(pt) O PAPEL HISTÓRICO DO ANARQUISMO: UMA VISÃO GLOBAL Lucien van der Walt

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Quarta-Feira, 30 de Outubro de 2013 - 15:08:41 CET


Nota do ITHA ---- Este texto foi elaborado a partir de trechos de uma palestra proferida 
pelo autor na livraria Freedom, de Londres, posteriormente publicada no periódico Freedom, 
em fevereiro de 2012. Realizamos a tradução a partir do texto original em inglês, mas 
efetuamos diversos ajustes de forma, visando melhorar o texto, que se aproximava mais de 
um inglês falado ou de notas de palestra. ---- Uma fagulha ---- Há muitos anos, eu e 
Michael Schmidt - coautor de Chama Negra, amigo e companheiro - tentávamos compreender 
algo sobre a história do anarquismo e do sindicalismo de intenção revolucionária 
[syndicalism], buscando entender o significado dessa história os movimentos do passado e 
do presente. Talvez, o fato de estarmos na África do Sul - onde não há, de fato, um 
movimento de tradição anarquista ou sindicalista [syndicalist]1* desde o início dos anos 
1920, não tendo havido, depois disso, uma continuidade - tenha feito com que não houvesse 
pré-conceitos; não tínhamos qualquer hipótese ou ponto de partida.
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* Os termos "sindicalista"/"sindicalistas", nesse texto, referem-se ao "sindicalismo de 
intenção revolucionária" [syndicalism]. (N.E.)

Origens

Chama Negra dedica-se a temas históricos do movimento
anarquista e aborda questões como: Quais foram as grandes
organizações anarquistas? Quem eram as pessoas que faziam
parte desses movimentos? Em termos globais, onde eles foram
levados a cabo? Queríamos pesquisar essas questões em escala
global e não apenas no eixo Atlântico Norte. Por que os
movimentos camponeses anarquistas se desenvolveram em
alguns países? Como eles se espalharam para os países do terceiro
mundo? Havia outras questões nesse mesmo sentido.


Queríamos ainda investigar questões de ordem teórica. É isso que a segunda
parte do livro busca responder: O que é anarquismo? Nosso principal argumento
fundamenta-se na importância de se adotar uma visão global dos movimentos anarquista
e sindicalista. Em geral, compreendemos a história do movimento anarquista por meio
da ideia da "excepcionalidade espanhola" - ou seja, que, por alguma razão, o
anarquismo teria se desenvolvido, de fato, apenas na Espanha. Diz-se que Giuseppe
Fanelli foi enviado à Espanha por Mikhail Bakunin e que sua presença teve grande
impacto. Reza a lenda que ele sequer falava espanhol, mas que, por razão de seus gestos
articulados, todos foram persuadidos por suas ideias e decidiram, aos milhões, passar
os próximos 70 anos lutando por elas.

A excepcionalidade espanhola

Existe uma vasta bibliografia que aborda a questão: "Por que os anarquistas
foram fortes na Espanha?" Há diversas respostas. O "bom" marxista argumenta que a
Espanha tinha uma economia atrasada e que o anarquismo reflete as sociedades
atrasadas; a Confederación Nacional del Trabajo (CNT) seria, dessa maneira, o
resultado da interação entre esses dois fatores. Há também o argumento que enfatiza
características nacionais, sustentando que os latinos são, em geral, vigorosos, e os
anarquistas mais ainda; a CNT constituiria o resultado dessa interação.
O problema com o argumento do atraso é que a Espanha não era tão atrasada assim.

Onde se localizavam as bases dos anarquistas? Nas grandes cidades industrializadas, que 
constituíam seus maiores redutos, e também nas regiões rurais, frequentemente, nas
muito grandes fazendas comerciais. Barcelona, nos anos 1920, era uma das cidades de maior
crescimento da Europa. Ou seja, o argumento do atraso não se sustenta; trata-se de um
desses argumentos marxistas que afirmam que, conforme a classe trabalhadora se
desenvolve, ela se torna naturalmente marxista. O argumento sobre o caráter dos
espanhóis tampouco se sustenta. A Espanha também produziu o general Franco. Dizer
que há uma inclinação natural da Espanha para o anarquismo não explica pequenos
2detalhes como a Guerra Civil Espanhola, travada entre dois tipos de Espanha, dois tipos
de espanhóis e duas ideologias espanholas.

Caso oposto

Consideramos, em todos os casos, incorreta a noção de que a Espanha constitui
um caso excepcional. Na Espanha, parece claro que houve um enorme movimento
anarquista, um enorme movimento sindicalista [sindicalist union movement], que esse
movimento existia desde os anos 1870 e que impulsionou uma revolução na segunda
metade dos anos 1930.
No entanto, uma observação internacional e comparativa demonstra que, na
verdade, há movimentos pelo menos tão grandes quanto esse da Espanha. Se
compararmos o tamanho dos sindicatos anarquistas com a totalidade do movimento
operário, buscando compreender quanto do movimento operário organizado estava sob
influência ou controle dos anarquistas ou sindicalistas, observaremos que, na Espanha,
os anarquistas detinham apenas metade dos sindicatos. A CNT espanhola representava,
grosso modo, a metade dos sindicatos da indústria, ou seja, aproximadamente 50%; em
algumas áreas, mais do que isso. No entanto, havia uma grande rival socialdemocrata, a
Unión General de Trabajadores (UGT).

