(pt) Teoria e Ideologia - by Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) (en)

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Quarta-Feira, 29 de Janeiro de 2014 - 13:10:43 CET


Texto publicado na revista "Socialismo Libertário" núm. 2, da Coordenação Anarquista 
Brasileira, que discute conceitualmente teoria e ideologia. Sustenta as seguintes 
posições: 1.) A teoria está relacionada ao conhecimento da sociedade e a ideologia a um 
nível de análise relativamente autônomo que, muitas vezes, se traduz em práticas políticas 
fundamentadas numa concepção do "vir a ser" da sociedade; 2.) O anarquismo é, portanto, 
uma ideologia e tem utilizado historicamente distintas teorias sociais para compreender a 
realidade; 3.) Teoria e ideologia constituem as bases da prática política. --- "O 
anarquismo é [...] uma aspiração humana, que não se funda em nenhuma necessidade natural 
verdadeira ou supostamente verdadeira, mas que poderá se realizar segundo a vontade humana.
Aproveita os meios que a ciência proporciona ao homem na luta contra
a natureza e contra as vontades contrastantes; pode tirar proveito
dos progressos do pensamento filosófico quando eles servirem
para ensinar aos homens raciocinar melhor e distinguir com maior
precisão o real do fantástico; mas não se pode confundi-lo,
sem cair no absurdo, nem com a ciência e nem com
qualquer sistema filosófico."
Errico Malatesta

O DEBATE ORGÂNICO E O TEMA

Durante a Plenária da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), no início de 2013, 
dedicamos tempo, dentre outros assuntos, para chegar a alguns acordos e firmar uma posição 
coletiva em relação ao debate sobre teoria e ideologia, que vem sendo realizado há anos 
pelas organizações do anarquismo especifista, no Brasil e em outros países.

O documento que tem motivado essa discussão foi escrito em 1972 pela Federação Anarquista 
Uruguaia (FAU) e se chama "Huerta Grande: a importância da teoria", tendo sido elaborado a 
partir das contribuições de Errico Malatesta e outros teóricos. Desde os anos 1990, esse 
documento tem sido debatido entre militantes e organizações de nossa corrente, os quais 
também têm feito aportes, atualizações e aprofundamentos necessários; fruto desse debate 
foram as produções das organizações que, na época, faziam parte do Fórum do Anarquismo 
Organizado (FAO), em meados dos anos 2000.

Com o ganho de organicidade impulsionado pela transformação do FAO em CAB, um de nossos 
objetivos no ano de 2012 foi retomar esse debate nas organizações que compõem a CAB e, o 
que nos parecia mais relevante, chegar a posições comuns, de maneira a dar continuidade no 
processo permanente de ganho de organicidade que temos em mente, para nos tornar uma 
organização nacional. O texto a seguir apresenta os acordos e posições coletivas 
estabelecidos em 2013, depois dessas longas discussões realizadas nas organizações da CAB 
e que, por meio do mecanismo federalista, foram estabelecidas como pontos de acordo.

A discussão do tema teoria e ideologia nos parece central, visto que algumas questões são 
fundamentais. O que é o anarquismo? O que o caracteriza historicamente como tal? Qual é o 
nosso vínculo com os clássicos anarquistas? O anarquismo é uma ferramenta para teorizar 
sobre a sociedade, uma prática política que tem por objetivo transformá-la ou ambas as 
coisas? Devemos utilizar autores de fora do campo anarquista para compreender a sociedade 
que vivemos? Em que medida nossa maneira de teorizar sobre a sociedade afeta nossa 
ideologia e vice-versa? Existe socialismo científico? Em suma, trata-se de uma discussão 
antiga e complexa, que extrapola muito o campo anarquista e que tem por objetivo fornecer 
respostas para as nossas tentativas de compreender a sociedade em que vivemos e as 
melhores estratégias para nela intervir, tendo por base nossos princípios e nossa 
estratégia geral, e visando estabelecer um processo revolucionário de transformação rumo 
ao socialismo libertário.

Pelo conteúdo dessa discussão, teremos de nos debruçar sobre temas que vêm sendo 
discutidos há mais de um século: a natureza da produção do conhecimento, as similaridades 
e diferenças entre as ciências naturais e sociais, as relações entre as teorias sociais e 
as ideologias e doutrinas políticas, a natureza e o funcionamento da política entre 
outros. Sabemos que o debate sobre a ideologia vem sendo muito marcado pelas abordagens 
marxistas e o debate acerca da teoria envolve reflexões epistemológicas complexas. Ou 
seja: não se trata de uma discussão simples. Por isso, não esperamos esgotá-la aqui e nem 
mesmo dar a ela uma abordagem acadêmica, que não teria funcionalidade prática. Nosso 
intuito é refletir sobre o tema em função de nossa prática política e estabelecer 
ferramentas que contribuam com seu avanço.

