(pt) Coletivo Anarquista Luta de Classe - 1 ° DE MAIO, DO LUTO À LUTA, DAS ORIGENS AOS DIAS ATUAIS (en)

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Sexta-Feira, 2 de Maio de 2014 - 08:58:31 CEST


Primeiro de maio é dia de luto e luta, não de festa! ---- Texto publicado na primeira 
edição de Opinião Anarquista  do CALC, distribuído  no primeiro encontro do CEL (Círculo 
de Estudos Libertários), no dia 01 de Maio de 2013. ---- 1° de Maio: Lutar com os de 
"baixo" ou festejar com os de "cima"? ---- "Tenho sido tratado aqui como um assassino e só 
se me tem provado que sou anarquista. Pois repito que protesto contra essa bárbara pena, 
porque não me foi provado crime algum. Porém se tenho de ser enforcado por professar 
ideias anarquistas, por meu amor à igualdade, à liberdade, à fraternidade, então nada 
tenho a objetar. Se a morte é a pena correlativa à nossa ardente paixão pela liberdade à 
espécie humana eu digo bem alto: disponde de minha vida!" ---- (Adolph Fisher, um dos 
mártires de Chicago)

Breve histórico das origens do 1° de Maio no mundo:

A data do 1° de maio tem sua origem relacionada a eventos que ocorreram no ano de 1886, 
nos Estados Unidos da América, em Chicago. Naquele ano ocorreram em todo os E.U.A. 
manifestações que tinham em comum a luta pela jornada de 8 horas diárias de trabalho. Em 
Chicago 35.000 pessoas foram as ruas buscando tal reivindicação no em 1886, resultando 
desta manifestação 6 mortos e 4 feridos. No quatro de Maio, em meio a um meeting operário 
que ocorrera na Praça de Haymarket, uma bomba é "misteriosamente" arremessada na policia.

Sem conseguir encontrar um culpado a policia decide por prender anarquistas, destacados 
militantes do movimento operário. Foram presos: George Engel, Adolph Fisher, Louis Lingg, 
August Spies, Samuel Fielden, Oscar Neeb, Michael Schwab, Wilian Lessinger, Jhon Most. 
Mais tarde, antes que ocorresse o julgamento Albert Parsons, também procurado pelo caso, 
mas foragido, se entregaria em sinal de lealdade a seus companheiros. O julgamento ocorre 
no dia 28 de agosto de 1887, este segundo as pesquisadoras do movimento operário Cardoso e 
Araújo tinham como objetivo por parte das "(...) autoridades judiciárias norte-americanas 
viam neste julgamento a oportunidade de eliminar a influência do anarquismo entre os 
operários" (CARDOSO & ARAÚJO, 1986). Os resultados do julgamento são condenações a forca 
para Parsons, Fisher, Engel, Spies, prisão perpétua para Fielden, Schwab, 15 anos de 
reclusão para Neeb e a expulsão de Most dos E.U.A. Lingg havia suicidado-se no cárcere e 
Lessinger desapareceu no presídio no qual estava.

Em memória aos "mártires de Chicago", como ficaram conhecidos os trabalhadores condenados 
por ocasião do "massacre da praça de Haymarket", o Congresso da II AIT (Associação 
Internacional dos Trabalhadores), ocorrido no dia 11 de junho de 1889 declara o 1° de maio 
dia de luta pelas 8 horas. Tal congresso ainda contava com a militância anarquista em seus 
espaços (expulsos em 1896). Em 1890 os E.U.A. aprovam a jornada de 8 horas, em 1894 é 
revisado o julgamento dos "mártires de Chicago" que passam a ser considerados inocentes, 
graças à luta e organização dos trabalhadores americanos.

