(pt) Anarkismo.net: A Estratégia do Especifismo by Felipe Corrêa I. (1/4)

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Domingo, 14 de Setembro de 2014 - 16:36:16 CEST


Juan Carlos Mechoso (Federação Anarquista Uruguaia) ---- Esta entrevista -- realizada por 
Felipe Corrêa, com Juan Carlos Mechoso, da Federação Anarquista Uruguaia (FAU) -- aborda a 
"estratégia do especifismo" da FAU. Nas perguntas são abordados temas relevantes, como: 
conceito de especifismo, relação deste tipo de anarquismo com os clássicos e com 
experiências similares que surgiram na história, a relação do especifismo com o contexto 
da América Latina, comparações com outras ideologias que defendem a atuação em níveis 
distintos (partido - movimento de massas), conceitos de ciência, ideologia e sua relação 
com o socialismo, posições programáticas que os anarquistas devem defender nos movimentos 
populares, conceitos e concepções de classe, neoliberalismo, modelo de desenvolvimento da 
América Latina, poder popular, estratégia, luta armada, revolução social.

A ESTRATÉGIA DO ESPECIFISMO

Juan Carlos Mechoso (Federação Anarquista Uruguaia)

Entrevista a Felipe Corrêa

PREFÁCIO

Finalmente, depois de mais de cinco anos da realização desta entrevista, entrego a 
tradução em português para publicação online e em livro, pela Faísca Publicações.

Trata-se, como verá o leitor, de uma longa sequência de perguntas e respostas em que Juan 
Carlos Mechoso, destacado militante e fundador da Federação Anarquista Uruguaia (FAU), 
fala sobre a estratégia de luta desta organização, construída desde sua fundação, em 1956.

Com respostas muito bem desenvolvidas, muitas das quais recorrem aos documentos da própria 
FAU, a entrevista, que levou quatro meses para ser realizada, por email, no fim das 
contas, ficou ótima e foi muito esclarecedora. Ambos, entrevistador e entrevistado, 
ficamos muito empolgados e satisfeitos com o resultado final.

A partir de meados dos anos 1990, a FAU passou a ter uma influência determinante no 
anarquismo brasileiro. Entre os fins de 1995 e o início de 1996 conformou-se a Construção 
Anarquista Brasileira, uma iniciativa conjunta de uruguaios e brasileiros, que tinha por 
objetivo a articulação anarquista no país e uma retomada de sua influência no campo 
popular em geral. Desde então - e não sem erros, acertos e muito esforço e dedicação 
militante -, praticamente tudo que foi desenvolvido no Brasil, em termos de anarquismo 
especifista, teve influência direta da FAU.

A Organização Socialista Libertária (1997-2000), o Fórum do Anarquismo Organizado 
(2002-2012) e a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), fundada em 2012, com presença em 
mais de 10 estados brasileiros, são frutos deste processo. A CAB tem investido na 
construção de um anarquismo de base, classista que, por meio de sua organização específica 
e política, vem buscando impulsionar e influenciar as lutas sociais e movimentos populares 
de nosso país, com vistas à construção do poder popular, num processo de ruptura 
revolucionária que conduza ao socialismo libertário.

Os termos "especifismo" ou "anarquismo especifista" referem-se, de algum modo, à maneira 
que os uruguaios da FAU encontraram para se referir ao tipo de anarquismo que defendiam e 
praticavam, o qual teve não apenas influências clássicas de anarquistas como Mikhail 
Bakunin e Errico Malatesta, mas também de outras experiências locais e mesmo algumas 
elaborações próprias. Assim, quando responde questões sobre "a estratégia do especifismo", 
Mechoso reflete sobre o modo que a FAU encontrou, historicamente, para colocar suas ideias 
em prática e quais foram as grandes linhas que nortearam sua atuação.

Conhecendo a recente produção de Mechoso sobre a história da FAU (Acción Directa 
Anarquista: una história de FAU, 4 tomos, Editorial Recortes), e levando em conta esta sua 
importante influência no anarquismo brasileiro, pensei, quando propus esta entrevista, em 
tratar de outro tema. Não da história, já bem documentada nestes volumes, mas da 
estratégia da FAU, da "estratégia do especifismo" da FAU. Nas perguntas, portanto, abordei 
temas relevantes a este fim: conceito de especifismo, relação deste tipo de anarquismo com 
os clássicos e com experiências similares que surgiram na história, a relação do 
especifismo com o contexto da América Latina, comparações com outras ideologias que 
defendem a atuação em níveis distintos (partido - movimento de massas), conceitos de 
ciência, ideologia e sua relação com o socialismo, posições programáticas que os 
anarquistas devem defender nos movimentos populares, conceitos e concepções de classe, 
neoliberalismo, modelo de desenvolvimento da América Latina, poder popular, estratégia, 
luta armada, revolução social.

Devo destacar que, a meu ver, este material possui duas virtudes. Por um lado, do ponto de 
vista histórico, visto que ele discute aspectos importantes de uma organização que 
protagonizou uma das maiores experiências do anarquismo no mundo depois da Revolução 
Espanhola (1936-1939). A influência da FAU em setores sindicais, comunitários e 
estudantis, se levada em conta o tamanho da população do país, foi notável e digna de 
destaque em qualquer história global do anarquismo.

Por outro, da perspectiva atual, visto que ela contribui enormemente com o anarquismo 
contemporâneo. As reflexões apresentadas por Mechoso, e mesmo suas referências à 
experiência da FAU, são centrais não somente para um aprimoramento das práticas políticas 
da CAB, mas, mesmo, para contribuir com o anarquismo de outras correntes e, por que não, 
dos setores mais combativos e independentes dos movimentos populares em geral.
***

Minha demora com a tradução deste material relaciona-se a algumas dificuldades, que 
gostaria, brevemente, de mencionar.

Ainda em 2009, quando finalizamos a entrevista, pensei que seria importante, ou mesmo 
fundamental, publicá-la em português. Algum tempo depois disso, a própria FAU 
disponibilizou a entrevista online e publicou-a numa brochura, pela Editorial Recortes. 
Entretanto, quando pensei em operacionalizar a tradução e a publicação deste material, me 
deparei com alguns problemas.

Qualquer leitor familiarizado com os textos da região do Rio da Prata em geral, e do 
Uruguai em particular, sabe que sua compreensão, especialmente no Brasil, de Santa 
Catarina para cima, não é simples. Ainda que escritos em espanhol, os textos uruguaios, 
especialmente os da FAU, se simplesmente traduzidos ao português, respeitados seus termos 
e sua estrutura fundamental de frases, parágrafos e dos próprios argumentos, permanecem 
difíceis de serem entendidos pela maioria do público brasileiro. Várias traduções de 
textos da FAU foram realizadas com este rigor, respeitando sua escolha de termos e 
estrutura, e, por razão desta virtude, terminaram, em português, não raramente, 
ocasionando dificuldades significativas em sua leitura e mesmo em sua compreensão.

Naquele momento, eu me encontrava bastante ocupado, o que indicava que o mais prudente 
seria solicitar a outros companheiros que realizassem essa tradução. Notei, entretanto, 
imediatamente, em função da questão acima colocada, que se isso fosse feito, a chance de 
haver uma complicação seria grande. Mesmo que, do ponto de vista técnico, chagássemos a 
uma boa tradução, muito provavelmente, ainda assim, haveria um risco grande para o 
entendimento completo do texto por parte da maioria dos leitores brasileiros. Decidi, por 
isso, realizar a tradução eu mesmo, ainda que isso fosse ocasionar uma demora significativa.