Compreendemos que as reflexões aqui colocadas devem estar vinculadas à prática política 
concreta de nossas organizações e gostaríamos de não ir além daquilo que necessitamos para 
o momento. Se fizermos isso, corremos o risco de dissociar o cheiro dessa comida dos 
ingredientes que usamos para cozinhar todos os dias; além disso, temos de ter cuidado para 
não criar ou aceitar um livro de receitas sem cozinheiros. Não temos por objetivo 
constituir um sistema teórico-metodológico; nosso objetivo é elaborar um conjunto de 
ferramentas necessário ao exercício da política, como mediação entre o contexto que 
vivemos e nosso projeto de sociedade.

Buscaremos, nas linhas a seguir, sustentar as seguintes posições: 1.) A teoria está 
relacionada ao conhecimento da sociedade e a ideologia a um nível de análise relativamente 
autônomo que, muitas vezes, se traduz em práticas políticas fundamentadas numa concepção 
do "vir a ser" da sociedade; 2.) O anarquismo é, portanto, uma ideologia e tem utilizado 
historicamente distintas teorias sociais para compreender a realidade - assunto que 
trataremos um pouco mais aprofundadamente no texto "Distintas Abordagens Teóricas dos 
Anarquistas: a relação entre as esferas sociais"; 3.) Teoria e ideologia constituem as 
bases da prática política.


TEORIA

Definimos teoria como um conjunto sistemático de conceitos, afirmações e explicações que 
tem por objetivo proporcionar um conhecimento sobre a realidade. A teoria estrutura, 
elabora e verifica o saber para descrever a ordem, a regularidade e a organização dos 
fenômenos que aborda. Ela está vinculada ao processo de conhecer aquilo que de fato é (e 
não aquilo que deveria ser), e de compreender, o mais rigorosamente possível, diferentes 
fenômenos que ocorrem em uma determinada realidade.

Quando definimos a teoria dessa maneira, nos aproximamos da definição da FAU: "A teoria 
aponta para a elaboração de instrumentos conceituais para pensar rigorosamente e conhecer 
profundamente a realidade concreta." A FAU ainda relaciona teoria com ciência: "É neste 
sentido que se pode falar da teoria como equivalente à ciência." (FAU, "Huerta Grande") 
Entretanto, de que ciência falamos? Como concebemos a função científica da teoria?

Mikhail Bakunin e Malatesta possuem reflexões que podem contribuir com essas respostas. 
Bakunin dizia que "a ciência compreende o pensamento da realidade, não a realidade em si 
mesma; o pensamento da vida, não a vida" (Bakunin, "Deus e o Estado"). A afirmação de 
Bakunin nos permite sustentar que as criações da vida cabem à própria vida e que a teoria, 
como uma forma de pensar sobre a vida, tem sempre uma defasagem em relação a ela; as 
teorias, em geral, devem sempre buscar um aprimoramento para uma compreensão mais adequada 
dos fenômenos da vida. Bakunin afirma ainda que "a ciência universal é, pois, um ideal que 
o homem nunca poderá realizar. Estará sempre forçado a contentar-se com a ciência de seu 
mundo. [...] A ciência é, todavia, muito imensa para que possa ser dominada por um homem 
ou por uma geração." (Bakunin, "Considerações Filosóficas sobre o Fantasma Divino") Ou 
seja, nunca conseguiremos ter uma ciência ou teoria geral, que dê conta de toda a 
realidade; o campo teórico-científico constitui um legado histórico-social e, por isso 
mesmo, possui suas limitações.

Malatesta, fundamentado em posições semelhantes, concebe o campo teórico-científico, em 
especial no que diz respeito às análises da sociedade, sempre como um campo provisório, 
que coloca em xeque o próprio critério de verdade:

"Na ciência, as teorias, sempre hipotéticas e provisórias, constituem um meio cômodo para 
reagrupar e vincular os fatos conhecidos, e um instrumento útil à investigação, as 
descobertas e a interpretação de novos fatos: mas não são a verdade. [...] A dúvida deve 
ser a posição daqueles que aspiram cada vez mais chegar à verdade ou, pelo menos, a essa 
porção de verdade que é possível alcançar." (Malatesta, "Anarquismo y Ciencia")

Os métodos de análise e as teorias sociais devem sempre ter como horizonte a compreensão 
adequada da realidade, mas esses métodos e teorias não podem ser concebidos como verdades 
absolutas; não há, nesse sentido, uma teoria de base científica definitiva para a 
explicação social.

Malatesta também enfatiza que "a missão da ciência é descobrir e formular as condições nas 
quais o fato necessariamente se produz e se repete: ou seja, é dizer o que é e o que 
necessariamente deve ser." (Anarquismo y Ciencia) Essa afirmação reforça o argumento 
colocado anteriormente, de que o papel da ciência, e, portanto, da teoria científica, 
relaciona-se sempre a uma explicação daquilo que é, ou, ainda, daquilo que 
obrigatoriamente deve ser, no sentido da extrapolação dos elementos de previsão da teoria 
científica; a ciência, conforme a concebe Malatesta, não pode explicar o futuro e nem 
aquilo que deveria ser, sendo essa uma das características da ideologia. A estratégia 
anarquista certamente se apóia em explicações estruturais e conjunturais sobre a realidade 
e, por isso, relaciona-se com a teoria científica; entretanto, seus objetivos finalistas - 
revolucionários, socialistas e libertários - e os próprios meios estratégicos concebidos 
para atingir esses fins não pertencem estritamente ao campo científico ou teórico. Podem 
ter alguma relação, mas não se resumem a ele.

