(pt) União Popular Anarquista UNIPA - A execução do jovem negro Michael Brown pela polícia: o extermínio da juventude e a autodefesa popular (en)

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Sábado, 13 de Setembro de 2014 - 15:16:49 CEST


"Não existe capitalismo sem racismo." ---- Malcom X ---- No dia 09 de agosto de 2014, o 
jovem negro Michael Brown, 19 anos, foi assassinado pela polícia de Fergunson, no estado 
do Missouri, nos EUA. Na versão da polícia, o jovem teria tentado agredir e roubar as 
armas dos policiais durante uma abordagem de rua. Essa versão não foi confirmada pelas 
testemunhas. Também foi desmentida por um vídeo amador feito por um morador local durante 
a abordagem e contrariou o resultado de uma autópsia do corpo do jovem, que apontou a 
execução de Michael pelo policial. Segundo as testemunhas, Michael caminhava pela rua em 
direção a casa de sua avó quando uma viatura parou e o policial gritou para ele "para trás 
caralho". O que se seguiu foram 9 disparos contra o jovem que se encontrava desarmado e 
com as mãos na cabeça. O corpo de Michael Brown ficou estendido no chão durante várias 
horas acompanhado por cerca de 60 policiais enquanto uma multidão de populares se reunia.

As concentrações espontâneas de pessoas continuaram acontecendo durante todo o sábado por 
Fergunson, que é um subúrbio de moradores, o que chamaríamos no Brasil de uma "cidade 
dormitório". As manifestações de indignação continuaram por toda a semana. Ainda no dia 
10, uma vigília reuniu mil moradores de Fergunson. A medida que a população se aglutinava 
o aparelho repressor do Estado policial norte-americano entrou em operação com a prática 
do toque de recolher, com o envio de policiais dos arredores de Fergunson, equipes da SWAT 
com fuzis, veículos blindados e equipes K-9, que fazem uso de cães adestrados. Em 
resposta, os jovens negros, brancos e latinos da cidade organizaram saques, incendiaram 
postos de gasolina e pararam ônibus. Durante a semana o serviço público ficou paralisado.

O caso ganhou proporção nacional após a cínica declaração de Obama no dia 18 de agosto de 
que "não existem desculpas para a polícia usar força excessiva" contra manifestantes e 
deter jornalistas. Soma-se a isso as medidas de enviar o Secretário de Justiça e o FBI 
para avaliar o caso. Já no dia 20, o que os moradores de Fergunson viram foi a presença da 
Guarda Nacional atuando contra as manifestações populares, detendo incialmente 60 pessoas. 
A mídia burguesa norte-americana classificou os protestos como pacíficos e violentos (a 
mesma estratégia usada pela grande mídia no Brasil em julho de 2013) na tentativa de 
dividir a revolta popular. A atuação da mídia provocou reações quando passou a publicar 
imagens pessoais de Brown supostamente fazendo um sinal típico de uma quadrilha. Nas redes 
sociais os usuários saíram em defesa de Michael e houve protestos em frente a sede da rede 
CNN.

Guerra racial ou guerra de classes?

Fergunson é uma localidade que apresenta altos níveis de desemprego e racismo. Ela possui 
cerca de 21.000 habitantes, dos quais 70% são negros. O desemprego é de 47% nos jovens 
negros na faixa entre 16 a 24 anos. Já nos brancos da mesma faixa etária é de 16%. A maior 
parte do contingente policial da cidade é formada por brancos. Esses números possuem 
relação com a história do próprio estado do Missiouri, o último a abolir a escravidão nos EUA.

?Perante os fatos ocorridos em Fergunson em torno da execução de Michael Brown, a 
narrativa mais comum que se formou classificava o ocorrido como derivado de tensões 
raciais. Essa foi a narrativa também propagada no Brasil pela mídia burguesa (G1, R7). 
Contudo, ao revelarem o racismo, que de fato existe nos EUA, ocultaram as tensões de 
classe existentes também lá. Classificar de tensão racial os protestos e saques em 
Fergunson não explica a participação de brancos e latinos nas ações populares de rua. A 
narrativa da "guerra racial" não explica toda a questão e cria obstáculos de se entender o 
que se passa em Fergunson como um fato da luta de classes.

