(pt) Organização Anarquista Terra e Liberdade O(A)TL Audiência do Cristiano Spiegel, perseguido político! por Rurik (en)

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Sexta-Feira, 14 de Novembro de 2014 - 18:37:59 CET


LEIAM O RELATO DO CRISTIANO SPIEGEL: ---- Eu vinha participando da maioria dos atos de 
protesto no Rio de Janeiro desde maio de 2013. Na noite do dia 20 de junho de 2014, 
sexta-feira, fui preso e acusado de expor ao perigo uma aeronave - um helicóptero da 
Polícia Militar do Rio de Janeiro - por meio de uma ponteira de raio laser, dessas 
vendidas na Rua Uruguaiana, no centro do Rio de Janeiro. ---- Ao fim da tarde daquele dia, 
cheguei na concentração de um ato em prol da educação do estado e contra os malfeitos na 
Copa do Mundo de Futebol da FIFA, no Largo da Candelária. O local estava tomado por 
policiais, muitos mais do que os manifestantes no momento. Tive a informação de que cerca 
de seis midiativistas foram, até então, detidos sem motivo algum e levados para 
delegacias. Não demorou muito e pelo menos mais um deles foi detido, aparentemente sob a 
alegação estapafúrdia de que sua bateria de celular seria na verdade um explosivo. 
Enquanto isso, montei um cartaz que dizia "Legado dos megaeventos: 250 mil pessoas 
removidas" e dei uma entrevista anônima para uma jornalista independente espanhola.

Finalmente a passeata começou, virando na Avenida Rio Branco. O destino era os Arcos da 
Lapa, onde ocorria um ato cultural, com música e festa junina, organizado pela Frente 
Independente Popular - FIP, porém pouco antes da esquina com a Rua do Ouvidor, a PM cercou 
a manifestação. Ciente de que isso foi uma quebra de nossos direitos e irritado, fugi 
enquanto o cerco ainda se formava e me pus além da barreira policial. Avançando 
lentamente, antes de chegar à esquina seguinte, a passeata foi impedida de seguir e eu 
ouvi um estampido de arma - tiro de borracha ou bomba de efeito moral. Nada da parte dos 
manifestantes provocara aquele ataque por parte da PM. Pensei que a manifestação se 
dispersaria, então resolvi seguir sozinho, com cartaz erguido, pela Rio Branco e a 
Evaristo da Veiga, até os Arcos.

Cheguei aos Arcos e lá fiquei, conversando com conhecidos e desconhecidos. Não sei quanto 
tempo se passou, pois não portava relógio naquela ocasião, mas a passeata ressurgiu 
através da Rua do Passeio, provando que eu estava errado em achar que ela tinha acabado, 
com um número de manifestantes muito maior com a chegada do Sindicato Estadual dos 
Profissionais de Educação do Rio de Janeiro - SEPE-RJ. Parte deles resolveu continuar 
marchando pela Mem de Sá e outra parte ficou nos Arcos.

Eu e outros presentes continuamos notando a quantidade exagerada de policiais no ato, 
assim como o monitoramento por helicópteros. Nesse momento, eu conversava com pessoas que 
não conhecia e um deles afirmou algo como "O pau tá comendo na Rua do Lavradio", em 
referência aos educadores do SEPE que continuaram a passeata. Mais ou menos sobre a Rua do 
Lavradio, um dos helicópteros da polícia sobrevoava, sendo visível a nós no Largo através 
dos Arcos.

Resolvemos brincar com o helicóptero, projetando nele meu laser verde. O helicóptero 
pairava perpendicularmente a nós, sem virar, sem sair de lá e sem nenhum outro corpo com o 
qual colidir nas suas proximidades. Por um bom tempo ficamos lá. Várias pessoas apontaram 
o laser, sem causar reação nos PMs, nem mesmo uma advertência. De repente, quando o laser 
já estava de volta comigo, duas enormes filas indianas de policiais surgiram, me 
abordaram, tomaram minha ponteira laser e me levaram para a viatura. Não resisti. Os PMs 
disseram não saber para qual delegacia me levariam nem sob qual artigo eu estava sendo 
detido. Isso seria resolvido depois via rádio.

Tive a sorte de ter sido tratado com dignidade até chegar à delegacia (17ª, em São 
Cristóvão), mas lá, não tive direito de conversar em particular com o advogado do DDH que 
veio em meu auxílio. Um dos PMs puxou um celular e tirou uma foto do advogado, causando a 
imediata reclamação por parte deste. Um soldado do batalhão de choque disse que não 
permitiria que conversássemos a sós, pois os advogados "atrapalham nosso trabalho nas 
manifestações, então vou atrapalhar o seu também". A conversa mais reservada que tivemos 
foi momentos antes de eu ser encarcerado, aos olhos do delegado. Fui autuado em flagrante 
sob o artigo 261 do Código Penal, expor ao perigo embarcação ou aeronave. Minha família e 
meus professores da UFRJ foram informados de minha situação.