Por esse motivo, compreendemos que não se pode falar em "socialismo científico"; o 
anarquismo, como uma corrente socialista, ainda que possua relações com a ciência, não 
pode ser considerado como tal, e nem somente como uma teoria social. O mesmo se pode dizer 
de outros socialismos. Malatesta critica, nesse sentido, os desdobramentos, em certo 
sentido positivistas, dessa noção científica de socialismo em suas diferentes correntes, 
incluindo o anarquismo.

"O cientificismo (não digo a ciência) que prevaleceu na segunda metade do século XIX 
produziu a tendência de considerar verdades científicas, ou seja, leis naturais e, 
portanto, necessárias e fatais, o que era somente o conceito, correspondente aos diversos 
interesses e às diversas aspirações, que cada um tinha de justiça, progresso etc., da qual 
nasceu 'o socialismo científico' e, também, o 'anarquismo científico' que, mesmo 
professados por nossos grandes representantes, sempre me pareceram concepções barrocas, 
que confundiam coisas e conceitos distintos por sua própria natureza." (Malatesta, 
"Anarquismo y Ciencia")

A nosso ver, Bakunin e Malatesta, por meio dessas contribuições, apresentam elementos que 
nos permitem colocar algumas respostas às questões anteriores. Falamos de métodos e 
teorias científicas da sociedade e, nesse sentido, compreendemos que as ciências sociais 
são distintas das ciências naturais e não podem tomar essas últimas como modelo ideal de 
ciência (o que nos diferencia dos positivistas e empiristas); as teorias que utilizamos 
para compreender a sociedade - tenham elas foco estrutural, conjuntural, passado ou 
presente - devem buscar aprimoramentos permanentes, já que nunca conheceremos a sociedade 
completamente e não conseguiremos prever certeiramente seu futuro; devemos considerar o 
campo teórico-científico provisório e de incertezas e temos sempre de estar abertos para 
ajustar nossos métodos e teorias sociais para compreender a realidade de maneira mais 
adequada.

Quando Malatesta se refere às confusões de "coisas e conceitos distintos", ele coloca uma 
preocupação quanto à confusão de teoria e ideologia, ou seja, sobre o conhecimento da 
sociedade e as intervenções que se realizam sobre ela. Considerar que o anarquismo não é 
uma teoria ou uma ciência permite, para cumprir as exigências que a produção 
teórico-científica nos coloca, que busquemos aportes de outros campos ideológicos; não 
compreendemos ser imprescindível buscarmos referencial teórico-metodológico somente dentre 
os autores anarquistas, mesmo porque, entre eles, há diferenças fundamentais. Além disso, 
entendemos que não há um método e uma teoria inquestionáveis, aplicáveis e reproduzíveis a 
toda e qualquer situação, em todo e qualquer tempo. Estar abertos a aperfeiçoar métodos e 
teorias sociais já existentes e utilizar-se de novos é justamente um mecanismo de evitar 
cristalizações e dogmatismos que transformam a teoria em elemento ideológico. Sem que a 
experiência possa, por assim dizer, desafiar a teoria, esta passa a ser um dogma que, de 
forma ilusória, força a realidade, sem dúvida sempre maior que a teoria, a se encaixar num 
sistema que tudo explica e tudo deduz. A teoria deve ser construída ou aplicada a partir 
de uma observação atenta da realidade, pois é a partir dessa observação que se pode 
confrontar a teoria com a realidade e, assim, validá-la, aprimorá-la, ou mesmo 
descartá-la. A teoria deve estar aberta para o universo que busca explicar: colhe nele 
confirmação e, se surgem certos dados que a contrariam, passa a fazer verificações (sobre 
os dados), revisões (sobre seu próprio funcionamento) e modificações (sobre si mesma).

Entendemos que a necessária abertura neste campo exige que utilizemos, mesmo que com 
critério, outros referenciais teórico-metodológicos que vão para além do campo anarquista. 
Para nós, a ideologia anarquista deve ser concebida muito mais em termos de princípios 
político-ideológicos (que não excluem elementos de natureza teórica em seu arcabouço 
doutrinário) do que por elementos de método de análise e teoria social; portanto, pensamos 
ser possível, e mesmo desejável, que levemos em conta métodos e teorias que foram ou estão 
sendo produzidos fora do campo anarquista. Nosso parâmetro para incorporar as 
contribuições teórico-metodológicas não é se elas possuem ou não a "etiqueta" do anarquismo.

Sabemos, entretanto, que o campo teórico-científico não é neutro. É justamente por 
entendermos que teorias veiculam valores, ou seja, que há ideologia na teoria, que 
pensamos que se deve, sempre que preciso, recorrer a ou desenvolver elementos teóricos que 
contribuam para nossa prática política. Acreditamos que devemos ter cuidado para, nos 
momentos de interlocução teórica, não importarmos sem querer elementos ideológicos de 
outras correntes que contrariem nossos princípios ou mesmo nossa estratégia geral. É sob o 
horizonte de radical transformação social que partimos para entender a realidade e nela 
intervir. Portanto, não são quaisquer métodos ou teorias que nos servem; ainda assim, 
devemos estar sempre abertos para utilizar novos elementos que nos ajudem a compreender 
melhor a realidade e, assim, intervir de maneira mais adequada sobre ela.

