerais do funcionamento social, 
em um tal nível que seja possível prever, com certeza total, os acontecimentos, o porvir, 
o caráter específico de um futuro determinado.

A história nos deu alguns ensinamentos, e um deles é que a participação nos acontecimentos 
é fundamental, que a luta que gera novas possibilidades. É esse tipo de ensinamento que, 
junto com todo o desenvolvimento teórico que uma organização pode realizar, permitirá dar 
passos rumo a um socialismo que, por si só, nunca chegará.


FC - Você acredita que a ideologia, juntamente com a teoria, é um elemento fundamental 
para a ação política? Em relação às formações sociais, pode-se falar na existência de 
somente uma ideologia?

JCM - A ideologia é um elemento fundamental para a ação política; ela está sempre presente 
de uma ou outra maneira e existe simultaneamente à ação. Trata-se de uma esfera de 
primeira ordem da realidade social e não pode ser concebida como um mero reflexo de 
outras. Em alguns casos, é ela que "determina" os acontecimentos nos quais, sem dúvida, 
intervêm uma ampla gama de elementos como os econômicos e os jurídicos-militares.

Marx definia a ideologia como um espelho em seu esquema economicista de infra e 
superestrutura. Longe disso; a ideologia constitui uma esfera com autonomia relativa, 
opera em interação constante e possui enorme gravitação. Inclusive, estudiosos do tema 
atribuem a ela um tempo próprio de desenvolvimento e de transformação, rompendo, assim, 
com o conceito homogêneo de tempo, que está implícito na maioria dos estudos sociais.

Pode-se transformar a economia e, ao mesmo tempo, transformar muito pouco a ideologia, e, 
inclusive, seguir reproduzindo grande parte das concepções anteriores. A URSS e Cuba 
comprovam empiricamente esta condição da ideologia. Há quem afirme, com bastante 
fundamento, que a ideologia, ou grande parte dela, tende a continuar, mesmo que as 
condições materiais que a originaram tenham desaparecido.

É também bastante relevante observar o funcionamento da ideologia nas formações sociais 
concretas, pois não é estranho que o conceito geral vincule-se unicamente ao proletariado, 
ou seja, a classe que, em termos abstrato-formais, é antagônica à classe dominante. Em uma 
formação social, o que se nota, por mais que o marco seja de dominação do sistema 
capitalista, é que muitas coisas não estão em estado puro, mas bastante "misturadas". De 
todo modo, é primordial tomar como referência a ideologia desenvolvida entre os 
trabalhadores na história e os valores que foram deixados como legado, em termos de 
aspirações de uma nova sociedade fundamentada em outras bases.


A ideologia e os valores dos trabalhadores

As transformações ocorridas no campo social, no campo do trabalho, produziram um conjunto 
de novas e dispersas práticas sociais. Foram-se criando muitos "compartimentos estanques 
ou semiestanques", com nenhuma ou pouca relação entre si. No entanto, o que quero 
ressaltar aqui é o problema ideológico gerado por isso.

Em outro momento histórico, em um caminho de outro desdobramento e outra articulação do 
sistema capitalista, produziu-se com alguma força um conjunto de ideias, de 
representações, de noções e de sentimentos no imaginário do universo dos trabalhadores. O 
sistema capitalista e o burguês eram inimigos evidentes, pois seus interesses eram 
frontalmente opostos aos objetivos da classe trabalhadora. Os operários, concentrados em 
grandes fábricas, criaram formas organizativas para conquistar melhorias e, por esse 
motivo, sofreram múltiplas e brutais repressões.

Boa parte do imaginário desses trabalhadores começou a ser preenchido com determinadas 
certezas: naquele sistema não havia lugar para eles; buscar justiça nele era uma quimera. 
As lutas frontais, as condições cruéis de vida e a solidariedade de grupo despertaram 
sonhos que se relacionavam à emancipação social. Elementos ideológicos antagônicos ao 
sistema animaram lutas imediatas e sonhos futuros. As grandes fábricas e os sindicatos 
permitiram o encontro dos trabalhadores e o fortalecimento de um sentimento de força e de 
pertencimento a algo distinto do sistema vigente; esse sentimento latente, misturado a 
outros ingredientes, podia ser organizado coerentemente.