Com este assunto resolvido, tive de enfrentar uma outra questão. Eu poderia fazer o melhor 
possível para manter a fidelidade ao original em espanhol, adaptando, dentro do possível, 
os termos e a estrutura do texto; um procedimento que, em geral, utilizo nas traduções que 
faço, ainda que, comparativamente a outros tradutores, talvez mais rigorosos, eu já seja 
considerado um tradutor de "mão pesada", provavelmente pelo meu constante trabalho de 
edição. Ou então, eu poderia realizar uma adaptação, de interferência muito maior no texto 
original, de termos e mesmo trechos inteiros, o que, se por um lado fugiria bastante do 
original em espanhol, por outro permitiria chegar a um produto final, um texto, bem mais 
adaptado ao português e compreensível aos leitores brasileiros.

Cheguei à conclusão, não sem dificuldades, de que a segunda alternativa seria a mais 
adequada. Utilizei as leituras que tenho do material da FAU para, em vários momentos, 
realizar ajustes importantes que, creio, permitiram que o texto tenha ficado bem mais 
compreensível aos brasileiros. Sugiro que, aqueles que queiram uma fidelidade completa ao 
original, inclusive em relação à forma dos uruguaios - que envolve aspectos relevantes da 
cultura popular do país e da própria militância da FAU -, se remetam ao próprio original, 
que está disponível na internet [http://www.anarkismo.net/article/18368].

Assumo, portanto, todas as responsabilidades por quaisquer problemas que esta tradução 
possa apresentar. Ainda assim, no fim das contas, acredito esta decisão foi a mais adequada.
***

Finalmente, gostaria de realizar alguns comentários sobre o entrevistado, o querido Juan 
Carlos Mechoso, ou simplesmente "o velho", como alguns de nós carinhosamente o chamamos. 
Quero, neste momento, prestar-lhe uma breve e devida homenagem, dedicando a ele esta 
publicação. Sua modéstia certamente fará com que ele desaprove esta iniciativa, mas creio 
que a homenagem deve ser feita.

Mechoso, ainda que, segundo ele mesmo, seja somente parte deste experimento coletivo dos 
trabalhadores uruguaios corporificado na FAU, é um personagem de primeira ordem na 
história do anarquismo.

Nascido em 1935 numa família humilde, filho de um barbeiro e operário com uma empregada 
doméstica, ele teve de abandonar os estudos depois da 4a série e começar a trabalhar. 
Convertido ao anarquismo muito cedo, ainda aos 14 anos, participou da fundação da FAU em 1956.

Foi militante comunitário no Ateneu do Cerro, dirigente sindical dos trabalhadores da 
indústria da carne e dos gráficos. Participou ativamente da Resisténcia Obrero Estudantil 
(ROE), um agrupamento de tendência que unia trabalhadores e estudantes em lutas e 
mobilizações de massas, e também da Organização Popular Revolucionária 33 Orientales 
(OPR-33), braço armado da FAU, que realizou ações como sequestros políticos e expropriações.

Preso por doze anos, entre 1973 e 1985, foi brutalmente torturado pelas forças da ditadura 
militar e, com a abertura, foi um dos rearticuladores da FAU, ainda nos anos 1980. A 
partir dos anos 1990, contribuiu diretamente para a difusão do especifismo no Brasil e em 
outras localidades.

Trata-se, sem dúvidas, de um quadro multifuncional, com capacidades práticas e teóricas 
muito acima da média; um "quadraço", como diriam alguns.

Hoje, próximo dos 80 anos, e com toda esta bagagem, o que impressiona em Mechoso é o amor 
com que continua a defender o anarquismo, as lutas populares e, em especial, sua 
humildade. Num momento em que pessoas com 5% de sua história política acreditam ser os 
donos da verdade e fazem da arrogância sua marca mais característica, ele cultiva 
pressupostos éticos que o afastam de qualquer soberba e que permitem que se relacione e 
discuta com as gerações mais novas e que continue a conquistar as pessoas para suas propostas.

Juntamente com outros membros de sua organização, que não sobreviveram aos horrorosos 
crimes das ditaduras militares latino-americanas, como no caso de seu irmão "Pocho", 
Mechoso merece nossa homenagem, ainda em vida, pela obra prestada ao anarquismo.

Quero agradecer enormemente ao companheiro por ter me dado a oportunidade de conhecê-lo e 
de aprender com sua extensa experiência!

Arriba l  s que luchan!

Boa leitura!

Felipe Corrêa
Setembro de 2014
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A ESTRATÉGIA DO ESPECIFISMO

Juan Carlos Mechoso (Federação Anarquista Uruguaia)

Entrevista a Felipe Corrêa



Felipe Corrêa (FC) - Nesta entrevista, eu gostaria de tratar não somente da história da 
Federação Anarquista Uruguaia (FAU) - que foi abordada detalhadamente nos quatro volumes 
de Acción Directa Anarquista: una historia de FAU[1] -, mas da estratégia de transformação 
social proposta pela FAU, que implica o especifismo. Levando em conta que o especifismo da 
FAU tem ampla influência na América Latina, e mais ainda no Brasil - todas as organizações 
especifistas do país, consolidadas ou em formação, possuem sua influência direta -, como 
você o definiria? Para a FAU, que é o especifismo?

Juan Carlos Mechoso (JCM) - Entendo a prioridade temática que você menciona, ainda que me 
pareça útil dizer que o especifismo da FAU também pode ser "visto" e "lido" em seu 
funcionamento, em sua tomada de posição frente a alguns problemas, assim como na 
estratégia que vem sendo aplicada em sua trajetória política e militante. É claro que, com 
isso, não estou dizendo nada que você não saiba, mas me pareceu útil que isso fosse dito.

Ainda assim, quero colocar que tratarei de responder suas perguntas com base em posições e 
documentos que a FAU elaborou em diferentes momentos históricos. Entretanto, darei 
preferência àqueles que possuem mais relação com a posição teórico-política da organização 
na atualidade.

Digo isso, pois meu trabalho militante sempre se deu, durante esses 54 anos, dentro de um 
marco orgânico e participei dele, em distintas instâncias, na elaboração, na adequação e 
na reafirmação de posições que têm sido o horizonte de nossa prática social e política 
cotidiana. Minha formação se deu nesse contexto. Acredito que o que mais lhe interessará 
são as posições que a FAU tem defendido nos distintos campos sociais. Certamente, em 
relação a determinadas questões particulares, e talvez em relação a alguns detalhes, darei 
opiniões pessoais. Também intervirei pessoalmente quando, pelas exigências técnicas de uma 
entrevista, for necessário resumir os textos produzidos pela própria FAU. De qualquer 
forma, tentarei fazer com que as respostas estejam alinhadas às orientações fundamentais 
da organização.

Em 1956, quando a FAU foi fundada, o denominador teórico comum da militância nesta tarefa 
política era o especifismo. Esta concepção do anarquismo era uma forte referência geral; 
compreendia-se, com isso, a necessidade de construção de uma organização política 
anarquista. O referencial teórico de maior relevância naquele momento era Errico 
Malatesta. Isso não significava, e esse assunto nem sequer foi discutido, que todas as 
suas ideias e propostas seriam consideradas da maneira como foram produzidas em seu 
momento histórico. Contudo, muitas de suas posições teóricas, políticas e proposições para 
atuar no meio social e popular foram especialmente consideradas e serviram de inspiração.

