(pt) União Popular Anarquista - UNIPA - Ciclos de greves no DF: para novos tempos, necessitamos novos rumos (en)

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Segunda-Feira, 11 de Agosto de 2014 - 10:42:52 CEST


As mais importantes greves ocorridas no Distrito Federal (DF) no primeiro semestre de 
2014, na CAESB e no Metrô, demonstraram duas faces marcantes da realidade brasileira: 1º 
Os trabalhadores se mobilizaram em diversas categorias em nosso país, ainda que ocultadas 
e combatidas pela mídia, contra a maré da repressão e da ideologia de colaboração social, 
indo à luta pelos seus direitos; e 2º Puseram às claras a camisa de força que aprisiona o 
sindicalismo e a organização dos trabalhadores hoje no Brasil e particularmente em 
Brasília. ---- Tal análise se revela fundamental no DF por tratarem-se de categoriais e 
sindicatos independentes da CUT, ao mesmo tempo parcelas importantes da classe como a dos 
trabalhadores da CAESB (Companhia de Saneamento Ambiental do DF), empresa de economia 
mista que contrata cerca de 5 mil trabalhadores, em sua metade terceirizados e que atende 
2,59 milhões de pessoas com serviços de abastecimento de água e 2,45 milhões com serviços 
de esgotamento sanitário. O papel estratégico da Companhia ficou explícito nas 
intervenções realizadas pelo Exército em 2013 e 2014 para treinamentos "anti-distúrbio" e 
ocupação aberta, visando intimidar protestos e principalmente a greve de trabalhadores.

Já o Metrô-DF é o retrato da exclusão de nossa cidade, tendo baixa amplitude (de extensão 
e horários) e tarifas altíssimas de 3,00 reais. Possui apenas 24 estações operacionais em 
uma metrópole como o DF e movimenta cerca de 140 mil pessoas "atochadas" por dia. Apesar 
disso, atinge os objetivos dos patrões trazendo principalmente de Ceilândia e Samambaia 
nossa força de trabalho para ser explorada no Plano Piloto. O Metrô atualmente emprega 
cerca de mil trabalhadores, e possui capacidade de paralisar uma área de fluxo de trabalho 
importante no DF.

Dessa forma, neste ano de Copa do Mundo, momento no qual a classe dominante visa reeditar 
a todo custo o mito da pátria de chuteiras sob o tacão de ferro da repressão, estas 
importantes categorias foram à luta e sofreram forte peso da justiça burguesa, tendo de 
retroceder em parte seu movimento. As duas greves, tanto do Metrô como a da CAESB, foram 
duramente perseguidas pelo Governo Agnelo (PT), Empresas e o TRT que deliberou multas 
absurdas. Mas não foi apenas a ação do Estado responsável por esta situação e sim o modelo 
de sindicalismo atual e a capacidade das diretorias e do movimento dos trabalhadores de 
apontar alternativas.

A realidade nos impõe a ousadia: crise e radicalização da luta de classes

A greve dos trabalhadores da CAESB puxada pelo seu importante sindicato, o Sindágua 
(Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Purificação e Distribuição de Água e em 
Serviços de Esgotos do DF), é a expressão fiel dos novos tempos em que vivemos. Após 
muitos anos de conquistas importantes para a categoria, através da mobilização e atuação 
combativa, neste ano de 2014 o sindicato chegou a um impasse dramático com a empresa. Em 
44 dias de greve, sendo iniciada em 19/05 a partir da data base e terminada em 03/07, 
foram reivindicadas pautas importantes como a Tarifa Social da Água, combate a 
terceirização e os cargos comissionados, ganho real, entre outras. Em contra partida a 
empresa respondeu com cortes de direitos (como a redução da PPR), e o único acordo 
garantido até então é da não perseguição e continuidade das negociações. O movimento 
grevista retornou na última semana (28/07) de junho.

