(pt) Anarkismo.net: Debatendo com Carlos Alberto Sardenberg - as caracterizações e sinais de Dilma Rousseff diante da encruzilhada na política econômica by BrunoL (en)

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Domingo, 23 de Novembro de 2014 - 10:18:43 CET


Poucas vezes pude concordar tanto com Sardenberg (se é que não foi primeira), âncora da 
CBN, colunista do Jornal da Globo, blogueiro e jornalista da velha guarda no rumo 
inexorável da curva à direita já feita por Paulo Francis, dentre outros. O comentarista de 
economia do jornal noturno da empresa líder sugere para Dilma a cópia do modelo de 
comportamento chinês, pois segundo o próprio: ---- "Os líderes chineses têm uma habilidade 
especial para adotar políticas pró-mercado com uma retórica de esquerda para agradar esse 
lado do Partido. Vire à direita, dê sinal à esquerda -- tal é o ensinamento." ---- Luiz 
Carlos Trabuco, presidente executivo do Bradesco, assim como Henrique Meirelles, foi 
cotado pelo Planalto para emplacar na pasta da Fazenda do 2º governo de Dilma. ---- Logo, 
ainda segundo o próprio, este seria um ensinamento positivo. Concordo com a 
caracterização: a China é um espaço paradisíaco para o investimento externo, onde a taxa 
de permanência de capital vale pelo gigantismo de seu mercado interno. Mas, ao mesmo 
tempo, não pode ser baliza de comportamento político para nenhum governo preocupado com a 
soberania popular. Para Sardenberg, Dilma faz o inverso, e por tanto, erra:

"Pois parece que a presidente Dilma está com o mesmo dilema, invertido: como seguir pela 
esquerda, mas dando sinal à direita?"

De novo o jornalista referência para o Instituto Millenium acerta na caracterização, 
comigo discordando apenas da crítica. Este analista (o que aqui escreve) afirmara em 
diversas ocasiões que Dilma, Lula, o partido de governo e o lulismo como um todo, fizeram 
campanha por esquerda para governar à direita. Para tanto, gostariam de contar com 
banqueiros em postos-chave, tal seria o caso de Luiz Trabuco (Bradesco) e Henrique 
Meirelles (Bank Boston). Na versão de Sardenberg, cada qual seria um heróico self made 
man, entrando na base da hierarquia destas gigantes financeiras e terminam suas carreiras 
no topo da cadeia alimentar corporativa. Não posso discordar, estes operadores brasileiros 
venceram milhares de obstáculos para alcançar o topo de suas carreiras.

Fica a contradição. O mérito individual destes não altera a natureza da atividade bancária 
em sua versão especulativa e como bomba de sucção da economia. Não deve haver ilusão, caso 
não tivéssemos o Estado alimentando a política industrial e o consequente emprego direto, 
não haveria possibilidade de crescimento com trabalho estável. Dilma tampouco reduziu os 
ganhos do mercado financeiro, pois após algumas quedas sucessivas na famigerada Selic, 
esta voltara a subir, assim como o "sinal à direita" dado pelo aumento logo após a 
reeleição. Nem assim o "mercado" se acalmou, pois segundo Sardenberg (e ele sabe o que 
fala, pois escreve como sendo o espelho de suas fontes), a confiança seria verdadeiramente 
sinalizada caso:

"Isso exige ajuste fiscal, ou seja, economia no Orçamento, superávit primário maior, 
gastos contidos. Essa austeridade é condição para segurar a inflação. Quanto maior a 
austeridade das contas públicas, menor a taxa de juros necessária para derrubar a inflação."

Aí entra minha profunda discordância com o comentarista da CBN. Ninguém em sã consciência 
pode acreditar que a inflação seja controlada através do aumento da taxa básica de juros. 
O artigo de autoria de Maria Lucia Fattorelli (A inflação e a dívida pública) publicado no 
Le Monde Diplomatique e referência para o tema demonstra de forma incontestável o absurdo 
deste argumento. O professor da PUC-SP, Ladislau Dowbor demonstra o mesmo com riqueza de 
detalhes.

O problema é que o animal é faminto, e sua gula é infindável. Parece que os Executivos à 
frente dos grupos econômicos aqui operando querem, literalmente, o controle sobre os 
recursos coletivos, não importando se as regras do jogo desta democracia indireta e 
incompleta, onde o 3o turno condiciona o resultado do 2o, sejam ou não respeitadas.

Sardenberg termina dizendo que caso Trabuco ou Meirelles (aceitassem, este analista não 
crê nestas possibilidades), seria um verniz diante do discurso da presidente em função de 
suas escolhas e anúncios na campanha. Infelizmente, estamos anos luz deste pânico, do 
verdadeiro alarmismo que corre na(s) direita(s) brasileira. A recomendação do jornalista 
econômico é interessante, ao afirmar que:

"Ora, um ministro da Fazenda vindo da esquerda, um novo Mantega, um Mantega mais esperto, 
conseguiria dar os sinais à direita? Dilemas difíceis levam à paralisia. No caso da 
presidente Dilma, isso seria apenas trocar o ministro e manter tudo como está, dobrando 
aposta na "nova matriz", essa de hoje, como disse na campanha."

Ou seja, Sardenberg aposta que Dilma se posiciona por esquerda, indicando que houve a 
escolha pela "nova matriz" e esta poderia ser materializada com a indicação de algum 
economista vinculado ao desenvolvimentismo, como aqueles que assinaram o manifesto 
publicado na semana de 09 de novembro na capa da Carta Maior. Digo que, apesar de ter 
votado com a disciplina orgânica de sempre (em Zumbi e Sepé), entendo que este momento - 
caso venha a ocorrer (no todo ou na parte) - seria interessante.

Porque assim teríamos a chance de ver os porta-vozes da direita mais acuada e uma 
possibilidade de mobilizar as bases sociais para ao defender seus interesses diretos. 
Óbvio que tais bases sociais estão, hegemonicamente, vinculadas ao lulismo, e por tanto, 
longe de serem reorganizadas por esquerda. Mas, ainda assim, como o partido de governo 
deixou há muito qualquer tipo de posicionamento popular ou classista, poderia ser a 
oportunidade de ao menos traçar a unidade sindical que tarda, no mínimo dez anos em 
ocorrer. A obviedade indica uma aglutinação de rumando à esquerda da CUT, acumulando 
forças as correntes eleitorais e não-eleitorais.

Vamos então torcer para que a profecia de Sardenberg seja anunciada. Infelizmente, este 
analista não crê tampouco nesta possibilidade. Fica a corrente prá frente.


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