É importante dizer que, desde o início, o especifismo da FAU, mesmo tomando Malatesta como 
referência, não incorporou muitas de suas concepções e proposições, incluindo suas 
polêmicas com outras correntes do anarquismo. Destas polêmicas, houve uma atenção especial 
à sua refutação do individualismo, amplamente compartilhada por nós naquele momento. 
Mikhail Bakunin foi uma outra forte referência. Dele, foram também incorporadas algumas 
noções, priorizadas naquele momento pela FAU, em função do tempo e do lugar que estávamos 
vivendo.

Você poderia me perguntar: Por que a FAU incorporou algumas coisas e não outras? Isso tem 
uma explicação histórica. Na construção da FAU, havia distintas gerações de militantes. 
Havia companheiros que, desde as décadas de 1910, 1920 e 1930, militavam no anarquismo. 
Muitos destes militantes participaram de várias polêmicas internas, anteriores e 
posteriores à Revolução Russa, e também de diferentes experiências organizativas. 
Companheiros que, inclusive, conheceram, conversaram e discutiram com militantes que 
formaram os primeiros sindicatos no Uruguai, perto dos anos 1880.

Há casos como o de Antonio Marzovillo, que vinha militando desde 1905, e que participou 
ativamente na formação de comitês de apoio a Emiliano Zapata, no momento em que ele 
combatia no México. Vários militantes também haviam participado da Revolução Espanhola de 
1936. Havia ainda anarcossindicalistas que militaram junto com companheiros que foram 
ativos ou estiveram presentes na reorganização da Federación Obrera Regional Uruguaya 
(FORU) em 1911, companheiros que defenderam, naquela ocasião, o especifismo.

No momento da formação da FAU circularam, junto com o material de Malatesta, outros textos 
que tratavam do especifismo. Um deles, da própria militância uruguaia, elaborado por José 
María Fosalba na década de 1930; outro, sobre anarquismo e organização, de Georges 
Balkanski, que estava vinculado à Federação Búlgara (FAKB).

Além disso, havia também antecedentes especifistas concretos. Em 1919, funcionou um Comitê 
de Relações Anarquistas que, além de coordenar a militância libertária no nível sindical e 
popular, tinha como propósito a fundação de uma organização especifista. Em 1926, depois 
de um longo processo de atividades e discussões, uma plenária do Comitê de Relações 
Anarquistas deu vida à FAU, naquele momento, Federação Anarquista do Uruguai. A FAU de 
hoje é, ainda que complexamente, herdeira de tudo isso.

Porém, apesar dessas variadas experiências de militância que estiveram presentes na 
formação da FAU, a discussão teórica não foi tensa e nem muito longa. Havia um acordo 
tácito desde a convocatória. Os "velhos" companheiros consideravam sanadas muitas daquelas 
polêmicas que, em outro momento, foram encaradas com paixão.

É possível dizer, aproximando-se bastante de como se deu a questão "real", que o caráter 
político da organização evidenciava-se mais na maneira de encarar a tarefa das diferentes 
frentes de trabalho: sindical, estudantil, comunitária e interna. Foram realizadas 
análises da situação histórica e conjuntural uruguaia relacionando-a com os âmbitos 
político geral, sindical, estudantil e comunitário, e dando ênfase à América Latina.

Uma das primeiras tarefas levadas a cabo pela FAU foi a organização do Congresso 
Anarquista Latino-Americano, que se realizou em 1957, e teve participação da militância de 
Cuba, do Brasil, da Argentina, do Chile e do Uruguai. A preocupação central da militância 
jovem, majoritária naquele momento, era que a organização política que estava sendo criada 
deveria ser um instrumento de fortalecimento do anarquismo e proporcionar sua 
"atualização" em relação à nossa realidade específica latino-americana e uruguaia. Parecia 
fundamental não copiar e nem fazer importações automáticas de esquemas e fórmulas que 
haviam tido razão de ser em outras conjunturas históricas. Dizíamos mais ou menos o 
seguinte: "Sem preguiça mental, somos obrigados a pensar nossa realidade e nosso tempo e 
produzir respostas consequentes".

Deve-se apontar que essa prioridade na América Latina não excluía uma forte preocupação 
internacional, levando em conta os marcos internacionalistas do anarquismo uruguaio, que 
existiam, praticamente, desde os anos 1860. Foi assim que a FAU adotou, desde o início, 
uma posição que foi chamada por aqui de "terceirista", a qual consistia em rechaçar 
completamente "os imperialismos russo e ianque".

Dessa maneira conformou-se, desde o início, o especifismo da FAU, que se traduziu em 
realizações concretas: Declaração de Princípios, Carta Orgânica - que estabelecia direitos 
e deveres dos militantes -, tentativas de compreender a conjuntura histórica geral, 
particular e projetos de trabalho para os distintos campos, envolvendo aquilo que era 
imediato e aquilo que dizia respeito ao médio e ao longo prazo.

Ao mesmo tempo, tínhamos consciência que muitas dessas posições deveriam ser aprimoradas e 
aprofundadas em futuros congressos. Convém mencionar uma outra coisa, que parece ser 
relevante: não consideramos os assuntos esgotados, havia modéstia e consciência sobre a 
complexidade da maioria das temáticas abordadas e, por outro lado, recordávamos 
frequentemente os danos causados por dogmatismos, esquemas prontos e abstrações que eram 
adotados fora de contexto, com base na crença de que seriam válidos para todos os tempos e 
lugares. "Hoje, mais do que nunca, o anarquismo precisa ter a cabeça aberta" disse uma vez 
um "velho" militante.

Deve ser ressaltado que estas posições nunca implicaram relativismo ou pragmatismo. Sempre 
houve uma estrutura conceitual que dava sustentação aos vários discursos, a qual era 
concebida como algo em movimento, abarcando as possibilidades de mudança em função dos 
novos aportes surgidos no campo do conhecimento. Foram discutidos os aspectos gerais 
dessas questões conceituais e chegamos a algumas compreensões comuns.

Havia uma recusa do esquema arquitetônico de infra e superestrutura e uma preocupação 
especial com conceitos e questões como: poder e Estado, ideologia, papel da utopia, 
ciência e socialismo, compreensão do classismo para além da estrutura econômica, 
reformismo e revolução, pacifismo e violência revolucionária, método e conteúdo, elementos 
permanentes da estrutura capitalista, recusa ao evolucionismo e ao progressismo. Tais 
foram os conceitos e questões mais relevantes naquele momento.

Devo esclarecer que o especifismo não era entendido igualmente por todos e havia nuances. 
O maior ou menor grau de organicidade e o compromisso com as decisões foram temas que 
geraram divergências. Nunca se discutiu e nem se concebeu algo como aquilo que ficou 
conhecido como "Síntese", ou seja, todas as correntes anarquistas atuando juntas em um 
mesmo organismo.[2]

No entanto, em um determinado momento, fatos como a prática de alguns grupos e sua própria 
maneira de atuar foram evidenciando estratégias e prioridades muito distintas daquelas 
preconizadas pelos setores sindicais, comunitários, populares, e por parte da militância 
proveniente do meio estudantil. Esse fator, somado aos aspectos políticos do momento e à 
concepção de ruptura que se começava a defender, teve como resultado, em 1963, a saída de 
um grupo de companheiros. É claro que esses companheiros eram anarquistas, mas tinham 
outra concepção sobre como operar as transformações sociais.

