(pt) Federação Anarquista do Rio de Janeiro - CELIP em Campos dos Goytacazes. - TEXTO DISPARADOR ANARQUISMO: UM DEBATE HISTÓRICO E,IDEOLÓGICO (en, fr) [traduccion automatica]

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Sábado, 12 de Abril de 2014 - 15:29:59 CEST


INTRODUÇÃO ---- O anarquismo está na boca de todos/as. Na boca dos que hoje o assumem como 
uma referência política, ou na fala de partidos políticos e inimigos de classe 
(burguesia), preocupados com sua popularização. Com as lutas iniciadas em junho falar em 
anarquismo é cada vez mais atual. Por isso acreditamos que esse texto pode ajudar nos 
debates. ---- O QUE O ANARQUISMO É? ---- O anarquismo vai muito além da palavra anarquia. 
Uma compreensão do anarquismo apenas pelo seu radical "anarquia" só pode apontar para uma 
negação - do governo, do Estado, da autoridade -, ou seja, para elementos "destrutivos", 
de crítica social. O anarquismo, no entanto, não possui apenas elementos destrutivos. Ele 
também possuiu elementos construtivos, objetivos e estratégias para atingi-los.

Para aprofundar a reflexão sobre os elementos do anarquismo é preciso
contextualizar seu surgimento, que está ligado às lutas populares da classe trabalhadora.
Os fatos históricos demonstram que o anarquismo surge a partir dos dilemas, das lutas e
do contexto histórico de formação da classe trabalhadora na segunda metade do século
XIX. É absurdo separar a raiz e o tronco socialista e classista do anarquismo. O
anarquismo não surgiu da cabeça de meia dúzia de pensadores (ainda que muitos
teóricos tenham dado sua contribuição) e tampouco é uma filosofia "individual", pois
ele surge de uma experiência coletiva que é muito maior que um único pensador: a
experiência da classe trabalhadora e de suas lutas. Entender o anarquismo apenas pelo
seu radical "an arquia" ou como uma revolta individual é abrir margem para
interpretações absurdas que tentam aproximar a ideologia anarquista com teses que lhe
são inconciliáveis, como o liberalismo.
O anarquismo é a ala libertária do socialismo que surgiu das discussões e
reflexões coletivas da classe trabalhadora. As divergências sobre quais seriam as
melhores estratégias para conduzir os trabalhadores a uma sociedade sem classes,
acabaram por conformar a própria tradição anarquista e definir também as diferenças
desta tradição com outros campos do socialismo, como o marxismo.
Não é coincidência que onde há anarquismo, no final do século XIX, há seções
da Associação Internacional dos Trabalhadores, e há perspectivas de formação do
sindicalismo revolucionário nos principais centros urbanos do mundo. O anarquismo
deseja superar o sistema de dominação e a estrutura de classes da nossa sociedade, que
está basicamente dividida em classes com interesses inconciliáveis: as classes
dominantes e as classes oprimidas. O conflito social entre essas classes, como o que
vimos na greve dos professores, nas lutas de junho, nas favelas e contra o aumento da
passagem caracteriza a luta de classes.
A superação do capitalismo pela revolução social está na raiz da proposta
econômica anarquista. O anarquismo como ideologia nascida das classes exploradas e
instrumento de luta destas realiza uma crítica das relações capitalistas de produção,
reprodução e distribuição das riquezas.
O anarquismo também não é sinônimo de individualismo, antiestatismo ou
antítese do marxismo. Ele constitui um tipo de socialismo caracterizado por um
conjunto preciso de princípios político-ideológicos, que inclui a oposição ao Estado,
mas que não se resume a ela. Analisar o anarquismo desse jeito é ignorar outros
elementos de suas teses - tais como a crítica a propriedade privada e a gestão coletiva
dos meios de produção. O anarquismo contém em sua essência, elementos classistas que
lhe são indissociáveis.
Já o individualismo sempre foi historicamente um fenômeno marginal no
anarquismo. Independente disso o anarquismo sempre reconheceu a importância de
conciliar o socialismo com a liberdade individual e coletiva ao invés de idolatrar chefes
e autoridades.
Os debates fundamentais dentro do anarquismo se dão em torno dos seguintes
temas: organização, lutas de curto prazo e o papel da violência. As divergências estão
nos debates estratégicos, que dão origem às diferentes correntes anarquistas. Por isso é
equivocado reproduzir a caricatura burguesa de que há "dezenas de anarquismos" ou
que há "tantos anarquismos quanto anarquistas" no mundo. Apesar das diferentes
estratégias seu tronco histórico tem princípios políticos muito bem definidos e que
demonstram a existência de uma coerência interna.
Os anarquismo que defendemos (e o que foi hegemônico na sua história) não
nega a organização e as lutas de curto prazo (saúde, educação, tarifa zero, moradia etc.)
como um caminho para se atingir a revolução. Nesse sentido para abolir o Estado,
acreditamos que é preciso cada vez mais potencializar as lutas dos movimentos
populares, sindicatos e movimentos rurais. Essa é uma luta silenciosa, que muitos não
vêem, mas ela é fundamental para a transformação social. Qualquer luta contra o
capitalismo deve partir de necessidades materiais dos trabalhadores e as lutas de curto
prazo são ferramentas privilegiadas.
Não aceitamos a ação parlamentar pois não há nenhum exemplo da história em
que a luta parlamentar trouxe qualquer tipo de mudança social relevante e todos os
partidos "radicais" que tomaram a via parlamentar viraram reformistas e apenas geriram