Mesmo considerando o campo da teoria provisório e em relação ao qual devemos ter a devida 
abertura, sabemos que é um engano acreditar que a teoria pode cortar o dado amorfo de 
qualquer forma. Se parece correto dizer que a teoria está imbricada na construção da 
realidade, é falso acreditar que ela, por si só, constrói seu objeto. Essa visão é 
indefensável, mesmo nas ciências da natureza, nas quais a consciência, em geral, não corta 
o objeto da maneira que quiser, e menos ainda garante que as formas que ela constrói 
encontrem necessariamente um material que lhes corresponda. Ela se torna absurda quando se 
trata do campo social. Que não haja um saber definitivo e verdadeiro sobre a sociedade, 
não quer dizer que não haja nenhum conhecimento social ou que se possa dizer qualquer 
coisa, que toda teoria é apenas um mero "discurso" ou que vale tudo no campo teórico.

Compreendemos ser necessário tratar a "teoria como uma caixa de ferramentas", tal como a 
concebeu Michel Foucault, tratando "de construir não um sistema, mas um instrumento" para 
a análise social, o qual "só pode se fazer aos poucos, a partir de uma reflexão 
(necessariamente histórica em algumas de suas dimensões) sobre situações dadas". 
(Foucault, "Estratégia Poder-Saber") Temos por objetivo fundamental, no campo 
teórico-metodológico, construir essa caixa de ferramentas, capaz de nos proporcionar, nos 
momentos necessários, o ferramental mais adequado para compreendermos a realidade social.

Entretanto, a teoria tem para nós uma função: ela deve subsidiar nossa prática política e, 
ao mesmo tempo, alimentar-se dela. "Se não nos serve para produzir novos conhecimentos 
úteis para a prática política, a teoria não serve para nada, se converte em mero tema de 
palestra improdutiva, de estéril polêmica ideologizante." (FAU, "Huerta Grande") 
Consideramos, pois, de suma relevância a relação entre a teoria e a prática. A teoria deve 
estar vinculada com aquelas áreas em que damos combate por meio de nossa militância; caso 
contrário, acabaremos apenas teorizando por puro esporte ou sem vínculos com nossa 
militância. Precisamos discutir como fazemos as análises da realidade, a partir de que 
marco constituímos nossa prática política e por meio de que ferramental. Temos, 
claramente, de exercitar constantemente o trabalho teórico em nossas organizações. E 
quanto mais conectada com a prática, mais a teoria conseguirá dar conta do real e, deste 
modo, ser útil e adequada; quanto mais afastada de uma prática política concreta, corre o 
sério risco de tornar-se excêntrica e incompreensível, assumindo feições que permanecem no 
campo do abstrato, da filosofia pela filosofia e inviabilizam essa análise que buscamos da 
realidade. Mas a teoria, estando imbricada com a necessidade de dar respostas às situações 
da luta política-social não pode também ser produzida apenas como justificativa para ela. 
Devemos, ao mesmo tempo, verificar como a teoria subsidia e orienta a intervenção 
político-social. A prática político-social pode conduzir a formulação teórica à falsidade, 
com esta virando mero recurso sofisticado de justificativa de ações e não como instrumento 
de conhecimento da realidade. Por isso, é importante compreender que o problema teórico 
não se resolve simplesmente pela militância social em sentido estrito. Não compreendemos a 
teoria sem sua implicação com a mudança social e nem como justificativa de uma prática 
política.

Para uma organização política, a teoria é relevante exatamente por permitir um 
conhecimento adequado da realidade em que ela atua e, portanto, a escolha de meios 
coerentes com os fins que ela deseja atingir. Conhecer um determinado contexto permitirá à 
organização política que ela trace suas estratégias e táticas sabendo mais ou menos 
exatamente de onde ela parte e aonde quer chegar, tratando, para isso, de estabelecer os 
caminhos mais adequados. Desconhecer de onde partimos pode implicar equívocos estratégicos 
e, assim, com que não caminhemos rumo aos objetivos que almejamos.


IDEOLOGIA

Discutir a ideologia, para nós, implica diferenciar duas abordagens que temos utilizado: a 
primeira, no sentido mais amplo, da ideologia como parte da esfera ideológica/cultural, e, 
portanto, das idéias, representações e valores que são produzidos e reproduzidos nos 
imaginários dos distintos sujeitos sociais; a segunda, em sentido mais restrito, da 
ideologia como doutrina, e, portanto, como conjuntos de pensamento e ação desenvolvidos 
historicamente e que atuam politicamente no jogo de forças da sociedade, o qual é 
responsável pelo estabelecimento das relações de poder. Trataremos a seguir de ambas as 
abordagens.

A ideologia como elemento da esfera cultural/ideológica

Consideramos que vivemos em um sistema com uma determinada estrutura e que podemos pensar 
na representação desse conjunto sistêmico-estrutural por meio da interação entre três 
esferas fundamentais: econômica, política/jurídica/militar e cultural/ideológica.