Digo isso para afirmar que a FAU teve distintos períodos. Depois de 1963, aprofundaram-se 
muito mais os aspectos organizativos, a coerência estratégica com uma concepção de 
ruptura, a posição coletiva de que era necessário maior preparação à repressão que se 
manifestava. Mas esse é um tema que pode ser tratado adiante.

Foi, também, naquele momento, que começamos a tratar com maior rigor a sistematização de 
temas teóricos, a organização da estrutura conceitual que sustentaria os distintos 
discursos com a devida coerência. Pois, para nós, uma organização política precisava de 
uma ferramenta, ou de uma caixa de ferramentas, conceitual consistente, que ajudasse a 
formular e constituísse um guia para a estratégia de ruptura que desejávamos levar 
adiante, que possibilitasse a realização de leituras rigorosas da realidade social e a 
construção das consequentes linhas políticas para colocar este projeto em prática.

Essas questões não ficaram somente no discurso e nem no campo dos desejos. Em suma, elas 
foram encaradas como atividades referentes a qualquer outra frente de trabalho, tratando 
que tivessem a mesma regularidade e o mesmo planejamento.


FC - Vejo que o especifismo defendido pela FAU tem muita relação com a sua própria 
história. Também é possível notar que você relaciona o especifismo como uma tendência 
clássica do anarquismo, que defende a distinção entre organização política e movimentos 
populares e, desta forma, creio que é inevitável concordar com ampla influência das 
concepções organizativas de Malatesta e Bakunin, que tinham esta posição. Contudo, estas 
não são as únicas influências, já que podemos identificar na FAU, também, traços do 
anarcossindicalismo e do anarquismo expropriador da região do Rio da Prata. Você poderia 
me descrever quais são as influências de cada uma destas "partes" no conceito de 
especifismo defendido por vocês? A FAU hoje poderia ser considerada herdeira da concepção 
de organização política revolucionária bakuninista representada pela Aliança da Democracia 
Socialista e também da concepção de "partido anarquista" de Malatesta?

JCM - Sim. É possível dizer que tudo isso, em geral, está presente no seio da FAU e 
veremos agora de que maneira. No Uruguai, as duas concepções ou correntes anarquistas de 
maior envergadura foram o anarcossindicalismo e o especifismo. A corrente chamada 
antiorganizacionista e os grupos de afinidade que defendiam a "propaganda pelo fato" 
tiveram pouca força e já haviam desaparecido na década de 1940. Restavam alguns poucos 
companheiros que tinham participado de expropriações ou colaborado em operações armadas e 
que, no momento de fundação, juntaram-se à FAU. Só não se integrou à organização um 
espanhol que esteve preso 24 anos, Boadas Ribas, um catalão próximo de Buenaventura 
Durruti e que, na região do Rio da Prata, relacionou-se com Miguel Arcángel Rosigna. 
Entretanto, ele permaneceu próximo da FAU e, mais de uma vez, colaborou com atividades 
pontuais.

O que se chama de "individualismo" não tinha, naquela época, qualquer expressão 
significativa no Uruguai, visto que os antiorganizacionistas constituíam uma outra coisa, 
que mereceria uma explicação à parte.

Várias expressões do anarquismo, que se tomadas de maneira puramente abstrata são 
distintas, foram se integrando em um processo rico e fluido. Mas esta integração, que 
envolveu uma ampla circulação de ideias, experiências, opiniões, afinidades, não afetou o 
núcleo duro organizativo da organização.

Refiro-me ao que você chama na pergunta de "partido anarquista". A organização foi 
construída por sujeitos militantes que admiravam os expropriadores e os vingadores 
anarquistas, a luta dos trabalhadores com fins revolucionários e classistas, os Solidários 
e Durruti, o intento revolucionário na Espanha, a posição insurrecionalista, classista e 
organizativa, em alguns momentos clandestina, de Bakunin.

No entanto, o processo não foi construído como uma colcha de retalhos, mas como uma trama, 
tecida por meio de um método determinado. É certo que ele uniu mais uns do que outros, já 
que havia uma constante implícita: a necessidade da violência revolucionária para um 
processo vitorioso de ruptura com o sistema capitalista. Este sistema era avaliado pela 
maioria dos militantes da mesma maneira que Malatesta, Bakunin e outros companheiros, os 
quais sustentavam que a dominação tem por base a violência. Uma violência exercida em 
diversos campos que visa assegurar a reprodução do sistema, mesmo com seu desdobramento 
histórico. Tal configuração violenta, com enorme capacidade de reprodução, só poderia ser 
descontinuada dessa maneira.

Voltemos à questão organizativa. Durante as atividades que compreenderam discussão, 
elaboração e ação social, construímos, de fato, uma trama ideológico-organizativa. Nesta 
trama, não se via como um problema que o trabalho público e clandestino fosse realizado ao 
mesmo tempo; sustentávamos, também, que a atividade armada e sindical-popular pública 
deveriam ter organicidade própria, de acordo com sua especificidade, e não ser encaradas 
separadamente, mas dentro de uma mesma organização. A FAU, como organização política, 
deveria compreender em seu seio toda a atividade que fosse necessária para sua estratégia 
e seu projeto de ruptura.

A militância que continuou na FAU depois de 1963 identificou-se com estas noções e sentiu 
que esse conjunto de atividades constituía uma unidade que, organizada em um mesmo 
coletivo, teria potencial operacional, em termos sociais e políticos, podendo levar a 
cabo, coerentemente, um processo de ruptura e começar a estabelecer novas relações sociais.

Se, por não entender "os princípios", não pudermos construir uma organização anarquista 
que compreenda o conjunto de atividades necessárias para um processo de transformação das 
estruturas sociais, estaremos dando ao anarquismo um atestado de morte.

Foi naquele momento que a FAU, como organização política, integrou tais componentes, que 
terminaram se fundindo e se reconstruindo em uma unidade, dando a ela o caráter que hoje 
possui. Essa construção não foi produto de uma decisão política e nem de uma elucubração 
intelectual, mas se forjou na ação e decorreu de fracassos, retificações e, também, da 
paixão pela construção de um anarquismo que fizesse parte da cena social-política, e não 
somente de reuniões.

Ainda assim, não se trata de um processo terminado, visto que tais questões não têm fim. 
As adequações, correções e integrações de novos conceitos parecem ser necessidades 
permanentes.

A FAU teve, tem e pretende ter a intenção de promover um anarquismo revolucionário, 
organizado e em concordância com os tempos presentes; tal foi sua intenção que, com 
modéstia e consequência, ela tratou de levar adiante. É claro que isso envolveu acertos e 
erros, algo que é quase inseparável do fazer e do estar presente em uma atuação social 
complexa que exige respostas contínuas.

Havia uma preocupação central de não transformar o anarquismo somente em uma crítica, o 
que terminaria criando um mundo de penumbras e desesperança, algo muito próximo da 
resignação. Para evitar qualquer mal-entendido, posso dizer que somos partidários de um 
pensamento crítico, mas acreditamos ser necessário, junto com ele, que haja propostas e 
atuações consequentes.

