(pt) Anarkismo.net: Um pouco de autocrítica by Estevam de Vieira - Liga Libertária (en)

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Segunda-Feira, 30 de Junho de 2014 - 16:36:18 CEST


É sempre necessário recordamo-nos com honestidade que o Anarquismo deriva da tradição 
histórica (ou como chamam os mais antigos, tradição revolucionária), e que enquanto 
conjunto de ideias, propostas, críticas e soluções que contrariam o método científico 
advogado pelos marxistas - configurando mera "fábula", como afirmam de má fé seus 
adversários políticos - prioriza acima de tudo a orientação prática das ideias, visando 
tão somente à revolução social, sobretudo mediante a realização de seu objetivo finalista 
de reorganização da sociedade. Este artigo propõe uma reflexão sobre nossa 
responsabilidade enquanto propagadores e apoiadores do movimento. ---- É sempre necessário 
recordamo-nos com honestidade que o Anarquismo deriva da tradição histórica (ou como 
chamam os mais antigos, tradição revolucionária), e que enquanto conjunto de ideias, 
propostas, críticas e soluções que contrariam o método científico advogado pelos marxistas 
- configurando mera "fábula", como afirmam de má fé seus adversários políticos - prioriza 
acima de tudo a orientação prática das ideias, visando tão somente à revolução social, 
sobretudo mediante a realização de seu objetivo finalista de reorganização da sociedade.¹

O Anarquismo historicamente tomou corpo e identidade própria através da discussão 
intestina promovida pela classe operária e campesina ainda na metade do século XIX, e 
buscava uma saída no campo político para seus dilemas, conflitos e lutas. Nesse período 
(Revolução Industrial, 2ª fase da Revolução Francesa, Comuna de Paris, etc.), os 
trabalhadores e seus movimentos, ligas e incipientes sindicatos amadureciam ainda suas 
posições de luta. O Socialismo se apresentava como ideia representante dos anseios dos 
trabalhadores, e tal discussão revelava no seio da AIT um descontentamento claro com as 
demais correntes socialistas - a reformista, a legalista e a estatista. Ou seja, o 
anarquismo se consolida, se define e se constrói dentro do tronco socialista, porém 
caracterizando seu setor libertário, que lança as bases de sua orientação teórica e 
aplicação prática através do antiautoritarismo, anticapitalismo, antiestatismo e 
protagonismo popular.

Podemos observar aí, investigando suas referências históricas, que o Anarquismo nem de 
longe se nos apresenta como ideologia individualista, ou ainda, como é comum ouvir hoje em 
dia, como negação da luta de classes. Tais deformações são absurdas: O Anarquismo, desde o 
berço, é social.

É certo, entretanto, que o Anarquismo apresenta tendências - e dissidências - diversas e 
profundas geradas a partir de seus debates, o que é comum a qualquer ideologia/teoria 
política. Ainda mais certo é que o anarquismo não é dogmático, não é uma escola política 
isenta de interpretações. Enquanto movimento político, adapta-se a seu tempo, procura se 
encaixar e inserir suas aspirações à realidade contingente, dando-lhes vazão prática. 
Aliás, isso sempre foi objeto de profunda discussão entre os anarquistas: Organizar-se? E 
como? - não discutiremos aqui o principio ou os métodos de organização - pois sobre eles 
repousam os conflitos internos que provocam a criação das tendências e dissidências 
conhecida por todos.

Todavia, é importante chamar a atenção para a abordagem errônea que se faz do Anarquismo, 
seja por falhas metodológicas (de seus próprios adeptos) ou más intenções (de seus 
adversários políticos). Por falta de espaço e para não me estender tanto, não analisarei 
aqui o segundo caso, da deturpação anticonceitual vinda de "pseudomarxistas" (excluo aí o 
setor minoritário e não-bolchevique/socialdemocrata, que preza pela autogestão social, 
organização operária e camponesa pelas bases, longe de partidos políticos), mas sim o 
primeiro, a meu ver mais urgente. A mais grosseira das distorções deriva da perspectiva 
a-histórica: aquela que não leva em conta conceitos político-ideológicos construídos 
historicamente, reduzindo o anarquismo a uma caricatura vazia, somente levando em conta a 
etimologia do termo "anarquia/anarquismo" e através dessa análise simplista, reforçando 
somente a ideia de negação, como se não houvesse preocupação dos anarquistas em construir 
algo no lugar do que se pretende destruir. Ignora-se seus princípios e sua carga teórica 
(luta de classes, igualdade econômica, poder popular, socialismo, anticapitalismo, etc.), 
e as práticas revolucionárias nos países ou regiões onde foi preponderante (Ucrânia, 
Rússia, Brasil, Bulgária, Manchúria, Espanha, para citar apenas alguns exemplos).

Esse tipo de abordagem - feita mormente por seus adversários políticos bolcheviques, 
liberais, pós-estruturalistas/pós-modernos - deu margem à criação de vários pressupostos 
ideológicos, escolas e movimentos que se auto denominam "libertários", nascendo daí uma 
constelação de anarquismos, cada qual obediente a uma adaptação/deformação/revisão 
própria, mas marcado pela característica comum a todos, que é o claro esvaziamento 
ideológico, transformando-se o anarquismo então num conceito abstrato, numa filosofia 
individualista com aspirações místicas, idealistas, encarcerada na subjetividade, no 
relativismo ético e individualidade dos sujeitos; descompromissada com projetos políticos 
amplos e organizações revolucionárias sérias.