Se é verdade que só se pode organizar algo que de fato existe, em tais circunstancias 
sociais se podia organizar, e de fato se organizou, em termos primários e também com certo 
desenvolvimento, uma ideologia antagônica, inimiga do sistema capitalista e que aspirava 
um ordenamento social muito diferente.

Parece óbvio que não foram os discursos abstratos e intelectuais que deram origem a esta 
ideologia, mas as condições da vida cotidiana e as práticas, as lutas e a solidariedade 
ombro a ombro dos trabalhadores. Neste processo, a teoria teve um papel: organizar esse 
mundo de ideias e sentimentos, muito "plural" e com vários e poderosos fragmentos antagônicos.

Nesse período histórico houve a produção de valores como solidariedade, apoio mútuo, a 
concepção de um mundo diferente do existente, a visão do opressor e do explorador como 
inimigos irreconciliáveis. Os corpos que foram disciplinados para o trabalho regular e 
metódico recriaram esta condição, promovendo o orgulho de ser trabalhador, de produzir os 
bens sociais, de considerar sua tarefa como algo primordial para se conseguir o bem-estar 
da sociedade, de pensar toda a reconstrução sobre a base da produção necessária de bens e 
serviços. No entanto, esta perspectiva não foi promovida de maneira estreita e refletiu 
sobre o tempo livre necessário para desfrutar "da vida"; foi assim que se lutou pela 
redução da jornada de trabalho. A ideia de não se trabalhar mais que o necessário também 
fez parte deste horizonte ideológico.

Essas ideias e esses valores morreram com a etapa do capitalismo que durou até há 
aproximadamente três décadas? Esses elementos ideológicos foram desterrados ou enterrados 
pela fragmentação? Posso dizer, inicialmente, que não. Muitos estudos sérios demonstram 
que a ideologia não tem o mesmo ritmo de mudança que outras estruturas sociais. Ela 
possui, como mencionei antes, a particularidade de permanecer, mesmo que desapareçam as 
condições que lhe deram existência. Sendo isso verdade, parte significativa desta produção 
histórica ainda possuiria vida, talvez mais incorporada do que nunca. A ideologia estaria, 
assim, no imaginário popular, o qual é tão material como qualquer outra matéria.

Aonde ela se encontra exatamente? Em que estado ela está? Estas perguntas, e é claro que 
outras poderiam ser feitas, são as que hoje importam. Agregarei outra: Ela pode ser 
reconstruída com discursos intelectuais ou puramente teóricos? Nada parece indicá-lo. Em 
que marco encontra-se hoje esta ideologia imprescindível para a ruptura? Em que outros 
lugares pode ser produzido algo parecido ou articulável com ela?

Aqui teríamos de conciliar Malatesta e Bachelard. O primeiro dizia que estamos sempre em 
estado de ignorância filosófica, o que nos permite realizar um pensamento crítico e saber 
que as certezas não são absolutas. O segundo nos diria que já é um avanço colocar-se 
corretamente um problema, mesmo que não possamos avançar muito em seu tratamento. Essa é a 
questão; queremos somente colocar um problema para pensar sobre ele. Não acreditamos que 
hoje possamos avançar muito além disso, mas, de qualquer maneira, fica colocado o problema.

Mas por que queremos falar de coisas que tanto ignoramos? A resposta é a seguinte. Temos a 
convicção de que, sem uma ideologia antagônica e valores correspondentes, não há 
possibilidades de superar este sistema imundo; hoje, sem tais elementos, não podemos 
sequer atingir importantes conquistas para os de baixo. Em nosso continente há diversas 
expressões ideológicas que devem ser estudadas; sem considerar seus códigos específicos, a 
comunicação de uma organização política poderá estar semeando no deserto.

Há povos originários que não podem ser reduzidos, em termos explicativos, à categoria 
"camponês", de raiz econômica. Há opressões em comunidades de diferentes etnias, de 
afrodescendentes, mulheres, "marginalizados", que carecem das coisas mais fundamentais. 
Nestes e em outros universos, não se pode criar uma ideologia proletária clássica, pois 
isso significaria desligar o sujeito daquilo que ele vive diariamente e também da maneira 
como ele vive. Agreguemos mais algumas considerações sobre isso.


