(pt) União Popular Anarquista (UNIPA) - Eleições no Distrito Federal: As aves de rapina mudam de cores e de sorrisos mas não abandonam nunca a carcaça

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Terça-Feira, 28 de Outubro de 2014 - 11:33:28 CET


Após lutas, debates e atuação nas bases durante esse período de farsa eleitoral achamos 
importante divulgar nossa análise da conjuntura local e das perspectivas para a luta da 
classe trabalhadora. ---- Voltemos um pouco no tempo. Os escândalos de corrupção em 2010 
envolvendo o ex-governador José Roberto Arruda, escândalo que o destituiu do cargo e que 
abriu as portas para a vitória de Agnelo Queiroz (PT), possuem elementos importantes para 
compreender a atual situação política. O chamado Movimento Fora Arruda era dirigido pelos 
governistas da CUT, UNE, PCdoB e PT, e foi capitalizado por estes para seu próprio projeto 
eleitoreiro. Após os escândalos, diversos partidos da base de Arruda (tal como PMDB, PSB, 
PDT) passaram de "mala e cuia" para a chapa do PT. ---- Naquele momento o PT vendeu a 
imagem de alternativa aos corruptos e às velhas oligarquias "ficha suja". Porém, a bem 
verdade é que o PT não passou de um fantoche para estabilizar a crise institucional, e as 
classes dominantes se utilizaram da capacidade petista de cooptação das burocracias 
sindicais e estudantis para seguir com tranquilidade sua política neoliberal. As classes 
dominantes locais souberam manejar a situação para se manter no poder.

Governo Agnelo manda tropa de chope e caveirão para reprimir manifestantes em Valparaíso/GO.

O governo Agnelo (PT-PMDB) não significou mudanças significativas para a vida do povo, ao 
contrário, o que vimos nos últimos 4 anos foi o aprofundamento da política neoliberal de 
parcerias público-privadas, a criminalização das lutas populares (vide a repressão às 
revoltas pelo transporte no Entorno e nas periferias, bem como em junho de 2013 e na Copa 
do Mundo), mega-obras como a do estádio Mané Garrincha (que custou 2 bilhões de reais), 
arrocho salarial e repressão à movimentos grevistas (tal como na greve dos metroviários e 
trabalhadores da CAESB).

Portanto, que fique claro: o PT subiu ao governo do DF pelo seu oportunismo, pelas 
alianças com as velhas oligarquias, enfim, pela sua funcionalidade na reprodução do 
próprio sistema, num período de fortes denúncias de corrupção e protesto nas ruas. Longe 
de um partido que conduziu mudanças em defesa do povo, no governo Agnelo estava a 
possibilidade de evitar maiores desgastes do sistema político e das classes dominantes 
locais. Quando elas não precisaram mais do PT, quando viram que podiam sob suas próprias 
tradições e métodos governar o Distrito Federal, começaram por abandonar a base aliada 
(vide PSB e PDT) e depois alçar seus próprios voos. O oportunismo que colocou o PT no 
governo, foi o mesmo que o tirou de lá.

A base social e política das candidaturas e o boicote eleitoral

Os três à direita: Roriz (de casaco), Arruda e Frejat.

O 1º turno surpreendeu a muitos pela ampla vitória do candidato do PSB, Rodrigo 
Rollemberg. O candidato perdeu apenas em uma zona eleitoral (Zona 06, de Planaltina) para 
Jofran Frejat (PR) e com uma diferença de apenas 64 votos. Conseguiu 36, 54% de votos do 
total de eleitores.

O PSB enquanto um partido tipicamente pequeno-burguês compôs os últimos governos de Arruda 
(PR) e de Agnelo (PT), abandonou o primeiro com as denúncias de corrupção e o segundo sob 
a acusação de falta de eficiência. Tais episódios não expressaram uma ruptura com a grande 
política neoliberal destes governos e sim a mais pura disputa burocrática entre as elites 
locais. O PSB nunca foi um partido de massas, vive de suas intrigas e acordos de cúpula. 
Foi hábil no sentido de construir uma "terceira via" desvinculada de Agnelo e de Arruda, e 
de se apresentar como novidade, quando estava desde o início "comendo pelas beiradas".

Apesar de conseguir alto grau de aprovação no início da campanha, a candidatura de Arruda 
(PR) foi suspensa por causa do Ficha Limpa e Jofran Frejat o substituiu para a disputa. 
Frejat conseguiu grandes aliados da velha oligarquia, tal como Arruda, Roriz e Paulo 
Octávio. O programa político foi um misto de discurso liberal ("enxugamento e 
desburocratização da máquina do estado") com a volta de promessas populistas como o "pão e 
leite", tarifa de ônibus a 1 real, dentre outras. Por trás destas promessas estão a defesa 
dos interesses da fração burguesa da construção civil (propõe a desburocratização dos 
alvarás e descentralização das decisões sobre o crescimento dos bairros), agronegócio, 
máfia do transporte (a proposta de tarifa a 1 real é com repasse de verba pública aos 
empresários).  Frejat ficou em segundo lugar com 22,60% do total de eleitores.

