(pt) Coletivo Quebrando Muros - A Fagulha Ano 4 #8 outubro 2014 - Content + A palavra de Ordem é Greve!

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Quarta-Feira, 22 de Outubro de 2014 - 10:36:54 CEST


Content --- A palavra de Ordem é Greve! (pág 2) --- O Impasse do Passe Livre (pág 4) ---- 
Não há socialismo sem feminismo	(pág 5) ---- EBSERH (pág 6) ---- A Outra Campanha (pág 7) 
---- A palavra de Ordem é Greve! -- Solidariedade de classe! ---- Apalavra 'Greve' voltou 
ao vocabulário do povo. Garis em greve. ---- Motoristas em greve. Metroviários em greve. 
Professores em greve. Servidores e técnicos das universidades em greve. Parece que a cada 
dia que abrimos um jornal, tem uma greve. Não é à toa. Desde 1996 não haviam tantas greves 
ocorrendo no Brasil. Mais do que isso, tantas greves radicalizadas, conquistando direitos 
para as pessoas trabalhadoras. As greves estão tomando as ruas novamente! ---- Mas porque 
fazemos greve? ---- Fazemos greve porque precisamos. Lutamos para garantir nosso acesso às 
necessidades básicas, como moradia e alimentação. De acordo com o DIEESE, 41% das greves 
de 2012 foram por maiores salários, 23% relacionadas à planos de carreira e 27% tinham 
como pauta o vale-alimentação.

O que está longe de ser ganância: um
salário melhor não nos aproxima
das pessoas ricas, apenas garan-
te que a inflação não irá engolir
nosso dinheiro, que não seremos
obrigados à nos endividar, que
conseguiremos pagar o aluguel,
as contas, a alimentação. Tam-
bém fazemos greve porque nossos
patrões não nos pagam: 18% das
greves tiveram como pauta atraso
no pagamento de salários. Outras
coisas pautadas foram: melhores
condições de trabalho (15,2%), as-
sistência médica (12%), melhorias
na educação (6,3%) e transporte
(7,2%) públicos.

Essas pautas não sãoW nada além
de um reflexo do sistema em que
vivemos. Cada vez mais vemos di-
reitos básicos sendo privatizados
e precarizados, e nos obrigamos a
pagar por eles. A educação e a saúde
foram pautas das greves pois vêm
sendo sucessivamente desmonta-
das e modificadas pelos governos,
favorecendo os interesses de um
grupo privilegiado.

Resgate Histórico

Pode não parecer, mas o instru-
mento de greve é parte impor-
tante da nossa história. Não
dessa história dos livros do Ensi-
no Médio, que não nos pertence,
pois é dos "grandes homens" e
dos "grandes eventos"; mas da
história que escrevemos todos os
dias, quando saímos de casa para
trabalhar, produzir e construir o
mundo, recebendo tão pouco em
troca; da história de quem sempre
sofreu e lutou com a opressão do
capitalismo; da história de quem
precisa gritar para se fazer ouvir;
da história do povo.

"Em 2013, tivemos as jornadas de Junho, com mais de 2 milhões de pessoas tomando as ruas 
do país

No início do século XX, as pes-
soas trabalhavam de 12 a 16
horas por dia, inclusive as cri-
anças, e as condições de vida dos
trabalhadores eram bastante pre-
cárias. Em 1906, temos a fundação
da Confederação Operária Brasile-
ira, a COB, que foi fundamental
para as lutas daquele momento,
mas com a vinda da Primeira
Guerra Mundial, a situação pi-
orou. Em resposta tivemos muitas
lutas, sendo uma das mais mar-
cantes a greve geral de 1917, que
abalou o Brasil. Esse movimento,
assim como os diversos movimen-
tos que ocorreram ao longo da dé-
cada de 20, resultou na conquista
de muitos direitos básicos que as
pessoas trabalhadoras do Brasil
tem atualmente, como a jornada
de trabalho de 8 horas diárias.

É importante dizer qual era a fer-
ramenta usada por essas pessoas:
a ação direta, o enfrentamento
radical, sem nenhuma conciliação
com os interesses dos patrões!

O movimento operário se man-
teve forte ao longo da década de
20, e a resposta dos patrões e do
Estado foi a ditadura de Getúlio
Vargas. "Concedendo" direitos que
há muito as pessoas trabalhado-
ras reivindicavam, esse ditador
ficou conhecido como o "pai dos
pobres". Mas para além disso, ele
tomou duas medidas que desartic-
ularam o movimento: uma forte
repressão e o atrelamento dos
sindicatos ao Estado.

Por muito tempo, esse atrela-
mento imobilizou o sindicalismo,
com raras exceções. A retomada
do movimento operário de mas-
sas vem na década de 70, mas o
aumento das lutas veio ainda du-
rante a ditadura militar, eminen-
temente entre os metalúrgicos de
São Paulo. No final da década de
70 e inicio dos anos 80 grandes
greves eclodem no país, movi-
mentos que tiveram grande im-
portância para o fim da ditadura
militar, e que, através de sua or-
ganização levaram à formação da
Central Única dos Trabalhadores
(CUT).