Os compartimentos sociais derivados da fragmentação

As condições sociais regulares e concretas que devem ser enfrentadas por um grupo, em cada 
momento, produzem comportamentos específicos. Elas desenvolvem elementos ideológicos que 
têm relevância considerável para as pessoas que se socializam desde a infância em 
determinados "compartimentos". A diferença desta situação é, basicamente, a desigualdade. 
Uma distribuição brutalmente desigual de bens materiais e simbólicos.

Há aqueles que afirmam que assim "se reproduz no indivíduo ou no grupo a estrutura do 
universo social em que transcorre sua existência". Os comportamentos sociais são 
semelhantes para todos aqueles que estão em um determinado compartimento. Dessa maneira, 
uma classe oprimida fragmentada não produz a mesma coisa, em termos ideológicos, em cada 
um de seus compartimentos.

Há, portanto, nessa situação social fluida e atomizada, frações de classe que possuem uma 
relação longínqua com pouca ou nenhuma produção com a ideologia do trabalho. Tanto o 
compartimento alheio a uma experiência direta, por ausência das condições que a permitam, 
quanto, quase no outro extremo, aqueles que se beneficiam de material simbólico cada vez 
mais "cheio" de conteúdo reprodutor, sem oportunidades de incorporação ao universo dos 
trabalhadores.

Parece imprescindível verificar como romper com isso ou mesmo como penetrar nos 
compartimentos diferenciados que não estão reproduzindo a ideologia vigente. Trata-se, 
praticamente, de perguntar: Como podemos articular as práticas específicas de cada fração 
de classe com o legado histórico e os discursos racionais para obter uma ideologia de 
confronto e ruptura?

Quando falamos da construção de uma ideologia de resistência, não nos referimos a uma 
elaboração intelectual, mas a uma dinâmica social, em relação à qual contribuímos com 
nossa intencionalidade e tomando em conta seus mecanismos e sua esfera real de 
interpenetração possível.

A tentativa de compreender este fenômeno complexo pertence à esfera da teoria, cuja 
produção é uma tarefa da organização política que não se realiza na rotina, na repetição 
de esquemas ou nas abstrações puras. As abstrações possuem grande valor em seu campo 
específico e, se tomadas em conta adequadamente, podem guiar a compreensão de fenômenos 
históricos concretos, localizados em tempos e lugares singulares.

Se bem trabalhado, esse tema adquire uma importância particular na concepção estratégica 
de frente de classes oprimidas e poder popular.



FC - Quais posições os anarquistas devem defender nos movimentos populares? Como a 
organização específica pode funcionar como um agente catalisador dentro deles, os 
influenciado para terem determinadas características e conectando diversos movimentos com 
objetivo de aumentar sua força social?

JCM - Utilizarei materiais da FAU para responder esta pergunta, adequando-os e 
sintetizando-os.


O anarquismo organizado politicamente é o decisivo

O problema do poder, decisivo em uma transformação social profunda, só pode ser resolvido 
no nível político, por meio da luta política. E ela requer uma forma específica de 
organização: a organização política revolucionária, para nós, de matriz libertária.

Somente por meio de sua ação, enraizada nas massas, nos diferentes processos populares, é 
possível chegar à destruição do aparelho estatal burguês, do conjunto de micropoderes que 
o sustenta e recria.

É imprescindível que esta estrutura seja substituída por mecanismos de poder popular que 
tenham uma perspectiva política e sejam respaldados por um povo forte.

Parece necessário agregar, ainda que brevemente, mais algumas coisas sobre o poder. 
Estudos que parecem bastante rigorosos indicam algumas questões fundamentais: o poder 
circula por todo o corpo social, pelas diferentes esferas estruturadas; ou seja, por todas 
as relações sociais. Assim, há poder na esfera econômica, na esfera 
política-jurídica-militar e na esfera ideológica-cultural; há poder em todos os níveis da 
sociedade. Nas escalas menores, o poder adquire importância também à luz da formação de 
embriões de nova civilização, na articulação de diferentes formas de auto-organização ou 
autogestão. Em grande escala, o poder apresenta-se, concentrado e com maior irradiação, em 
lugares de maior dimensão.

É muito relevante considerar que há um universo social cotidiano, de pequenas dimensões, 
que constitui uma fábrica de produção de novas noções, resistências e técnicas de poder 
popular. Neste universo, a organização política anarquista tem um grande trabalho a realizar.

