(pt) Anarkismo.net: O 3º turno pautado pela direita que não ganhou as eleições presidenciais de outubro. Análise de conjuntura para o IHU - semana de 23 de novembro de 2014 by BrunoL (en)

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Segunda-Feira, 1 de Dezembro de 2014 - 10:55:08 CET


Introdução ---- Estamos diante de um novo fenômeno. O 3º turno no Brasil era na composição 
de maioria, na busca desenfreada pela tal da governabilidade, dando carne ao conceito de 
presidencialismo de coalizão. Tal conceito-chave na política brasileira - se for observado 
sem senso crítico - entra nas falácias neoinstitucionalistas. Se for traduzido pela sua 
natureza substantiva, revela-se a condição de governo de quem faz campanha ao lado de 10 
partidos, embora esconda as legendas oligárquicas nos programas de TV e Rádio. Agora o 3º 
turno ultrapassa as raias do absurdo e trata do seqüestro da pauta por direita, havendo 
uma corrida de cancha reta entre o Planalto (ou Dilma e Lula, mais apropriadamente dito) e 
a oposição neoliberal, apostando o páreo para ver quem alinha de forma mais convicta com o 
receituário da "retomada de confiança do mercado". Nesta corrida infeliz, cumpre papéis 
preponderantes tanto a pressão midiática - como veremos no tópico logo abaixo - como a 
execução da teoria das portas giratórias, onde o pivô é um alto executivo de finanças que 
entra e sai do aparelho de Estado como se este fosse o prolongamento de suas atividades 
privadas. As palavras que seguem não são propaganda ideológica embora não percam sentido 
de crenças e normatividade. Reforço que não são propícias para quem vive em estado de 
pensamento mágico, confundindo o apelo publicitário do marketing político com a política 
nua e crua, embora com requintes de sofisticação, realizada por e pelo andar de cima do 
Brasil.
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Joaquim Levy no Fórum Econômico Mundial e a defesa incondicional das margens asiáticas 
aplicadas para os operadores de mercado no Brasil. O amigo de Armínio Fraga marcha para a 
conquista da Fazenda da União.

Mídia Econômica da depressão - colocando o governo contra a parede

O Jornal Nacional exibiu uma matéria especial na edição de 21 de novembro a respeito da 
economia brasileira. Além das perspectivas tenebrosas, o telejornal líder da emissora não 
ouviu nenhuma fonte oficial, fez a panacéia de comparar o orçamento e gestão da 7a 
economia do mundo ao cotidiano de uma dona de casa indo ao mercado (ah os modelos, ah 
estes modelos "racionais") e depois tomou como fontes especializadas a três economistas: 
Simão Silber da USP, Gustavo Loyola Brandão (que entrou com o crédito de ex-presidente do 
Banco Central e não como sócio da Consultoria Tendências) e para terminar, Antonio Delfim 
Netto (com o crédito de ex-ministro da Fazenda, mas não dizia que foi ministro da ditadura 
em três governos). Foi feito o louvor ao superávit primário e ninguém problematizou os 
serviços da dívida como a sangria desatada dos recursos coletivos brasileiros.

Obviamente a presença implica nas ausências. Não foi ouvida nenhuma fonte 
desenvolvimentista, gente como Luiz Gonzaga Belluzzo ou Ladislau Dowbor. O material 
caracteriza mais do mesmo daquilo que Noam Chomsky define como Fabricação de Consensos 
através da obtenção de consentimentos. O veículo aponta a linha editorial de pregação 
neo-neo-neo (neoliberal, neoclássica, neoinstitucional) e manipulação jornalística. A 
linha editorial não é problema e sim a ausência de contraditório. O horror da pressão 
midiática continua.

Já o programa Milênio - da emissora por cabo Globo News - coleciona uma série de tipo 
"brainstorm" da oposição à direita há pelo menos quatro semanas. Dentre os quatro painéis 
que este analista assistiu, abordando o cenário político, econômico, de política externa e 
recentemente após o estouro da Operação Lava Jato em sua sétima fase e as conseqüências 
previstas para 2015, houve apenas um debatedor - dentre os doze presentes - que tinha 
algum alinhamento à esquerda.

