(pt) UNIPA, Rumo a um novo levante popular? (en)

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Terça-Feira, 17 de Junho de 2014 - 08:02:50 CEST


Copa do Mundo da Fifa, luta de classes e a tarefa dos anarquistas revolucionários 
Comunicado Nº 40 da União Popular Anarquista (UNIPA) ---- Brasil, Junho de 2014. ---- Aos 
trabalhadores, mulheres e povos oprimidos do Brasil, À juventude pobre e marginalizada, 
Aos black blocks, midiativistas e demais militantes, Aos anarquistas revolucionários e 
combatentes do povo em todo o país, Aos militantes sinceros, mas equivocados, nas bases de 
organizações reformistas. ---- O mês de junho de 2014 chegou. Um ano depois do levante 
popular, fato ocorrido com o início dos eventos oficiais da "Copa do Mundo da Fifa" (a 
Copa das Confederações) terá início o evento principal. Como indicamos várias vezes, os 
protestos de junho de 2013 marcaram uma nova fase da luta de classes. E o evento que se 
aproxima pode adicionar novos componentes ainda.

A UNIPA continua travando batalhas em diversas frentes e assumimos desde 2013 o papel de 
não somente denunciar o reformismo, mas de criar uma alternativa de organização de massas. 
Travamos batalhas nas ruas, nas assembleias de diversas categorias e locais de trabalho, 
estudo e moradia sempre colocando formas construtivas de luta. Estamos enfrentando o PT, o 
PCdoB, o aparelho repressivo de Estado e seus asseclas da propaganda ideológica.

Apesar da desigualdade de forças na luta, não capitulamos e não recuamos. Temos cumprido 
nosso papel de avançar na agitação, propaganda e organização popular. E mais que isso: 
estamos entre as poucas organizações revolucionárias a colocar a tarefa de disputar o 
movimento global dos trabalhadores. É por isso que agora apresentamos nossa análise e 
fixamos nossas tarefas e conclamamos a unidade dos revolucionários e dos anarquistas para 
a luta no período que se avizinha.

Podemos dizer que três cenários se apresentam para o próximo período. 1º cenário, aquele 
que a burguesia e o Estado projetam, de um controle e dissipação dos protestos de 2013, 
com o controle das manifestações e seu enquadramento na ordem; 2º cenário, manifestações 
radicalizadas, porém com uma menor adesão, de forma que os setores revolucionários de 
massas fiquem em desvantagem ante o reformismo e a repressão; 3º cenário, uma extensão 
e/ou intensificação dos protestos em relação a 2013, com táticas insurrecionais de massa 
que podem levar a um colapso temporário do sistema político (com greve geral ou várias 
greves simultâneas).

Nós acreditamos que o ciclo da luta de classes iniciado em 2013 não será interrompido. Mas 
isso não significa supor que fatalmente teremos uma repetição do ano de 2013. Significa 
que as condições objetivas e subjetivas estão dadas e que vários elementos apontam para 
que tenhamos grandes mobilizações de massa. Mas independentemente do cenário que venha a 
se confirmar é importante: 1) combater o vanguardismo (revolucionário e 
reformista-burocrático), de forma que as massas determinem a dinâmica e intensidade da 
luta; 2) desenvolver a partir da experiência de luta nas ruas novas formas de organização 
que possam aprofundar a ruptura com o sindicalismo de Estado, o capitalismo sindical e as 
formas burguesas de organização.

Mas isso se dará em torno de temas muito concretos. E é isso que indicaremos na nossa 
análise o que consideramos como tarefas fundamentais do atual momento.

1 - A conjuntura e as polarizações de classe: Não Vai Ter Copa x Vai Ter Copa (e Na Copa 
Vai Ter Luta)


Greves rebeldes tomaram conta do sistema de transporte brasileiro, atropelando sindicatos 
pelegos, governos e pressionando efetivamente os patrões.

O levante popular de 2013 foi o início de um novo ciclo. Depois dos protestos de rua e das 
táticas insurrecionais que nela predominaram, tivemos o deslocamento para as greves de 
categorias (professores, garis, rodoviários foram os casos mais emblemáticos). Como 
havíamos dito o levante expressava contradições de classe. E nesse sentido que as lutas de 
junho se desdobrassem nas lutas das categorias nos locais de trabalho era um desdobramento 
lógico.

Exatamente por isso que a palavra de ordem surgida nas ruas "Não Vai Ter Copa" expressou o 
sentimento de resistência e de luta polar contra a ofensiva capitalista que é a base 
material do evento "cultural". Certamente a palavra de ordem "Não Vai Ter Copa" não é 
contra o evento de futebol "em si", mas contra as agressões e opressão social que ele 
exigiu. E expressa uma ruptura ideológica em relação a visão do "povo passivo", do povo 
"domesticado" pelo "pão e circo".