Na realidade, as formas de poder, e o Estado como uma instância especial, localizam-se em 
um nível preciso da estrutura social atual. Mesmo que, obviamente, elas tenham relações de 
interdependência com os outros níveis da realidade social - econômico, ideológico, 
jurídico etc. -, não podem ser simplesmente reduzidas a eles. Em termos concretos, isso 
significa que a atividade política não pode ser reduzida à luta econômica, nem à prática 
sindical e popular em geral, ainda que essa prática possa conter, como de fato contém, 
elementos "políticos".

A luta econômica, reivindicativa e popular não produz espontaneamente a luta contra o 
poder político enquanto tal. Também não produz os meios organizativos e técnicos para a 
luta pelo poder e nem a capacidade de descontinuar as relações sociais que se reproduzem. 
Por isso, o espontaneísmo, as mobilizações espontâneas de massas, reflexo de um acúmulo de 
problemas sem solução que logo "estouram", se não forem canalizados e instrumentalizados 
adequadamente, dificilmente transcendem ao plano político, no sentido de modificar as 
relações de poder, de abrir espaços para um novo processo de transformação profunda.

Isso acontece porque a derrocada do poder - que a burguesia não pode admitir, pois disso 
depende sua vida - supõe a criação de uma outra ordem social, com um outro "modelo" de 
organização - com outra economia, outra ideologia - e, além disso, uma inevitável luta, um 
processo de lutas populares constantes, e meios técnicos que o movimento de massas, por si 
só, espontaneamente, não pode desenvolver com êxito. Esta também não é sua tarefa 
específica. Tomando em conta um amplo período histórico e mesmo a nossa época, o 
ensinamento que temos é que os grandes movimentos espontâneos de "massas" são muito ricos 
nas experiências que desenvolvem, mas não possuem necessariamente uma estratégia que 
aponte para a transformação do sistema. Mesmo no caso dos movimentos de massas que estejam 
construindo certo nível de poder popular, algumas práticas sociais novas e produzindo 
novas noções ideológicas.

No atual nível de desenvolvimento sistêmico, a única coisa que garante o triunfo é a 
destruição do aparelho de poder burguês, toda sua estrutura de dominação, na qual o Estado 
tem um papel de primeira ordem - alguns falam em condensação, outros em coagulação. Isso 
supõe uma ação político-revolucionária mais ou menos prolongada, com uma estratégia 
renovada e uma tática ajustada às variações conjunturais. Negar isso significa renunciar a 
toda transformação revolucionária, pois esta é a única transformação real e profunda que 
pode modificar o sistema de dominação, da maneira como ele está estruturado.

Diz-se, acertadamente, que algo ideologicamente fundamental é demonstrar diante do povo 
uma perspectiva de vitória, um caminho de esperança, de confiança na possibilidade de uma 
transformação profunda e revolucionária. Esta "demonstração" é função de uma organização 
política; em nosso caso, do anarquismo organizado. A organização política promove, em 
todas suas ações, um nível ideológico, de consciência, diferente daquele gerado pela 
prática espontânea das massas, saturadas de noções, valores e representações que o sistema 
promove por seus grandes meios e pelo disciplinamento promovido por variados mecanismos. 
Trata-se de construir um nível que permita superar este tipo de espontaneísmo.

Para isso, é necessário que se desenvolva uma atividade especificamente política, que 
constitui a única maneira de canalizar para a vitória a rebeldia e as construções que são 
geradas no nível popular em distintos processos. Por isso, uma organização política é 
imprescindível. Na atual conjuntura, aqui e agora, ela possui certas características, que 
derivam das peculiaridades estratégicas que a situação impõe. De qualquer maneira, esta 
organização política deve ser a portadora, interna e externamente, dos valores que 
considera serem primordiais para que se estabeleçam novas relações sociais.


Quando uma nova forma de fazer política é somente retórica

Sustentar uma nova forma de fazer política ou de construir o poder popular não significa 
adotar uma fraseologia retórica e elaborada, nem embelezar velhos e reiterados discursos 
que conduzem, final e novamente, ao mesmo lugar. Há um ditado interessante: "Devagar 
porque tenho pressa". Pois a pressa tem levado, repetidamente, a becos sem saída ou à 
inserção mais profunda dos de baixo e daqueles que os querem representar neste cruel e 
violento sistema.

