(pt) Anarchist Federation of Rio de Janeiro FARJ - Libera #160 - A transformação social construímos no agora - Prática política, ética e estilo militante (en)

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Quarta-Feira, 22 de Janeiro de 2014 - 09:15:04 CET


"Para nós a importância maior não reside naquilo que se consegue, pois conseguir tudo o 
que queremos significaria que todos aceitassem e praticassem a anarquia, o que não será 
feito em um dia nem por meio de um simples ato insurrecional. O importante é o método com 
o qual se consegue o pouco ou o muito." ---- Malatesta  ---- "A esquerda tradicional tem 
sido sectária, dogmática e tem frequentemente ignorado a realidade ao seu redor. Não 
acredito que os anarquistas, no geral, tenham sido muito melhores. É hora de dar o 
exemplo. Devemos apontar para a construção de espaços de discussão e mudar os hábitos 
maléficos em nosso movimento, que não contribuem com o debate e que mais entorpecem o 
desenvolvimento do necessário espírito crítico que o movimento revolucionário tanto 
necessita para fazer frente às difíceis tarefas de regeneração social que temos adiante."

José Antonio Gutiérrez Danton

Para Malatesta cada fim requer seus meios, e se lutamos por um fim diferente do sistema de 
dominação e exploração capitalista os meios para atingi-lo também devem ser diferentes. 
Nesse sentido, entendemos como ética e estilo militantes os valores que conduzem nossa 
prática política cotidiana, em permanente diálogo com a realidade e em coerência com nosso 
método e com nossa concepção de trabalho. O germe de uma sociedade mais justa, igual e 
livre de exploração e dominações está na maneira como atuamos no "agora", e isso não pode 
ser deixado pra depois. Está na forma como nos organizamos, por meio do federalismo, da 
autogestão e da ação direta. Está na intenção que damos a nossas práticas e às relações 
nos meios social e político; com os setores populares, com outros(as) militantes e 
companheiros(as) e na relação entre organizações políticas. O que equivale a dizer que o 
estilo militante é a busca da coerência entre as práticas do(a) militante, e do conjunto 
da militância, com os princípios, métodos e a linha política de uma organização.

Além de definir um programa estratégico com propostas concretas de intervenção na 
realidade, uma organização anarquista deve buscar uma prática política consequente com um 
determinado estilo militante, que servirá como elemento fundamental para a construção do 
poder popular e da transformação social. A prática também é ferramenta de propaganda e 
contribui para que se forme opinião favorável à organização, uma vez que é na vivência da 
luta e no convívio com os(as) militantes que se constrói cumplicidade no trabalho de base 
e novos(as) companheiros(as) e apoiadores(as) vão se aproximar.

É importante pontuarmos que não idealizamos um ser humano perfeito, muito menos um tipo de 
militante infalível. Os mais diversos problemas e contradições vão estar presentes nas 
dinâmicas das lutas ou nos processos revolucionários, e é nos organizando para superá-los, 
ou reduzi-los ao máximo, que avançamos. Há inúmeros exemplos, contemporâneos ou 
históricos, onde a proposta anarquista contribuiu para a organização e os embates pelas 
demandas dos trabalhadores e trabalhadoras. Pois nossa convicção ideológica se dá pela 
prática, nossa teoria é para atuar na realidade e nosso programa é fruto das lutas cotidianas.

Errar e trabalhar para corrigir os erros nutre nosso aprendizado e gera acúmulo político e 
amadurecimento. Também é fundamental sabermos fazer a crítica fraterna ao(à) 
companheiro(a) quando é necessário, e termos humildade para assumir quando erramos, fazer 
a autocrítica e nos esforçar para mudar nossa conduta. Nada de fazer "vista grossa" ou 
"passar a mão na cabeça" quando se identifica um problema relativo à prática de algum(a) 
companheiro(a). Quando os(as) militantes e a organização se omitem de encarar estes 
problemas, e não os pautam nas instâncias coletivas adequadas, pode-se gerar uma "panela 
de pressão" que poderá minar a relação orgânica, prejudicar o trabalho de base e gerar 
desentendimentos que, de outra forma, poderiam ser evitados.

Assim, o exercício da crítica e do debate devem ser encarados como importantes ferramentas 
organizativas, postas a serviço da prática e tendo esta também como ponto de partida, seja 
nos níveis político ou social. Não a crítica como mero exercício intelectual, o debate 
pelo debate ou com o objetivo único de mudar a consciência de cada indivíduo. Pois não é 
simplesmente a mudança de consciência das pessoas que altera a realidade, mas é na 
construção de um determinado sujeito de transformação social nos processos cotidianos de 
luta contra o sistema de dominação e exploração. Esses sujeitos (negros, camponeses, 
favelados, estudantes, jovens, indígenas, mulheres etc.) vão se incorporando à 
organização, trazendo suas experiências e lutas.