O Anarquismo passa então a funcionar não mais como um instrumento de luta da classe 
operária e dos oprimidos para sua defesa e emancipação, mas como mero passatempo, objeto 
de requintados debates acadêmicos, de afirmação da intelectualidade pessoal e 
majoritariamente inserido no conjunto de fenômenos contra-culturais; na música punk, no 
rock agressivo, descolado e crítico. Esta interpretação vem, de maneira nociva, despojando 
o Anarquismo de seu sentido revolucionário.

Mas por que o fenômeno? No períodos conturbados entre as grandes guerras do século XX e em 
meio à ação ditatorial, o Anarquismo perdeu seu vetor social (o sindicato). Surgiu a 
necessidade de se buscar uma nova identidade para o movimento e sua militância, e, 
inevitavelmente, não havendo sido encontrado novo vetor social, inadaptados por esse 
período conturbado, os próprios trabalhadores alimentaram as práticas e compreensões 
errôneas acerca do Anarquismo. Para muitos militantes e setores outrora engajados na luta, 
a perda de perspectivas anunciou grande prejuízo futuro, o que os levou pouco a pouco ao 
niilismo e a intrigante inação. O que sobra de todo o arsenal teórico criado por 
Malatesta, Bakunin, Makhno, Kropotkin, etc., e do que uma militância séria oferece, é tão 
só a negação do Estado, ao passo que muitos sujeitos começam a flertar com as tendências 
pós-modernas. Então cria-se e privilegia-se um "anarquismo de estilo de vida", 
desacostumado à militância e sem compromisso com a revolução social, que sempre foi 
encabeçada por ele desde sua origem. Soma-se isso a brecha da falta de estrutura 
organizativa, passando-se a valorizar muito mais as relações afetivas e pessoais em vez da 
ação coletiva e do cultivo das responsabilidades políticas.

Jo Freeman, militante feminista, nos mostra: "Para que todas as pessoas tenham a 
oportunidade de se envolver num dado grupo e participar de suas atividades, é preciso que 
sua estrutura seja explícita, e não implícita. As regras de deliberação devem ser abertas 
e disponíveis a todos, e isso só pode acontecer se elas forem formalizadas. Isto não 
significa que a normalização de uma estrutura de grupo irá destruir a estrutura informal. 
Ela normalmente não destrói, mas impede a estrutura informal de ter o controle 
predominante, e torna disponível alguns meios de atacá-la. A ausência de estrutura é 
organizacionalmente impossível."²

Urge então que nós, militantes sociais, sindicalistas revolucionários e demais camaradas 
compromissados com a causa da revolução junto aos setores oprimidos, resgatemos a 
militância séria, trabalhemos pela ética libertária e disciplina revolucionária, 
desmistificando estereótipos criados, vícios prejudiciais, caricaturas feitas ao 
anarquismo por nossos adversários e inimigos políticos a partir de seus referenciais teóricos.

Não é de hoje que no interior do movimento anarquista tais deformações vêm sendo 
criticadas por diversos militantes: Desde os clássicos, Bakunin faz frente à concepção 
burguesa de liberdade, notando seu próprio conceito de caracteres essencialmente 
coletivos; Malatesta também rivaliza com os antiorganizacionistas e individualistas que 
eram contrários ao principio de organização em sua época (os segundos, considerados um 
fenômeno marginal, um "exotismo pequeno-burguês" dentro do Anarquismo, completamente 
inofensivos ao capitalismo e ao Estado, restringiam-se a artistas, boêmios, literatos e 
outras figuras que resolveram afastar-se dos propósitos da classe trabalhadora). Nestor 
Makhno e o Dielo Trouda, polemizando em sua Plataforma Organizacional e na Noção de 
Síntese, deixam claro a incompatibilidade de tais deformações com o Anarquismo militante e 
revolucionário; Luigi Fabbri, que tece críticas severas ao que ele próprio chamava de 
"influências burguesas no anarquismo"; Camilo Berneri em "Cretinismo Anarquista" e até 
recentemente Murray Bookchin em "Crítica e Autocrítica", "Anarquismo Social ou Anarquismo 
de Estilo de Vida". E por que não ressaltar a luta e esforço dos grupos políticos 
libertários e revolucionários através do resgate da militância séria e compromissada junto 
ao povo? Tudo isto apenas para citar os exemplos mais notáveis.

Por fim, não propus aqui um artigo elaborado e acadêmico, posso inclusive estar equivocado 
em algumas proposições. De maneira alguma pretendo criar uma separação, ou qualificar um 
anarquismo "X" ou "Y" como superiores a outras propostas e escolas, mas quero sim, de 
alguma forma, propor aos camaradas que se preocupam com os rumos que a causa está tomando, 
uma reflexão e autocrítica acerca da mesma, reafirmando a busca pelo resgate da ética, do 
compromisso e da disciplina libertária (conceitos tão esquecidos hoje em dia), embasados 
na experiência e no acúmulo de anos de militância deixados para nós pelas antigas 
gerações. E claro, o mais importante, que nós não repitamos os erros do passado.

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Notas e referências bibliográficas:

¹ MALATESTA, Errico - Escritos Revolucionários, 2008.
² FREEMAN, Jô - A Tirania das Organizações Sem Estrutura, 1970.
MINTZ, Frank - Anarquismo Social, 2006.
BOOKCHIN, Murray - Anarquismo Social ou Anarquismo de Estilo de Vida, 2001.
FARJ/DA SILVA, Rafael - Anarquismo Contra Anarquismo, 2011.

Related Link: http://www.ligalibertaria.org/2013/12/um-pouco-de-autocritica.html


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