A greve do Metrô, iniciada e terminada antes, teve fim semelhante. Em 4 de abril os 
companheiros metroviários organizados no SindMetrô (Sindicato dos Trabalhadores em 
Empresas de Transportes Metroviários) decretaram greve por tempo indeterminado para 
abertura das negociações da sua data-base, com uma série de reivindicações como: a) 
Correção das distorções salariais do Plano de Carreira; b) Redução de jornada para 6 
horas; c) Reajuste salarial 10%; entre outras. O movimento sofreu duas intervenções do TRT 
da 10ª região, uma no dia 10 de abril e outra no dia 2 de maio, que decretou nesta última 
o encerramento da greve, que de fato ocorreu no dia 03/05, sob pena de uma multa de 20 mil 
reais por dia. O movimento infelizmente não saiu do lugar obtendo apenas o que a empresa 
já havia oferecido antes: a) reajuste de 6,5%; b) previdência complementar em 2015; tendo 
de compensar metade dos dias da greve.

Frente a este quadro, não cabe afirmar simplesmente que existe uma crise de direção, 
acusar as diretorias dos sindicatos em questão é um erro, pois sabemos que o problema é 
muito mais complexo. O Brasil está dando os últimos suspiros de esgotamento de seu ciclo 
de expansão, entrando a beira de uma recessão econômica. Esta realidade somada as Jornadas 
de Junho e seus impactos no movimento sindical radicalizaram o conflito de classe no 
Brasil, trazendo como principal estratégia da Burguesia o endurecimento do patronato, 
perseguição nos locais de trabalho e estudo e repressão policial. Dessa forma além da 
agressão policial e de seguranças privados ocorridas nas duas greves, a CAESB ainda 
apresenta um plano de corte de direitos como congelamento e limitação dos anuênios e da 
gratificação.

O discurso governista e a Copa do Mundo foram desgastados de forma incontornável pelas 
Jornadas de Junho, ao menos para uma parcela considerável de trabalhadores. E agora o 
governo Dilma/Agnelo já não pode contar com uma situação econômica favorável para a 
cooptação de liderança sindicais e o beneficiamento de parcelas integradas de 
trabalhadores, ainda que possa remunerar os banqueiros e as empresas muito bem. Isso não 
significa que as burocracias petista e sindical estejam derrotadas, mas estão em crise com 
suas bases e quanto mais alto se encastelam maior será sua queda. Dessa forma, quando as 
vendas começam a cair dos olhos do trabalhador brasileiro e a inflação aperta sem retorno, 
frente a revolta popular vemos o aprofundamento do verdadeiro legado da Copa: o Estado de 
Exceção.

Tendo isso em vista o problema não é apenas da greve do sindágua ou da greve do metrô, mas 
sim da reorganização da classe trabalhadora frente ao cenário político e econômico. Apesar 
disso, devemos compreender como atuam os sujeitos e como estes constituem as forças 
coletivas de classe, elemento fundamental da realidade, fortalecendo ou enfraquecendo um 
determinado projeto. O atual modelo de sindicalismo brasileiro seguido a risca beneficia 
claramente a tendência conservadora ou social-democrata de sindicalismo, que em todo mundo 
vem levando as massas populares a derrotas e retrocessos em seus direitos. Dessa forma a 
ação das diretorias sindicais nestas e nas futuras greves deve ser analisada na sua 
capacidade de romper com este modelo e a construção de uma alternativa.

Sindicalismo de Estado x Sindicalismo Revolucionário


Polícia reprime piquete de trabalhares da CAESB (junho de 2014)

Atualmente a principal e a verdadeira contradição que se desenvolve no movimento de massas 
brasileiro é entre o projeto do sindicalismo de estado e o projeto do sindicalismo 
revolucionário. O primeiro é um velho conhecido dos trabalhadores brasileiros expressos 
nos artifícios legais: unicidade, investidura e carta sindical, marcados pelo clientelismo 
e a promiscuidade eleitoreira. Este modelo, majoritário no Brasil, representa a tendência 
conservadora do sindicalismo a qual enxerga o Estado como seu tutor. Já o sindicalismo 
revolucionário, expressão histórica da vertente independente da classe trabalhadora, é 
apenas um germe em nosso país, calcado em um modelo de confederação livre em oposição ao 
Estado, seu projeto germina nas greves e manifestações de rua radicalizadas desde Jirau a 
greve dos docentes e garis no rio de janeiro.

