(pt) Anarkismo.net: Cenário pós-eleitoral - as marchas de 15 de novembro e o epicentro da política brasileira em São Paulo by BrunoL (en)

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Terça-Feira, 25 de Novembro de 2014 - 09:38:37 CET


O debate a respeito do cenário pós-eleitoral, ao contrário do que muitos esperavam, não se 
atenuou. Aumenta a intensidade dos protestos por direita, e, ao mesmo tempo, abre-se todo 
um leque de possibilidades para colocar o governo reeleito contra a parede, diminuindo 
ainda mais sua estreita margem de manobra. Podemos identificar quatro possibilidades 
dentro do cenário complexo onde se realizam arenas simultâneas de embate. ---- São estes: 
----- a disputa direta de Aécio Neves e a direção nacional do PSDB diante da desconstrução 
do governo reeleito, sua meta é ir acumulando força eleitoral para 2018; estes se aliam 
com a direita mais à direita que, apelando para posições semelhantes às da oposição 
venezuelana, contesta a lisura do pleito e, por tabela, seu resultado

- no plano jurídico-político, a CPI da Petrobrás atingindo no meio ao presidencialismo de 
coalizão, sendo alvos PT, PP e PMDB além das maiores empreiteiras do país; neste cenário, 
ainda que corte na carne, a federação de oligarquias estaduais e regionais que atende pela 
sigla do PMDB é a que mais pode tirar proveito. Para isso operam a reorganização do Blocão 
e a projeção de seu líder legítimo, o peemedebista fluminense, Eduardo Cunha

- dentro do Planalto não há calmaria alguma, há tanto possibilidade de fogo amigo na CPI 
da Petrobrás como um avanço ainda mais perigoso, com a chance de não aprovação das contas 
de campanha de Dilma

- o cenário por esquerda tampouco é convidativo para a presidenta; a lógica se repete com 
uma série de promessas não cumpridas e a fragilidade de um governo que sequer gera coesão 
no partido de governo. Desde a plataforma dos movimentos sociais - onde a esquerda social 
de perfil governista, com maior proximidade (caso da CUT) ou mais afastada (como o MTST), 
até as agrupações bem mais à esquerda (como as que organizaram os protestos de 2013), o 
lulismo tem contas a pagar com a militância e pelo visto estas só serão acertadas se a 
pressão vier debaixo para cima, condicionando apoio tático (caso da base social do 
governo) ou tácito (caso da direção nacional do PSOL que se não se cuidar pode operar como 
linha auxiliar do governo) para com alguma medida concreta de reformas de base.

Expostas as quatro frentes de onde o governo pode ficar tanto abalado como até impedido 
(caso dos andamentos descontrolados da CPI da Petrobrás derivados do inquérito da Polícia 
Federal na Operação Lava Jato), analisaremos nos textos que seguem a distintos na política 
brasileira no tempo presente. Neste, comecemos pela direita.

O fim de semana (sábado 15 de novembro) coincidiu com o feriado da proclamação da 
república através de um golpe de Estado sem planejamento foi palco de nova tentativa de 
articulação da oposição de direita em escala nacional. Armados de um senso comum udenista, 
os protestos demonstraram o quanto os conservadores estão divididos. Ressalto o óbvio: o 
fato da direita estar dividida não significa que seja menos perigosa.

Se os democratas liberais vêem com temor os brados por "intervenção militar", também é 
possível observar um aproveitamento tácito pelo alto tucanato dos protestos. Estes atos de 
repúdio a vitória das urnas da democracia indireta foram convocados a partir de uma 
postura neoliberal, alinhada com a nova direita brasileira (como a do Instituto Millenium 
e seus aliados). Os protestos atingem também a vontade de mobilização das viúvas revividas 
do Golpe, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC paulista) e seus correligionários 
no conservadorismo neopentecostal. Estes, representados pela legenda do PSC (o mesmo 
partido de Marco Feliciano) e encabeçados pelo "pastor" Everaldo, tem uma linha política 
assemelhada a um hibridismo entre o Tea Party e os NeoCon dos EUA. Esta gente clama sem 
pudor algum a defesa da ordem interna, atributo constitucional do Exército, como força de 
última instância para a manutenção do status quo.