Sabemos que o processo de identificar e mudar as práticas com que somos formatados(as) 
pelo sistema de opressão e dominação não é algo que ocorre da noite para o dia. Mas 
devemos estar atentos para não agirmos de maneira egoísta e vaidosa ou reproduzir atitudes 
preconceituosas, sexistas, machistas, homofóbicas ou outras formas de opressão e 
autoritarismos com os(as) companheiros(as). E quando isso ocorre o coletivo deve ajudar 
o(a) companheiro(a) a reconhecer e mudar sua conduta, mas considerando sua realidade e 
suas limitações, sem querer crucificá-lo(a), caricaturá-lo(a) ou exigindo dele(a) uma 
"pureza" impossível na vida real.

Também é importante saber motivar aquilo que o(a) militante tem de positivo, reconhecendo 
as diferentes potencialidades, temperamentos e singularidades. Estimular nele(a) o 
exercício da delegação, a iniciativa, a participação e o posicionamento nas instâncias 
coletivas. Saber ouvir e saber debater, mesmo diante das posições divergentes, fazendo 
sempre esforço para se chegar aos acordos coletivos sem fazer "cavalo de batalha". 
Priorizar a construção coletiva em vez das práticas voluntaristas descoladas da 
estratégia, o que é diferente da capacidade de iniciativa de cada um para ajudar naquilo 
que for possível. Como também prezarmos pela organicidade em vez das relações e estruturas 
políticas informais, de caráter personalista ou paternalista, o que pode dar margem para 
desigualdades e manipulações políticas no interior do coletivo. Evitar o personalismo é 
fortalecer as estruturas coletivas e ter claros os critérios de atuação para todos(as).

Nos diferentes níveis de atuação, o(a) militante deve entender que sua prática política, 
além de ser o "rosto" de sua organização, é também referência para os outros, positiva ou 
negativamente. Por isso é importante cultivarmos o espírito de fraternidade e apoio mútuo 
nos espaços de trabalho, estimulando e promovendo a máxima confiança, ética e camaradagem 
entre os(as) companheiros(as). E, principalmente nos trabalhos sociais, não ser arrogante 
achando que vai levar a "verdade" ao povo, mas saber primeiro ouvi-lo e aprender com a 
sabedoria,  realidade e cultura populares.

Espera-se do(a) militante uma atitude atenta ao conjunto de sua organização para além de 
seu trabalho específico, contribuindo e buscando soluções para organizar e articular os 
trabalhos nos diferentes espaços em que se inserem, ajudando na construção de uma política 
onde os campos de luta em que atua a organização dialoguem cada vez mais. Que saiba 
equilibrar sua participação ao contribuir e comprometer-se tanto com as tarefas de 
funcionamento interno da organização quanto com as tarefas externas, relativas aos 
trabalhos de base. Agindo com responsabilidade e comunicar ao coletivo quando da 
impossibilidade de cumprir determinada tarefa. Pois ter imprevistos e problemas é normal, 
mas a falta de comunicação prejudica a organicidade. Por outro lado, estar sobrecarregado 
de tarefas também não significa que a política está avançando, mas que talvez não 
estejamos atuando com planejamento ou estabelecendo prioridades.

A formação é outro elemento importante, principalmente quando se pensa numa política 
articulada com as demais atividades internas da organização e preocupada com o acolhimento 
do(a) militante e dos recém ingressos junto ao trabalho de base. Complementada com uma 
formação teórica que vai fortalecer e qualificar a prática do(a) militante, dotando-o(a) 
das ferramentas necessárias para produzir e reproduzir as propostas da organização. 
Também, todo(a) aquele(a) que recém ingressa deve compreender que o processo não recomeça 
do zero naquele momento, e que ele(a) irá contribuir da melhor maneira possível para 
multiplicar força num processo que já vem caminhando com outros(as) companheiros(as) e que 
tem seus acúmulos. Todos os militantes constroem a organização mas devem saber respeitar 
as deliberações coletivas e atuar a partir destas.