Mas desde o levante popular os setores burgueses (PMDB, PSDB, DEM e etc.), governistas (PT 
e PCdoB) e paragovernistas (PSOL, PSTU) e seus braços de massa assumiram a tarefa de 
defender o modelo capitalista e da ordem burguesa. A Campanha "Vai Ter Copa" e "Na Copa 
Vai Ter Luta" foram duas formas de defender a mesma ideologia: o mito da necessidade ou 
invencibilidade do Estado capitalista e sociedade burguesa, não só da repressão, mas da 
ideologia burguesa. Tentaram desqualificar e criminalizar os setores populares em luta.

Os governistas e burgueses tem um papel claro: eles estão defendendo seu projeto de poder 
e as alianças com o capital nacional e internacional. Defender a palavra de ordem "Vai ter 
Copa" era defender o processo de acumulação de capital que ela representa e a política 
baseada no discurso "nacionalista" de que o Brasil é a Pátria de Chuteiras (mito 
construído desde o Estado Novo). Mas a palavra de ordem "Na Copa Vai ter Luta" significa o 
que? É o grito de desespero da oposição consentida, daqueles que querem defender o 
sistema, mas não podem assumir isso claramente porque precisam se manter como "oposição".

Combatemos em diversas categorias e organizações populares essa política. O argumento dos 
governistas e paragovernistas era absurdo: os governistas falavam que o movimento contra a 
Copa do Mundo era da "direita". Os paragovernistas afirmavam que a Copa do Mundo era 
"inevitável", que a Copa vai acontecer e que o povo "quer a copa" porque o futebol é parte 
da "cultura" brasileira.

Esses argumentos têm dois pressupostos. 1º Eles ignoram os conflitos de classe, a 
violência dos protestos e das lutas econômicas que colocam grande parte da massa contra os 
interesses envolvidos na Copa, falando como se a classe trabalhadora fosse homogênea; 2º 
eles consideram que a ideologia burguesa foi assimilada pela classe trabalhadora e que uma 
vez assimilada ela não pode ser derrotada, cabendo as organizações se adequarem as 
limitações dessa ideologia burguesa. Como consequência a política derivada era ou de 
defesa aberta do imobilismo (com a completa paralisia de ações que visassem derrotar o 
capital, pois se considera que isso é impossível) ou a realização de simulacros de luta.

Mas a política dos governistas já está desmascarada. A política dos paragovernistas do 
PSOL e PSTU qual é? Eles impediram que a campanha "Não Vai Ter Copa" chegasse às 
categorias amplas e fortes, como dos funcionários públicos. Impediram que essa discussão 
fosse colocada para as bases e aprovaram em um Encontro de Cúpula a campanha "Na Copa Vai 
ter Luta". Além disso, eles combateram por todos os meios a construção da greve geral. E 
nas categorias em que eles têm protagonismo tentam impedir as greves ou fazer com que 
estas se adéquem ao legalismo, evitando "prejuízos" ao funcionamento do sistema durante  a 
Copa (como tem acontecido na greve dos rodoviários do Rio de Janeiro).

Na realidade não é que a palavra de ordem não encontre eco entre os trabalhadores. Ao 
contrário, ela surgiu deles. Não é que seja impossível. O fato é que governistas e 
paragovernistas trabalham sistematicamente contra a greve geral. Eles trabalhar como 
bombeiros para evitar que o fogo da rebelião se alastre. Eles são parte dos fatores que 
dificultam esse processo. Por isso combater a burocracia sindical é tão importante, por 
isso não basta lutar, é preciso construir o sindicalismo revolucionário como forma de 
organização de massas.

Metroviários (SP) resistem à repressão policial anti-greve.

A nossa política foi clara. Construir a Greve Geral. Defender a possibilidade real de 
derrotar o capital. É possível a greve geral? É possível parar a Copa do Mundo? Sim. "Não 
Vai ter Copa" não é só uma palavra de ordem. O movimento indígena parou a turnê da Copa do 
Mundo em Brasília, a ação direta de massas impediu isso. Mas essas ações só se realizam 
exatamente porque não existe nas organizações indígenas a presença desses setores para 
desarticularem a resistência, fragmentar as lutas. A eclosão de greves em diversas 
categorias mostra que a classe trabalhadora quer romper o pacto com o capital. Mas 
encontram diversos obstáculos, como setores do movimento que querem frear esse avanço.