Como já dissemos a candidatura de Agnelo (PT-PMDB), ao passo que foi boicotada pelas 
principais frações dominantes da política local, tampouco encontrou uma grande defesa 
entre a sua base sindical. Os trabalhadores da educação e categorias importantes como 
rodoviários foram levadas no último período ao tensionamento com o governo. Campanhas como 
do Sindicato dos Professores (SINPRO), que exaltaram o governo Agnelo como garantia de 
conquistas, caíram no descrédito. Agnelo conseguiu apenas 16,22% dos votos.

Por sua vez, os partidos da esquerda reformista (PSTU, PSOL e PCB) constituíram uma 
"frente de esquerda" centrada na candidatura de Toninho do PSOL. A campanha não expressou 
uma polarização com as demais candidaturas burguesas. Se resumiu a defender maior 
intervenção do Estado e investimento em áreas sociais, uma política intervencionista de 
gerencia do capital. No debate do dia 25/08 quando questionado se seu partido pretendia 
acabar com a polícia militar e o Bope, Toninho negou e defendeu o fortalecimento da 
corporação policial com uma atuação "cidadã e civilizada", ou seja, mesmo numa conjuntura 
de pressão pelo fim da PM o PSOL é incapaz de manter uma posição à esquerda e prontamente 
capitula ao discurso da ordem. O candidato da "frente esquerda" conseguiu apenas 34.689 de 
votos (1,82%), um grande retrocesso em relação às últimas eleições quando Toninho recebeu 
199.095 votos.

A militância do PSOL possui uma base social altamente pequeno-burguesa. Os dados do 1º 
turno evidenciam sua base social e política, Toninho conseguiu sua maior votação na 14º 
Zona Eleitoral (asa norte) com 3.500 votos. Uma "jovem promessa" à deputado distrital, 
Fábio Félix, oriundo do movimento estudantil da UnB, possuiu maiores votações apenas na 
asa norte (1.399 votos) e na asa sul (778 votos). Não seria diferentes já que a campanha 
se concentrou em bares universitários e locais de socialização da pequena-burguesia.

Apesar de baixo em relação ao restante do país o boicote às eleições (votos nulos, brancos 
e abstenções) para governador do DF chegou a 19,19% do total de votantes, ultrapassando o 
ex-governador Agnelo. Analisando os dados do TRE podemos identificar uma certa 
característica socioeconômica e distribuição geográfica dos "não-votantes" no DF. Para 
efeito de síntese iremos pegar os extremos dos dados:

omo vemos no gráfico acima, as três zonas eleitorais que tiveram o menor número de 
não-votos foram bairros com perfil social de renda mais elevada (Octogonal, Águas Claras, 
Sudoeste), além disso, aparece Taguatinga, uma centralidade urbana. Já nas zonas com maior 
boicote vemos claramente outras características socioeconômicas, são as cidades 
dormitórios do DF, refúgio de grande parcela da classe trabalhadora e setores mais 
pauperizados: Gama, Ceilândia, Santa Maria, zonas rurais. Além disso, outros bairros 
periféricos como Paranoá e Varjão, da 2ª Zona, assim como Samambaia e Recanto das Emas, da 
21ª Zona, também tiveram grande rejeição eleitoral, ultrapassando os 23%. A isso se pode 
fazer um paralelo com a realidade nacional onde é na região nordeste o maior número de 
rejeição a farsa eleitoral.

Identificando esse perfil socioeconômico, fica claro para nós que o boicote eleitoral está 
longe de ser uma expressão da "falta de consciência política" ou do "conservadorismo" da 
população. Essas críticas ao boicote expressam (tanto pela esquerda quanto pela direita) 
uma face da racionalidade burguesa, um discurso da intocabilidade da ordem estatal vigente 
e a defesa do voto "em si", ou seja, a necessidade da população votar em alguém (seja quem 
for) para legitimar o processo "democrático". Ao contrário, o que podemos analisar com 
esse padrão geral de rejeição eleitoral é que o boicote é uma expressão do 
descontentamento ante as condições de vida (péssimo transporte, sistema de educação e 
saúde pública precarizada, violência urbana, etc.), onde as frações mais marginalizadas da 
classe trabalhadora são as que menos se sentem representadas pelos sistema político atual.