Nossa organização coloca, em sua Declaração de Princípios, mais ou menos o seguinte: O 
anarquismo constitui-se, basicamente, em torno de uma crítica das relações de dominação em 
todas as esferas sociais - política, econômica, militar, jurídica, religiosa, educacional, 
etc.; crítica esta que se redefine permanentemente, segundo a sociedade e o momento 
histórico concretos em que ela se encontra, discriminando e hierarquizando os níveis 
determinantes na estrutura social, mas expressando sempre, com todo rigor e coerência, a 
necessidade de encontrar os fundamentos originais, o núcleo duro das injustiças sociais e 
das crises por elas geradas.

Com esses elementos analíticos é possível empreender uma crítica completa das distintas 
formações sociais e orientar a elaboração de um projeto social alternativo, que possa 
suprimir as distintas formas de privilégio e habilitar a prática revolucionária que esse 
projeto requer, nesse largo trajeto de diversas lutas. Uma elaboração teórica, um processo 
e uma luta que têm como eixo central o trabalho político fortemente organizado.


FC - Alguns setores de nossa corrente acabaram, muitas vezes, estigmatizando Piotr 
Kropotkin, principalmente por sua concepção evolucionista e em certo sentido 
educacionista, muitas vezes invalidando-o ou diminuindo-o como teórico de relevância para 
o "nosso" anarquismo. Não estou de acordo com isso, pois creio que Kropotkin, apesar de 
ter posições diferentes das nossas, muitas por razão do contexto em que viveu, tem também 
contribuições importantes que devem ser levadas em conta. Vejo que Kropotkin é citado e 
utilizado com frequência pela FAU e também por você. Do seu ponto de vista, qual é a 
validade do pensamento de Kropotkin para o especifismo?

JCM - Kropotkin, seu pensamento e seu comunismo anarquista tiveram muita influência no Rio 
da Prata e também em outros lugares da América Latina. Foram livros e artigos como A 
Conquista do Pão, "Aos Jovens" e escritos traduzidos em periódicos da época que difundiram 
com força o anarquismo e, especialmente, sua concepção comunista. Tanto é assim, que, no 
Uruguai, foram comunistas anarquistas os antiorganizadores, os anarcossindicalistas e os 
especifistas. Quando Malatesta começou a difundir o comunismo, este já era conhecido em 
certos meios. Muito deste conhecimento relaciona-se com Kropotkin e com a bagagem que a 
forte imigração trouxe para estes lados: diversos militantes libertários da Espanha, da 
Itália, da França que já conheciam bem estes elementos teórico-políticos.

Não há dúvidas que, independente do respeito que temos por Kropotkin, pode-se dizer que 
ele tem seus prós e contras, no que diz respeito às suas propostas teóricas, políticas e 
posturas em nível internacional.

Deve-se considerar que ele esteve vinculado à Primeira Internacional, em 1872, algo que 
foi o resultado de sua passagem pela Suíça. Pouco depois, começou a elaborar sua concepção 
de comunismo anarquista, em oposição ao coletivismo bakuninista, que era dominante até 
então. Também não é correto dizer que ele foi uma pessoa que se dedicou somente ao 
trabalho intelectual, de pesquisa e não ao trabalho comprometidamente militante.

Kropotkin foi preso na Rússia por volta de 1874 e assim ficou por cerca de dois anos, 
fugindo posteriormente, viajando por alguns países europeus e realizando propaganda. 
Naquele momento, fundou Le Revolté, um periódico anarquista que chegava ao Rio da Prata, 
onde foi muito lido, especialmente por imigrantes, que logo difundiram suas ideias. Ele 
esteve ainda vinculado a greves operárias, e seu vínculo com a Associação Internacional 
dos Trabalhadores custou-lhe um processo e cinco anos de prisão em Lyon. Com a mobilização 
pela sua liberdade, não ficou todos esses anos preso; foi libertado dois anos antes.

Por que estou dizendo isso? Ainda que eu não esteja dizendo nada original, convém sempre 
tratar da estatura política e da envergadura deste militante, mesmo que tenhamos variadas 
diferenças em relação às suas posições.

A produção de Kropotkin é ampla e de temática variada. Ela vai do espírito da revolta, das 
prisões, até o apoio mútuo, as considerações sobre o Estado e a Revolução Francesa. 
Parece-me claro que este não é o espaço para fazer comentários mais amplos sobre sua produção.

Deve ser acrescentado, para evitar uma possível confusão, que várias posições de Kropotkin 
não contaram com adesão em nossa região, e menos ainda na FAU, que sequer levou algumas 
delas em conta. Dentre estas posições, podem ser citadas: sua proposta organizativa geral; 
seu otimismo entusiasta, de que a revolução chegaria logo, uma concepção otimista mesmo 
para aquele agitado contexto social; seu fatalismo, marcado pela ênfase de que "os Estados 
já caminham, como fatalidade histórica, para sua decadência"; sua concepção mecânica do 
universo, que seria desaprovada por Malatesta.

Mesmo que seja possível encontrar seu entusiasmo teórico-político reproduzido nos 
materiais do movimento operário no Rio da Prata, pode-se dizer que ele não teve efeitos 
negativos. Deve ser considerado, ainda, que isso se deu em momentos de grande ímpeto do 
movimento operário de orientação anarquista, o qual tinha muito presente um objetivo 
revolucionário. No entanto, é possível dizer, também, que a maioria de seus materiais 
escolhidos para difusão não tinham caráter teórico ou filosófico, mas, essencialmente, de 
agitação.

Não estou sustentando nada que se assimile à defesa de um "retorno a Kropotkin". Ele não 
foi um teórico de peso na formação da militância da FAU, mas também não se pode dizer que 
tenha estado completamente ausente. Foram editados pela organização alguns materiais, e 
digo isso com total franqueza, previamente bastante discutidos, buscando que contribuíssem 
com a orientação e a estratégia levada a cabo. Muitos desses materiais vinculam-se ao meio 
operário ou às temáticas como as prisões.

Pode-se dizer que, na FAU, Kropotkin conta com muito respeito e reconhecimento, por razão 
de seu amplo trabalho militante e de seus escritos tão difundidos nos fins do século XIX e 
no início do XX. Avaliamos que ele teve preocupações de sistematizar temáticas, procurar 
ferramentas teóricas e de análise, mas que a episteme desenvolvida naquele momento, muito 
característica daquela época, em muitas ocasiões o limitou, fez com que ele acreditasse 
ter um saber que ainda estava distante e o colocou em becos sem saída.

Sua produção, entretanto, não pode ser desprezada, apesar das questões incompatíveis 
conosco que, sem dúvidas, são muitas. Reitero, então, que há materiais de Kropotkin que 
possuem um aporte histórico e que podem ser selecionados, com vistas a adaptá-los 
parcialmente para uma organização anarquista que não possua sua concepção "filosófica".


FC - Vejo, pelo que você diz, que houve, e ainda há, uma preocupação da FAU de não 
importar uma teoria pronta da Europa, ou mesmo dos teóricos clássicos, mas também incluir 
elementos latinos e reflexões próprias no anarquismo, de maneira que ele possa ser 
adaptado à nossa realidade. Parece-me, claramente, que houve uma grande preocupação em 
adaptar a ideologia à conjuntura, ao momento histórico e à nossa localidade. Quais foram 
estes elementos e reflexões locais incorporados no anarquismo para que ele fosse adaptado 
à realidade latino-americana?