Nosso projeto de intenção revolucionária compreende, hoje, como ontem, a escolha coerente 
de caminhos a percorrer. Em relação às ferramentas teóricas que devem ser utilizadas, não 
há dogmas. Toda produção rigorosa que permita uma leitura mais apurada da realidade deve 
ser tomada em conta, com aquela abertura que nos permite viver o nosso tempo, conhecendo 
todas as mudanças que ele trouxe e ainda traz.

Enfim, devemos ter uma leitura que nos permita ver, claramente, os problemas reais de 
nossa época. Ao mesmo tempo, devemos ter a firmeza e a intransigência para enfrentar tudo 
o que o sistema atual produz e sustenta, com o coração e a perseverança colocados em um 
porvir, que deve ser construído todos os dias, nos diferentes âmbitos da militância.

Este processo deve ser levado a cabo sem elitismos e vanguardas, que constituem duas 
maneiras de hierarquizar as práticas e incorporar, mesmo que inconscientemente, valores 
que não pertencem ao campo dos oprimidos. Ele deve conter novos valores, para que não seja 
confuso ou negativo. Do contrário, não se estaria desestruturando ideologicamente esses 
valores hierárquicos, tão conectados com a dominação e com a obediência, mas reforçando 
produções alheias ao sujeito histórico.

A organização política, conforme a concebemos, não é sinônimo de vanguarda e nem de elite 
"esclarecida", sem a qual o pobre "povo ignorante" não tem como sair do labirinto 
capitalista. A organização política constitui parte fundamental na construção desta saída, 
mas a partir de outros valores, de outras práticas ideológicas e éticas, de outra 
sensibilidade social. Organização eficiente não é sinônimo de hierarquia. A organização 
política deve estar sempre dentro dos processos populares e deles fazer parte juntamente 
com o povo, convivendo com seu nível de consciência e aspirando contribuir com seu 
desenvolvimento e mudança positiva. Isso deve se dar a partir de um sentimento de 
pertencimento a este povo, desde um plano de igualdade, e não das "alturas" do saber.

As autoproclamadas vanguardas - com uma concepção clássica de que são as portadoras do 
futuro, e que o levam ao seio do povo como uma novidade - merecem, hoje, ser extintas, em 
função de seu julgamento histórico. A ideologia não vem de fora, mas se produz no próprio 
seio das práticas, das ideias e dos comportamentos que o povo desenvolve em seus 
enfrentamentos. A produção de uma nova tecnologia social-política e de "discursos de 
saber" correspondentes à libertação não pode ocorrer sem que se confrontem aqueles que 
produzem a dominação. Estes discursos devem promover o confronto e alimentar-se de todas 
as instâncias de resistência nas quais o povo protagoniza lutas. Em relação a isso, a 
organização política também está em constante reeducação.

Recorreremos, finalmente, a uma síntese. Para nós, prática política é toda atividade que 
tem por objeto a relação dos explorados e oprimidos com os organismos do poder político, o 
Estado, o governo e suas distintas expressões. Prática política é o enfrentamento do 
governo, expressão do poder imposto, a defesa e a ampliação das liberdades públicas e 
individuais, a capacidade de propostas que correspondam ao interesse geral da população ou 
a seus aspectos parciais. Prática política é, também, a insurreição como instância de 
questionamento violento de uma situação que queremos modificar. Práticas políticas são as 
propostas que, recorrendo às reivindicações populares, enfrentam os organismos de poder 
dominante, apresentam soluções para temas gerais e concretos e obrigam os organismos de 
poder a adotá-las e torná-las válidas para o conjunto da sociedade.

Exemplo disso são as mobilizações que ampliam os direitos populares. Claramente, estas 
conquistas realizadas a partir de uma força social só podem ser mantidas e ampliadas 
quando se conta com uma força social correspondente.

Dizem que "o poder existe em ato", e o mesmo se pode dizer da revolução. Não se trata de 
uma potencialidade, de algo que surge diante de determinado conjuro, e também não 
constitui um ato isolado. Ela exige práticas modificadoras, de ruptura, de 
descontinuidade, em campos como o econômico, o ideológico, o político-jurídico e o 
cultural em geral.

Tudo isso se concretiza em um processo com ativa participação popular, protagonizado por 
um povo do qual somos parte e que compõe um amplo espectro dos oprimidos e explorados que 
chamamos, nesta etapa histórica, de conjunto de classes oprimidas.