o capitalismo.
Não podemos ter a ilusão que nossa vitória será feita de uma só tacada. Uma luta
contra o a burguesia e o Estado envolve a busca permanente de força social em direção
ao que chamamos de poder popular. O poder popular para nós se constrói fortalecendo
cada vez mais os movimentos populares. Os atos e manifestações de rua são
fundamentais para pressionar governos, a burguesia e políticos, mas precisamos ir além
e organizar o povo em movimentos populares que tenham pautas, demandas e sejam
combativos. Não podemos também esperar uma revolução que nunca chega, devemos
desde já agir de acordo com os fins que queremos atingir. É conquistando as
necessidades populares a partir da organização, da luta, da ação direta, sempre visando à
destruição final do sistema capitalista e do Estado que criamos uma consciência de
classe radical e coletiva. Não podemos ser ingênuos esperando uma solução "pacífica".
O Estado e a burguesia nos violentam todos os dias e nunca houve uma revolução sem
resistência e violência dos/as oprimidos/as.
Bakunin muito acertadamente viu que o Estado não é "neutro" mas uma forma
específica de organização das classes dominantes (é como se o Estado fosse o coletivo
por excelência das classes dominantes). Toda vez que um partido político ou grupo de
trabalhadores tomou o Estado, ele se transformou em uma classe dominante particular.
Assim, os trabalhadores não podem utilizar o Estado como meio para atingir uma
sociedade socialista e libertária visto que fazendo isso, no máximo, o que se pode atingir
é a transformação de um restrito setor dos trabalhadores numa nova classe dominante.
Qualquer Estado implica dominação e existência de classes sociais. Portanto, para um
projeto de emancipação, os anarquistas defendem que os "fins não justificam os meios".
Somente por meios libertários e igualitários podemos caminhar a uma sociedade
socialista libertária. Não defendemos uma organização ideal, defendemos o auto-
governo dos/as trabalhadores/as. Não se trata de um sistema perfeito, mas algo que se
está construindo desde já e é criado a partir da experiência histórica e concreta da classe
trabalhadora depois de uma ruptura revolucionária.
O anarquismo sempre foi uma ferramenta de luta dos trabalhadores. Se não fosse
desse jeito, sua extensão e impacto históricos não teriam sido tão amplos: presente
desde 1868 aos dias de hoje, e com presença registrada nos cinco continentes. A
principal tarefa à qual se dedicaram os anarquistas foi a construção de sindicatos
revolucionários e a participação nesses sindicatos e movimentos populares.
Por fim, o anarquismo também não é negação da política, do poder. O
anarquismo baseia-se em análises racionais, métodos e teorias que não são idealistas
(explicações metafísicas/teológicas). Essas análises são feitas para tentarmos
compreender "onde estamos" e "onde queremos chegar". Para isso defendemos que os
anarquistas estejam organizados, no nível político, como um grupo coeso, com
discussão política e ideológica avançada, com critérios de ingresso, uma estratégia bem
definida e um estilo militante de trabalho nos movimentos, de forma que isso lhes dê
força suficiente para atuar no âmbito das lutas, dos movimentos sociais. Defendemos a
organização política não num sentido vanguardista de lutar pelos movimentos ou
trabalhadores, mas defendendo a minoria ativa que luta sempre ombro a ombro com os
movimentos e respeita o seu tempo.
Defendemos uma concepção de política e de poder (popular). O que
condenamos é um determinado tipo instituído de relação de poder, que é a dominação
(econômica, política, social), cujo pilar não é apenas o sistema de produção capitalista,
mas também o Estado, a religião institucionalizada, a educação dominante, o
imperialismo, a dominação de gênero e de raça. Para nós, a crítica a dominação de
classe possui grande relevância. Além da crítica do sistema de dominação, os
anarquismo defende um sistema de autogestão generalizada e de estratégias capazes de
promover a transformação social de um sistema para outro. O poder para os anarquistas
está na tomada das fábricas, dos bairros, dos meios de produção, das minas, das ruas e
finalmente no que os zapatistas chamam de "povo em armas", que é quando o povo num
processo de ruptura revolucionária se arma e se autodefende. A concepção de liberdade
do anarquismo sempre foi social. "Ser coletivamente livre é viver no meio de homens
livres e ser livre pela liberdade deles" afirmou Bakunin. Não é possível para os
anarquistas, portanto, ter liberdade no capitalismo enquanto o outro é escravo.
Os anarquistas têm idéias bem definidas a respeito da economia ou da sociedade.
Essas idéias foram postas em prática na Espanha e em outros processos revolucionários,
como na na Comuna de Paris, Revolução Ucraniana e Russa, Revolução Mexicana, a
Comuna da Manchúria, entre tantos. Na Espanha em 1936, trens, ônibus, cinemas e
70% da produção industrial de sua região mais industrializada foi autogerida pelos
trabalhadores com sucesso, mesmo num contexto de guerra civil e de luta contra o
fascismo. Não se pode dizer que não houve problemas e críticas que devem ser feitas,
mas os anarquistas não pretendem resolver todos os problemas antecipadamente, pois
sabem que muitas das questões deverão ser resolvidas pelo próprio povo em realidades
concretas.


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