JCM - Isso é verdade. Inclusive, decidimos não fazer importações de teorias, esquemas, 
métodos e propostas que tiveram seu momento histórico e que hoje não constituem uma 
contribuição efetiva para nossa atuação no nível social-político.

Porém, temos de evitar confusões, pois nunca quisemos produzir nossa própria teoria, nosso 
próprio corpo conceitual, latino-americano, fora daquilo que se produzia na Europa ou em 
outras partes do mundo. Ou seja, nunca quisemos produzir uma ciência latino-americana ou 
uma ciência de outras partes do mundo. O conhecimento científico que é produzido, desde 
que seja consistente, possui valor em qualquer parte do mundo.

Fazendo uma alusão em tom de brincadeira, nunca rechaçamos a teoria da relatividade, sua 
noção de tempo e espaço, pelo fato de Einstein não ser latino-americano. Algo que poderia 
parecer com os absurdos da URSS de demonizar as pesquisas de Mendel ou as produções de 
Jacobson, por não se ajustarem ao esquema da lógica dialética.

Nos momentos em que esta discussão foi realizada, consideramos haver novas pesquisas e 
novos conhecimentos que descontinuavam noções anteriores e ofereciam novas abordagens, e 
que deveriam ser necessariamente incorporadas pelo anarquismo, sob pena de ele permanecer 
uma relíquia histórica.

Reivindicamos que o corpo categorial que fosse adotado, por razão de ter o adequado rigor 
- mesmo com a noção de que o conhecimento é infinito e que, por isso, este corpo não pode 
ser dogmático -, deveria ser complementado com elementos que cada localidade específica 
pudesse oferecer. Enfatizamos, tomando em conta as realidades existentes na América 
Latina, sua dependência, sua opressão imperial e toda sua história, que era fundamental 
estudar cada realidade, cada formação social, para que as ferramentas teóricas e as 
coordenadas políticas tivessem embasamento, constituindo propostas não em função de um 
povo fabricado no pensamento, mas daquele efetivamente existente.

A história da emancipação dos povos latino-americanos da dominação colonial e as 
características destes movimentos e de suas bases subsidiaram ciclos de debates que se 
alternavam com a discussão de outras experiências libertárias, como o movimento 
makhnovista, o México de Magón e Zapata e a Revolução Espanhola.

Sobre as realidades da América Latina, circulavam várias revistas e aportes de militantes 
que percorriam diversos países e que tinham uma inserção efetiva nos meios operários e 
populares de países com grande população indígena e mestiça. As ideias e as lutas federais 
de José Gervasio Artigas, por exemplo, geraram bastante interesse.

Tudo isso não tinha nada a ver com o nacionalismo, como algumas vezes foi dito sobre a 
FAU. Sempre houve uma clara definição internacionalista, mas sabíamos que não pairávamos 
no ar, mas estávamos em um terreno concreto que contava com pessoas e história. É certo 
que algumas dessas coisas estavam na contramão da "cultura" da época, muito arraigada em 
parâmetros muito gerais e reducionistas. Falava-se, em alguns momentos, da América Latina 
como se ela fosse algo homogêneo e pudesse ser descrita e interpretada com um conjunto 
muito reduzido de conceitos.

Algumas coisas estavam sendo vendidas como ciência. Coisas que hoje são muito conhecidas, 
como as afirmações de que as localidades em que primeiro surgiriam as condições para o 
socialismo seriam aquelas com um importante desenvolvimento industrial e grande 
concentração do proletariado. Dizia-se que o mais importante a considerar seriam elementos 
desta ordem e, para além disso, havia somente remanescentes residuais, que seriam 
liquidados rapidamente pelo desenvolvimento.

Em nossa região, havia "remanescentes" com muita força, como no caso dos povos originários 
e oprimidos, que realizavam lutas por reivindicações importantes e, muitas vezes, 
resistências bastante profundas, algumas das quais associavam-se à ideologias milenares e 
por elas eram motivadas.

As concepções totalizantes, quase mecânicas, que mencionei acima, não provinham de nossos 
meios. Entretanto, algumas vezes, parte delas foi absorvida, trazendo junto a ela posições 
similares, que contribuíram com confusões e, muitas vezes, com o caráter bastante 
contraditório de nosso desdobramento teórico-político. Por exemplo, juntamente com o 
aspecto reducionista da interpretação economicista ou com o eurocentrismo vinham o 
progressismo e o evolucionismo.

Havia uma posição contrária ao eurocentrismo e sua bagagem, independente dos meios 
ideológicos dos quais eles viessem. Também havia precauções em relação a nosso 
colonialismo cultural internalizado. Essa tendência de seguir a moda de temáticas sociais, 
propostas, formas de organização, que não têm relação com nossa localidade, com aquilo que 
vivemos por aqui, com aquilo que urgentemente necessitamos. Esta prática de importar 
projetos e estratégias, sem levar em conta toda a análise dos aspectos fundamentais de 
nossa formação social, de nosso imaginário - nosso sujeito histórico latino-americano e 
cada uma das localidades envolvidas -, daquilo que nos permite estabelecer uma relação 
efetiva com o povo, iniciar processos no seio do povo e com ele.

Esta relação não pode ser estabelecida unicamente por ideias súbitas e decretos de 
condições e características forjadas por processos puramente intelectuais. É claro que 
nossa posição contrária ao eurocentrismo não implica negar ou não incorporar os aportes 
rigorosos e consistentes que vêm da Europa; isso seria uma espécie de discriminação às 
avessas.

FC - Pelas suas respostas, é possível concluir que o especifismo não é algo que foi criado 
por vocês na segunda metade do século XX, mas um nome dado a uma prática que vem do 
anarquismo clássico. Vejo que você se refere como "especifismo" ao coletivismo bakuninista 
ou, principalmente, ao anarcocomunismo que existiu na América Latina e em tantos outros 
lugares do mundo, que defendia os "níveis" distintos de organização, da organização 
anarquista e dos movimentos populares. Por que então a escolha do termo "especifismo" e 
quando a FAU passou a utilizá-lo?

JCM - Nunca pensamos que o especifismo fosse uma criação nossa. Nunca pensamos ou dissemos 
algo assim. Isso teria sido, no mínimo, uma vaidade infantil. O especifismo já tinha sua 
rica história e produção ideológica. E como eu disse, no contexto de formação da FAU 
víamos em Malatesta sua expressão mais clara e desenvolvida, especialmente em alguns de 
seus trabalhos.

Deve-se levar em conta que Malatesta esteve um tempo na Argentina - passou, inclusive, por 
Montevidéu, no Uruguai -, nos anos 1885-1889. Foi a pedido de Polinice Mattei, um 
anarquista italiano que fazia parte do movimento operário, que Malatesta escreveu os 
primeiros estatutos de uma sociedade de resistência, o sindicato dos padeiros. Em pouco 
tempo, os sindicatos de resistência desenvolveram-se fortemente e constituíram a espinha 
dorsal das grandes "centrais" operárias como a Federación Obrera Regional Argentina (FORA) 
e a própria FORU, as quais compreendiam em seu seio cerca de 90% do movimento organizado 
dos trabalhadores.