Trata-se de um povo que sofre, dentro das mudanças estruturais ocorridas, uma fragmentação 
relevante, que deve ser superada por meio de laços solidários que criem vínculos. A 
unidade de suas lutas deve constituir um fundamento de primeira ordem para que se conforme 
uma força social capaz de levar a cabo lutas efetivas e avançar qualitativamente. Isso não 
envolve qualquer tipo de "gradualismo", de linearidade ou de tomada dos postos dos 
inimigos, um a um. É uma outra coisa.

Conhecer o meio em que se atua, estar nele inserido, ter um propósito político nesse fazer 
cotidiano, ter propostas em sintonia com o que as pessoas querem e necessitam, estabelecer 
prioridades, são alguns elementos que permitem o desenvolvimento de uma organização 
política como a nossa. Há um instrumental de nossa ideologia que deve ser colocado em 
prática em circunstâncias concretas: ação direta, democracia direta, autogestão, formas 
federativas de organização etc.

Sua pergunta envolve a questão da força social e também a maneira que poderíamos definir o 
trabalho que realizamos como organização política no seio dos movimentos populares. São 
boas perguntas, que não descartarei. Longe de todo elitismo, como coloquei anteriormente, 
nossa tarefa é a de um pequeno motor, que funciona dentro do povo e em constante 
movimentação. Força social me parece ser um conceito de grande importância. Creio que isso 
está muito vinculado à próxima pergunta, e, portanto, na resposta seguinte direi algo a 
respeito.

FC - Gostaria de abordar a questão de classe. Temos defendido uma posição de atuação dos 
anarquistas junto aos segmentos da população que mais sofrem os efeitos do capitalismo. 
Portanto, ao contrário dos autoritários ortodoxos, que priorizam um tipo de proletariado, 
urbano e industrial, temos proposto uma atuação que, além deste proletariado, tome em 
conta outros sujeitos, como trabalhadores de outros setores, camponeses, precarizados de 
todos os tipos - o "lúmpem", na definição clássica - e indígenas. Como você vê esta 
questão de "onde priorizar o plantio de nossas sementes"? Neste caso, todos os movimentos 
sociais com estes sujeitos, além dos próprios sindicatos, seriam prioridade?

JCM - Nossas forças, como organização política em desenvolvimento, indubitavelmente nos 
colocam limitações. Priorizar todo o campo social - o que, sem dúvidas, seria ótimo se 
pudéssemos fazer -, não é possível, até que contemos com a força necessária. Por isso, 
priorizar os lugares, a partir de análises prévias, e em função da estratégia, é de 
primordial importância.

Poderíamos dizer, rapidamente, que, em distintos níveis, em acordo com as formações 
sociais, há aspectos significativos sendo sentidos pela população: salários, melhores 
condições de trabalho, moradia, saúde, direitos humanos, sobrevivência, bairros, pobreza 
extrema, educação entre outros. Mas é bem possível que, dos três ou quatro elementos 
fundamentais da estratégia estabelecida, se inicie por aqueles que possuem mais 
possibilidades concretas num dado momento.

Devemos sempre ter cuidado para que isso não hipertrofie o projeto político e para que não 
se transforme, em sua dinâmica, numa trava, nos possibilitando, assim, atuar em outras 
frentes que consideremos indispensáveis. Trata-se de algo que a organização política 
regula em suas instâncias organizativas, produzindo um estilo de análise e de discussão 
que permitam que isso ocorra com naturalidade.

Ou seja, há prioridades que são conjunturais e outras que são constitutivas da própria 
estratégia. São situações distintas que, com frequência, se cruzam, e que não têm porque 
estar em contradição ou gerar orientações que, mais tarde, possam se tornar divergentes. 
Articular a ação da organização política nos meios populares exige esta fluidez, o que não 
significa perda de coerência. Deve-se ressaltar que há uma construção que diz respeito à 
própria organização: o estabelecimento dos mecanismos necessários para os diversos campos 
de ação, assim como a avaliação das forças e das experiências que não se possui, de 
maneira a consegui-las.