Por isso, discutir a ideologia, nesse sentido amplo, implica algumas noções que estão 
relacionadas a essa terceira esfera do campo social, que tem por base as noções de cultura 
e ideologia. A cultura está relacionada com as atitudes, normas, crenças, mais ou menos 
compartilhadas pelos membros de uma sociedade. Envolve conhecimentos, arte, moral, 
costumes e hábito, e possui relação com as instituições sociais, a forma de vida em 
sociedade, as existências familiares, os laços, os vínculos e as perspectivas. A ideologia 
diz respeito a tudo o que circula no campo das idéias e das subjetividades. Os sentimentos 
de religiosidade e o mundo das utopias e das aspirações do ser humano se encontram neste 
nível. Os conteúdos das mensagens, a estética e valores contidos na comunicação e na 
cultura também estão neste nível. Essa esfera, portanto, relaciona-se ao campo das idéias, 
das subjetividades e do simbólico.

É fundamental tomar em conta o processo de constituição histórica e social dessas das 
idéias, representações e valores que são produzidos e reproduzidos nos imaginários dos 
distintos sujeitos sociais. Entretanto, ainda que a ideologia vincule-se às condições 
histórico-sociais, ela não emana mecanicamente delas. A ideologia "requer um 
desenvolvimento determinado de sua análise para que não fique relegada ao aparato 
ideológico que se apóia nas relações entre infra e superestrutura, e nem nesse caráter a 
ela tão comumente atribuído de distorcer, mascarar a 'realidade' e a 'racionalidade'." 
(FAU-FAG, "Wellington Gallarza e Malvina Tavares") Não consideramos que a esfera 
cultural/ideológica seja, pura e simplesmente, um reflexo mecânico das outras esferas, e, 
se por um lado ela sofre determinação econômica e política, por outro, produz e reproduz 
elementos relevantes para a constituição estrutural e sistêmica de nossas sociedades.

"Em determinados momentos históricos, se produz, fortemente, um conjunto articulado de 
idéias, representações, noções no interior do imaginário dos distintos sujeitos sociais. É 
este conjunto articulado de caráter imaginário, que toma a forma de 'certezas' defendidas 
pelos próprios sujeitos sociais. Isso é o que pode transformar esses sujeitos em 
protagonistas de sua própria história ou em sujeitos passivos e/ou disciplinados pelas 
forças dominantes. É isso que chamamos de ideologia. Assim, a ideologia tem a ver 
diretamente com a constituição histórica dos sujeitos sociais e com a forma como eles se 
expressam na sociedade. É algo bem distinto da noção que a ideologia seja a falsificação 
da realidade, justamente porque ela é um dos componentes fundamentais de qualquer 
realidade social." (FAU-FAG, "Wellington Gallarza e Malvina Tavares")

A ideologia constitui, assim, um elemento relevante da realidade social. Se ela não emana 
mecanicamente de condições econômicas e políticas, devemos ter em mente que o trabalho de 
produção ideológica, de produção de uma ideologia de transformação, é relevante para nossa 
proposta de transformação social. Também não queremos ir para o outro oposto, que seria 
considerar que a esfera cultural/ideológica é a mais relevante e determina necessariamente 
todas as outras; não será o mero combate cultural e ideológico que proporcionará as 
transformações sociais que desejamos, uma vez que "é a idéia que deve animar a vontade, 
mas que são necessárias determinadas condições para que a idéia possa nascer e agir". 
(Malatesta, "'Idealismo' e 'Materialismo'") Além disso, deve-se pontuar que a esfera 
cultural/ideológica possui um ritmo de transformação mais lento que as outras, e que ela 
conta com elementos não-racionais. Numa estratégia coerente, as mudanças ideológicas devem 
ser concebidas tomando em conta ambos os fatores.

Temos que ter por objetivo, no que diz respeito a essa esfera, construir outros sujeitos 
sociais com outras idéias, representações e outros valores, tomando em conta nossa 
experiência classista.

"Nossa vontade de transformação e nossas intenções conformam um imaginário social e 
político de matriz revolucionária. Pensar nesse imaginário apenas como um modelo acabado e 
definido (uma ideologia mais ou menos consciente) já prescrito nos livros e brochuras é 
ignorar toda uma tradição popular que se assenta na resistência histórica da classe." 
(FARJ. "A OEA como Conseqüência do Acúmulo Organizativo")

As práticas que envolvem o campo ideológico e que se apóiam em valores como liberdade e 
emancipação nos parecem centrais para modificar as noções atualmente vigentes, que se 
materializam nos corpos e nas mentes dos distintos sujeitos. Acreditamos ser relevante 
refletir se estamos, de fato, produzindo e reproduzindo uma ideologia libertária e 
socialista, ou se estamos apenas reproduzindo a ideologia vigente de nosso sistema de 
dominação.

A ideologia como doutrina e o anarquismo

Discutir a ideologia como doutrina - e, portanto, como conjuntos de pensamento e ação 
desenvolvidos historicamente e que atuam politicamente no jogo de forças da sociedade, o 
qual é responsável pelo estabelecimento das relações de poder - e situar o anarquismo como 
uma ideologia implica, também, algumas noções.

