(pt) UNIPA, VIA combative #3 - Anarquismo e Questão Agrária

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Quinta-Feira, 17 de Abril de 2014 - 11:49:47 CEST


Odebate sobre.a questão agrária teve um lugardecisivo na história do O socialismo e das 
revoluções No campo do marxismo, este debate teve suas posições derivadas da posição de 
Marx, Engels, Kaustki e Bernstein na social-democracia e depois sendo reformulada por 
Lenin e Mao-Tse-Tung. Além dessas posições, um setor "nacionalista" e republicano também 
teorizou a questão agrária e o lugar dos camponeses na revolução (do qual o modelo foi o 
"populismo russo"). Seja para o marxismo, seja para o republicanismo nacionalistaburguês, 
o campesinato sempre teve um lugar "instrumental" na política, como veremos. --- Pouco se 
conhece sobre a contribuição decisiva do anarquismo e das teses coletivistas para a 
formação dos movimentos sociais camponeses e a luta dos trabalha dores rurais. E ao 
contrário do nacionalismo e da social-democracia, para o anarquismo o campesinato
e os trabalhadores rurais cumprem
um papel fundamental na revolução
não somente como força de apoio,
mas como sujeitos construtivos.
Essa diferença na forma de en-
tender a questão agrária e o lugar
do campesinato na política revo-
lucionária é um dos principais ele-
mentos a marcar a diferença entre
bakuninismo e marxismo e entre a
teoria anarquista da revolução e as
concepções comunista e burguesa.


1 - Marx e Bakunin: o camponês
como modo de produção arcaico
X o trabalhador exploradoAs diferenças sobre o lugar
do campesinato e a questão agrária
estão ligadas a todas as principais
diferenças da teoria de Proudhon e
Bakunin, para quem o campesina-
to constitui parte da classe traba-
lhadora, e Engels e Marx, para os
quais o campesinato ou é parte de
um modo de produção arcaico ou,
quando unidade de produção mo-
derna (caso Francês), uma "classe
pequeno burguesa".

  A posição de Marx e Engels se
forma por uma dupla base. De um
lado, sua concepção de evolução
histórica em que a "comunidade
primitiva" era uma unidade social
indivisa. Essa comunidade primiti-
va se baseava no trabalho agríco-
la. O trabalho "simples" agrícola é
rompido pelo desenvolvimento das
forças produtivas. Esse desenvolvi-
mento das forças produtivas impli-
ca em dois processos: de um lado,
economicamente implica a divisão
do trabalho e aperfeiçoamento das
forcas produtivas, por outro lado a
individualização.

Dessa maneira, Marx e Engels
entendem que a comuna primitiva
passa por uma evolução e o cam-
pesinato quando retirado da condi-
ção de atraso econômico é levado a
uma posição "individualista", resul-
tante da sua relação com a proprie-
dade "parcelar" (individual) da ter-
ra. O camponês na visão de Marx
teria assim uma propensão inata,
determinada economicamente, ao
conservadorismo político. É impor-
tante observar que esse juízo de
Marx não deriva de uma análise de
conjuntura. Na realidade ele leva
para a análise da história da revo-
lução de 1848, mas está amparada
na sua concepção global:

"Os pequenos camponeses
constituem uma imensa massa,
cujos membros vivem em con-
dições semelhantes, mas sem
estabelecerem relações multi-
formes entre si. Seu modo de
produção os isola uns dos ou-
tros, em vez de criar entre eles
um intercâmbio mútuo. Esse
isolamento é agravado pelo mau
sistema de comunicações exis-
tente na França e pela pobreza
dos camponeses. Seu campo de
produção, a pequena proprieda-
de, não permite qualquer divi-
são do trabalho para o cultivo,
nenhuma aplicação de métodos
científicos e, portanto, nenhu-
ma diversidade de desenvolvi-
mento, nenhuma variedade de
talento, nenhuma riqueza de re-
lações sociais. Cada família cam-
ponesa é quase autossuficiente;
ela própria produz inteiramente
a maior parte do que consome,
adquirindo assim os meios de
subsistência mais através de
trocas com a natureza do que do
intercâmbio com a sociedade.
Uma pequena propriedade, um
camponês e sua família; ao lado
deles outra pequena proprieda-
de, outro camponês e outra fa-
mília". (Marx, 1984[1852).