Segundo turno das eleições: o conflito entre velhas e "novas" oligarquias

Estamos às vésperas do 2º turno distrital e nacional. Nesse contexto, os debates entre 
candidatos a governadores e presidentes estão cada vez mais entregues ao vale-tudo 
eleitoral, às intrigas, denúncias, ataques pessoais/morais e dissimulações. O debate 
programático foi substituído no melhor dos casos para a apresentação de projetos muito 
específicos, que só mudam em grau. Na maioria das campanhas o que temos visto são 
picuinhas sobre curiosidades relativas ao outro candidato, ou seja, a despolitização 
completa do processo eleitoral.

ão existe um antagonismo social que sustente as atuais candidaturas. Tanto no DF quanto a 
nível nacional as disputas não expressam um projeto "popular" contra um projeto 
"neoliberal" ou qualquer coisa parecida. A nível local, tanto PSB quanto PR são partidos 
da burguesia, um se passando por "novidade", outro se passando por "experiência", mas 
ambos disputando quem é mais eficiente para aplicar a mesma política neoliberal.

Um fato que torna mais explícita a farsa das eleições é forma promiscua como se estabelece 
as alianças e coligações. A candidatura de Frejat, que podemos chamar de "velha 
oligarquia", dos setores mais reacionários e neoliberais, é encabeçada por um partido da 
base de Dilma, o Partido da República. Inclusive, nas vésperas deste 2º turno, alguns 
petistas, por não ter candidato próprio ao GDF estão dando apoio à Frejat e compondo essa 
aliança histórica entre rorizistas e petistas. Não por acaso três partidos (PTdoB, PHS e 
PEN) saíram da coligação de Agnelo para apoiar Frejat. Já Rollemberg, reconhecido como 
"socialista" (sic) chama voto para Aécio Neves e firma nesse 2º turno a aliança local 
entre PSB, PDT e PSDB.

O que a classe trabalhadora pode esperar de qualquer um dos dois governos é o 
aprofundamento das parceiras-público-privadas, flexibilização trabalhista, sistemas de 
controle de qualidade (mais opressão sobre os trabalhadores), enxugamento dos gastos 
públicos com setores sociais, incentivos fiscais e segurança jurídica para o 
desenvolvimento dos setores de serviços, construção civil e industrial. Ou seja, devemos 
nos preparar para combater qualquer governo eleito em 26 de novembro.

Reconstruir o movimento de massas na capital federal e no Brasil

Infelizmente toda essa sujeira eleitoral é um espelho da esquerda reformista e burocrática 
de Brasília e do Brasil. As práticas eleitoreiras (alianças sem princípios, calúnias, 
etc.) se repetem no movimento sindical e estudantil com vistas a ganhar as direções das 
entidades a qualquer custo.

Nessas eleições para o governo do DF vimos estudantes que faziam oposição entre si no 
movimento estudantil e que hoje se juntaram na mesma coligação e estão lado-a-lado fazendo 
campanha para Rollemberg e também para Aécio Neves. Vemos os autonomistas do MPL e demais 
camaradas que capitularam a chantagem e ao terror governista sobre a "volta do PSDB" e as 
ilusões do voto como meio para barra o "avanço da direita". Ou seja, existe uma confusão 
ideológica e um oportunismo muito grande envolvendo a esquerda eleitoreira.

Para as massas trabalhadoras, os jovens proletários, as mulheres, negros e camponeses só 
resta uma alternativa: preparar a resistência combativa e de massas para o próximo 
período, independente do partido que for gerenciar o Estado burguês tudo indica um ciclo 
de ataques ainda maior ao direito do povo, de inflação, desterritorialização de camponeses 
e povos tradicionais, militarização dos campos e favelas e repressão às lutas populares.

Essa resistência começa a ser organizada em cada local de trabalho, estudo ou moradia, 
formando oposições e agrupamentos classistas, combativos e independentes (independente de 
patrões, governos e partidos traidores). Essas oposições devem organizar a luta 
reivindicativa através da ação direta, e combater as direções sindicais e estudantis 
reformistas que desmobilizam as lutas. Devem se voltar para a disputa das massas 
populares, nas periferias e locais de base. Não se apegar um só momento a prática festiva, 
descomprometida e pequeno-burguesa da esquerda reformista. A tarefa do momento é expandir 
e massificar essas oposições, criar novas e unificar elas para as batalhas comuns contra o 
Estado e a burguesia. As oposições sindicais, populares e estudantis devem ser o embrião 
do sindicalismo revolucionário brasileiro. Só assim faremos as mudanças que o povo tanto 
precisa.

NÃO VOTE! LUTE!
TODO PODER AO POVO!
AVANTE AS OPOSIÇÕES COMBATIVAS!
ANARQUISMO É LUTA!


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