E por que esta é a principal contradição? Pois este é um projeto e ao mesmo tempo uma 
necessidade. Os conflitos entre as direções e as bases nas greves de norte a sul do país 
explicitam a crise do sindicalismo de estado, que dentro de seu limitado arcabouço 
legalista vem afundando os trabalhadores em seguidas derrotas. Dessa forma, com a crise 
econômica e a perseguição política, estas possibilidades serão ainda mais apertadas, com 
maior arrocho e ataque sobre os direitos do povo. Ou seja, para vencer, se faz cada vez 
mais necessário romper com o jogo de cartas marcadas do legalismo.

Neste sentido o que nos mostrou a greve dos garis? Que um movimento de oposição pode 
solapar não apenas diretoria sindical, mas os patrões e o governo. E dessa forma um 
movimento independente, posto na ilegalidade, conquistou 40% de aumento, dentre outros 
benefícios. A greve dos professores do Rio de Janeiro ao se unificar com o black bloc, 
tomou proporções de massa, com a ocupação da assembleia legislativa e grande repercussão 
na sociedade, ao contrário do suposto isolamento profetizado ridiculamente pelo PSTU e PSOL.

Isso apenas nos mostra que o sindicalismo vai muito além de eleições sindicais e campanhas 
salariais comportadas e greves coorporativas por empresas. Este na verdade é um modelo, 
que tem como centro a tutela do Estado. E todas as propostas que tem como centro de sua 
organização nacional a tomada dos aparatos oficiais e legais do sindicalismo como 
"condição fundamental para a representação da classe trabalhadora", não representam uma 
alternativa a esse modelo. CSP-Conlutas? Não representa, pois apoiam o controle e o 
cadastramento das centrais sindicais no Ministério do Trabalho. Intersindical? Não 
representa, pois não tem independência frente a CUT, compondo uma série de direções e 
chapas com esta, repete os métodos de tomada dos aparelhos oficiais como principal política.

As forças da esquerda reformista não capitalizaram o Levante Popular de 2013, apenas 
marginalmente, muito frequentemente se colocaram contra a radicalização deste, pelo fato 
do levante questionar a sua própria estrutura burocrática e por sua errônea compreensão 
teórica sobre uma classe trabalhadora "ideal" (a parcela formalizada) e seus métodos 
"ideais" (legalistas). Não vendo assim na revolta dos marginalizados, nas explosões nas 
periferias e favelas, que se transferiram para os locais de trabalho, a autentica revolta 
proletária, ainda sem forma definida, mas com poderoso potencial transformador.

Frente a isso cabe aos trabalhadores e aos revolucionários, aprofundar com inteligência, 
as jornadas de junho e o fosso de classe, preparando uma contraofensiva que avance na 
conquista de direitos e melhorias reais para a classe trabalhadora e a periferia, e isso 
só poderá ser feito pela construção de uma alternativa sindicalista revolucionária em 
nosso país, com centralidade num movimento de oposições sindicais, populares e estudantis, 
mas atuando também dentro dos sindicatos legais e suas diretorias através de um grupo 
coeso e uma política clara: minar por dentro e por fora esta estrutura, colocar a serviço 
da classe o que for necessário e fortalecer o movimento independente dos trabalhadores.

A construção da força coletiva dos trabalhadores no DF


Ocupação da Reitoria da UnB (Junho de 2014)

Assim como no resto no Brasil tivemos um arrefecimento e diminuição quantitativa das 
manifestações de rua e o incremento da radicalização nos locais de trabalho e estudo. No 
DF infelizmente o arrefecimento das lutas de rua foi brutal, na proporção inversa ao 
aumento da repressão. Tivemos em contrapartida lutas nos locais de estudo e trabalho as 
quais merecem nossa atenção.