A síntese da visão marxis-
ta está na ideia de que o capita-
lismo tende, por estar fundado na
propriedade privada dos meios de
produção: 1) a concentração de
capitais; 2) a separação e divi-
são da sociedade em duas classes,
de capitalistas e proletários. Marx
também aponta que a economia
política toma a propriedade priva-
da como fato e estabelece as leis
supondo este fato como dado, não
explicando as leis da propriedade
privada. Podemos ver isso abaixo:

"Aceitamos como premissas a
propriedade privada, a separa-
ção do trabalho, capital e terra,
assim como também de salá-
rios, lucro e arrendamento, a
divisão do trabalho, a competi-
ção, o conceito de valor de tro-
ca, etc. Com a própria economia
política, usando suas próprias
palavras, demonstramos que o
trabalhador afunda até um nível
de mercadoria, e uma mercado-
ria das mais deploráveis; que a
miséria do trabalhador aumenta
com o poder e o volume de sua
produção; que o resultado for-
çoso da competição é o acumulo
de capital em poucas mãos, e
assim uma restauração do mo-
nopólio da forma mais terrível;
e, por fim, que a distinção en-
tre capitalista e proprietário de
terras, e entre trabalhador agrí-
cola e operário, tem de desapa-
recer, dividindo-se o conjunto
da sociedade em duas classes
de possuidores de propriedades
e trabalhadores sem proprieda-
des". (Manuscritos Econômicos
e Filosóficos)

Marx define a economia po-
lítica como a ciência da proprieda-
de dos processos de acumulação.
Logo, o foco é como o trabalho é
subordinado à propriedade ao ca-
pital e é alienado. Por isso o cam-
ponês ocupa um lugar no sistema
teórico do marxismo difícil de ser
modificado. O trabalho do campo-
nês com a inevitável evolução do
capitalismo, não sendo igual ao da
comuna primitiva, não tem a "van-
tagem social" de ser "comunitário",
mas tem a desvantagem técni-
ca de ser "agrícola" e "atrasado".
Assim, o campesinato surge como
parte do processo de desenvolvi-
mento da divisão do trabalho e a
emergência do capitalismo coloca
o campesinato numa condição de
arcaísmo em face do capitalismo,
de isolamento e submetido à pres-
são do desaparecimento em razão
da lei de concentração de capital.
Marx chega à ideia de que o cam-
ponês por ter uma relação jurídi-
ca de propriedade, esta determina
sua relação de produção e logo sua
condição de classe burguesa ou
pequeno-burguesa e sua tendência
individualista.

Proudhon e Bakunin definem
a economia política como a ciência
do trabalho. Ou seja, como o traba-
lho é fonte de liberação do homem
frente à natureza e a exploração.
Proudhon e Bakunin, ao considera-
rem que o fato do camponês traba-
lhar a terra e ser explorado (mesmo
quando detentores de algum título
de propriedade ou explorarem a
terra individualmente), são traba-
lhadores por terem no trabalho o
centro da sua existência material e
manterem uma relação de antago-
nismo com os exploradores.

Na concepção anarquista de
Proudhon e Bakunin não existe nem
a visão do determinismo econômi-
co, nem a ideia de que a comuni-
dade primitiva indivisa era um mo-
delo de "coletivismo". Nessa visão,
não são as forças produtivas que
determinam sozinhas a evolução
da sociedade. O trabalho e a luta
pela existência guardam um papel
fundamental na evolução histórica
e por isso não se pode conceber
uma história que é determinada
exclusivamente pelo econômico e
pelas forças produtivas. O Trabalho
é sujeito da transformação e nesse
sentido o capital (acúmulo técnico)
não determina somente a transfor-
mação da "comuna primitiva em
formas camponesas e industriais
de exploração". Ao mesmo tempo
em que se reconhece a tendência
do capital a concentração e cen-
tralização, não se atribui a isso um
papel necessário e nem se assu-
me que é dever das organizações
apoiar esse desenvolvimento do
capitalismo (no marxismo o capita-
lismo é algo desejado e defendido
pois seria uma forma mais avança-
da de socialização e produção que
as formas arcaicas de propriedade
feudal e camponesa).

