(pt) Coletivo Quebrando Muros - A Fagulha Ano 4 #8 - Não há Socialismo sem Feminismo -- Por um feminismo classista e libertário!

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Sexta-Feira, 24 de Outubro de 2014 - 08:43:33 CEST


À medida que mais e mais mulheres adquiriram prestígio, fama ou dinheiro a partir de 
textos feministas ou de ganhos com o movimento feminista por igualdade no mercado de 
trabalho, o oportunismo individual prejudicou os apelos à luta coletiva. ---- -bell hooks 
---- Dentro da esquerda e dos movimentos de luta pela libertação da classe trabalhadora, 
existem diversas polêmicas sobre o movimento feminista e a organização de mulheres* dentro 
dos grupos para tratar das questões de gênero. A luta de libertação das mulheres tem sido 
tratada, historicamente, como um objetivo secundário dentro dos movimentos sociais, por 
ser uma questão que não parece claramente ligada ao sistema de exploração capitalista e a 
luta de classes. O feminismo não é visto, até hoje, como importante ou fundamental para a 
luta anticapitalista.

A organização de mulheres na luta
antissexista sempre foi sensível às
diferenças de classes, uma vez que
as mulheres que conseguiam voz
e atenção para suas necessidades
eram as mulheres de classe alta.
Suas pautas, que giravam em tor-
no do direito ao trabalho fora de
casa e do direito ao voto, ganha-
ram força, enquanto as propostas
das mulheres trabalhadoras, que
tinham uma visão mais revolu-
cionária, perderam espaço. Essas
trabalhadoras já estavam inseri-
das no mercado de trabalho mais
precário desde cedo e não viam
nenhuma esperança de mudança
real através do voto. Elas foram
aos poucos desistindo do movi-
mento feminista, que começou a
ter uma cara muito mais liberal e
burguesa. Assim, o feminismo foi
apropriado pelo próprio capital-
ismo.

As mulheres negras
recebem praticamente
metade do que ganham
as mulheres brancas. Em
comparação aos homens
brancos, elas ganham
menos de 30%.

Claro que a pauta reformista do
movimento trouxe melhorias para
todas as mulheres - as burguesas
e as trabalhadoras - e foram con-
quistas muito importantes. Mas
as mulheres das classes mais al-
tas ganharam poder enquanto as
mulheres da classe trabalhadora
continuaram sofrendo com as
diferenças salariais e com a ex-
ploração capitalista, ou seja, o
interesse de classe se sobressaiu.
Hoje, 70% da classe trabalhado-
ra é composta por mulheres que
ganham em média apenas 70%
do salário dos homens em mes-
ma função. Vale lembrar também,
que a grande maioria dos tra-
balhos precarizados - aqueles cu-
jas condições básicas de trabalho
são degradadas - são compostos
pela força de trabalho feminina,
como os trabalhos de telemarket-
ing, limpeza, empresas de serviços
gerais, etc. Muitas vezes são elas
as responsáveis pelo sustento da
família e pela educação das cri-
anças, realizando até hoje a dup-
la - às vezes tripla - jornada de
trabalho. Encarando os assédios
diários do patrão, dos clientes
e dos colegas de trabalho, tanto
numa situação de dominação de
classe quanto de gênero. Para elas,
as conquistas do feminismo liber-
al pelo acesso ao mercado de tra-
balho não representaram uma real
mudança, porque não garantiram
que o trabalho doméstico fosse
também dividido igualmente com
seus parceiros homens.

Se considerarmos também a
questão racial, a desigualdade
aumenta. As mulheres negras re-
cebem praticamente metade do
que ganham as mulheres bran-
cas. Em comparação aos homens
brancos, elas ganham menos de
30%. Isso considerando apenas o
mercado de trabalho formal - com
carteira assinada e assegurado le-
galmente. Ou seja, sem considerar
praticamente metade dessas mul-
heres, uma vez que apenas 41%
delas trabalham com carteira as-
sinada, enquanto 19% se dedicam
ao trabalho doméstico informal;
17% trabalham por conta própria
e 10,5% não exercem nenhum tipo
de atividade remunerada. Es-
sas porcentagens se referem à ren-
da total dessas pessoas.

Analisando os números, fica
claro para nós a relação entre
questões de gênero e de classe.
Se mais da metade da classe tra-
balhadora é composta por mul-
heres, em sua maioria negras,
como pode haver luta de class-
es sem considerar a luta antis-
sexista e antirracista? Isso por
que estamos analisando apenas
as condições de trabalho, e não
outros ambientes que são hos-
tis às mulheres e seus interesses,
como é, por exemplo, o próprio
espaço político de organização
da classe trabalhadora.

"Pautar uma luta
socialista libertária é
pautar uma luta antis-
sexista e antirracista.

Como em todo ambiente que par-
ticipamos, mesmo a luta anticapi-
talista reproduz as contradições e
opressões de gênero, se tornando
um espaço essencialmente mas-
culino. Por motivos óbvios: o
espaço público nunca foi social-
mente adequado às mulheres; a
nós sempre foi reservado o priva-
do, o cuidado da casa e da família.
Política é coisa de homem - bran-
co. Enquanto as pessoas que não
sofrem essas opressões se cala-
rem diante desse tipo de situação,
não reconhecerem seus privilé-
gios e não se proporem a constru-
ir um espaço que não só permita,
mas que dê voz à todas as pessoas
oprimidas, isso não vai mudar.

Mesmo dentro de movimentos
de esquerda, ainda encontramos
também casos de estupro entre
companheiro e companheira,
agressão física e verbal, violência
psicológica e emocional, e várias
outras formas de violência cotid-
iana a que são submetidas as
mulheres diariamente desde cri-
anças. Mas isso não significa que
a esquerda seja, por essência, um
ambiente que não devamos com-
por. Pelo contrário, é preciso ocu-
parmos esse espaço e lutar para
que companheiros privilegiados
mudem suas atitudes e sua pos-
tura diante da questão de gênero,
assim como fazemos todos os dias
no espaço público, porque eles
também são nossos.

Pautar uma luta socialista libertária
é pautar uma luta antissexista e
antirracista. E é com organização
e união que vamos garantir que
a luta libertária abranja todas
as lutas de resistência. Também
temos o direito e devemos lutar
lado a lado, abaixo e à esquerda,
contra o capitalismo, pois a luta
antissexista e antirracista por si
só não irá abalar as estruturas do
Capital. Não há revolução sexual
sem a revolução social!

*O termo "mulheres", em dis-
cussões feministas, sofre inter-
pretações diferentes. Nós utili-
zamos essa palavra no texto para
abarcar mulheres cis e trans.

Fontes:

http://www.ufgd.edu.br/reitoria/neab/
downloads/situacao-das-mulheres-ne-
gras-no-mercado-de-trabalho-uma-anal-
ise-dos-indicadores-sociais-giselle-pinto


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