Curioso leito de procusto como se referenciava Bakunin ao tema da liberdade sem igualdade 
ou da proposta de igualitarismo estatista sem as liberdades políticas. O governo de Dilma 
caminha a passos largos rumo à direita (como veremos a seguir) e ainda assim os derrotados 
nas urnas trazem uma tese de que aponta para algo muito, mas muito perigoso. O professor 
Bolívar Lamounier afirmou que Dilma teria "legalidade" (por haver vencido o pleito), mas 
não teria a "legitimidade" para tomar algumas medidas. Dentre estas estaria a decisão - 
vista pela oposição como suicida, e pelo visto tal visão é compartida pelo Planalto - de 
aprofundar a Nova Matriz da política econômica.

As direitas que não estão no governo (políticas, ideológicas e financeiras) vêem uma 
composição ministerial reacionária e não se contentam. Querem repetir a máxima de Roberto 
Jefferson, pois desejam o corpo do Estado, mas ao contrário de "cederem a cabeça"- como 
seria o modus operandi do período de José Dirceu à frente da Casa Civil no primeiro 
mandato de Lula - querem ceifar o Poder Executivo. Estamos no meio do 3º turno e a arena é 
a mídia econômica de opinião e o fontismo exacerbado.

A virada à direita segue a passos largos no segundo governo Dilma

Neste tópico, constato o estelionato eleitoral de um governo que já recomeça contra as 
cordas e disposto a ceder quase-tudo para fazer quase-nada. Mesclando notas que saíram na 
Folha e na CartaCapital, a lógica da virada à direita na economia seria inevitável. Vejam 
a natureza dos gastos, cuja intenção é permitir o pagamento da dívida pública - maior 
gasto corrente do orçamento da União.

Ao que parece agora saiu a equipe econômica, ao menos os jornais de envergadura do país 
deram como certa. O trio de ferro nas pastas da área econômica, já indicado e supostamente 
com o aceite dos operadores é: Joaquim Levy (atualmente executivo do Bradesco, mas um 
Chicago Boy de carteirinha e parceiro de trajetória de Armínio Fraga); Nelson Barbosa (um 
desenvolvimentista, mas que, segundo os próprios jornalões, gosta de apertar o cinto nas 
contas públicas), e, concluindo, com a permanência de Alexandre Tombini (o mesmo que vem 
comandando a alta dos juros da taxa Selic seguidamente) na presidência do Banco Central.

Entre as medidas que estavam em processo de elaboração estão cortes de despesas com:

- seguro-desemprego
- pensões por morte
- abono salarial.

Tudo isso deve ser para adoçar a boca da indústria, já que a Confederação Nacional da 
Indústria (CNI) virou come e dorme da Presidência e da Casa Civil. A linha mestra, ainda 
citando a matéria da Folha (22/11/2014 - assinada por Valdo Cruz), é retomar o controle de 
gastos - de forma lenta e gradual - para retomar a economia de gastos (visando o superávit 
primário!) e, segundo o Planalto, evitar a recessão no país.

A manobra é simples. Diante de um emparedamento no front político (institucional), diante 
do castelo de cartas a ruir com os efeitos prolongados da CPI da Petrobrás - e o andamento 
da Operação Lava Jato - a meta seria ampliar as concessões. Tal análise é compartida no 
artigo de Carta Capital, assinado por André Barrocal (datada de 21/11/2014), e é (seria) a 
síntese do Bismarckismo em sua nova fase. Aumentam as concessões públicas - destravando a 
infra-estrutura em setores-chave - como em ferrovias, portos e mais aeroportos, o Estado 
entra com fundos garantidores e o crescimento tem como protagonista o setor privado. Isto 
é, caso a Polícia Federal (PF) não entre em ação novamente e danifique a imagem e a 
possibilidade de protagonismo dos setores envolvidos com a alienação de patrimônio 
mediante contrato (concessões).

Com a sinceridade política e analítica que é característica deste que escreve, fica o 
questionamento clássico. Quem está tomando estas decisões? Ou, sendo ainda mais direto, a 
quem a presidente reeleita escuta já que nem Aloizio Mercadante - seu grão vizir anunciado 
- estaria a favor destas indicações? Logo, o conceito de fundo é a questão clássica da 
politologia contemporânea: - Quem governa? Será que a presidente só ouve os "conselhos", 
ou levam em conta as indicações do ex-presidente que, segundo o próprio, nunca foi de 
esquerda.

Ainda que não queira mesclar a posição normativa com um tom panfletário, vejo estas 
decisões como mais do mesmo, a já costumeira posição do PT no governo de fazer campanha 
por esquerda e governar por direita. Concordando com eleitores de ambos os lados - a quem 
este que escreve vem escutando regularmente - tal fato caracteriza estelionato eleitoral.

http://www.anarkismo.net/article/27655


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