(pt) União Popular Anarquista Entrevista da UNIPA ao jornal anarquista Meydan da Turquia,Publicado em 8 de setembro de 2014 por uniaoanarquista (en)

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Sexta-Feira, 12 de Setembro de 2014 - 09:26:27 CEST


A luta popular no Brasil teve repercussões internacionais a partir da revolta de junho de 
2013 e dos protestos contra a copa do mundo. A UNIPA se colocou desde o início ao lado das 
manifestações e defendeu uma via classista e autônoma para as massas. Como continuidade 
desse processo tivemos a honra de conceder uma entrevista ao jornal anarquista MEYDAN da 
Turquia. A entrevista foi publicada no final de Julho com o título "União Popular 
Anaquista fala sobre a Copa do Mundo", e pode ser acessada pelo link: 
http://meydangazetesi.org/gundem/2014/07/ahbduyakupasi/. Saudamos os camaradas e o povo da 
Turquia que também enfrentam duros combates contra o Estado e a burguesia. Boa Leitura a 
todos/as! ---- MEYDAN: Vocês poderiam nos informar sobre a situação atual no Brasil, por 
favor? ---- UNIPA: Desde 2013, o Brasil tem encarado um colapso nas condições 
socioeconômicas e políticas da hegemonia burguesa. Três fatores importantes têm 
contribuído para este contexto: 1) a crise macroeconômica mundial, que destruiu muitas 
ferramentas do Estado para assegurar o apoio das massas; 2) a formação de uma nova fração 
de classe, como consequência da superexploração e das reformas neoliberais; 3) novas 
formas de resistência, estratégia e organização dos trabalhadores, como comitês de fábrica 
e outras organizações informais. Deste modo, podemos falar sobre um novo ciclo da luta de 
classes, caracterizado por muitas situações específicas, como greves, manifestações 
violentas e confrontos nas ruas. Depois da maior demonstração de massas da História do 
Brasil, em junho de 2013, temos visto importantes greves nos serviços públicos (como, por 
exemplo, as escolas públicas do Rio de Janeiro), sistema de transporte (como os motoristas 
de ônibus do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e outros estados), sistema de segurança dos 
bancos (trabalhadores terceirizados), e serviços de limpeza urbana (Rio de Janeiro). Essa 
última greve foi muito importante para a organização da classe trabalhadora brasileira 
devido à resistência à repressão do Estado e à resposta dada à burocracia sindical. A 
greve dos trabalhadores da limpeza urbana aconteceu durante o carnaval, o que provocou uma 
interrupção na coleta de lixo, obrigando o Estado a atender às reivindicações dos 
trabalhadores.

MEYDAN: Qual era a situação do processo de gentrificação urbana anterior à realização da 
Copa do Mundo? Qual o grau de repressão do Estado contra os manifestantes?

UNIPA: Temos visto muitos tipos de conflito social no Brasil. Nas principais capitais (Rio 
de Janeiro, São Paulo, Fortaleza, Porto Alegre), os moradores das favelas são 
particularmente brutalizados pela violência e gentrificação do Estado. Milhares de pessoas 
foram desalojadas e tiveram suas casas demolidas. Muitas pessoas também foram assassinadas 
pela polícia (que agora também age nessas favelas por meio das unidades de polícia 
pacificadora, as UPPs), em uma verdadeira política de extermínio. Assim, a gentrificação 
foi realizada com o objetivo de atender a um determinado projeto urbano, subordinado a 
interesses econômicos (da FIFA, turismo internacional, etc), a despeito do povo 
brasileiro, que não será beneficiado com esses processos.

Até aqui, esse conflito tem sido administrado pelo Estado de duas maneiras: perseguição 
política e assassinato paramilitar. Portanto, milhares foram detidos e agredidos pela 
polícia. Ouvimos sobre doze ativistas que foram misteriosamente assassinados no ano 
passado e sobre forças paramilitares agindo a fim de intimidar por meio de sequestros, 
estupros e agressões. Os manifestantes tem sofrido perseguição em seus trabalhos (redução 
de pessoal, processos de demissão), escolas e universidades. Poderíamos dizer que no 
Brasil estamos vivendo sob um Estado Policial neste exato momento.

MEYDAN: Quem são as pessoas que aderem aos protestos? Porque a grande mídia tem nos 
informado que os protestos são feitos basicamente por estudantes, mas sabemos que os 
manifestantes são as pessoas que tem de encarar as políticas do Estado e do capitalismo, 
vivendo em áreas incluídas nesses projetos de gentrificação. Atualmente, é óbvio que os 
projetos de gentrificação terão continuidade depois do evento, como acontece em qualquer 
lugar. Mas o que vocês esperam dessas manifestações, acreditam que a oposição social vai 
manter seu poder nas ruas?