Infelizmente, ainda nos anos 80,
houve a vitória das correntes mais
reformistas do Partido dos Tra-
balhadores dentro da CUT. Esse
processo retirou o caráter revolu-
cionário do sindicalismo, usando
a organização como ferramenta
para as eleições burguesas. Esse
processo culmina com a Eleição
de Lula, em 2012, onde o projeto
do Partido dos Trabalhadores já
estava degenerado a tal ponto que
para nós fica claro de qual lado ele
está: dos ricos e dos patrões.

Essa conjuntura, do sindicalismo
reformista e pelego, que mais tra-
balha para os patrões doque para
os trabalhadores, persiste até
hoje. Porém, vemos que nos últi-
mos anos as coisas tem mudado...

A Retomada da Ação Direta

Em 2012 vivemos uma das
maiores greves da educação supe-
rior da história do país. Mais de 3
meses de greve, com praticamente
todas as universidades federais
lutando. Tivemos também greves
no correio, dos metalúrgicos, e
em diversos setores da iniciativa
privada. Movimentos que não es-
tavam atrelados à setores governi-
stas, movimentos combativos.

Em 2013, tivemos as jornadas de
Junho, com mais de 2 milhões de
pessoas tomando as ruas do país,
em diversos estados. Se pautava
o transporte público, melhorias
na educação, na saúde, se rechaça-
vam as grandes empresas de mídia
e as siglas partidárias e centrais
sindicais. Essas pautas não sur-
giram do nada. Há muitos anos
os movimentos sociais vem pro-
pagandeando o sucateamento dos
serviços públicos. E, para além
da propaganda, a população vem
sentindo isso na pele. O Junho de
2013 veio de demandas e indig-
nações acumuladas ao longo de
todos esses anos de governos neo-
liberais, sejam pintados de azul ou
de vermelho. E o Junho deixou
um legado muito maior do que os
20 centavos: a redução na tarifa
veio através da força do povo nas
ruas, veio através da ação direta. E
esse foi o legado mais importante:
a ideia de que a rua é do povo, que
é nela onde conquistaremos nos-
sos direitos!

"Precisamos que isso se torne a regra. Precisamos que cada trabalhador se identifique no 
outro."

Os Professores do Rio de Janeiro
foram os primeiros a usar esse le-
gado. Na greve da educação, ocu-
param as ruas, e aproveitando a
onda do Junho, conseguiram le-
var mais de cem mil pessoas para
lá. Os garis também mostraram a
força da ação direta parando em
pleno carnaval, sendo coagidos
pela polícia para trabalhar, tendo
que atropelar a direção do sindica-
to: ocuparam as ruas, receberam
solidariedade do povo e con-
quistaram vitórias importantes.
Rodoviários de vários estados e
metroviários aprenderam com o
exemplo e também tiveram greves
radicalizadas. Ao mesmo tempo,
notamos a persistência das bu-
rocracias sindicais. Na greve dos
professores do Estado do Paraná,
vemos o sindicato, cuja direção
é majoritariamente de uma cor-
rente do PT, travando uma greve
que contou com mais de 20 mil
pessoas nas ruas. O sindicato, ao
invés de ser usado como ferramen-
ta de luta, é usado para proteger
interesses dos patrões e como
trampolim eleitoral.

A necessidade da solidariedade de classe

Estamos no momento de um pe-
queno ascenso das lutas da classe
trabalhadora, mas ainda
não na véspera de uma grande gre-
ve geral, como a de 17, que abalou
a estrutura do sistema capitalista.
Esses processos todos trouxeram
alguns ganhos políticos muito
importantes: a retomada da ação
direta como método de luta e a in-
dependência das categorias frente
às direções burocráticas. Porém,
quando pensamos numa perspec-
tiva de longo prazo, não basta ter
a luta radicalizada sem ter uma or-
ganização onde os trabalhadores e
as trabalhadoras sejam capazes de
pensar as suas demandas e ações.
É necessária a retomada dos orga-
nismos de classe (sindicatos, di-
retórios acadêmicos, associações
de bairro) pelos próprios trabalha-
dores, para que esses organismos
sirvam como ferramentas para a
luta, e não como espaços buro-
cratizados onde algumas pessoas
decidem pela categoria como um
todo.

Mais do que isso, precisamos fo-
mentar a solidariedade de classe.
Quando a população do Rio de Ja-
neiro foi às ruas junto dos profes-
sores e dos garis, isso fortaleceu
imensamente a luta. Precisamos
que isso se torne a regra. Precisa-
mos que cada trabalhador se iden-
tifique no outro. Que estudantes
se identifiquem com professores,
garis, metroviários, moradores da
periferia e camponeses. Que as
lutas saiam do corporativismo e
se unifiquem, que tenhamos uma
solidariedade de classe que saia
dos discursos e se materialize nas
ruas!


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