(pt) Anarchist Federation of Rio de Janeiro FARJ - Libera #161 - Tudo em nome de "lindas conquistas"

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Quarta-Feira, 21 de Maio de 2014 - 16:12:04 CEST


Uma declaração da Zabalaza Anarchist-Comunist Front (ZACF) sobre a Copa do Mundo de 
Futebol de 2010 na África do Sul ---- A Copa do Mundo de Futebol de 2010 deveser exposta 
tal qual ela foi: uma completa e vergonhosa farsa. A Zabalaza Anarchist-Commu-
nist Front (ZACF) condena veementemente a audácia e a hipocrisia do governo sul-africano 
ao apresentar esse evento como uma oportunidade "única na vida" para que houvessem 
melhorias econômicas e sociais para os que vivem na África do Sul (e também para aqueles 
que vivem no resto do continente). O que é gritantemente claro é que a "oportunidade" foi 
e continua sendo uma causa de euforia para o capital global e doméstico, bem como para a 
elite sul-africana. Com efeito, se alguma coisa o evento trouxe, foram sim consequências 
devastadoras para os pobres e trabalhadores da África do Sul.

Nos preparativos para receber a
Copa do Mundo, o governo gastou
cerca de 800 bilhões de rands (cer-
ca de 73 bilhões de dólares), sendo
757 bilhões em desenvolvimento de
infraestrutura e 30 bilhões em es-
tádios que nunca mais serão ocu-
pados. Um tapa na cara coletivo
daqueles que vivem num país carac-
terizado pela pobreza e com cerca
de 40% de taxa de desemprego. Nos
últimos cinco anos, os trabalhadores
pobres expressaram seu desgosto e
desapontamento quanto à ineficiên-
cia do governo em corrigir a sólida
desigualdade social através de mais
de 8 mil protestos país afora, exigin-
do serviços básicos e moradia.
Este padrão abusivo de gastos é
mais uma evidência da manutenção
do fracassado modelo neoliberal,
  que preconizava "aumentar o bolo
  antes de redistribuí-lo". Porém, nada
  fez além de aprofundar a desigual-
  dade e a pobreza. Embora tenham
  havido afirmações contrárias, o go-
  verno recentemente admitiu isto ao
  mudar de opinião, e agora finge que
  o projeto nunca teve a intenção de
  gerar lucros.

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Não apenas a repressão estatal
foi particularmente severa
sobre os pobres e qualquer
manifestação ou atividade anti-
Copa do Mundo; tudo dentro
do disfarce da África do Sul
como um anfitrião de braços
abertos para aqueles reunidos
em hotéis de luxo, albergues
da juventude e bares. Mas tudo
isso foi feito sob a orientação
de Joseph Blatter e do império
criminoso chamado FIFA ...
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  A África do Sul necessita desespe-
radamente de infraestrutura em
grande escala, especialmente na área
de transporte público que, em algu-
mas cidades, incluindo Jo-
ahnesburgo, é completamen-
te inexistente. O Gautrain (moderno sistema fer-
roviário com 80km ligando Pretória, Jo-
ahnesburgo e o aeroporto Oliver Tambo)
inaugurado dia 8 de junho de 2006 - à tem-
po para o grande evento - é pro-
vavelmente a maior ironia de todas:
em um país onde a maioria maciça
da população tem que confiar nos
inseguros micro-ônibus privados
para viajar longas distâncias todos
os dias, o Gautrain oferece alta ve-
locidade e luxo para turistas e para
aqueles que viajam entre Joahnes-
burgo e Pretória desde que você
possa pagar, já que uma viagem en-
tre o aeroporto e Sandton custa a
  quantia de 100 rands (cerca de 10
  dólares). A mesma coisa acontece
  em outros lugares: a Companhia de
  Aeroportos da África do Sul (ACSA)
  gastou mais de 16 bilhões de rands
  (cerca de 1,5 bilhões de dólares) em
  melhorias de aeroportos; a Agência
  Nacional de Rodovias Sul-Africanas
  (SANRAL) gastou mais de 23 bi-
lhões de rands (cerca de 2 bilhões
de dólares) em uma nova malha de
rodovias pedagiadas. Tudo isso vai
ensejar medidas de recuperação de
investimentos bilionários, o
que pouco vai beneficiar os
pobres sulafricanos.