É nesse sentido que Bakunin
irá afirmar também que os campo-
neses não podem ser considera-
dos como uma pequena burguesia,
porque na realidade o determinan-
te da sua condição socioeconômica
é o trabalho. Isso irá se expressar
na sua visão da revolução mundial
e como a aliança operário-cam-
ponesa seria o núcleo de toda sua
teoria da revolução (Sociedade Se-
creta Internacional).

2 - O "Mir" russo: anarquistas e
comunistas ante a reforma e revo-
lução no campo

O grande debate teórico que
lançaria as bases da questão agrá-
ria se daria dentro da AIT (Asso-
ciação Internacional dos Trabalha-
dores), especialmente no período
1872-1873, quando uma década
depois da abolição da servidão na
Rússia existia uma discussão nos
meios intelectuais russos sobre os
destinos econômicos e sociais do
país. Os intelectuais radicais, a ju-
ventude e parte dos militares eram
influenciados pelas ideias do Oci-
dente, tanto os ideais liberais fran-
ceses, quando a filosofia alemã e
também pelo socialismo.

Devemos observar que o mo-
vimento revolucionário russo se
aproximava da AIT já depois da
cisão do congresso de Haia e do
congresso de Saint-Imier, de forma
que duas posições teóricas e polí-
ticas completamente distintas se
ofereciam. O republicanismo e o li-
beralismo russo passariam a dividir
espaço com as interpretações do
marxismo e do bakuninismo.

E exatamente no debate
sobre o destino do Mir russo que
Bakunin e Marx delinearam suas
posições de forma clara e categóri-
ca sobre a questão agrária e lugar
do campesinato na revolução. Ve-
jamos como isso se coloca.

"De que maneira as pessoas ho-
nestas podem modificar a vida
material do povo? Elas não têm
de forma alguma o poder, e o
Estado, como tentaremos de-
monstrá-lo mais à frente, é in-
capaz de melhorar a condição
material do povo; a única coisa
que o Estado pode fazer em seu
favor é dissolver-se, desapare-
cer, visto que sua existência é
incompatível com a felicidade do
povo, felicidade que só poderá
ser criada pelo próprio povo. O
que podem fazer seus amigos?
Levá-lo a um movimento e a
uma ação autónomos, antes
de mais nada - afinal preci-
samente os defensores de boa
fé da tendência da qual acaba-
mos de falar -, indicar-lhe as
vias e os meios que o conduzi-
rão à emancipação.

"Vias e meios podem ser de
dois tipos: uns, puramente re-
volucionários e visando direto
aorganização de uma insurrei-
ção geral do povo; outros, mais
pacíficos, abordando sua eman-
cipação por uma transformação
de forma sistemática e lenta,
mas ao mesmo tempo radical,
de suas condições de existên-
cia.
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Marcha Nacional contra o ACE - Acordo Coletivo Especial, Brasília/DF, 24 de Abril de 2013. 
Diversas entidades sindicais, do campo e da cidade, se fizeram presentes. A União Popular 
Anarquista - UNIPA, em mais uma oportunidade, pautou a defesa da "Aliança 
Operário-Camponesa" como elemento da Revolução Socialista conforme a teoria bakuninista.
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"Ora, o que podem fazer as pes-
soas honestas para levar nosso
povo ao caminho de uma lenta
mas radical transformação de
suas condições materiais? Criar
cátedras de sociologia no cam-
po? Em primeiro lugar, o go-
verno vigilante e paternal não o
tolerará; em segundo, os cam-
poneses, infelizmente, não com-
preenderão em absoluto nada e
trocarão dos professores. (...)
Esta ação não pode ser outra coi-
sa senão a formação de associa-
ções artesanais e de sociedades
cooperativas de empréstimos,
consumo e produção, sobretudo
estas últimas, mais diretamente
do que as outras indo no senti-
do do objetivo: a emancipação
do Trabalho da dominação do
Capital". (Bakunin, Estatismo e
Anarquia)

