(pt) Anarkismo.net: EUA, Cuba e a projeção geoestratégica by BrunoL (en, it)

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Quarta-Feira, 24 de Dezembro de 2014 - 10:15:35 CET


A reaproximação progressiva entre Estados Unidos e Cuba foi anunciada na tarde de 4ª, 17 
de dezembro, com a solenidade devida. Simultaneamente, o presidente dos EUA Barack Obama e 
o comandante em chefe (com status de general) Raúl Castro, informaram ao mundo e em 
especial para a América Latina que as relações entre os dois países passarão por uma 
distensão progressiva. Vários são os eixos de análise possíveis para discutir o caso. 
Neste breve texto damos ênfase para a dimensão geopolítica, dentro da projeção dos EUA e 
suas esferas de influência diretas e indiretas para a América Latina e no Caribe. Também 
observo, sob um ângulo geoestratégico, a preocupação dos EUA com o aumento da presença de 
capitais chineses em Cuba e a franca adesão do chefe de Estado cubano a uma linha chinesa 
pós-Deng Xiao Ping. Reconheço que para a sociedade cubana e a percepção da ilha como 
espaço de resistência anti-imperialista em nosso continente, o ambiente doméstico dentro 
da terra de José Martí e a contraparte dos gusanos na interna da direita 
cubana-estadunidense é mais relevante. Deixo esta análise para outra ocasião, 
concentrando-me agora no aspecto estratégico para os Estados e não para as forças 
político-sociais correspondentes.

Barack Obama e Raúl Castro localizam interesses confluentes na reaproximação diplomática e 
distensão comercial; tal ação pode gerar ganhos econômicos binacionais e o consequente 
enfraquecimento de posições ideológicas acirradas, por direita e por esquerda

Washington vê com certa temeridade a projeção da China como parceiro econômico da América 
Latina e com especial participação no eixo dos países membros do Mercosul e Unasul. 
Beijing está financiando a construção de uma rota marítima alternativa ao Canal do Panamá 
- o novo Canal Interoceânico - passando pelo Lago da Nicarágua e onde terá papel 
importante o novo porto de Mariel, em Cuba. Esta impressionante obra de engenharia - com 
custos ambientais e para os povos originários da Nicarágua - traz a uma ironia macabra. 
Ironicamente o país de Sandino tem seu nome em homenagem ao cacique Nicaróguan e tal obra 
atropela o direito ancestral destes povos! Mas, como se sabe, quando há razão de Estado 
todos os demais direitos são considerados como danos secundários ou "custos de segunda 
ordem". O que preocupa ao Pentágono, além da dimensão das rotas para os navios de classe 
Post-Panamax (as belonaves com calado superior ao Canal na entrada Atlântica das reclusas 
de Colón, Panamá) é um fato contundente, impensável no período de Guerra Fria.

Desde a crise dos mísseis que não há a chance real de presença ostensiva de vasos de 
guerra da armada da Rússia na região. O Kremlin ofereceu sua marinha como força protetiva 
da nova rota interoceânica promovida pela China. Assim, caso este projeto evolua em sua 
plenitude, o Comando Sul dos EUA teria em seu costado a uma aliança comercial-estratégica 
entre China e Rússia, com tratado de cooperação assinado por 50 anos e tendo como 
entreposto a ilha cubana. Os EUA operam como força protetiva da via entre o Pacífico e o 
Caribe/Atlântico, garantindo a "segurança" do Canal do Panamá apesar da devolução do 
território do mesmo e a plenitude das operações ao Estado panamenho a partir de 1997. 
Logo, a presença chinesa em Cuba como parceira comercial pode implicar numa perda de 
influência direta maior do que a representada pelo poderio militar do Comando Sul das 
forças armadas estadunidenses. Para evitar isto, o governo Obama estaria seguindo os 
passos da própria China que começou a financiar seu crescimento nos anos '80 ao facilitar 
a repatriação de capitais chineses ultramarinos evadidos do país após 1949. A 
administração Obama aposta nos interesses comerciais e mundanos das famílias de origem 
cubana, não se deixando chantagear pela direita bipartidária que controlava a agenda da 
reaproximação com Cuba. Diante do desafio, a Casa Branca moveu-se primeiro. Os EUA não 
poderiam dar-se ao luxo de não participar da expansão de processos capitalistas dentro do 
Estado que fora seu adversário por mais de 50 anos.