Por todo o país, municípios decidi ram adotar
esquemas de revitalização urbana, acompanhados da
consequente gentrificação, na medida
  em que o governo tenta rapida-
  mente ocultar a dura realidade sul-
  africana. Mais de 15 mil moradores
  de rua foram isolados em abrigos
  de Joahnesburgo. Em Cape Town,
  a prefeitura desalojou milhares de
  pessoas de áreas empobrecidas ou
  ocupadas como parte do projeto da
  Copa do Mundo. A cidade de Cape
  Town tentou, sem sucesso, desalo-
  jar 10 mil moradores de Joe Slovo

para escondê-los de turistas que
viajassem ao longo da rodovia N2.
Outras tentativas similares ocor-
rem em qualquer lugar em que haja
demanda por espaço para estádios,
parques para torcedores ou esta-
ções de trem. Em Soweto, rodovias
estão sendo embelezadas ao longo
das principais rotas turísticas ou da
FIFA, enquanto escolas adjacentes
apresentam vidros quebrados e edi-
fícios em ruínas.

Apesar de muitos sul-africanos não
terem se convencido, outros são ar-
rastados pela enxurrada de propa-
ganda nacionalista que visa desviar a
atenção do circo que é a Copa do
Mundo. Toda sexta-feira foi denomi-
nada com a "Sexta do Futebol", quan-
do a "nação" era encorajada (e as
crianças em escolas obrigadas) a usar
o uniforme da seleção sul-africana, os
"Bafana-Bafana". Os automóveis por-
tavam bandeiras; as pessoas aprende-
ram a "Diski-dance" (a dança oficial
da Copa de 2010) que era apresen-
tada regularmente em todos os res-
taurantes turísticos; e compraram
os bonecos Zakumi, mascote oficial
do mega-evento esportivo. Qualquer
um que demonstrasse ceticismo em
relação à Copa, era taxado como
antipatriota. O primeiro exemplo
dessa paranóia aconteceu quando
trabalhadores grevistas da South Afri-
can Transport and Allied Workers Union
(SATAWU) foram "convencidos" a
desistir de suas reivindicações em
nome dos "interesses nacionais". Em
um cenário em que cerca de um mi-
lhão de empregos foram perdidos ao
longo dos últimos anos, as afirma-
ções espetaculosas do governo de
que foram criados mais de 400 mil
postos de trabalho redundam vazias
e ofensivas. Os empregos criados são
predominantemente circunstanciais
ou "contratos de duração limitada",
ocupados por trabalhadores não-sin-
dicalizados e cujos rendimentos es-
tão abaixo do salário mínimo oficial.

Além da repressão aos sindicatos,
os movimentos sociais receberam
do estado uma hostilidade seme-
lhante, que de forma "não-oficial"
proibiu qualquer protesto duran-
te o evento a partir de março de
2006, mais de três meses antes da
Copa. De acordo com Jane Duncan:
"Uma pesquisa realizada em outros
municípios que receberão jogos da
Copa do Mundo revelou que uma
proibição geral de reuniões está em
operação. De acordo com a muni-
cipalidade de Rustenberg, manifesta-
ções estão vetadas para a Copa do
Mundo. A prefeitura de Mbombela
disse que não permitiria protestos
durante a Copa. O Conselho da
Cidade do Cabo afirmou que con-
tinuaria a aceitar pedidos para ma-
nifestações, mas indicou que estes
atos podem se tornar um problema
durante a Copa. De acordo com as
prefeituras de Nelson Mandela Bay
e Ethekwini, a polícia não permitirá
manifestações durante o período da
Copa do Mundo".

Embora seja claro que a constitui-
ção, muitas vezes saudada por sua
face "progressista", está longe de ser
a garantia da liberdade e da igualda-
de que o governo afirma, esta nova
forma de repressão está claramente
em contradição com o direito cons-
titucional à liberdade de expressão
e de reunião. No entanto, movi-
mentos sociais de Joahnesburgo,
incluindo o Fórum Anti-Privatização
e vários outros não desistiram tão
facilmente, tendo conseguido ob-
ter autorização para uma marcha
de protesto no dia da abertura da
Copa, com a ajuda do Instituto da
Liberdade de Expressão. No entan-
to, a marcha foi forçada a ser reali-
zada a três quilômetros do estádio,
onde não vai atrair qualquer tipo de
atenção da mídia.