Desta maneira Bakunin es-
tava colocando duas respostas si-
multâneas para a pergunta, que
fazer?, que a juventude russa es-
tava se colocando. Dessa maneira,
ele questionava tanto a política li-
beral e individualista que queria
melhorar a vida do povo através da
"popança", quanto o salvacionismo
pela educação. E aqui é o elemento
fundamental. Logo, tratava-se de
levar outro tipo de organização aos
camponeses, que possibilitasse sua
ação autônoma e permitisse a sua
entrada num processo de antago-
nismo com o Estado e o capital.

  O debate de Marx e Bakunin
explicita já como o marxismo foi
recebido com profundas críticas na
Rússia. Nós temos o primeiro mo-
vimento sistemático de questiona-
mento a concepção de história de
Marx, que é percebida como linear
mesmo dentro de setores de oposi-
ção (democrático, socialista) e que
não contemplava as alternativas
políticas para a Rússia. No caso,
temos o questionamento de Vera
Zasulitch e a resposta de Marx que
aponta a possibilidade de um de-
  senvolvimento não-capitalista na
Rússia a partir da "comuna rural",
que poderia ser o elemento econô-
mico de regeneração da Rússia.

  "Recuando-se bastante encon-
tra-se por toda parte na Europa
Ocidental a propriedade comum
de um tipo mais ou menos ar-
caico e em toda parte ela desa-
pareceu com o progresso social.
  Por que somente na Rússia ela
haveria de escapar à mesma
sorte? Eu respondo: porque na
Rússia, graças a uma combina-
ção de circunstancias a comu-
na rural ainda estabelecida em
escala nacional pode desemba-
raçar-se gradualmente de seus
caracteres primitivos e desen-
volver-se diretamente como
elemento da produção coletiva
em escala nacional e justamen-
  te graças à contemporaneidade
da produção capitalista que ela
pode apropriar-se de todas as
conquistas positivas desta úl-
tima sem passar por suas pe-
ripécias terríveis. A Rússia não
é isolada do mundo moderno.
Nem é presa de um conquista-
dor estrangeiro como as Índias
Orientais". (K. MARX - )

  Ou seja, Marx considera a
  comuna e o campesinato apenas
  como forma de produção arcaica.
  Essa possibilidade se dava princi-
  palmente em razão da "simulta-
  neidade" da existência da Comuna
  com o Capitalismo no Ocidente.
  Marx, entretanto desenvolve o ar-
  gumento de que a Comuna Russa
  era distinta da Comuna Arcaica, e
  que poderia em tese se valer dos
  instrumentos do capitalismo como
  forma de seu desenvolvimento ul-
  terior. Dessa maneira, ele aponta
  que a discussão sobre a "inevitabi-
  lidade" da desintegração da Comu-
  na (ou seja, tema que se desen-
  volve muito antes de Lenin) era na
  realidade sem fundamento (no seu
posicionamento oficial, ele simples-
  mente não afirma categoricamente
  nem uma via nem outra), mas teo-
  ricamente, coloca a caracterização
  do "dualismo da comuna russa"
  (propriedade coletiva e individual)
  que poderia assim se engendrar
  duas formas distintas de evolução
  (mas ainda assim, os critérios são
  a incorporação da técnica capitalis-
  ta e a intensificação da socialização
  entendida como a propriedade "co-
  letiva") .

Esse debate de Marx apon-
  tava então para a singularidade da
  "Rússia". No plano da política so-
cial-democrata, considerava-se que
  o campesinato estava em vias de
  desaparecimento ou como elemen-
  to hostil ao movimento operário. E
  na Rússia seria preciso modernizar
  a comuna arcaica e incentivar atra-
  vés do Estado a dimensão coletiva,
  isto é, comunista, da comuna rural.

