(pt) FAG, Ação direta e protagonismo popular nas lutas pela água

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Segunda-Feira, 3 de Fevereiro de 2014 - 17:55:22 CET


Barricada na RS 118, Morro do Coco, Gravataí (federacaoanarquistagaucha.org/?p=245)---- 
Concomitante às lutas que ocorreram na capital, na última semana a região metropolitana 
foi o cenário de mobilizações das comunidades pela água. Somente em Gravataí foram três 
ações diretas entre piquetes, barricadas e um protesto em frente à prefeitura num 
intervalo de cinco dias. Em Porto Alegre o Morro Santana desceu para o asfalto e paralisou 
a circulação na Zona Leste da cidade. Em Novo Hamburgo três bairros realizaram piquetes 
por água e luz. Em diferentes comunidades um problema comum, ou seja, a periferia sempre é 
a primeira a sofrer quando o assunto é a falta da água. Embora nesses casos sejam sistemas 
públicos de abastecimento (CORSAN e DMAE), a escassez escolhe classe e cor, pois onde 
residem as classes dominantes e no território da indústria e do agronegócio nunca falta 
esse recurso, pelo contrário, a relação chega a ser de privilégio.

         Apesar do sensacionalismo dos meios de comunicação em torno do tema da água, há 
um componente importante nessas manifestações que não foi capturado pelo sistema, ou seja, 
a capacidade do povo organizado através da ação direta expressar a sua força. Isso não é 
pouca coisa, e aí estamos como parte do povo dando impulso no interior das lutas pela água.

A tentativa da grande mídia em pautar o movimento e o interesse da privatização.

         No final do ano passado eram sentidos pela comunidade do Vale do Gravataí os 
efeitos da falta da água e desde então organizaram-se as primeiras manifestações em 
caráter de agitação. Entre os efeitos surtidos na pressão sobre Ministério Público, CORSAN 
e Prefeitura de Gravataí, surgiram medidas paliativas para a chamada "crise do 
abastecimento", entre essas o aumento na captação da água do rio. Longe de ser a solução, 
o aumento no volume de água capturado multiplicou a demanda da atual rede de abastecimento 
sem que fosse enterrado nenhum cano e desde então a cada semana estouram adutoras que 
acabam alimentando o círculo vicioso da falta da água.


Morro do Coco, Gravataí

         É nesse cenário que, de forma oportunista, a mídia hegemônica tem pautado o 
assunto com uma linha editorial de ataque aos serviços prestados pela Companhia 
Rio-Grandense de Saneamento - CORSAN. Há uma repetição de discurso que incita os 
municípios conveniados a romperem seus contratos com a CORSAN abrindo caminho para a 
privatização sob o modelo de Parceria Público Privada. Assim tem operado ideologicamente o 
Grupo RB$ nos últimos anos formando a opinião no sentido de desgastar o que é público para 
atender aos interesses privados. Foi dessa forma, por exemplo, que Uruguaiana na fronteira 
oeste entregou a água para a Odebrecht chegando a aumentar em até quatro vezes o valor da 
tarifa sem tampouco dar solução aos sérios problemas decorrentes da falta de saneamento. A 
própria conduta dos repórteres dessa fábrica de mentiras chamada RBS tem sido a de sugerir 
a privatização da água na condução das entrevistas com os moradores atingidos pela falta 
da água em Gravataí.

  A esfera política e o esforço reacionário coordenado pelas prefeituras.

         Tão logo ganhava repercussão estadual "a crise do abastecimento", de forma 
articulada, prefeituras do PMDB (Gravataí e Santa Maria) e PSDB (Viamão) são as que em 
maior grau manifestaram posicionamento de rompimento com a CORSAN. Vale enfatizar que a 
Prefeitura de Gravataí herda alguns quadros políticos do Governo Yeda que conduziu um 
verdadeiro sucateamento na gestão do saneamento. O atual prefeito Marco Alba esteve como 
secretário de obras e fez da CORSAN comitê de campanha quando candidato a deputado 
estocando inclusive o seu material de propaganda dentro da companhia. Ao lado do prefeito 
do PMDB está como secretário de governo Luiz Zafalon que foi presidente da CORSAN durante 
o governo Yeda. Portanto, não é coincidência a condução política levada a cabo no 
município que aposta no desgaste do serviço público e já sinaliza prazo para abertura de 
licitação do saneamento. Já nos casos das prefeituras de Santa Maria e Viamão, 
respectivamente, Schimer (Santa Maria) segue a linha de seu correligionário de Gravataí e 
Bonatto (Viamão), apesar de legenda distinta, pega carona com Alba numa relação entre 
ambos que é anterior ao cargo que ocupam atualmente.


Barricada na Protásio Alves. Ato dos moradores da Vila Laranjeiras, Morro Santana, Porto 
Alegre

Tratando-se de legendas e a relação dessas com a privatização da água, o próprio PT é o 
maior responsável quando durante o governo Lula foi aberta a possibilidade de entrada de 
empresas privadas no setor de saneamento quando era aprovado o Plano de Aceleração do 
Crescimento (PAC). De lá prá cá o modus operandi das transnacionais da água tem sido o de 
financiar as campanhas eleitorais e depois cobrar a conta para que estados e municípios 
sigam o caminho da privatização. Foi assim que, no Rio Grande do Sul,  recentemente alguns 
municípios tentaram privatizar a água como Cachoeirinha onde o Prefeito Vicente Pires do 
PSB teve quase metade de sua campanha em 2008 financiada pela OAS, e também Santa Cruz do 
Sul, onde a coligação PTB e PT direcionou uma licitação para a Odebrecht no governo 
anterior. Porém, em ambos exemplos, a privatização só não se concretizou porque houve uma 
forte articulação entre movimento popular e sindical em lutas com caráter de ação direta 
onde a defesa do saneamento público foi vitoriosa.

  Seguir na luta em defesa da água pública com horizonte libertário e socialista.


Ato da comissão de moradores atingidos pela falta de água (Vila Arinos) em frente a 
prefeitura de Gravataí.

         Nos últimos anos tem-se intensificado as lutas pela água e no atual contexto da 
greve dos rodoviários na capital, é momento de fazermos a defesa incondicional do caráter 
público dos serviços e ao mesmo tempo ir além do limite imposto pelo modelo estatal e 
burocrático que separa o povo do poder. Ou seja, no caso do saneamento, neste momento 
fazemos a defesa da manutenção da CORSAN pública, porém pontuando que o modelo estatal 
atual é reprodutor de desigualdades. Fazendo esse debate por esquerda, concretamente temos 
defendido e proposto de imediato no curto prazo, o direito de participação das comunidades 
e dos trabalhadores com poder de decisão na gestão das políticas de saneamento. Fazemos 
essa defesa não para cair na armadilha da agenda burocrática controlada pelas indicações 
políticas dos partidos e das instituições burguesas, mas para ir exercitando a democracia 
direta nas organizações populares e sindicais e criando antagonismo com os limites 
impostos pelo sistema por via da ação direta dos de baixo. Enquanto anarquistas, somos 
partidários de uma estratégia de Poder Popular que não troca a independência de classe por 
cargos no Estado, pois essa via não conduz ao socialismo e até mesmo já foi ajuizada pela 
história.

Só a luta popular decide! Não tá morto quem peleia!!!

Federação Anarquista Gaúcha - FAG

03 de fevereiro de 2014
http://www.federacaoanarquistagaucha.org/?p=245


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