O 1° de Maio na Terra das  Araucárias

A primeira comemoração genuinamente operária do 1° de maio no Brasil se dá em Santos em 
1892. No Paraná, a data inicialmente era comemorada como um "pacto" de classes, as 
autoridades e a mídia empresarial da época estimulavam a cordialidade dos trabalhadores, 
que deveriam receber a data como "presente" de seus patrões. Podemos ver na matéria 
publicada na mídia local de Curitiba no 1° de maio de 1900: "Aos operários paranaenses 
apresentamos no dia de hoje as expressões de nossas simpatia pelo modo pacífico e digno 
com que festejam e glorificam." (Apud, Diário da Tarde, Curitiba, 1° de maio 1900). Nos 
anos subsequentes permaneceu o "bom comportamento" até que em 1907 a Liga dos Sapateiros 
chama uma passeata e atividades artísticas que memorassem o dia de "luto e luta" no Teatro 
Guaíra. A partir deste momento a data seria alvo de disputa por parte da classe 
trabalhadora e das elites, bem como seu direito de livre organização. Nesse mesmo ano é 
aprovado o artigo (n°1637) que possibilitava a expulsão de imigrantes. Nos anos 
posteriores teremos atos públicos da classe trabalhadora: em 1908 na Associação Curitibana 
dos Empregados do Comércio é fundada a Liga Operária 1° de maio e em 1909 ocorre o ato do 
1° de maio na Sociedade Protetora do Operário, quando a data passa a ser motivo de 
mobilizações também em várias cidades do litoral impulsionada pelas manifestações da 
capital. Mais tarde em 1913 a data é motivo de uma manifestação massiva contra a carestia 
que força a prefeitura a negociar com uma comissão de operários, o dia passa a ser um 
momento de exercício da ação direta, tal elemento pode ser encontrado no 1° de maio de 
1917, segundo Araujo e Cardoso um prenuncio da Greve Geral de 1917.

Frente a uma conjuntura de forte ascensão da organização da classe operária, ao mesmo 
tempo em que uma revolução proletária ocorre na Rússia, e intentos similares ocorrem no 
Brasil como a Insurreição de 1918 no Rio de Janeiro, o Estado por meio de seus governos 
cumpre seu papel de defensor das classes dominantes. O Presidente Arthur Bernardes criaria 
em 1923 a lei 5221 que possibilitava o fechamento de associações operárias, o que na 
verdade regularia uma prática, na medida em que a União Operária Paranaense, por exemplo, 
já havia sido fechada em 1920. Os anarquistas, principais animadores do movimento operário 
naquele momento, tem "atenção especial da repressão", tendo uma lei que proíbe sua 
propaganda promulgada em 1921 a lei 4269. Os anos de 1929 e 1930 figuram como momentos de 
resistência onde vemos a data ser comemorada pelos operários de forma desvinculada das elites.

Em 1930 é eleito Getúlio Vargas, um populista que buscava selar o pacto de classes. Em 
1931 cria o Ministério do Trabalho, trazendo consigo a lei de sindicalização, subordinando 
os sindicatos à outorga do estado, situação que permanece até hoje. Tal lei acaba por 
destruir a liberdade de organização dos trabalhadores. Como a repressão não bastava para 
apaziguar os ânimos das classes exploradas, em 1932 são aprovadas as primeiras leis 
trabalhistas, sob a tutela do "pai dos pobres", que buscava com tais medidas apagar da 
história os anos de luta da classe operária, verdadeira responsável pela aprovação de tais 
leis. Para ter dimensão do período: se aprovava leis de proteção ao trabalho de um lado, e 
se proibiam os desfiles no 1°de maio do outro.

A repressão se intensificaria nos anos de governo Vargas, que terminaria como uma ditadura 
no período do Estado Novo (1937-1945). Este período faria por destruir todo movimento 
operário autônomo. Segue-se neste momento uma série de tentativas de vincular o 1° de maio 
a uma data cívica, festiva, como bem já se apontava em 1919 com a transformação desta em 
feriado, em 1943 é aprovada a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) nesta data, em mais 
um dos esforços de Vargas em demonstrar que a luta de classes não era necessária.