Bakunin desenvolve uma aná-
  lise distinta. Ele parte da discussão
  da ideia de existência de um ideal
  popular - uma aspiração formada
  pelas experiências históricas ante-
  riores do povo russo que fazia com
  que ele tivesse alguns elementos
  fundamentais componentes desse
  ideal: a ideia de que a terra per-
  tencia ao povo coletivamente; a
  antipatia ao Estado; a autonomia
  da comuna. Vejamos:

  "Este ideal existe na concepção
  do povo russo? Existe, não há
  dúvida, e sequer há necessidade
  de analisar com profundidade a
  consciência histórica de nosso
  povo para definir seus aspec-
  tos fundamentais. O primeiro e
  o principal destes aspectos é a
  convicção, partilhada por todo o
  povo, de que a terra, esta ter-
  ra regada de suor e fecundada
  com seu trabalho, pertence-lhe
  de modo integral. O segundo,
  não menos importante, é ain-
  da a convicção de que o direito
  fruição do solo pertence, não ao
  indivíduo, mas a toda a comuni-
  dade rural, ao Mir, que reparte a
  terra, o título temporário, entre
  os membros da comunidade. O
  terceiro destes aspectos, de im-
  portância igual à dos dois prece-
  dentes, é a autonomia quase
  absoluta, ao mesmo tempo
  que a gestão comunitária do
  Mir e, em consequência, a hos-
  tilidade manifesta deste último
  para com o Estado". (Bakunin,
  Estatismo e Anarquia)

  Ele mostra que a "evolução
  econômica" cooperativa da Comu-
  na Rural Russa seria um fator de
  estratificação e que alternativa
  para o campesinato seria a luta e
  a revolta contra o Estado. Ele iden-
  tifica além do "ideal popular" (ele-
  mentos de um projeto específico),

  elementos também que obstruíam
  que a Comuna Rural e o campesi-
  nato tivesse um papel revolucioná-
  rio (essa é uma discussão que Marx
  não aborda, ele só visualiza a fun-
  ção econômica da comuna, não o
  papel político do campesinato).
  "Entretanto, o ideal do povo
  russo é obscurecido por outros
  três aspectos, que desnaturam
  seu caráter e complicam ao ex-
  tremo, retardando-a, sua reali-
  zação; aspectos, que devemos,
  por conseguinte, combater
  com toda nossa energia, e
  que são bem possíveis de
  combater, visto que o próprio
  povo já se engajou no comba-
  te. Estes três aspectos são: 1)
  o estado patriarcal; 2) a absor-
  ção do indivíduo pelo Mir; 3) a
  confiança no Czar. Poder-se-ia
  acrescentar, como quarto as-
  pecto característico, a religião
  cristã, quer esta diga respeito
  à Igreja Ortodoxa Oficial ou a
  uma seita; mas, de acordo com
  nossa opinião, na Rússia, esta
questão está longe de assumir
  a mesma importância que nos
  países católicos, e mesmo nos
  países protestantes da Europa
  Ocidental" (Bakunin, Estatismo
  e Anarquia)

  Ai ele identifica três elemen-
  tos também: 1) o caráter patriar-
  cal; 2) a absorção do individuo peloMIR;3) aadoração do Czar. Dessa
  maneira ele fala que a fragmenta-
  ção da COMUNA era produzida pelo
  Estado e essa era uma das princi-
pais forças a desvirtuar a ação do
campesinato. A cisão era represen-
tada pelos "salteadores campone-
ses" - ou seja, pelos camponeses
que partiam para ações ilegais con-
tra o sistema. Assim, Bakunin ob-
serva que não seria possível uma
evolução "cooperativa" do Mir, mas
sim que esse - rompendo com as
características patriarcais, a frag-
mentação e a subordinação ao
  Estado - e com os privilégios eco-
  nômicos que já começavam a se
  manifestar em camponeses ricos
  - poderia ser a base de um mo-
  vimento revolucionário integrado,
  ao qual o proletariado "intelectual"
  - intelligentsia - deveria se inte-
  grar. Assim, o sujeito fundamental
  do processo era o povo, partindo
  de condições materiais. Assim te-
  mos duas visões completamente
  distintas que irão se manifestar no
  desenvolvimento do processo revo-
  lucionário russo.