No terreno da política está em jogo uma interação dinâmica do atuar e do saber, que não 
pode ser exatamente mensurada. É tipo uma "zona parda" onde é difícil determinar uma cor 
em estado puro. O conceito de doutrina está justamente nesta área que indicamos 
brevemente. Devemos lembrar que as ideologias podem derivar em política tal como 
conceituamos, mas também tem suas manifestações em outras formas, como a religião, para 
nos referir a um caso comum e corrente. Para nossos fins, a doutrina como sistematização 
racional de elementos ideológicos já é produto das interações do imaginário social - em 
suas formas "pré-reflexivas" - com certos elementos de interpretação teórica. Os 
"princípios" estão formados na região entrecruzada da política.

No sentido político-doutrinário, "a ideologia é pensamento e ação" (FAU, "O que é 
Ideologia") e, assim, não pode ser concebida como pensamentos ou ações tomados 
separadamente. O anarquismo, assim, constitui uma ideologia que contém elementos de 
natureza doutrinária, política e teórica interagindo dinamicamente.

"O anarquismo constitui uma corrente de pensamento e tradição de luta socialista, se 
inserindo como uma variante das idéias e práticas construídas nesse campo. Ao longo de sua 
história, firmou determinados preceitos ideológicos que lhe deram um estilo e traçou 
metas. O anarquismo surge, então, como proposta de luta (articulando preceitos 
político-organizativos e teórico-ideológicos) em favor do interesse histórico dos 
trabalhadores." (CAZP. "Declaração de Princípios")

O anarquismo é composto de um conjunto de pensamentos e ações articulado sistematicamente. 
Implica idéias, aspirações, valores, sentimentos e motivações que interagem com as 
práticas políticas. A ideologia anarquista fornece as bases estratégicas para intervenções 
políticas que têm como objetivo transformar as relações de poder; ela inclui meios 
(estratégias) de se alcançar seus horizontes revolucionários, o que se traduz, em termos 
históricos, na prática política. Essa prática política parte de três elementos fundamentais:

"1. A formulação de um objetivo finalista (que deve ser explicado da maneira mais clara 
possível). 2. A apreensão ou compreensão definida da realidade em que se vive, por meio de 
sua análise profunda e exaustiva. 3. A previsão mais aproximada possível do futuro desta 
realidade, de sua transformação, tanto naquilo que seja espontâneo, quanto deliberado. Ou 
seja, em nosso caso, a ideologia não admite o caráter de espectador interessado e 
analítico das condições ou transformações espontâneas da realidade, mas nos obriga a 
pensar voluntariamente, voluntariosamente, no sentido de seu futuro." (FAU, "O que é 
Ideologia")

A ideologia anarquista, no intuito de intervir politicamente na realidade, com vistas a 
transformar as relações de poder, estabelece objetivos, leituras da realidade, estratégias 
e táticas adequadas para tal intervenção. Seus objetivos são socialistas e libertários e 
apontam para a criação de um sistema federalista e autogestionário; suas leituras da 
realidade estabelecem críticas, estruturais e conjunturais, dos sistemas de dominação; 
suas estratégias são coerentes com seus objetivos e revolucionárias.


TEORIA E IDEOLOGIA

Tendo definido e discutido brevemente os conceitos de teoria e ideologia com os quais 
trabalhamos, queremos, neste momento, relacioná-los, já que mesmo os distinguindo, não os 
consideramos conceitos estanques; eles certamente possuem relações. Retornamos aqui ao 
argumento apresentado no início desse texto, de que "a teoria está relacionada ao 
conhecimento da sociedade e a ideologia a um nível de análise relativamente autônomo que, 
muitas vezes, se traduz em práticas políticas fundamentadas numa concepção do 'vir a ser' 
da sociedade"; retomaremos aqui essa distinção e colocaremos algumas questões que nos 
permitam pensar a relação entre teoria e ideologia. Em primeiro lugar, podemos afirmar 
que, tomando em conta a ideologia anarquista, "à teoria compete a função de compreensão da 
realidade passada e presente; à ideologia compete a função de intervir sobre a realidade 
presente, no intuito de transformá-la". (OASL, "Declaração de Princípios")

Reforçamos a necessidade, para uma prática política coerente, de diferenciar os conceitos 
de teoria e ideologia; conforme buscamos demonstrar, a primeira está relacionada ao campo 
do conhecimento, da ciência, e a segunda ao campo da doutrina, da política. A teoria deve 
buscar responder o que é, e a ideologia tem como função ser um combustível que impulsione 
a prática política em relação a um vir a ser, aquilo que gostaríamos que fosse. A primeira 
relaciona-se ao conhecimento do passado e do presente e, eventualmente, de prognósticos 
"certeiros" em relação ao futuro (ainda que, reforcemos, no campo social esses 
prognósticos certeiros sejam bastante questionáveis); a segunda relaciona-se a uma 
perspectiva de futuro e de uma adequação estratégica entre os dados sistematizados pela 
primeira e os objetivos finalistas estabelecidos pela segunda - trata-se do 
estabelecimento de meios para sair de onde estamos e chegar aonde queremos.