Tal tendência se consolidaria no movimento local, e mesmo nacional, que não conseguiria 
reagir nas décadas seguintes. Durante toda a década de 50 registram-se as "festas do 
trabalho", com fito de memorar o pai dos pobres. Passariam longos anos assim, até que por 
volta dos anos 60, reapareceriam manifestações de rua de cunho reivindicatório. Mas tal 
movimento não amadureceria e em 1964 temos um segundo golpe de Estado, agora militar, 
regime que proibiria os sindicatos. De 1964 a 1968 vemos uma forte repressão ao movimento 
operário. O regime militar tornaria a data um momento cívico novamente, de festejos, 
práticas esportivas, de "ordem", tudo menos luta. Nos fins dos anos 70 veríamos um esboço 
de reação do movimento de trabalhadores local, sucedem-se naquele ano muitas manifestações 
e greves por direitos democráticos.

Durante toda a década de 80 o movimento dos trabalhadores acumularia forças para derrubar 
a ditadura. No ano de 1983 as primeiras manifestações por eleições diretas ocorrem pelo 
Brasil, tendo Curitiba como um local de manifestações de massa em torno da pauta.

Tal movimento acumulou forças por todo o período da reabertura democrática, forjando as 
organizações da classe que seriam responsáveis por tocar as lutas das classes exploradas, 
dentre elas a CUT (Central Unica dos Trabalhadores). Esta desde cedo se identifica em 
muito com o projeto do PT (Partido dos Trabalhadores), pois este partido é formado pelos 
que estavam nas lutas por liberdade e direitos, e mais, impulsiona com sua militância tais 
organismos. Estes passam a ter ligações "umbilicais". Durante toda a década de 90 o PT 
amadurece seu projeto eleitoral. A CUT segue como base de apoio de tal projeto, que 
culmina na vitória presidência de Lula em 2002. Isso nos coloca em uma conjuntura em que o 
movimento dos trabalhadores acaba por tornar-se suporte das candidaturas trabalhistas.

No atual momento é um partido de origem trabalhista que dirige o país. O Estado, todavia, 
não mudou seu caráter, continuando a atacar os direitos da classe trabalhadora. O que 
mudou com tudo isso foi a postura da classe e seus organismos, hoje totalmente envolvidos 
pela agenda do Estado. Se "ontem" eram os "representantes" das classes dominantes que 
reprimiam e cassavam os direitos dos trabalhadores, hoje são oriundos da classe 
trabalhadora aqueles que governam em prol da exploração. O último ataque é encabeçado por 
sindicalistas, aplaudido pelo governo e pelos patrões, que é a ACE (Acordo Coletivo 
Especial), que visa tornar lei os acordos sindicais (entre patronal e laboral). Tal lei 
faria por acabar com os direitos trabalhistas na prática, pois atualmente a imensa maioria 
dos sindicatos se encontra descolada da base em suas decisões, e que tem direções 
facilmente cooptáveis.

Em mais um 1° de maio estamos na eminência de mais ataques à classe trabalhadora. Por todo 
o século XX, as classes dominantes com apoio do Estado buscaram acabar com o movimento dos 
trabalhadores independente, combativo e revolucionário. Hoje o movimento se encontra na 
defensiva, e mais, a regra é a cooptação dos trabalhadores para projetos eleitoreiros, 
fazendo do movimento mera base de candidaturas "trabalhistas", trazendo os trabalhadores 
para o hall da política burguesa (o Estado). Hoje aqueles que buscavam ser os 
"representantes" da classe são aqueles que gerenciam a exploração. O confronto ideológico 
entre a ideia de um 1° de maio dia da "Festa do trabalho" ou dia de "luto e luta", é cada 
vez mais necessário, vide as grandes "festividades" financiadas por entidades sindicais, 
partidos políticos e Estado. É necessário recuperar não só o 1° de maio, mas o movimento 
dos trabalhadores para as mãos destes, afinal a "emancipação dos trabalhadores será obra 
dos próprios trabalhadores".

Baixe a versão que foi impressa do Opinião Anarquista/CALC  n° 1 aqui Opinião Anarquista 
1-1de maio 2013


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