No nível social a atuação nas bases nos ensina muitas coisas, seja em movimentos sociais 
do campo, da cidade, nos locais de trabalho, de estudo ou em iniciativas de resistência em 
favelas e periferias. Devemos contribuir para que os espaços coletivos que ajudamos a 
construir sejam agradáveis e estimulem a participação de todos. Uma vez que a dominação e 
a exploração capitalistas trabalham para afastar o povo da participação política, 
colocando a via eleitoral e o individualismo como referenciais, em nossos trabalhos o 
exercício da política e da militância não deve parecer às pessoas como algo chato ou coisa 
só para "profissionais", distante de sua realidade. Uma reunião ou assembléia de base 
esvaziada indica que podemos estar fazendo alguma coisa errada. Um determinado estilo 
militante aplicado ao trabalho de base também pode estimular pedagogicamente, se 
proporciona condições de maior participação nos espaços de deliberação, considerando as 
realidades e limitações de cada um. Por exemplo, mesmo com uma modesta experiência no 
campo comunitário, podemos dar o testemunho de que um trabalho focado estrategicamente e 
com base numa relação de igualdade, respeito e estímulo à participação política teve como 
consequência a aproximação de pessoas em distintos níveis de participação, desde o mais 
pontual até o mais orgânico. Aos poucos vão se estabelecendo importantes relações de 
identidade com nossas propostas, sabendo valorizar as iniciativas populares de resistência 
e articular politicamente os trabalhos.

Ao mesmo tempo, no nível político também devemos prezar por uma ética e estilo militante 
nas relações com outras organizações políticas e correntes da esquerda. A atuação em 
espaços mais amplos e de diversidade ideológica como fóruns, campanhas e mobilizações nos 
colocam outros desafios. Nossas propostas não são as únicas e não vamos nem queremos estar 
sozinhos nos processos de luta. Para fazer frente aos poderosos e opressores muitas vezes 
vamos estar compondo com outros setores da esquerda construindo consenso a partir do que 
há de acordo comum, o que não significa abandonar nossos princípios. Seria muito cômodo 
compormos politicamente apenas com quem temos concordância ou afinidade ideológica, mas 
isso seria adotar o principismo como política de atuação, o que não faz avançar a luta nem 
enriquece nossas experiências.

É comum passar por situações de desacordo, divergências políticas ou falta de conduta 
ética por parte de indivíduos ou grupos, mas para além do denuncismo, nosso foco deve 
estar em divulgar e fazer avançar nossas propostas. Precisamos saber diferenciar os 
inimigos de classe dos adversários ideológicos. Sem isso corremos o risco de atuar como um 
"rolo compressor" nos espaços políticos, reduzindo-os à espaços de disputa ou de "captura" 
de militantes apenas.

Devemos saber encaminhar as divergências com serenidade e evitar conflitos e polêmicas 
desnecessárias, diferenciando as divergências de princípios daquelas de estratégia ou 
tática e reconhecendo os méritos alheios. Antes de ser críticos, ser autocríticos. 
Defendemos o anarquismo com firmeza diante de ataques e calúnias, e fazemos a luta 
ideológica quando preciso, mas colocando nossas posições e opiniões sem dogmatismo e 
contextualizando nossas críticas em vez de generalizá-las a toda uma corrente, grupo ou 
ideologia. Há discussões que devem ser feitas e as divergências muitas vezes vão existir, 
mas que se façam sem sectarismos ou dogmatismos.

Publicamente, devemos saber nos posicionar sem virulência febril, que faz parecer que 
estamos mais preocupados em afirmar nossas posições ou competir com outra corrente ou 
organização do que em nos ocuparmos dos problemas cotidianos dos(as) oprimidos(as) e 
explorados(as). Não se convence ou se persuade simplesmente com violência na linguagem ou 
falando alto. Vaidade teórica e ideológica são faces da mesma moeda. E sobretudo hoje 
devemos ficar mais atentos com as ferramentas de comunicação virtual e as redes sociais, 
que por sua própria característica de funcionamento, acabam facilitando e estimulando esse 
tipo de prática nociva.

Desse modo, ética e estilo militantes não são entendidos por nós como dogmas, mas como 
concepções de trabalho a serem encarnadas em nossas práticas políticas e, dessa forma, 
buscam atuar as organizações da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB). E nossa 
militância nos setores de luta do campo e comunitário, em trabalhos de produção coletiva, 
grêmios estudantis, pré vestibulares, educação popular e cultura, como nas mobilizações e 
fóruns populares de articulação, buscamos estimular e influenciar, mas também somos 
modificados no cotidiano das lutas. E é inserida nessas dinâmicas sociais que uma base 
ética e uma concepção de estilo militantes também se forjam e se qualificam enquanto 
frutos de amadurecimento político e reflexão nas lutas cotidianas.


More information about the A-infos-pt mailing list