UNIPA: Este ponto é bastante importante. Para dizer a verdade, em 2013 e 2014, os novos 
segmentos da classe trabalhadora exerceram o protagonismo nas demonstrações de rua. 
Falamos de trabalhadores terceirizados, desempregados, juventude pobre, superexplorados, 
trabalhadores informais, estudantes e outros grupos. No Rio de Janeiro, por exemplo, a 
maior demonstração de rua aconteceu no dia 20 de junho, 2013, mobilizando cerca de dois 
milhões de pessoas. Então, os burgueses e o Estado tentaram convencer a sociedade que os 
manifestantes não eram "trabalhadores", porque as pessoas nas ruas não se ecaixavam 
perfeitamente no padrão social-democrata de operário industrial. Compreendemos que isso 
foi uma estratégia discursiva para preservar o monopólio da representação legítima nas 
mãos do PT e da burocracia sindical. Esses trabalhadores tem enfrentado nos últimos anos 
diferentes tipos de exploração e os projetos de gentrificação foram o mais recente golpe.

Assim, a complexa conjuntura no Brasil não nos autoriza a fazer predições, mas temos 
algumas hipóteses sobre o futuro das manifestações nos próximos anos. Na nossa 
perspectiva, entendemos que entramos em um novo ciclo da luta de classes no Brasil e que a 
hegemonia burguesa e reformista está enfraquecida. Isso não significa que um novo 
movimento de massas e uma nova organização revolucionária vão surgir inexoravelmente, 
tampouco significa que o imperialismo ou o capital vão entrar em declínio. Por outro lado, 
podemos dizer que foram criadas condições subjetivas e objetivas de forjar novas 
organizações não-burocráticas, populares e dos trabalhadores, de tipo sindicalista 
revolucionário. Provavelmente, os protestos vão desenvolver seus aspectos qualitativos e 
quantitativos nos próximos anos.

MEYDAN: Qual papel os anarquistas têm desempenhado nesses protestos? Qual é a visão da 
UNIPA no que diz respeito a entender à situação? O que a UNIPA pensa sobre a situação (não 
apenas do evento, mas também dos confrontos, etc.)? Nós sabemos que a solidariedade 
internacional é importante nesses períodos, vocês acreditam existem suficientes atos de 
solidariedade acontecendo ao redor do mundo?

UNIPA: O anarquismo não tem uma tradição forte no Brasil. Podemos falar de dois tipos de 
papéis desempenhados por anarquistas: 1) indivíduos difusos que reivindicam o anarquismo e 
2) as organizações anarquistas. Porém, muitos manifestantes se identificaram como 
anarquistas durante as manifestações. Mas essa identificação era mais uma forma negativa 
de exprimir seus sentimentos contra os partidos políticos e a burocracia sindical, do que 
uma reivindicação positiva da ideologia revolucionária anarquista. A maneira fundamental 
de se realizar isso foi por meio das táticas Black Bloc e ações destrutivas (ataques a 
Bancos, estações policiais, etc.). Embora essas ações sejam importantes, não são 
suficientes para fazer uma revolução. É essencial propagar a forma de organização do 
sindicalismo revolucionário para diferentes níveis, especialmente para as novas formas de 
luta dos moradores de favelas e periferias e para as greves de massa contra a 
superexploração. No que diz respeito às organizações anarquistas, muitas delas agiram 
marginalmente nos eventos mencionados. Muitas organizações anarquistas agem apenas para 
propagar ideias gerais e colaborar (conscientemente ou não) com a burocracia reformista. 
Por outro lado, as organizações anarquistas revolucionárias cumpriram um papel central em 
muitas dessas demonstrações de rua e greves por todo o Brasil, criando organizações 
formais e informais, conduzindo comitês de greve, organizando confrontos e táticas black 
bloc para enfrentar a violência do Estado. Portanto, o papel desempenhado pelo anarquismo 
não foi homogêneo, mas refletiu as contradições do anarquismo, e o estado atual de seu 
desenvolvimento no Brasil. Por consequência, acreditamos que o anarquismo revolucionário 
foi potencializado pelos eventos dos últimos anos e continuará se desenvolvendo e 
fortalecendo.

A UNIPA considera que os protestos violentos vão continuar e que é tarefa dos anarquistas 
organizar a autodefesa dos trabalhadores oprimidos contra a polícia e o Estado. Mas 
acreditamos que é imperativo organizar a autodefesa como parte da organização sindicalista 
revolucionária de massas. É necessário criar organizações de base a fim de as opor às 
burocracias sindical e reformista. Acreditamos que o papel do anarquismo revolucionário é 
organizar a violência revolucionária de massas, assim como também as lutas econômicas e 
políticas, de outro modo, este novo ciclo da luta de classes não será capaz de construir 
uma nova alternativa socialista. Por esse motivo, os anarquistas revolucionários ao redor 
do mundo devem avançar no desenvolvimento do internacionalismo. Apesar da solidariedade 
internacional ser crucial, não é suficiente. Desta maneira, devemos construir uma 
organização de massas internacional para coordenar a solidariedade e as lutas pelo mundo, 
mais precisamente, uma organização do tipo da AIT (Associação Internacional dos 
Trabalhadores), para combater o imperialismo, o nacionalismo, a social-democracia e o 
comunismo. A UNIPA está convocando os anarquistas revolucionários ao redor do mundo para 
construir essa organização.


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