(pt) France, Organisation Communiste Libertarie (OCL) - Por que o mundo está ignorando os curdos revolucionários na Síria? Por David Graeber (ca, en, fr)

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Segunda-Feira, 13 de Outubro de 2014 - 16:26:51 CEST


Em 1937, meu pai se ofereceu como voluntário para lutar nas Brigadas Internacionais em 
defesa da República espanhola. Um possível golpe fascista havia sido detido 
temporariamente pela sublevação dos trabalhadores, encabeçada pelos anarquistas e 
socialistas, e em grande parte da Espanha uma autêntica revolução social se produziu, o 
que levou a cidades inteiras em autogestão democrática, indústrias sob o controle dos 
trabalhadores, e o fortalecimento radical das mulheres. ---- Os revolucionários espanhóis 
esperavam criar uma visão de uma sociedade livre que todo o mundo pudesse seguir. Em 
troca, as potencias mundiais declararam uma política de "não intervenção" e mantiveram um 
bloqueio rigoroso da república, inclusive depois que Hitler e Mussolini, signatários 
ostensivos, começaram a mandar tropas e armas para reforçar o lado fascista. O resultado 
foram anos de guerra civil que terminou com a derrota da revolução e alguns dos massacres 
mais sangrentas de um século sangrento.


Eu nunca pensei que veria, em minha própria vida, ocorrer a mesma coisa. Obviamente, 
nenhum acontecimento histórico sucede realmente duas vezes. Há mil diferenças entre o que 
ocorreu na Espanha em 1936 e o que está acontecendo em Rojava, as três províncias curdas 
em grande parte do norte da Síria, hoje. Mas algumas das semelhanças são tão 
surpreendentes, e tão angustiantes, que sinto que me incumbe, como alguém que cresceu em 
uma família cuja política eram em muitos aspectos definida pela revolução espanhola, 
dizer: Não podemos deixar que termine da mesma maneira outra vez.

A região autônoma de Rojava, tal como existe hoje em dia, é um dos poucos pontos 
brilhantes - na realidade um muito brilhante - que emergiram da tragédia da revolução 
síria. Depois de haver expulsado os agentes do regime de Assad em 2011, e apesar da 
hostilidade de quase todos seus vizinhos, Rojava não só mantém sua independência, mas é um 
notável experimento democrático. As assembleias populares foram criadas como os órgãos de 
tomadas de decisão em última instância, os conselhos são selecionados com um cuidadoso 
equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três altos oficiais tem que incluir 
um curdo, um árabe e outro cristão sírio ou armênio, e ao menos um dos três tem que ser 
uma mulher), existem conselhos juvenis e de mulheres e, em um notável eco da organização 
armada *Mujeres Libres* da Espanha, um exército feminista, a mítica "YJA Estrela" (a 
"União de Mulheres Livres", a estrela faz referência à antiga deusa da mesopotâmia 
Ishtar), que levou a cabo uma grande parte das operações de combate contra as forças do 
Estado Islâmico.

Como pode ocorrer algo assim e, todavia ser quase totalmente ignorado pela comunidade 
internacional, incluindo, em grande parte, pela esquerda internacional? Principalmente, ao 
parecer, devido a que o partido revolucionário de Rojava, o PYD, trabalha em aliança com 
os Trabalhadores Curdos da Turquia (PKK), um movimento guerrilheiro marxista que desde os
anos de 1970 esteve envolvido com uma grande guerra contra o Estado turco. A OTAN, os EUA, 
e a União Europeia o classificam oficialmente como uma organização "terrorista". Enquanto 
isso, os esquerdistas em grande maioria os descrevem como stalinistas.

Mas na realidade, o próprio PKK já não é nada remotamente parecido com o velho partido 
leninista vertical que uma vez foi. Sua própria evolução interna, e a conservação 
intelectual do seu fundador, Abdullah Ocalan, que esteve em uma prisão em uma ilha turca 
desde 1999, o levou a trocar por completo seus objetivos e táticas.

O PKK declarou que já nem sequer trata de criar um estado curdo. Em seu lugar, inspirado 
em parte pela visão do ecólogo e anarquista Murray Bookchin, adotaram a visão de 
"municipalismo libertário", chamando os curdos a criarem comunidades livres, autônomas, 
baseadas nos princípios da democracia direta, que logo se uniriam através de fronteiras 
nacionais - as quais se espera que se tornem progressivamente insignificantes. Desta 
forma, propuseram, a luta curda poderia se converter em um modelo para um movimento 
mundial até uma autêntica democracia, economia cooperativa, e a dissolução gradual da 
nação-estado burocrática.

Desde 2005, o PKK, inspirado na estratégia dos rebeldes zapatistas em Chiapas, declarou um 
alto ao fogo unilateral com o Estado turco e começou a concentrar seus esforços no 
desenvolvimento de estruturas democráticas e os territórios que já controlavam. Alguns 
questionam o quão isso é sério na realidade. Claramente permanecem elementos autoritários. 
Mas o que se sucedeu em Rojava, onde a revolução síria deu aos radicais curdos a 
oportunidade de levar a cabo tais experimentos em um grande território, ao lado, sugere 
que isto é qualquer coisa menos uma fachada. Conselhos, assembleias e milícias populares 
se formam, a propriedade do regime foi entregue às cooperativas administradas pelos 
trabalhadores - e tudo isso apesar dos contínuos ataques por parte das forças de extrema 
direita do ISIS. Os resultados cumprem com qualquer definição de uma revolução social. No 
Oriente Médio, pelo menos, estes esforços se fazem notar: Sobretudo depois que as forças 
do PKK e Rojava interviram para abrir-se exitosamente um caminho através do território do 
ISIS no Iraque para resgatar os milhares de refugiados yezidis presos no Monte Sinjar 
depois que os peshmerga locais fugiram do campo. Estas ações foram amplamente celebradas 
na região, mas notavelmente quase não chamou a atenção da imprensa europeia e estadunidense.

Agora, o ISIS voltou, com dezenas de tanques de fabricação estadunidense e artilharia 
pesada tomadas das forças iraquianas, para se vingarem contra muitas dessas mesmas 
milícias revolucionárias em Kobané, declarando sua intenção de massacrar e escravizar - 
sim, literalmente escravizar - toda a população civil. Enquanto isso, o exército turco 
está na fronteira evitando que reforços ou munições cheguem aos defensores, e os aviões 
estadunidenses passam por cima zombando, lançando alguns ocasionais, simbólicos e 
diminutos bombardeios - ao parecer, só para poder dizer que não é certo que não fizeram 
nada como um grupo que diz estar em guerra com os defensores de um dos grandes 
experimentos democráticos do mundo.

Se há um paralelo hoje com os superficiais devotos, falangistas assassinos de Franco, quem 
seriam senão ISIS? Se há um paralelo com as *Mujeres Libres* da Espanha, quem poderiam ser 
senão as mulheres valentes que defendem as barricadas em Kobané? O mundo - e mais 
escandalosamente, a esquerda internacional - será realmente cúmplice de deixar que a 
história se repita?


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