Não apenas a repressão estatal foi
particularmente severa sobre os
pobres e qualquer manifestação
ou atividade anti-Copa do Mundo;
tudo dentro do disfarce da África
do Sul como um anfitrião de braços
abertos para aqueles reunidos em
hotéis de luxo, albergues da juven-
tude e bares. Mas tudo isso foi feito
sob a orientação de Joseph Blatter
e do império criminoso chamado
FIFA, maravilhosamente referida
como THIEFA pelo Fórum Social de
Durban (THIEF em inglês significa
ladrão). A entidade máxima do fu-
tebol mundial espera colher com a
Copa cerca de 1,2 bilhões de euros,
já tendo ganho mais de 1 bilhão com
os direitos de transmissão.

Os estádios e áreas vizinhas que
foram entregues à FIFA durante o
torneio ("zonas livres de impostos",
áreas controladas e monitoradas
pela THIEFA, isentas de tributação
normal e outras leis estaduais), e to-
das as rotas próximas aos estádios
foram limpas de qualquer um que
vendesse produtos não-oficiais e
aqueles que vivem em acampamen-
tos ao longo das estradas do ae-
roporto. Assim, todos aqueles que
tinham a intenção de vender produ-
tos relacionados à Copa do Mundo
para aumentar os seus rendimentos
de sobrevivência foram deixados de
fora do grande circo futebolístico.

A FIFA, como proprietária exclusi-
va da marca Copa do Mundo e dos
seus produtos, também conta com
uma equipe de aproximadamente
100 advogados vasculhando o país
para evitar qualquer venda não au-
torizada e o marketing da marca.
Estes produtos são apreendidos e
os vendedores presos, apesar do
fato de que a maioria na África do
Sul e no continente compra esses
produtos do setor de comércio
informal, visto que poucos têm di-
nheiro suficiente para pagar o preço
abusivo de uma camisa de seleção
ou qualquer outro produto. A FIFA
também tem efetivamente amorda-
çado jornalistas com uma cláusula
de que impede as organizações de
mídia de provocarem descrédito a
si própria e a Copa do Mundo, com-
prometendo claramente a liberdade
de imprensa.

A grande ironia é que o futebol já
foi verdadeiramente o jogo da classe
trabalhadora. Assistir jogos ao vivo
nos estádios era barato e de fácil
acesso para as pessoas que optavam
por passar 90 minutos sem pensar
da labuta diária de suas vidas sob a
bota do patrão e do Estado. Hoje,
o futebol profissional e a Copa do
Mundo trazem lucros exorbitantes
para uma pequena elite global e do-
méstica (com bilhões gastos desne-
cessariamente em um momento de
crise capitalista global), que gastam
fortunas todas as temporadas para
assistir jogadores de futebol regia-
mente pagos se jogarem escandalo-
samente no gramado a cada jogada
mais ríspida e que discutem, através
de seus empresários parasitas, so-
bre se são ou não merecedoras de
seus enormes salários. Um jogo que,
em muitos aspectos, mantém a sua
beleza estética, perdeu a sua alma
proletária e foi reduzido para ape-
nas mais um conjunto de mercado-
rias a serem exploradas.

Bakunin disse uma vez que "as pes-
soas vão à igreja pelos mesmos mo-
tivos que vão à taverna: para entor-
pecerem-se, para esquecerem a sua
miséria, a imaginarem-se, por alguns
minutos, de qualquer maneira, livres
e felizes". Talvez, entre todas as ban-
deiras nacionalistas tremulando e
o soprar das vuvuzelas, podemos
acrescentar o esporte nessa equação
e que pode parecer mais fácil esque-
cer do que participar ativamente na
luta contra a injustiça e a desigualda-
de. Mesmo assim, há muitas pessoas
que o fazem, e a classe trabalhadora,
os pobres e suas organizações não
são tão maleáveis à ilusão como o
governo gostaria de acreditar. Das
construções irregulares e acampa-
mentos temporários nas portas dos
estádios aos protestos e manifesta-
ções de massa; de todas as greves
pelo país, autorizadas ou não, apesar
dos insultos, zombarias e os rótulos
de serem "impatrióticas"; das san-
sões à liberdade de expressão nós,
desafiadoramente, fazemos ouvir
nossas vozes para expor as terríveis
desigualdades que caracterizam a
nossa sociedade e os jogos mundiais
disputados em detrimento das vidas
daqueles sobre os quais os impérios
são construídos e que serão, em úl-
tima instância, destruídos.

Abaixo a Copa do Mundo!
Abaixo a repressão estatal
e o nacionalismo, que divide
os povos!

Avante a luta do povo contra
a exploração!

Tradução e adaptação: Rudesindo.


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