Há uma série de "conceitos", tais como o de lúmpem, que possuem origem em concepções 
reducionistas, que tentam explicar tudo a partir da estrutura econômica e do papel que, a 
priori, se espera do movimento de trabalhadores, fundamentalmente nos países 
industrializados. Este tipo de posição foi muito comum em determinados momentos 
históricos, mas, hoje, pode-se dizer que se trata de um paradigma que, tomando em conta 
uma abordagem rigorosa, não se sustenta. Há, nesse sentido, uma espécie de crença na 
existência de um sujeito em si, universal, e, também, de elementos de progresso. Trata-se 
de uma estrutura conceitual, com seus "métodos", que exclui, e mesmo desqualifica, de 
maneira nada elegante, tudo aquilo que não se encaixa em seu esquema.

Creio que pode ser interessante recorrer a um material da FAU que aborda este tema, o qual 
foi posteriormente desenvolvido, com maior riqueza, em um trabalho conjunto.


O sujeito da mudança deve ser produzido

"O sujeito também é uma produção histórica", nos dizem os estudiosos. Portanto, devem-se 
colocar em funcionamento práticas que possam produzi-lo e organizá-lo. As práticas do 
sistema, somadas àquelas herdadas de outros sistemas brutais anteriores, orientaram-se 
para a criação de um sujeito individual-coletivo que se adapta o máximo possível à ordem 
existente, aos valores que a sustentam. Não há dúvidas de que é significativo o fato de se 
ter conseguido que isso tenha se internalizado neles e em nós.

Sendo assim, outro sujeito histórico não virá do nada, não aparecerá com um toque de 
mágica; ele deve ser fruto de práticas que façam com que sejam internalizadas outras 
noções que se contraponham à ordem dominante. A participação efetiva, a autogestão, a ação 
direta, as formas federativas de funcionamento realmente democrático, a solidariedade e o 
apoio mútuo necessitam de mecanismos, de organizações e de práticas regulares para que 
sejam desenvolvidos; necessitam constantemente de organização.

A continuidade necessária para um desdobramento que permita a mudança requer uma atividade 
estratégica sustentável. Uma estratégia coerente que possibilite não desconstruir aquilo 
que foi construído num determinado momento. Uma estratégia que contenha em si um mundo 
diferente, que possa ser promovido no seio daquele que lhe é antagônico. A conhecida 
"utilização de todos os meios" pode ser uma maneira efetiva de assegurar que não se 
desenvolva nenhuma estratégia antagônica, portadora dos elementos de desestruturação do 
sistema vigente. Por isso, a orientação geral, a estratégia estabelecida e as táticas a 
ela correspondentes são de importância fundamental. Essa estratégia deve circular pelo 
interior de todas as práticas, tanto no nível social quanto no nível político, obviamente 
respeitando a especificidade de cada campo de ação.

Isso não significa sustentar o "tudo ou nada" e nem mesmo "plantar no deserto". Temos que 
estabelecer com a maior precisão possível qual é o ponto de partida - o caráter específico 
do conjunto das relações sociais que configuram e sustentam o sistema, e cada formação 
social histórica precisa, na qual pretendemos atuar. Devemos partir desta realidade social 
cruel e brutal, e não elaborar soluções com processos mentais independentes, sem relação 
com o funcionamento dos processos sociais concretos.

O lugar em que se encontram as pessoas no conjunto da estrutura de dominação possui um 
papel fundamental na produção de um determinado sujeito. Aquilo que as pessoas vivem todos 
os dias e como elas vivem condiciona uma certa visão nos distintos grupos sociais. Não se 
trata de algo estático; há fatores como a resistência, a incorporação de outras noções e 
representações que vão gerar, ou que podem gerar, certos "curtos-circuitos". Devemos fazer 
com que estes fatores funcionem a nosso favor.


Na atual etapa do sistema: as classes oprimidas como "sujeito" revolucionário

Você me perguntou como vemos a composição de classes neste momento histórico. O esquema 
geral abstrato-formal de definir as classes como burguesia e proletariado, as quais sem 
dúvidas existem neste nível, há muito tempo tem demonstrado ser pouco ou nada operacional, 
quando a análise chega ao nível das formações sociais. Esta suspeita está presente nas 
entrelinhas de muitos documentos do anarquismo histórico. Pode-se dizer que a burguesia, 
ainda neste nível de análise, é mais complexa do que isso; há frações de classe, 
determinados estratos a elas vinculadas e, inclusive, influências políticas e ideológicas 
em seu estabelecimento. Em relação ao proletariado clássico é a mesma coisa. No entanto, o 
que nos interessa como organização política, em termos teóricos, são os aspectos 
operacionais, que servem para o aqui e agora.