Diante dos fatos, o governador do estado, Jay Nixon, colocou a segurança da cidade sob o 
comando do policial rodoviário negro Ron Johonson. A classificação de "violência racial" é 
benéfica ao governo e ao reformismo que conclamaram a presença de mais policiais negros na 
polícia de Fergunson como saída política para a situação. "Esta é uma oportunidade para 
consertar o que está errado", falou o chefe de polícia Thomas Jackson numa entrevista 
coletiva. "Estamos trabalhando para encontrar meios de nos envolvermos com a comunidade. 
Relações raciais são nossa prioridade máxima."

Como nós da UNIPA afirmamos no texto Mapa da Violência: jovens e negros na mira assassina 
do Estado: "é importante reafirmar que a violência é sobretudo um reflexo das contradições 
de classe que fundamentam a sociedade, e que nesse sentido a população pobre e jovem das 
periferias e favelas permanece vulnerável à violência e à criminalidade porque para ela os 
direitos a uma existência suportável são negados pelo Estado para garantir a manutenção do 
capital". A AFL-CIO, a maior central sindical dos EUA, limitou sua ação a pedir voto aos 
democratas e enviar cartas aos legisladores, pois como a CUT no Brasil, é um braço do 
governo no movimento sindical. Como afirmou Kareem Abdul -Jabbar, embaixador educacional e 
seis vezes campeão da NBA pelo Los Angeles Lakers, "Ferguson não é apenas questão de 
racismo sistêmico - é sobre a luta de classes e como os pobres nos EUA são tratados."

O Clube de Tiro Huey P. Newton e o resgate do patrulhamento comunitário

?

A revolta popular de Fergunson provocou manifestações pelo território norte-americano. Da 
cidade de Dallas, no estado do Texas, outro estado com forte tradição racista, uma das 
principais bases dos racistas do Ku Klux Klan, a reação popular a violência classista e 
racista da polícia veio na forma do resgate do patrulhamento comunitário.

No dia 20 de agosto, um grupo de 30 pessoas realizou uma patrulha armada de autodefesa no 
Sul de Dallas pela tarde. Nesse mesmo dia ocorriam manifestações populares contra a 
violência policial na cidade. O grupo, formado por homens e mulheres, negros e pardos, 
membros do Clube de Tiro Huey P. Newton, caminharam pelas ruas portando rifles, escopetas 
e fuzis AR-15, além de faixas contra a polícia e a favor de Michael Brown. "Eles estão 
tentando proteger a comunidade", disse Jacey Cofer da organização Mães contra a Violência 
Juvenil. O nome do clube é o nome de um dos fundadores e Ministro da Defesa do Partido dos 
Panteras Negras.

Dallas também apresenta índices de violência policial. Como afirma o Clube de Tiro Huey P. 
Newton, nos últimos 10 anos a polícia assassinou mais de 70 pessoas desarmadas, a maioria 
negros e pardos. A coerção policial a comunidade de trabalhadores negros e pardos é tão 
presente que, apesar de o constante assassinato cometido por policiais, desde 1973 não 
existem registros oficiais de denúncias contra a polícia, salvo um caso, onde a versão da 
polícia foi contestada por câmeras de vigilância.

O Clube de Tiro Huey P. Newton, se baseia na tradição da autodefesa popular praticada pelo 
Partido dos Panteras Negras nos anos 1960 e 1970 nos EUA como forma de controle 
comunitário sobre as atividades da polícia e do Estado. O Clube parece ter ligações com o 
Novo Partido dos Panteras Negras e possui uma lista de 3 demandas inegociáveis: "1) 
Exigimos o fim imediato da brutalidade policial, assédio e assassinato do povo; 2) 
Afirmamos o direito das pessoas, especialmente as de cor, de portar armas e proteger-se, 
onde os governos local, estadual e federal não conseguir fazê-lo; 3) Exigimos que a mídia, 
em coordenação com a polícia, cesse imediatamente de assassinar o caráter das vítimas do 
terrorismo policial".

Diante do extermínio da juventude pobre e negra seja nos EUA, seja no Brasil, o Clube de 
Tiro Huey P. Newton mostra que o caminho dos trabalhadores na luta contra a exploração 
capitalista e a opressão racista é a autodefesa popular. Isso significa não revindicar por 
melhorias salariais para a polícia ou mais policiais negros para servir de carrasco do 
povo pobre, negro, pardo, indígena. Retomar a autodefesa popular por bairro, vila ou 
favela é retomar o protagonismo dos trabalhadores frente a violência estatal, é desde já 
"construirmos nós com nossas próprias mãos" o caminho da libertação popular frente ao 
capitalismo, o Estado e racismo.

Fim da PM já!
Abaixo o extermínio da juventude pobre e negra!
Lutar, criar autodefesa popular!


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