  Marx entende que o campo-
  nês e o Mir só seria uma relação
  de produção que poderia, através
  da introdução da modernização ca-
  pitalista, ser preservada pela re-
  volução. Bakunin entende que o
  camponês russo seria o sujeito da
  revolução, e observa as tensões
  dialéticas (sociais e econômicas)
  que poderiam realizar ou impedir
  sua constituição como ator socio-
  político.

  O debate entre Marx e Baku-
nin marcam, então, as distintas po-
  sições ante reforma e revolução no
  campo, caracterizado pelas formas
  como foram recebidas as duas po-
  sições. Marx, e a social-democra-
  cia, entendia que a existência do
  o campesinato, em geral, estaria
  caminhando para desparecer ou
  como um fator hostil ao movimen-
  to operário, e particularmente na
  Rússia seria preciso modernizar a
  comuna arcaica e por via do Estado
  estimular a dimensão coletiva da
  comuna rural. Bakunin delineia um
plano de ação para o campesina-
to, que deveria partir do incentivo
à sua organização e associação de
resistência e culminar com a rup-
tura com o patriarcalismo, o mito
do chefe e a anulação da ação in-
  dividual.

  3 - Coletivização X estatização
e mercantilização da terra: a polí-
tica anarquista e os camponeses
hoje

Essas posições desenvol-
  vidas dentro da AIT seriam ainda
  objeto da polarização entre o sin-
  dicalismo revolucionário e a social-
  democracia entre 1890 e 1920. De
  maneira geral as posições da so-
  cial-democracia seriam defendidas
  por Engels e Kaustki.

  "Nesse congresso [1894] se re-
  petiu a tese da proletarização
  necessária do camponês. Ao
  mesmo tempo, o partido assu-
  miu a defesa dos camponeses
  enquanto contribuintes. Engels
  (...) Distingue claramente o pe-
  queno camponês do médio e do
  grande, expressando a opinião
  de que lhe parecia quase uma
  traição se o partido prometesse
  as duas últimas categorias a ma-
  nutenção estável da Indepen-
  dência econômica: também elas
  devem sucumbir em consequ-
ência da formação da proprie-
  dade capitalista e da produção
mais competitiva de capitais. O
partido não deve, pois, apoiar-
se nestes estratos mas sim nos
trabalhadores assalariados. (...)
Na formação do ponto de vista
marxista sobre a questão agrá-
ria, um papel não negligencíá-
vel coube ao Congresso da Se-
gunda Internacional realizado
em 1896, que entrou na histó-
ria como o congresso da ruptura
total com o anarquismo (...).

  A política da social-democra-
cia internacional dessa maneira in-
corporou os camponeses de duas
formas: como objetos necessários
de uma política de proletarização,
e nesse sentido, se celebrava e in-
centivava a destruição da proprie-
dade camponesa. Por outro lado,
uma política mais pragmática de-
rivada de vários países da Europa,
que consideravam a necessidade
do apoio eleitoral do campesinato
e que levavam a tese da "difusão
da tecnologia" para a pequena pro-
  priedade e sua capitalização.
Logo, a política social-de-
mocrata ortodoxa e hegemônica
não tinha uma política para a luta
camponesa. Eles tinham uma po-
lítica econômica e eleitoral para o
campesinato. A política econômica
favorecia a integração no merca-
do capitalista através do incentivo
ao desenvolvimento tecnológico. O
cooperativismo deveria corrigir os
"desvios individualistas" inerentes
do camponês.