O embate nesta interna não tardou, já que a oposição ao segundo governo Dilma tem presença 
difusa em redes sociais e opera através de figuras midiatizadas. Lobão, por exemplo, 
arrisca o que sobrou de sua reputação (se é que algo restara....) mesclando-se com gente 
como Olavo de Carvalho (no papel de intelectual orgânico das direitas, tentando ser figura 
ecumênica entre os conservadores) e compartindo a rua com o deputado estadual Coronel 
Telhada (PSDB-SP). Mesmo abandonando o ato (rachado) de São Paulo e declarando-se - 
através de sua conta pessoal no twitter - como "traído pela manipulação da 
extrema-direita"o ex-cantor de protesto termina por retro-alimentar aquelas e aqueles a 
participar da nova versão da Marcha com Deus pela democracia! Pelo visto não tardou em 
chiar, como dizia o refrão dos anos sessenta.

A "sorte" do governismo é o limite da direita em sua verve moralista. Isto porque, na 
Operação Lava Jato estão sob a lupa da PF as maiores empreiteiras do Brasil e a direita 
neoliberal tem como limite na crítica ao Bismarckismo Tropical do PT os ataques aos 
agentes econômicos. A presidente Dilma em plena reunião do G-20 já antecipou este 
problema, tentando defender as empreiteiras (por tabela, pedindo o cuidado com a 
generalização) e a Petrobrás. Atacar a estatal (de capital misto) do petróleo brasileiro 
nunca foi problema para o próprio Lacerda assim como para seus descendentes; já o ataque 
ao alto empresariado nacional, sempre foi algo contido.

O epicentro da política nacional está em São Paulo

O cenário pós-eleitoral ainda está em aberto e tem em São Paulo seu epicentro em dois 
embates simultâneos: um, de ordem tática e visando a acumulação eleitoral, contrapõe a 
prefeitura de Fernando Haddad - prefeito do PT e ex-ministro de Lula - diante do Palácio 
dos Bandeirantes, do tucano reeleito Geraldo Alckmin. Já a arena citada no início desta 
análise, marca a luta pela esquerda social e com alguma participação da esquerda política 
(cenário onde o PT orgânico pouco ou nada se mete) diante da ameaça de impeachment vinda 
da extrema-direita e dos neoliberais que, somados e identificados na campanha de 2o turno, 
podem ter em Aécio Neves o Henrique Capriles brasileiro.

Evidenciado o epicentro, concluo esta análise questionando: - Será que a unidade por 
esquerda começa com os setores mais próximos do apoio crítico ao lulismo? Será que não 
seria o momento apropriado para amarrar uma carta de reformas de base, um programa de 
medidas populares, a exemplo do programa marcado pela CAB em sua declaração de "voto" nas 
últimas eleições?

Escrevendo como analista que toma posição e explicita as próprias referências 
político-ideológicas (pois estas palavras têm vínculo com a linha libertária, me 
equilibrando entre minhas vontades e o rigor analítico) aponto o seguinte. Qualquer ato, 
marcha ou reivindicação que possa se desmarcar do governo e ao mesmo tempo dar o embate 
necessário para direita grotesca que se articula reforçando a versão do Capriles 
brasileiro; qualquer ação neste sentido, é bem vinda. As forças político-sociais à 
esquerda deveriam (entendo assim, torço para que ocorra) correr para impor seu programa 
(como reforma agrária, democracia dos meios de comunicação social, reforma urbana, reforma 
política com democracia direta) e não deixar sombra de dúvida de não estarem operando como 
linha auxiliar do lulismo. Se esta desconfiança prosperar, adeus iniciativa política pela 
base. Já se a força da reivindicação concreta ganhar as ruas, o jogo pode virar. Na rua, 
as forças do povo são sempre imbatíveis.


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