"A teoria torna precisa, circunstancializa as condicionantes da ação política: a ideologia 
motiva-a e a impulsiona, configurando-a em suas metas 'ideais' e seu estilo. Entre teoria 
e ideologia existe uma vinculação estreita, já que as propostas destas se confundem e se 
apóiam nas conclusões da análise teórica. Uma ideologia será tanto mais eficaz como motor 
da ação política, quanto mais firmemente se apóie nas aquisições da teoria." (FAU, "Huerta 
Grande")

A ideologia no sentido político-doutrinário, essencialmente pensamento e ação, apresenta 
distintos elementos de ordem não-científica, como aspirações, valores, sentimentos, 
motivações, que impulsionam práticas políticas determinadas. A teoria, distintamente, se 
relaciona com método de análise e teoria social e busca elaborar instrumentos conceituais 
para conhecer a realidade em profundidade, tendo de fazer isso com a maior precisão 
possível, e buscando aproximar-se ao máximo da ciência. Entretanto, essa "vinculação 
estreita" entre teoria e ideologia nos permite afirmar que, de um ponto de vista social e 
histórico, o anarquismo também foi conformado por elementos de crítica social, postulados 
teóricos que se expressaram na sua crítica da sociedade; críticas que, em boa medida, eram 
patrimônio comum de todo o campo socialista.

Podemos afirmar, a partir desses conceitos discutidos, que, para nós, o anarquismo se 
define pela perspectiva de certeza ideológica e dúvida teórica permanente. Por um lado, 
trata-se de conservar permanentemente princípios ideológicos que nos são fundamentais; por 
isso, não somos "antidogmáticos" em relação a nossos princípios, que norteiam nossos 
pensamentos e nossas ações e são inegociáveis. Por outro, trata-se de buscar as 
ferramentas mais adequadas para compreender a realidade que desejamos transformar, com 
significativa abertura e postura antidogmática; como colocamos, não constitui uma 
obrigação interpretar a realidade por meio de ferramentas desenvolvidas por anarquistas. 
Assim, para nós, certeza ideológica não acarreta certeza teórica.

A dúvida teórica nos permite sempre procurar novas ferramentas quando a realidade nos 
coloca novos desafios para a atuação militante. Isso não significa aderir a qualquer 
teoria, mas analisar as teorias passadas e presentes e investigar se algumas das suas 
explicações e predições lançam luz principalmente sobre erros que cometemos, porque 
encontramos limitações para ler a realidade em situações concretas de atuação. Se a teoria 
não contribui para a nossa prática política, não há porque adotá-la. Se há fatos que 
determinado método ou teoria social não explicam, estes precisam ser revistos; falamos 
aqui em fatos como a realidade social em que estamos inseridos e consideramos que a 
humanidade desenvolveu diversas maneiras de compreender fatos que ocorreram em 
determinados momentos históricos. Ao mesmo tempo, se não podemos querer encaixar a 
realidade na teoria, devemos também ter o cuidado de não trabalhar a realidade de maneira 
pragmática, considerando que ela, por si só, oferece as respostas, sendo, nesse caso, a 
teoria apenas um acessório.

Se nossa teoria não consegue explicar como a realidade social está se desenvolvendo, quais 
suas relações, ela não irá ajudar na nossa estratégia de transformação social. Da mesma 
maneira, uma prática política que se desvia dos nosso princípios e/ou é fruto de uma 
avaliação teórica equivocada não pode gerar uma nova teoria que a justifique, pois, da 
mesma maneira, estaríamos incorrendo em erro.

Assumir um único método ou uma única teoria social - que, conforme argumentamos, estão, 
para nós, no campo da teoria - como princípio ideológico, significa privar-se de 
compreender a realidade como ela é e adotar uma postura enviesada de interpretar a 
realidade como gostaríamos que fosse; isso não possui qualquer senso de realidade e, muito 
menos, de ciência.

Confundir teoria e ideologia significa incorrer em alguns erros fundamentais: amarrar-se 
em métodos e teorias que têm obrigação de explicar a realidade, ainda que a realidade 
coloque em xeque esse próprio método e essa própria teoria - ou seja, elevar elementos de 
ordem teórica ao status ideológico e correr seriamente o risco de não interpretar a 
realidade da melhor maneira possível; acreditar que métodos e teorias podem prever 
cientificamente o futuro e arrogar-se a uma posição que já foi contestada pela própria 
realidade histórico-social - não podemos ter certeza do que ocorrerá no futuro, mas temos 
maneiras de estabelecer tendências e possibilidades sobre o "para onde caminha a 
realidade"; privar-se dos aportes teóricos que surgem provindos de outros meios e que, não 
sendo considerados parte de nossa ideologia, são rechaçados - uma avaliação ideológica de 
algo teórico; prejudicar a prática política por razão de uma leitura da realidade mal 
feita e, portanto, equivocar-se estrategicamente nos melhores meios para se atingir os 
fins estabelecidos.