A contraposição desta posi-
ção feita pelo sindicalismo revo-
lucionário internacional se baseou
nas posições bakuninistas e coleti-
vistas da antiga Federação do Jura,
que tem sua política delineada num
texto importante de James Guillau-
me intitulado "Ideias sobre Orga-
nização Social", além de textos do
próprio Bakunin sobre a situação e
guerra na França.

  Essas posições estão ampa-
radas na análise de Bakunin sobre
a França e sobre a Rússia. Bakunin
no livro "O Império Knuto-Germâ-
nico e a Revolução Social" afirma
que "os camponeses, ao menos a
imensa maioria dos camponeses,
não esqueçamos nunca, ainda que
como na França convertidos em
proprietária seguem vivendo do
trabalho de seus braços". Ou seja,
para Bakunin, a reforma agrária e
a propriedade parcelar não mudou
a relação e condição de trabalho.
E no mesmo livro afirma "denomi-
no, pois, burguês a todo que não é
trabalhador das fábricas, das ter-
ras, e povo toda a massa de operá-
rios propriamente ditos, o mesmo
que aos camponeses que cultivam
com seus braços seja a sua própria
terra, seja de outro". Logo, para
Bakunin a condição de classe do
camponês não muda pelo fato de
ser proprietário parcelar de peque-
nas extensões, e que explore a ter-
ra por seu trabalho.

Isso permitiu que Bakunin
firmasse duas políticas fundamen-
tais: 1) a distribuição das terras
para quem nela trabalha; 2) a li-
bertação das obrigações de paga-
mento de tributos e trabalho aos
proprietários rurais. Assim, existia
uma política para a luta dos cam-
poneses, que foi sintetizada na pa-
lavra de ordem "Terra e Liberdade"
  James Guillaume formula,
entretanto, o que seria a política
anarquista para a questão agrária e
que iria influenciar a formação dos
movimentos em países como Mé-
xico, Rússia, Argentina e Espanha.

Esse texto apresenta as posições
  bakuninistas-coletivistas sobre a
  terra e questão agrária e seu lugar
  na teoria da revolução. Temos aqui
  também a junção da teoria bakuni-
  nista com um programa coletivista
  que se contrapunha a teoria mar-
  xista ao programa comunista de
  estatização.

  "O caráter da revolução precisa
  ser, a principio, destrutivo. Ao
  invés de modificar certas insti-
  tuições do passado, ou adaptá-
  las a nova ordem, ele vai acabar
  com elas totalmente. Por essa
  razão, o governo será extirpado,
  junto com a Igre-
  ja, o Exército, os
  tribunais, as esco-
  las, os bancos e
  suas instituições
  subservientes. Ao
  mesmo tempo a
revolução tem um
  objetivo positivo,
  que os trabalha-
  dores tomem o
  controle de todo
  o capital e ferra-
  mentas da produção. Deixe-nos
  começar com os camponeses e
  os problemas relativos a terra.
  Em muitos países, particular-
  mente na França, os padres e
  a burguesia tentam ameaçar os
  camponeses contando a eles que
  a Revolução tomará suas ter-
  ras. Esta é uma mentira ultra-
  jante inventada pelos inimigos
  do povo. A Revolução tomaria
  exatamente um sentido oposto.
  Ela tomaria a terra da burgue-
  sia, dos nobres e padres e daria
  aos camponeses sem-terra. Se
  um pedaço de terra pertence a
  um camponês que o cultiva ele
  próprio, a Revolução não tocaria
  nela. Ao contrário, ela garanti-
  ria a livre posse e liquidaria os
  débitos da terra. Esta terra que
  uma vez enriqueceu o tesouro e
  foi sobrecarregada com impos-
  tos e arruinadas por hipotecas,
  como o camponês seria emanci-
  pada. Não mais taxas, não mais
  hipotecas, a terra torna-se livre,
  apenas como o homem. Como a
  terra propriedade da burguesia,
  o clero, os nobres - terra culti-
  vada até agora pelos trabalha-
  dores sem-terra para beneficio
  dos seus senhores - a revolução
  retornará esta terra roubada a
  seus proprietários por direito,
  os trabalhadores agrícolas". (Ja-
mes Guillaume, "Ideias sobre
Organização Social").