Além das greves, tivemos importante mobilização na Universidade de Brasília, que a partir 
de uma ocupação de reitoria polarizou a opinião pública em todo o DF a respeito das 
perseguições políticas a mando do Reitor Ivan Camargo. É importante salientar que o 
movimento polarizou organizativamente com a estrutura oficial do DCE, chamando assembleias 
representativas e construindo um comando independente, que se sobrepuseram neste período 
de luta à direção liberal do DCE e a esquerda reformista, que saíram juntos em defesa dos 
espaços "oficialmente constituídos" esvaziados e abandonando a ocupação. A principal pauta 
do movimento "fim das sindicâncias e perseguições", foi paralisada, mas não derrotada, 
pois a luta segue. Ainda assim, este foi o primeiro movimento a realizar um enfrentamento 
de peso à política autoritária e neoliberal da atual reitoria, que desde o final de 2012 
vêm administrando com mão de ferro a universidade, e oferecer uma alternativa de luta para 
os estudantes.

Hoje no DF enfrentamos diversas barreiras a começar pelo Governo Agnelo/PT, eleito pelas 
empreiteiras (entre elas as do Setor Noroeste) e a burocracia sindical e das associações 
de bairro. Este governo como aponta o Sindágua segue a política semelhante de Cristóvam 
Burque, que nos anos de seus governo de 1995 a 1998 na época no PT, já dava continuidade a 
política neoliberal de corte de direitos (como o fim da licença prêmio e avanço da 
terceirização) na CAESB, além da histórica repressão aos trabalhadores pobres da ocupação 
Estrutural. Além dos governos de turno, temos os impasses estruturais que dividem as 
categorias do Metrô e da CAESB na base. A unicidade sindical defendida como "unidade" por 
alguns setores da esquerda reformista representa na verdade a divisão dos trabalhadores 
imposta por lei, na qual no mesmo local de trabalho se organizam separadamente em 
diferentes sindicatos, o dos terceirizados, o dos metalúrgicos, o dos efetivos, como é o 
caso do Metrô.

Dessa forma as ações de unidade com os terceirizados que realizou o Sindágua são 
fundamentais e se tornam cada dia mais necessárias para a vitória das greves. E mais do 
isso é primordial ter um projeto que aponte para essa unificação em um plano macro, numa 
Central de Classe, e no plano micro no local de trabalho, com a ação das oposições por 
ramo ou extrapolação da estrutura oficial pelas diretorias e mudança de seus estatutos e 
práticas sindicais. Práticas essas que devem fomentar o ensaio de espaços independentes, 
comandos e frentes autônomas de trabalhadores e estudantes. Fomentar a unidade em 
contraposição as imposições legais entre os urbanitários ou trabalhadores do transporte do 
DF. Ampliar as pautas coletivistas que extrapolem o aumento salarial, construindo canais 
de articulação com os movimentos combativos, para que as greves coorporativas se 
transformem em greves de massa.

Hoje o embrião desta proposta alternativa e do sindicalismo revolucionário é o Fórum de 
Oposição pela Base (FOB), articulado nacionalmente a partir do I Encontro Nacional de 
Oposições Populares, Estudantis e Sindicais (ENOPES) realizado em Novembro de 2013. 
Continuar com as práticas e a indecisão atual é fortalecer a tendência conservadora do 
sindicalismo, quer queira quer não, é continuar refém dos TRT's e dos ataques das empresas 
aos trabalhadores. Por isso, hoje mais do que nunca se faz necessário construir novos 
rumos, para os novos tempos, arriscar romper com as velhas estruturas e burocracias do 
Estado e do Capital, só assim venceremos!

Ousar Lutar, Ousar Vencer!
Todo apoio a justa greve dos trabalhadores da CAESB!
Construir desde baixo o sindicalismo revolucionário!


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