Trata-se, portanto, de manter as nossas certezas ideológicas que estão relacionadas à 
nossa vontade de transformação social e a serenidade crítica e a abertura necessárias para 
o conhecimento que queremos ter da realidade. Afinal, distinguir ideologia de teoria não 
significa afirmar que qualquer abordagem teórico-metodológica possui a mesma eficácia; 
certamente há algumas mais adequadas que outras. E devemos, em nossas reflexões teóricas, 
buscar construir essa "caixa de ferramentas" que nos permita, por meio de métodos e 
teorias sociais, interpretar a realidade da melhor maneira possível, permitindo que nossas 
estratégias e táticas sejam as mais adequadas.

Consideramos, também, que devemos tomar em conta a inter-influência entre teoria e 
ideologia pois, conforme colocamos, ainda que os tratemos como conceitos distintos, eles 
se relacionam. Nesse sentido, não devemos considerá-los como elementos estanques e 
completamente apartados.

"Entre teoria e ideologia existe uma vinculação estreita, já que as propostas destas se 
confundem e se apóiam nas conclusões da análise teórica. Uma ideologia será tanto mais 
eficaz como motor da ação política, quanto mais firmemente se apóie nas aquisições da 
teoria." (FAU, "Huerta Grande")

A teoria é influenciada pela ideologia de diversas maneiras. Não sustentamos a 
neutralidade da teoria; assim, consideramos que os métodos e as teorias - o campo teórico 
de maneira geral, incluindo suas categorias, conceitos, questões, seleção dos fatos da 
realidade - possui motivações ideológicas que terminam tendo influência sobre ele. Essa 
influência pode ser notada pelas intenções e interesses que norteiam a produção teórica - 
ou seja, para quê e para quem essa teoria é produzida e com que objetivo. A ideologia é 
influenciada pela teoria também, de distintas formas. Na elaboração dos princípios e 
estratégias fundamentais de uma determinada ideologia, há elementos de ordem teórica em 
sua elaboração que, dependendo da maneira que forem modificados, podem colocar em xeque o 
próprio cerne de uma ideologia. Por exemplo: a adoção de teorias que considerem não haver 
classes na sociedade pode colocar em questão o princípio classista do anarquismo.

O "fato como é" que estuda a teoria também guarda disposições ideológicas do "como deve 
ser", dos mecanismos de verdade que jogam na formação do real - social e historicamente - 
e do futuro atualizado e reatualizado nas crenças e valores que constituem um sujeito na 
sua condução da vida cotidiana. Por exemplo, o modo de vida que atualiza o capitalismo é 
também um "como deve ser", tem uma indiscutível direção moral sobre o que acontece. Por 
sua vez, a ideologia não é só um "vir a ser" mas também e não menos importante, uma 
incorporação de tal sentido em disposições de comportamento, hábito, conduta moral. É um 
"estilo militante", como dizemos em política; um jeito do fazer, uma atitude prefigurativa 
que parte do agora e se molda no cotidiano por relações de sentido que nem sempre estão 
mediadas pelo consciente ou o racional; que pode ser interpelada por um discurso teórico 
como elucidação, como princípio de lucidez, mas que sempre transborda as suas categorias 
formais.


TEORIA, IDEOLOGIA E PRÁTICA POLÍTICA

Em conclusão, queremos afirmar que teoria e ideologia constituem as bases da prática 
política anarquista.

Nossa prática política envolve elementos de ordem teórica e ideológica: temos determinados 
princípios e uma estratégia geral, que constituem elementos essencialmente ideológicos; 
realizamos leituras estruturais e conjunturais, do passado e do presente, e tentamos 
estabelecer alguns prognósticos, que constituem elementos essencialmente teóricos; 
buscamos conciliar nossos objetivos finalistas com nossa leitura da realidade e, por meio 
de uma prática política, transformar a sociedade presente na sociedade que desejamos para 
o futuro sendo, para isso, fundamentais outros elementos de ordem teórica e ideológica.

Nossa prática política deve, por isso, manejar adequadamente os conceitos de teoria e 
ideologia, sabendo diferenciá-los e/ou reconhecer sua influência, a depender das 
circunstâncias.

Em termos gerais, podemos dizer que a teoria abarca o "como" vamos analisar e produzir 
conhecimento sobre o campo social-histórico, a ideologia refere-se a um nível da análise 
que tem sua "autonomia relativa" e que está em interdependência no conjunto da estrutura 
global; ela, em geral, contém uma perspectiva de futuro - vinculada, em nosso interesse, à 
prática política, ganha traços de doutrina.

Fazendo isso, compreendemos poder potencializar nossa intervenção e nosso projeto de poder 
popular, avançar em relação à nossa estratégia geral. Como afirmamos anteriormente: "A CAB 
tem por objetivo impulsionar um projeto de poder popular nas localidades em que atua, 
fazendo do anarquismo a centelha que deve incendiar os movimentos populares, rumo ao nosso 
ideal de socialismo e liberdade." (CAB, "Nossa Concepção de Poder Popular")

Para isso, entendemos como um próximo passo caminhar na construção de nossa caixa de 
ferramentas teóricas e na elaboração programática de nossa estratégia nacional.
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