Essa questão foi colocada no congresso da FAU de 1986 e no ato público daquele mesmo ano. 
Mas foi somente no XI Congresso da FAU que decidimos realizar uma abordagem mais completa 
da questão das classes sociais nesta etapa do capitalismo. Foi um tema que permaneceu 
aberto; a proposta era que se continuasse trabalhando para a produção de uma hipótese, um 
rascunho inicial, que aprofundaria o conceito de classe nesta etapa do capitalismo.

Discutimos a necessidade de reformular o conceito de classe, de acordo com as mudanças 
ocorridas, evitando dar continuidade à definição estabelecida no período anterior, de 
"esplendor fordista" e "Estado de bem-estar". Em suma, consideramos que o fundamento 
exclusivamente econômico não era suficiente para uma definição de classes. Foi apontada, 
grosso modo, a necessidade de se levar em conta a maneira como hoje se expressa o conjunto 
complexo e articulado das relações de dominação no campo das relações sociais. Isso é 
relevante e possui implicações decisivas na maneira de estabelecer uma estratégia 
operacional e de ruptura nas atuais circunstâncias.

O documento enfatiza: "Colocamos, em primeiro lugar, a necessidade de um desenlace popular 
como corolário de um longo processo de lutas de orientação revolucionária." E continua:

"Está claro que nos países capitalistas atrasados e dependentes, como no caso dos países 
latino-americanos - com sua particular estrutura econômica e de classes mais afetada e 
debilitada que em outros períodos -, não se pode pensar na possibilidade de um processo 
revolucionário protagonizado exclusivamente por núcleos do proletariado fabril, nem sequer 
pela totalidade dos assalariados. Principalmente, porque, neste momento histórico, nosso 
continente possui enormes contingentes de desempregados, excluídos, superexplorados e 
semiempregados, e as estatísticas nos dizem que mais da metade dos habitantes está na 
pobreza, abaixo da linha de pobreza ou na indigência."

É necessário pensar na construção de uma frente de classes oprimidas que, como ferramenta 
estratégica básica, procure ter como núcleo central a classe trabalhadora, ou um setor 
dela, mas que inclua também, com igualdade de direitos, os trabalhadores rurais, os 
camponeses, a grande diversidade de trabalhadores autônomos - setor progressivamente 
engrossado com a crise e com as respostas do sistema diante das mudanças tecnológicas -, 
os marginalizados que reivindicam trabalho, os estudantes e as diversas e novas expressões 
autogestionárias populares.

Acreditamos que, em princípio, devem-se incorporar reivindicações por direitos de 
distintos setores, tais como o movimento negro, indígena, feminista e outros direitos 
humanos, e considerar, em especial e a partir de uma abordagem específica, a questão da 
ecologia. Entretanto, não se pode deixar de levar em conta a classe trabalhadora, 
especialmente seus valores antagônicos. Em termos globais, o "sujeito" estaria, então, 
nesse conjunto das classes oprimidas.

Como afirma o documento: "A frente de classes oprimidas à qual nos referimos constitui-se 
como uma rede de relações permanentes, ligadas de modo programático, a partir da 
multiplicidade de organizações de base, capazes de expressar na luta os interesses 
imediatos desses setores sociais, de desenvolvê-los e aprofundá-los, buscando constituir 
orientações e objetivos transformadores, e fazendo com que se constituam em forças sociais 
de gravitação efetiva".

No trabalho da organização, isso se traduz em uma variedade de questões: lutas por 
moradia, contra despejos, pela defesa de postos de trabalho, apoio às lutas dos 
trabalhadores por terra, por teto, defesa de conquistas e direitos humanos, saúde e 
educação, previdência social, os jovens, as expressões autogestionárias, étnicas etc. As 
formas organizativas que podem abarcar um processo de trabalho militante tão variado é um 
tema amplo, e há certo consenso em relação a seus aspectos básicos.

Como falei, realizar uma definição prévia das classes - que não se fundamente no 
reducionismo econômico, mas que incorpore fatores pertinentes políticos e, especialmente, 
ideológicos -, não significa abster-se da definição de prioridades, estabelecidas de 
acordo com a situação atual, as nossas avaliações e a nossa força.

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Orig. http://www.anarkismo.net/article/27372


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