O reatamento das relações diplomáticas e o afrouxamento do bloqueio econômico terão 
efeitos no curtíssimo prazo. As previsões iniciais são um aumento em torno de 6 milhões de 
turistas, passando de 3 milhões em média de visitantes na ilha para 9 milhões, sendo a 
imensa maioria destes estadunidenses. Somente com o acréscimo do turismo, e a consequente 
presença de redes hoteleiras dos EUA, as receitas advindas desta indústria equivaleriam a 
25% do PIB cubano ao ano. O envio de dinheiro de tipo transferência familiar pode aumentar 
o fluxo de capital de pequena monta (como uma segunda renda para milhares de unidades 
familiares), reforçando a posição dos cerca de 500 mil micro e pequenos empreendedores 
hoje atuando em Cuba.

De sua parte, o governo de Raúl Castro ganha novas condições de barganha diante dos 
parceiros poderosos - como China e por tabela, a Rússia - além de se fortalecer com os 
aliados secundários, como o Brasil (investidor no porto de Mariel já supracitado). Do lado 
cubano, é urgente sobreviver, aumentando a condição de manobra diante das urgências nas 
parcerias comerciais e de troca de produtos fundamentais é uma imposição do Estado cubano. 
A Venezuela, cujas trocas e aportes com Cuba representam cerca de 18% do PIB da Ilha, 
vê-se hoje diante de uma encruzilhada. No cenário internacional, o Palácio Miraflores e a 
PDVSA estão contra a parede. Ao ancorar sua receita nas exportações de petróleo, os ganhos 
reduzem-se constantemente, em função da queda do preço desta commodity manipulado pela 
produção da Arábia Saudita, com incentivo dos EUA, visando derrubar os ganhos da Yukos e 
Gazprom russas. Internamente a Venezuela também vive um momento de instabilidade política 
que pode resultar na possibilidade de uma derrubada do governo Maduro (mesmo eleito) e um 
bloqueio ao bloco político chavista.

A vontade do Departamento de Estado de aumentar o aporte de capitais cubano-americanos e o 
tempo de navegação na internet por cidadãos cubanos também é uma operação de "corações e 
mentes". Com a proximidade e os laços históricos de amor e ódio junto aos EUA, os jovens 
dentre os 10 milhões de cubanos, com o enfraquecimento ideológico - advindo também da 
ausência de democracia interna e possibilidade real de organização social não-estatista - 
podem ser absorvidos ideologicamente pelo universo do consumo (diante da escassez) e da 
tecnologia barata. A administração Obama vê o bloqueio econômico como forma ineficaz para 
derrubar o castrismo (sendo o regime hoje um adversário de segunda monta), terminando por 
gerar maior coesão ao Estado na população da ilha. Mais expostos ao modo de vida dos EUA, 
os cubanos poderiam vir a aderir ideologicamente ao mundo do consumo suntuoso e do 
individualismo identificando-se assim com a superpotência. Assim, reforçam a presença dos 
Estados Unidos em seu mare nostrum (o sistema Caribe/Antilhas), prevenindo-se da projeção 
estratégica comercial chinesa com a Rússia como provável aliado de segunda monta, mas com 
capacidade militar.

Infelizmente, esta etapa herdeira da Guerra Fria é superada sem uma alternativa ideológica 
e estratégica a contento para a América Latina e o Caribe.


http://www.anarkismo.net/article/27719


More information about the A-infos-pt mailing list