No dia seguinte, fui levado para o Complexo Penitenciário de Gericinó (Bangu), com parada 
no IML, onde um perito olhou para nossas caras e nos liberou. Éramos eu, dois supostos 
ladrões, um senhor envolvido em colisão de automóveis e mais um homem. Ao chegar no Bangu 
10, fui imediatamente separado dos outros antes da revista e da troca de roupa. Os 
funcionários disseram que sabiam que eu "não era bandidagem, mas um manifestante". Percebi 
ali que os outros receberiam um tratamento diferenciado, para pior, antes mesmo de 
qualquer condenação.

Conforme fui levado para dentro, dois inspetores penitenciários vieram conversar comigo e 
me tranquilizar. Fiquei sabendo que minha integridade estava sendo garantida por causa da 
quantidade de telefonemas que receberam procurando informações sobre mim. De qualquer 
forma, esses carcereiros criaram alguma simpatia por mim, compreendendo que eu estava na 
manifestação por acreditar nos meus ideais e não por motivo escuso ("Ele é estudante de 
Filosofia! Ele foi por ideologia mesmo."), e resolveram me informar que, em um ou dois 
dias, eu seria transferido para outra penitenciária, onde estariam "o Fábio e o Caio", 
para ver se eu "falava alguma coisa". Fiquei sem entender do que se tratava, apenas muito 
depois concluindo que eram Fábio Raposo e Caio de Souza, envolvidos no acidente que matou 
o cinegrafista Santiago. Perguntei então quem eram esses e o carcereiro explicou que 
estavam procurando informações de pessoas que teriam sido pagas por Anthony Garotinho ou 
Marcelo Freixo para fazerem manifestações contra o governo e que eu seria posto no mesmo 
corredor em que Caio e Fábio para ver se eu era um "playboy se fingindo de black bloc". 
Essa história cretina de black blocs financiados por políticos me soava fantasiosa e eu 
não acreditava que alguém realmente a levava a sério até então, mas em meu estado 
emocional fragilizado, comecei a duvidar do que era ou não real. Enquanto a transferência 
não ocorria, fiquei no mesmo corredor que alguns torcedores chilenos que tentaram invadir 
o Maracanã e aguardavam deportação.

Em um momento, um funcionário da penitenciária veio me dizer que conhecia o lugar onde 
moro. Percebi aquilo como intimidação, mas tive muita sorte de não ter sido tratado da 
mesma forma como os presos comuns são tratados lá. Eu ouvia gritos dos detentos 
recém-chegados e dos carcereiros. Sabia que havia pessoas apanhando, sendo humilhadas. Os 
presos compõem uma casata de brasileiros aos quais o Estado nega direitos dos mais 
básicos. Quando as outras castas da sociedade desistem de ver uma população inteira 
enquanto os seres humanos que são, como podem exigir dessa população que não faça o mesmo 
em retorno? O componente moralista da meritocracia, que coloca como objeto direto da luta 
de classes não a produção ou o lucro, mas as vidas humanas, é o que nos leva mais 
rapidamente ao abismo da barbárie. A fantasia do "homem de bem" ou "homem cordial" cria 
uma competição em que os parâmetros de bem ou mal se perdem numa guerra de todos contra 
todos. Minha cela era fria, suja, cheia de mosquitos e eu sofro problemas respiratórios, 
alergias e uma depressão crônica grave - e foram quatro noites sem meus antidepressivos -, 
mas isso não era nada perto dos gritos de gente que sofria muito mais do que eu. Antes de 
dormir, os detentos improvisam cultos religiosos para fugir ao desespero, nos quais a 
penitenciária inteira grita em coro para ultrapassar os muros que os separam. O resultado 
me soava como algo saído de um filme assustador, embora eu compreenda a função que esses 
cultos têm para acalmar os espíritos dos participantes. Me revolto pensando que isso seja 
alimento para as contas bancárias de evangelizadores que se aproveitam do sentimento de 
desamparo dos presos.

No dia 23, segunda-feira, me deram a notícia de que eu seria libertado juntamente com os 
chilenos e um boliviano do mesmo corredor. Nós éramos proibidos de olhar o caminho que 
percorríamos, então eu não sabia para onde nos levavam. Quando percebi, estávamos no pátio 
interno da penitenciária Bangu 9, sendo tratados com deboche pelos funcionários de lá. Eu 
ainda não estava livre, mas fora transferido conforme os carcereiros da 10 previram. 
Rasparam meu cabelo e me conduziram a cela. Eu fui posto no mesmo corredor que Fábio 
Raposo e Caio de Souza, ficando de frente para o primeiro, cada um em sua cela única.