  Dessa maneira, temos aqui
a ideia de que é necessária uma
política revolucionária, de ataque
à propriedade fundiária da terra,
nobiliárquica, clerical e burguesa.
Longe de apoiar a expropriação dos
  camponeses (como previa a políti-
ca social-democrata) porque isso
favoreceria à revolução, visa-se
distribuir terra, eliminar o peso das
hipotecas e taxas (tributo e renda
pagas) e da exploração do trabalho
agrícola.
"Nós iremos considerar como
os camponeses irão derivar o
maior beneficio possível dos
seus meios de produção, a ter-
ra. Imediatamente depois da
revolução os camponeses serão
confrontados com uma situação
hibrida. Aqueles que já são pe-
quenos proprietários manterão
seus lotes de terra e continuarão
a cultivá-lo com suas famílias.
Os outros, a eles são de longe
a grande maioria, que arrenda a
terra dos grandes latifundiários
ou foram simplesmente assa-
lariados agrícolas empregados
  pelos proprietários, tomarão a
posse coletiva de vastas terras e
as trabalharão em comum. Qual
desses é o melhor sistema? Em
uma região que tem sido ocu-
pada antes da Revolução pelos
camponeses detentores de pe-
quenos sítios, onde a natureza
do solo não é desejável para cul-
tivos extensivos de larga-escala,
onde a agricultura tem sido con-
duzida da mesma maneira por
décadas, onde a maquinaria é
desconhecida ou raramente uti-
lizada - em uma tal região os
camponeses irão naturalmente
conservar a forma de proprieda-
de que eles estão acostumados.
Cada camponês continuará a
cultivar a terra como ele fazia no
  passado, com esta singular di-
  ferença; seus antigos trabalha-
  dores assalariados, se ele tinha
  algum, tornariam seus parceiros
  e compartilhara com ele os pro-
  dutos do seu trabalho comum
  extraídos da terra. (...) Por ou-
  tro lado, em operações agrícolas
  de larga escala, onde um grande
  numero de trabalhadores agríco-
  las cultivam vastas áreas, onde
  a coordenação e cooperação são
  absolutamente essenciais, tra-
  balho coletivo irá naturalmente
  conduzir a propriedade coletiva.
  Uma coletividade agrícola pode
  abarcar um comuna
  inteira (unidade au-
  tônoma regional) e,
  se economicamente
  necessário para efi-
  ciência e maior pro-
  dução, muitas comu-
  nas."

  Logo, temos
  aqui o essencial da
  política coletivista.
  A política social-de-
  mocrata promove a
  proletarização e es-
  tatização da terra, ou no máximo,
  uma política de capitalização da
  pequena agricultura que se torna
  um ramo da agricultura capitalis-
  ta. Daí as contradições do marxis-
  mo e sua frequente capitulação na
  luta dos camponeses ou mesmo
  seus ataques ao campesinato. No
  campo do marxismo seria Lenin,
  que importando teses e política do
  anarquismo e do populismo russo,
  corrigiria essa linha do marxismo.
  Mas mesmo assim sua política pós-
  revolução de 1917 retornou ao mo-
  delo social-democrata.

  O coletivismo prescreve que
  os trabalhadores tenham o controle
  coletivo sobre a terra, mesmo que
  em propriedades individuais eles
  não podem explorar o trabalho e
  logo gerar nem renda, nem lucro.
  Por outro lado a exploração coleti-
  va da terra é associada a condições
  geográficas e técnicas. O coletivis-
  mo combate à propriedade da terra
  para combater a exploração. Dessa
  forma, o coletivismo do anarquis-
  mo implica 1) o reconhecimento do
  campesinato como sujeito coletivo;
  2) a ação coletiva de luta por terra,
  liberdade e contra à exploração; 3)
  a coletivização da terra, que impli-
  ca sua distribuição aos trabalhado-
  res que podem explorar a mesma
  de forma coletiva ou individual.


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