É claro que isso não ocorreu somente pela influência de Malatesta. Dizer isso seria 
transformar nossa simpatia e respeito em religião. Nos meios operários, havia uma busca 
por meios organizativos e Malatesta conseguiu dar algumas respostas, o que não foi pouca 
coisa. Com sua intensa atividade, apoiada pela coletividade italiana e por muitos outros 
anarquistas, ele fundou ou impulsionou fortemente grupos especifistas na Argentina. Foi 
naquele momento que os coletivistas, especialmente os espanhóis, que residiam na 
Argentina, aderiram ao comunismo anarquista, cujos militantes articulavam estes núcleos. 
Isso repercutiu rapidamente no Uruguai, pois a relação com a militância anarquista 
argentina era constante.

Para não me alongar muito neste assunto, devo dizer que na década de 1920 houve uma outra 
FAU (Federação Anarquista do Uruguai), inspirada nas ideias especifistas.

Em relação à sua pergunta, posso dizer que a opção pela utilização do termo "especifismo" 
era necessária para indicar em que parte do espectro ideológico anarquista nos situávamos. 
Utilizamos esse termo para indicar, fundamentalmente, que éramos partidários de uma 
organização política anarquista e, também, que nossas posições, nossa estratégia, nossa 
orientação geral e nosso programa, diferiam de outras expressões anarquistas. Tais 
expressões, em relação às quais podíamos ter coincidências pontuais, não possuíam uma 
atuação regular que se correspondesse àquilo que considerávamos fundamental em termos de 
trabalho cotidiano no nível social-político, o qual, pensávamos, deveria estar articulado 
com uma estratégia e uma tática que acreditávamos ser coerentes e necessárias para o 
processo de ruptura, nosso objetivo finalista.

Ao mesmo tempo, devo agregar, não pensávamos no especifismo como um corpo teórico-político 
acabado, mas como um marco importante que deveria continuar a ser desenvolvido. Nossa 
organização, assim como todas as organizações anarquistas que se identificavam com esta 
orientação geral, deveria, modestamente, tentar aportar o que fosse possível, para não 
ficar parada no passado.

Algo disso foi colocado pela FAU na Conferência Latino-Americana de 1957; não era 
suficiente fazer balanços e enfatizar que o anarquismo estava em baixa - o que, naquele 
momento, era a mais pura verdade. Nossa responsabilidade era situá-lo no tempo e 
relacioná-lo aos problemas colocados.

Parecia-nos que o primeiro aspecto a ser considerado era que alguma coisa estava errada. 
Era fácil buscar culpados fora do anarquismo, dizer que as mudanças haviam nos retirado do 
âmbito social e tantas outras coisas que soavam mais como autojustificação e um certo 
conformismo. Entretanto, isso nos impediria de enfrentar o desafio histórico que tínhamos 
pela frente e não permitiria que assumíssemos nossa falta de adequação e de acompanhamento 
das transformações ocorridas no capitalismo. Não queríamos ficar repetindo as mesmas 
coisas, voltados a nós mesmos, sem a sensibilidade social de nos colocar completamente ao 
lado de nosso povo; não queríamos nos transformar, na prática, em um tipo de elite, apta 
para as críticas exageradas, mas com enormes dificuldades de aprender com tantas coisas 
que os tempos novos traziam.

Nesta conferência latino-americana, esta posição não foi defendida somente pela FAU; a 
delegação argentina, que em determinados momentos teve grande lucidez, realizou uma ampla 
análise de nossas dificuldades naquele momento.

Sustentamos que, na maioria das vezes, colocávamos mal as perguntas e, em consequência, as 
respostas não podiam ser apropriadas. Como aponta Gastón Bachelard, colocar bem as 
perguntas já é um grande passo. Parecia fundamental incorporar amplamente a modéstia, 
conhecer a situação em que estávamos e reconhecer que teríamos, necessariamente, muitas 
dificuldades ao buscar sair deste labirinto social. Afinal, tínhamos perdido a referência 
de um grande período histórico, sem termos nos perguntado o que estava acontecendo.

Devemos buscar referência naqueles antigos congressos, dos quais participavam os "velhos" 
teóricos e nos quais se colocavam, com audácia e criatividade, posições filosóficas e 
políticas, as quais buscavam avançar e atrair o interesse de um público amplo. Não é 
relevante, para o que quero destacar, o fato de muitas daquelas posições estarem 
impregnadas pela estrutura de conhecimento daquele momento histórico, podendo, hoje, à luz 
de novas pesquisas e descobertas, serem consideradas pouco consistentes. Enfatizo apenas a 
atitude política.

Em uma determinada época, que não foi curta, a militância anarquista analisou a 
problemática que tinha em frente e formulou propostas de ação. Todos os períodos contaram 
com muitas mudanças. Por isso, a falta de respostas adequadas indicava que a problemática 
não vinha sendo abordada corretamente, que havia ausência de criação, de audácia política 
para explorar o novo, para exercitar o pensamento crítico. Isso, os "velhos" teóricos 
fizeram muito bem, dando suas vidas ao anarquismo e adquirindo continuidade em variados 
movimentos posteriores.

Devo ressaltar que, em nossa apresentação "pública", nos nossos meios e para outras 
organizações políticas e sociais, não nos colocamos como especifistas; nos apresentamos 
como uma organização política anarquista. O termo "especifismo" tem utilidade somente 
entre os anarquistas ou para responder aquela pergunta que, muitas vezes, os jornalistas 
nos fazem em suas reportagens, sobre qual anarquismo defendemos. No nível popular, se 
afirmássemos ser especifistas, isso implicaria que teríamos de andar com um folheto 
explicativo no bolso, para entregar sempre que fizéssemos esta afirmação.

Deixamos claro, internamente à organização e aos anarquistas em geral, que somos parte da 
corrente ideológica anarquista, e que sempre foi nosso desejo contribuir, mesmo que com um 
pequeno grão de areia, para a continuidade de seu avanço. Este avanço também implica a 
incorporação de diversos aportes, estudos e pesquisas que vão aparecendo, aqui e ali, 
tanto pelos trabalhos de arqueologia histórica, como pela busca de coisas novas.

Devo agregar que, hoje em dia, muitos de nossos companheiros preferem uma definição 
precisa e clara e, assim, definem a FAU tão somente como uma organização política anarquista.


FC - Desde o início da FAU vocês utilizam este conceito organizacional do especifismo? 
Falo isso, pois, quando a FAU foi fundada, já havia alguns documentos que, pelo menos do 
meu ponto de vista, são resultado deste mesmo "caldo" em que se forma o especifismo da FAU 
e possuem certa semelhança com ele. Falo particularmente da Plataforma Organizacional dos 
Comunistas Libertários[3] do Dielo Truda de 1926, a Plataforma da Federação dos 
Anarcocomunistas da Bulgária[4] de 1945 e do Manifesto Comunista Libertário[5] de George 
Fontenis de 1953. Vocês tomaram contato com estes documentos no momento da constituição da 
FAU e da aplicação/atualização deste conceito de especifismo? Eles tiveram alguma 
influência na criação do especifismo da FAU?

JCM - Creio que parte desta pergunta já foi respondida anteriormente. Mas podemos reiterar 
que nenhum destes documentos circulou durante o processo de constituição da FAU, com 
exceção do texto de Balkansky, que pertencia à Federação Búlgara.

