(pt) Federação Anarquista do Rio de Janeiro - Entrevista com um comunista libertário ucraniano: "Os anarquistas se tornaram o maior obstáculo à anarquia" (en)

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Sexta-Feira, 5 de Dezembro de 2014 - 18:28:00 CET


Donetsk, cidade no sudeste da Ucrânia é palco de confrontos entre separatistas pro russos 
e a população ucraniana. Um militante comunista libertário que lá vive e milita, nos deu 
alguns instrumentos para compreender quais são as forças presentes e as razões da letargia 
do movimento libertário. ---- Qual é a situação na Ucrânia? ---- A vida continua com duas 
realidades paralelas: as pessoas continuam com sua vida cotidiana, com as crianças ao 
redor, com o mesmo lugar dos mortos, da violência, do ódio. A divisão da sociedade se 
reforça a cada dia. É uma revolução política da burguesia nacional, em um contexto de 
guerra civil e de uma intervenção mal dissimulada da Rússia. ---- Qual é a composição 
social dos manifestantes do sudeste e dos de Maïdan? ---- Maïdan e os separatistas do 
sudeste não diferem muito um do outro. Os dois agrupam uma diversidade de classes sociais, 
intelectuais, empregadas(os), empresários, ruralistas, estudantes, lupemproletariado, 
antigos militares...Todos viraram reféns e marionetes dos clãs econômicos.

As pessoas de Maïdan colocaram no poder novas oligarquias e a gente do sudeste deixou de 
dormir por conta da família do presidente deposto Yanoukovitch e de seu mestre em Moscou. 
Toda essa retórica é perfumada pelo nacionalismo, como resultado das feridas sangrentas e 
da cólera durante décadas. Na realidade, o inimigo está no Kremlin, no Capitólio americano 
e no parlamento alemão. Os líderes de Maïdan assim como os líderes separatistas, são 
frações da burguesia nacional e de seus componentes radicais.
À leste, eles intimidam as pessoas com o partido de direita Pravyi Sektr (Setor de 
Direita), e lhes chamam ao combate do fascismo, mesmo que eles se inspirem no fascismo 
imperial da nação russa. Em Donetsk, segundo sua lógica, você pode escolher em ser russo 
ou ser um fascista. Em uma palavra, você está abatido ou está morto. Isso aconteceu em 
Maïdan e acontece agora no sudeste.

O que se pode dizer sobre o referendum do 11 de maio (1)?

É um referendum marcado por seus postos de votação sem observador e sob o olhar atento de 
pessoas disfarçadas. Foi uma farsa inscrita em uma estratégia visando criar repúblicas 
populares independentes, e depois pedir sua admissão na federação russa. Mas tem uma 
grande parte das pessoas de Donetsk e de sua região que são partidários de uma Ucrânia 
unida. Os separatistas são melhores organizados, têm os melhores recursos administrativos 
e o apoio do estado vizinho, isso é tudo.

Você acha que tem especialistas russos no sudeste?

Eu não acho, eu tenho certeza. E muitos dentre eles estão nas bases de treinamento nas 
regiões de Donetsk e Lugansk, onde grupos de 400 a 500 habitantes e voluntários da Rússia 
treinam sob a direção de instrutores militares (...) A maioria das pessoas que defendem a 
bandeira separatista são habitantes, trabalhadores ordinários ou veteranos das forças 
armadas. Mas um número significativo e que organiza o processo com autoridade, é formado 
por voluntários da Rússia. O fornecimento de armas e de dinheiro vem da Rússia. O chefe 
atual do governo em Donetsk, que se proclama "República Popular", é Boroday. Estratégia 
desenhada pela administração do Kremlin.

Tem alguma possibilidade dos protestos se transformarem numa revolução social?
Neste momento, é um cenário improvável. Uma revolução social é possível unicamente na 
presença de dois fatores: uma demanda das massas por uma transformação radical e a 
organização política de viés revolucionário dos anarquistas, que será capaz de defender o 
processo de mudança.

Na realidade, não há nenhuma demanda por uma revolução social. A única mudança imaginada 
está no interior do quadro político. E mesmo esses tímidos rebentos de anti-autoritarismo 
que puderam se manifestar, se não forem sustentados por uma organização revolucionária e 
anti-autoritária forte, serão destruídos pela agenda política da burguesia e pelos 
partidos nacionalistas.

Quais são as perspectivas para os anarquistas no contexto atual?
O principal problema do movimento anarquista é a ausência de uma organização anarquista. 
Os anarquistas têm estado incapazes de usar a situação porque estão presos às ilusões 
anti-organizacionistas.

A organização é uma incubadora, uma escola, uma sociedade de apoio mútuo e uma plataforma 
produtiva para idéias e projetos; mas o mais importante, ela é um instrumento para a 
realização das idéias, um instrumento de influência e um instrumento de luta. Ela não pode 
ser substituída por grupos de afinidade.

Os anarquistas de hoje, como em 1917, perderam a oportunidade de serem influentes no 
processo. A RKAS (2) reivindicando o anarquismo plataformista de Makhno sobreviveu a 
muitas crises, se implicando na greve dos mineiros, e teve muitos projetos a longo prazo, 
mas que não foram sem desacordos e cisões internas.

A gente pode se lembrar da propaganda anti-eleitoral da cisão da RKAS, a Mezhdunarodnyj 
Souz Anarkhistov [3] em Donetsk. Os divisionistas argumentaram sobre o prentenso 
autoritarismo da RKAS. Uma vez liberados da "ditadura do escritório organizacional da 
RKAS", que lhes fez ir às minas e usinas propagandear o jornal Anarquia, e discutir com os 
sindicatos e com as cooperativas, e construir uma "guarda negra" auto-disciplinada, eles 
mostraram suas capacidades estratégicas e ideológicas colando cartazes feitos à mão 
contendo a seguinte mensagem "Não vá às eleições, coma legumes".

  Todas as tentativas para construir uma organização através do projeto RKAS deram lugar a 
uma cruzada contra "o autoritarismo e extremismo". Finalmente os anarquistas se tornaram o 
maior obstáculo à anarquia. Eu recorro a esse paradoxo para chamar a sua atenção sobre 
esta velha doença "a anti-organizacão", destruidora e irresponsável (...)Talvez a RKAS 
renasça se dando conta de todos os seus erros e se modernizando, talvez nós criaremos algo 
novo (...) Nós não a abandonaremos e nós não desapareceremos.

Em que você está engajado neste momento?

Infelizmente eu não posso lhe dizer tudo. Caso contrário, muita gente e eu mesmo teremos 
múltiplos problemas, e nós temos muitos projetos para o futuro. Oficialmente a RKAS foi 
dissolvida, mas seu núcleo se movimenta nas ações ilegais.

Este texto é um resumo, reformulado por Jacques Dubart, de uma entrevista com um mlitante 
da RKAS - Confederação Revolucionária dos Anarco-sindicalistas _ acessível sobre 
anarkismo.net, traduzido do texto publicado em inglês no 9 de agosto.
[1] Referendum de auto determinação, assim que Donetsk "pediu" sua anexação à Rússia.
[2] Confederação Sindical Anarquista Internacional.
[3] União Internacional dos Anarquistas.

FARJ - Organização Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira

https://anarquismorj.wordpress.com/2014/12/03/entrevista-com-um-comunista-libertario-ucraniano-os-anarquistas-se-tornaram-o-maior-obstaculo-a-anarquia/


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