Logo, a palavra de ordem "Não Vai Ter Copa" expressa o antagonismo de classes. Defender 
essa palavra de ordem é a única forma na atual conjuntura de expressar globalmente o 
anticapitalismo. Mas é possível transformar a palavra de ordem em fato real?  Isso 
dependerá da capacidade e velocidade da própria classe de superar a burocracia sindical e 
partidária governista e paragovernista. É possível uma greve geral nacional e também ações 
de massa, mas hoje o Estado burguês conta com uma ação combinada de governistas e 
paragoivernistas para tentar desarticular essa ação de massas e a greve geral, através da 
defesa de uma política corporativista e fatalista.

Não indicamos isso como acusação moral. Sabemos que existem militantes sinceros nas bases 
de organizações partidárias e sindicais governistas e paragovernistas. Mas exatamente 
porque é uma análise teórica e política, a mera defesa subjetiva e genérica da luta não 
basta para isentar os militantes da sua responsabilidade. É preciso que esses militantes 
rompam com suas direções e se lancem na construção das formas de luta que possam atender 
as atuais tarefas históricas. Não fazendo isso estarão se tornando cúmplices de uma das 
maiores traições da história dos trabalhadores do mundo.

Aos anarquistas e revolucionários cabe também não somente denunciar, mas construir 
alternativas. Por isso é fundamental lançar a palavra de ordem da greve geral e da 
construção do Comitê Intersindical de Greve como forma concreta de ação e generalizar as 
ações de protesto de massa em todo o Brasil, fortalecendo a organização por local de 
trabalho, estudo e moradia.

2 - A morte do mito da Pátria de Chuteiras: crises de representação política, crise 
econômica e crise ideológica

Independentemente do cenário, independentemente da classe trabalhadora ter a capacidade de 
materializar na realidade a palavra de ordem que ela forjou nas lutas do levante popular, 
o processo de lutas vai deixar um legado imprevisto da copa. A morte do mito "da pátria de 
chuteiras", maior símbolo do nacionalismo no Brasil.

A força da burocracia sindical e da repressão estatal pode ser suficiente para 
momentaneamente garantir que a classe trabalhadora não seja capaz de dar um golpe global 
na acumulação de capital e na ideologia burguesa (a paralisação da Copa do Mundo teria 
efeitos econômicos e ideológicos, pois destruiria definitivamente o mito da 
invencibilidade do sistema capitalista além de comprometer os investimentos). Mas as novas 
formas de luta certamente deram um golpe profundo no mito da "pátria de chuteiras".

Esse mito foi construído para dar unidade a uma sociedade marcada por contradições 
étnicas, de classe e regionais. A ideia de que o Brasil só existe como Nação unificada em 
torno do futebol foi usada em diversos contextos como arma política. Mas depois do levante 
popular, mesmo nas camadas mais baixas da população existe o sentimento de que o "futebol" 
não unifica seus interesses com a "nação", ao contrário, os interesses dos empresários do 
futebol sacrificaram os interesses populares (saúde, educação, moradia). Podemos dizer que 
a Copa do Mundo, contraditoriamente, vai deixar como um dos seus legados, a desilusão com 
o futebol como forma de integração nacional. Isso é uma crise da ideologia burguesa que 
tem enfraquecido um de seus principais instrumentos.

Essa crise soma-se a duas outras crises. A crise política (da representatividade dos 
sindicatos e partidos) que o levante popular explicitou e intensificou. Os trabalhadores 
não se sentem representados e vêem as organizações existentes como inimigas dos seus 
interesses. Por outro lado, a crise econômica global está começando a emperrar a 
acumulação de capital no Brasil. Ou seja, uma crise econômica logo irá se somar a crise 
ideológica e política, de forma que o capital terá que intensificar os ataques contra a 
classe trabalhadora, mas sem os instrumentos ideológicos e políticos que antes possuía, ou 
pelo menos, sem que eles tenham a mesma eficácia.

Por isso, mesmo que não ocorra um novo levante popular, mesmo que a burocracia sindical e 
partidária consiga sabotar as lutas e com isso auxiliar na realização da Copa do Mundo e 
no processo de acumulação de capital, essa situação não expressa uma derrota global da 
classe trabalhadora. Ao contrário, expressa a impossibilidade momentânea da sua 
constituição autônoma. Essas três crises também não levam fatalmente a formação de uma 
alternativa.

Por isso é preciso a formação de uma estrutura de militantes que possa dar respostas a 
cada situação e combater o governismo e paragovernismo, criando formas alternativas de 
organização. Essa é a tarefa dos anarquistas revolucionários, forjar no fogo das 
barricadas uma nova organização de massas.

Ir ao Combate sem Temer!

Ousar Lutar, Ousar Vencer!

Não Vai ter Copa!


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