Nesse processo, formou-se uma Comissão Pró-Federação Libertária Uruguaia (CPFLU), que 
trabalhou durante o ano de 1955, indicada por uma plenária nacional, para fazer circularem 
posições sobre vários temas. Nos trabalhos da comissão foram mencionadas experiências como 
a formação da Federação Libertária, na Argentina, em 1901. No momento de elaboração da 
Declaração de Princípios e da Carta Orgânica, houve aportes dos "velhos" companheiros - 
que haviam participado de muitas instâncias organizativas no Rio da Prata, entre 1905 e 
1950 -, e também da militância jovem - especialmente das Juventudes Libertárias (JJLL), 
que tinham uma proximidade decisiva, naquele momento, com a Federação de Estudantes 
Universitários, a qual funcionava com uma estrutura completamente federalista e de matriz 
libertária. Outro agrupamento presente nesse processo, Cerro, contava com companheiros que 
haviam participado de diversas instâncias organizativas - um deles participou da Revolução 
Espanhola -, que tinham experiência e que já haviam elaborado propostas concretas em 
termos organizativos, não somente de princípios ou de Carta Orgânica, mas também de 
estratégia e programa.

Muitos boletins preparatórios foram publicados, contendo distintos documentos; eles 
incorporavam qualquer proposta que tivesse que ser considerada na instância fundadora. Se 
alguém tivesse proposto algum destes documentos que você menciona, eles teriam sido 
incorporados, pois o critério dominante era esse. Devo dizer que a ênfase que se dava 
naquele "aqui e a agora", como se dizia à época, não significava qualquer disposição de 
nossa parte para desconsiderar experiências, documentos e lutas anteriores. Nada foi 
excluído. A questão sobre os documentos que circularam no processo de fundação foi tratada 
exatamente da maneira que coloquei.

O fato destes documentos que você menciona não terem aparecido no processo de fundação não 
significa que os "velhos" companheiros não os conhecessem. Por exemplo, militantes 
exemplares como Nestor Makhno e Piotr Arshinov eram frequentemente mencionados nas 
conversas realizadas alguns anos antes da fundação da FAU, tanto no Ateneu do Cerro, como 
nas JJLL; além disso, a edição da Argonauta sobre o movimento makhnovista tinha ampla 
circulação.[6] Agrego, a título de curiosidade, que este livro também foi publicado em 
russo e havia alguns militantes, vinculados às atividades da FAU, provenientes daquela região.


FC - Hoje, estes documentos que citei acima constituem a base da estratégia de 
organizações que reivindicam a tradição plataformista e se chamam anarcocomunistas. Como o 
especifismo, com este nome, é reivindicado somente aqui na América Latina, muitas dessas 
organizações têm sido as nossas interlocutoras em outros países. Primeiramente, gostaria 
de saber se vocês têm acesso a esses documentos e que me colocassem seus comentários sobre 
eles. Depois, gostaria de saber: Para você, qual é a diferença entre especifismo e 
plataformismo?

JCM - O critério para a informação e a formação militante foi muito amplo. Inclusive, 
antes da FAU ser constituída havia organizações sociais como o Ateneu do Cerro e 
sindicatos que possuíam grandes bibliotecas. Estes ambientes buscavam impulsionar a 
leitura e criar um ambiente para a troca entre os militantes. Muitos materiais anarquistas 
e outras obras afins ou de interesse geral eram lidos. Refiro-me especialmente ao meio 
operário. Naquele contexto, grande parte da militância libertária ou próxima de nossas 
ideias leu Luigi Fabbri, Rudolf Rocker, Fausto Falaschi, Ricardo Mella, Anselmo Lorenzo, 
Piotr Arshinov, Ricardo Flores Magón, Rafael Barret, Manuel Gonzalez Prada e, obviamente, 
Bakunin, Malatesta e Kropotkin. Estes autores foram lidos e discutidos, formal e 
informalmente. Junto a eles, também foram lidos folhetos e artigos com novas abordagens, 
como, por exemplo, os textos de Gastón Leval e outros.

O mais provável é que o plataformismo não fosse conhecido por muitos militantes. Não sei 
se seus textos fundamentais circularam nestes espaços, tanto entre a militância da FAU, 
quanto entre aqueles que compuseram o Congresso Latino-Americano. Eles nunca foram 
mencionados nas instâncias libertárias que se articularam nas décadas de 1950 e 1960. Os 
anarcocomunistas partidários da organização, na Argentina e no Chile, naquela época, 
possuíam acordo com as posições de Malatesta.

Entretanto, as regulares menções àqueles que foram os redatores da "Plataforma", 
considerando-os militantes exemplares, foram sempre muito comuns; sempre se falou deles 
com grande simpatia e respeito, mas somente isso.

Pessoalmente, para mim, ficou a impressão, anos depois, que aquilo que defendiam os 
plataformistas era muito próximo do especifismo, particularmente do especifismo que era 
praticado pela FAU. Uma análise sobre as diferenças e similaridades entre essas duas 
propostas - que considere os aspectos que ainda são atuais e aqueles que se vinculam 
estritamente a uma determinada conjuntura histórica - requer um trabalho específico, que, 
inclusive, poderia ser muito interessante. Mas se trata de algo que exige tempo, dedicação 
e a consulta de muita documentação; uma tarefa delicada e um tema sobre o qual não se pode 
improvisar. Neste momento, trata-se de uma tarefa que não me entusiasma. Não penso sequer 
na possibilidade de fazer uma análise esquemática e básica, sem muitas pretensões. Pois, 
como eu disse anteriormente, hoje estou focado em terminar uma obra histórica sobre nossa 
organização e não tenho muito tempo disponível.

Portanto, esta resposta será dada apenas neste plano das "impressões". Como contribuição, 
eu poderia agregar que se perguntássemos aos companheiros da FAU das gerações anteriores 
sobre o que é o plataformismo, suponho, com base na maneira como as coisas aconteceram por 
aqui, que responderiam algo do tipo: trata-se de um grupo especifista como o nosso, que se 
nutriu de outra história e de outra experiência.

Como você vê, faço várias menções a problemas que temos que superar, a desafios que estão 
em nossa frente, à necessidade de começar a pisar firme para recuperar tanto terreno 
perdido. Digo tudo isso partindo da perspectiva que o anarquismo teve uma vasta 
experiência passada e que hoje tem ainda muito a dizer e a realizar. É óbvio que a 
história libertária não está começando agora; somos herdeiros de um passado cheio de 
combates, de militantes exemplares, de verdadeiros heróis do povo.

O anarquismo escreveu grandes páginas na história. O mundo dos trabalhadores conhece a 
abnegação e a integridade que o caracterizaram, juntamente com um passado que até nos 
assusta. O anarquismo deu respostas plenas à necessidade de transformar as estruturas do 
sistema capitalista e estabeleceu com precisão as linhas gerais de reconstrução social que 
têm, em seus aspectos fundamentais, uma vigência inquestionável; enfatizou a participação 
popular, a ação direta o imperativo de não participar das instâncias burguesas. Diante do 
fracasso das outras concepções de socialismo, o anarquismo pode, hoje, diante da história, 
reivindicar seu direito de desenvolver seu modelo na sociedade. É claro que isso só pode 
ser feito dentro da história, mas não do poder vigente, que deve ser derrotado, já que ele 
não cairá por conta própria. Em nossa concepção, esse poder deve ser combatido a sangue e 
fogo.

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Orig. http://www.anarkismo.net/article/27372


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