Fábio me cumprimentou e eu fiquei confuso, pois não sabia quem ele era, mas ele foi rápido 
em me esclarecer. Ele começou a conversar comigo, juntamente com outro interno que estava 
do outro lado da grade de acesso ao corredor, provavelmente fora de cela para fazer 
trabalhos no presídio. Esse interno, cujo nome não sei, insinuou que rolaria algum ganho 
nos protestos. "Como assim?", perguntei. Ele perguntou sem rodeios, então, se eu estava 
sendo pago por políticos para protestar. Eu fiquei possesso e estourei em cima o sujeito. 
"Você acha que se eu ganhasse dinheiro de político ainda viveria com minha família na 
Cidade de Deus? Eu sou estudante de Filosofia da Política, faço estágio para ser professor 
de ensino médio. Eu acredito no que faço. Se alguém está ganhando dinheiro com isso, esse 
não sou eu! Prefiro ser chamado de massa-de-manobra do que traidor do povo!" O funcionário 
do presídio voltou e eu repeti o que disse para ele. Os deboches do funcionário pararam 
ali. (Curiosamente, este também conhecia onde moro.)

Eu não sou nenhum herói, nenhum bravo paladino, nem nunca disse ser. Caí em desespero e 
fugi para detrás do muro que havia na cela. Já não tinha certeza sobre a realidade à minha 
volta e comecei a achar que havia caído em alguma armadilha onde ninguém prestava, 
servindo de bode expiatório numa guerra entre atores políticos e midiáticos completamente 
fora de meu alcance e percepção, na qual eu era só mais um otário. Pensei que minha vida 
tinha sido destruída. Eu ouvia risadas dos outros internos, mas minutos depois, Fábio 
falou que começou a ficar preocupado comigo e me chamou para sair de trás do muro. Ele me 
falou para ficar calmo e que estávamos todos na mesma situação. Ele afirmou não ter 
ligação com político ou grupo nenhum e que a mídia o transformou num monstro. Tanto ele e 
Caio haviam caído na cilada do advogado Jonas Tadeu Nunes, que chegou a falar 
indevidamente por eles em vez de representá-los. Pedi que chamassem algum funcionário e 
aquele último mesmo voltou. Falei para ele que sabia que eu fora transferido ali para que 
dissesse alguma informação, mas eu não sabia nada que pudesse dizer a eles. O funcionário 
tentou me acalmar, dizendo que ele e seus colegas não tinham poder de investigação, logo 
nada que eu dissesse ali poderia ser usado contra mim. Ele me deu um comprimido de 
clonazepam para me acalmar e dormir.

Fui libertado no dia seguinte (não sem antes um dos funcionários me dizer "até logo" e que 
me veria de novo na vizinhança). Minha e irmã e meu cunhado foram me buscar, porém foram 
atrapalhados por algum funcionário que os informou erroneamente que eu fora transferido 
para Magé. Alguns dias depois, a UFRJ publicou carta aberta e abaixo-assinado contra a 
prisão e acusação de manifestantes, eu incluso.

No meu inquérito, o piloto do helicóptero afirma que foi obrigado a fazer "manobras 
arriscadas" para fugir do laser, o que é uma mentira, pois estava pairando sobre o mesmo 
local o tempo todo. A atitude mais sensata a tomar para evitar o laser seria contatar os 
inúmeros policiais em solo para nos abordar e não uma "manobra arriscada", e foi 
justamente assim que o piloto procedeu, porém apenas muitos minutos depois de iniciadas as 
projeções. Uma das provas contra mim seria o vídeo gravado pela câmera do helicóptero, 
porém o acesso ao mesmo foi negado ao advogado que me assiste. Com esse vídeo, ficaria 
claro que tais manobras não aconteceram. Também foi afirmado que o laser cegara 
momentaneamente o piloto, sendo que o ângulo de incidência nem ao menos permitia atingir 
seus olhos.

Minha audiência está marcada para dia 18 de novembro às 13:20 na sala 805 da 36ª Vara 
Criminal e será presidida pelo juiz Marcel Laguna Duque Estrada, conhecido pelo 
conservadorismo e espírito carcerário. Por enquanto, duas pessoas se dispuseram a 
testemunhar em minha defesa: uma testemunha de conduta e outra do incidente.

Cristiano de Oliveira Gomes, graduando de Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências 
Sociais da UFRJ, ativista socialista de linha anarco-comunista e preso político.


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