Olhando globalmente

Observando Argentina, México, Chile, Portugal, países como França, Peru, Uruguai, a 
Holanda e o Brasil por um período, nota-se que em todos esses países, os
anarquistas constituíram a força predominante nos sindicatos.

Cuba constitui outro exemplo. Desde os anos 1880 até os anos 1930, os
anarquistas e sindicalistas lideraram o movimento sindical. Mesmo nos anos 1950,
quando Fidel Castro assumiu, muitos sindicatos ainda eram liderados pelos anarquistas,
e umas das ações de Che Guevara consistiu, precisamente, em expulsar os anarquistas
dos sindicatos e estabelecer um sindicalismo do bom governo, assegurando que os
trabalhadores fizessem aquilo que era desejado pelo governo. O que creio não ser
exatamente uma atitude anarquista!

3Por que as pessoas consideram a Espanha um caso excepcional? Porque a
comparam com outros países do eixo Atlântico Norte, dizendo frequentemente o
seguinte: "Se observarmos a Espanha, veremos que nesse país houve um movimento
anarquista muito maior do que no Reino Unido, na Suécia, na Dinamarca, na Alemanha
ou mesmo que nos Estados Unidos". Isso é verdade. Entretanto, quando utilizamos uma
abordagem internacional, indo além do eixo Atlântico Norte, há muitos movimentos
que, mesmo sendo mensurados somente pela força dos anarquistas nos sindicatos, foram
maiores que o espanhol.

Internacionalmente falando

Ao adotar essa abordagem global e internacional, descobriremos que os
movimentos anarquistas foram muito grandes. Utilizei a comparação anterior, que
relaciona a influência anarquista/sindicalista no movimento organizado de
trabalhadores, como um meio comparativo rápido.

Ao observar vários outros critérios - a presença de periódicos diários, de vastas
redes de escolas, a formação de exércitos de trabalhadores, os levantes revolucionários,
o impacto na cultura das classes populares, o papel dos anarquistas e sindicalistas nos
campos e nas lutas anticoloniais - podemos sustentar o mesmo argumento: o
anarquismo e o sindicalismo de intenção revolucionária foram muito grandes na
Espanha, mas esse caso não constitui uma exceção; devemos compreender o
anarquismo e o sindicalismo de intenção revolucionária globalmente e, como um
movimento global, entender o seu papel histórico.

Primo pobre Podemos então sustentar que o anarquismo e o sindicalismo de intenção
revolucionária não foram, como frequentemente se supõe, sempre o primo
pobre do marxismo clássico ou da socialdemocracia.

O marxismo clássico, por exemplo, não tinha presença expressiva fora da Europa
ocidental antes da ascensão de Lenin. Suas ramificações, com a interessante exceção da
Indonésia, não tiveram presença real em nenhum outro lugar. Antes de Lenin, o
4marxismo clássico sustentava que sem capitalismo não haveria socialismo; isso
implicou que entusiasmados marxistas dissessem coisa do tipo: "Argentina, espere e
não faça nada; aguarde até o capitalismo desenvolver-se um pouco mais". Não se trata
de algo que a classe trabalhadora sempre gosta de ouvir.
Havia vastas massas de trabalhadores pobres e o Partido Socialista Argentino
dizia: "Votem por mais reformas". A classe trabalhadora respondia: "Primeiro, não
podemos votar. Isso é um problema, pois a maioria de nós, imigrantes, não pode votar.
Segundo, não estamos vendo nenhuma reforma; isso aqui é controlado por uma
oligarquia. E terceiro, já temos muito capitalismo e, por isso, não queremos contribuir
mais ainda com ele".

Pobre marxismo

Se observarmos diretamente a América do Sul, veremos que os anarquistas e os
sindicalistas predominaram nos movimentos de esquerda. Se examinarmos a África do
Sul da década de 1910, veremos que o anarquismo e o sindicalismo de intenção
revolucionária predominaram. No Egito, onde havia um movimento anarquista desde os
anos 1870, o anarquismo teve um papel importante até o início dos anos 1920. Para
dizer a verdade, o Partido Comunista Egípcio, quando foi originalmente fundado, era
conhecido em árabe como "o partido dos anarquistas". Quando ele filiou-se à
Internacional Comunista, uma das condições para sua aceitação foi que expulsasse os
anarquistas. Os primeiros partidos comunistas do México, do Brasil, da África do Sul e
de outras localidades foram criados por anarquistas e sindicalistas; constituíam partidos
essencialmente anarquistas. Pode-se ver que o anarquismo não era o primo pobre do
movimento.

É muito importante entendermos que o anarquismo foi um movimento muito relevante. A
predominância do marxismo nos movimentos de esquerda e nos círculos operários, em
muitos países, só foi alcançada nos anos 1940. Foi apenas durante a Segunda
Guerra Mundial que os partidos comunistas se tornaram partidos de massa em muitos
países. Isso não significa que os movimentos anarquista e sindicalista tenham morrido
em 1939 ou 1945; em muitos países eles continuaram tendo força e influência bastante 
poderosas, apesar desses rivais.

Sindicatos

Uma das coisas mais admiráveis na história do movimento anarquista é seu
pioneirismo na fundação de sindicatos operários, que se deu a partir dos anos 1870. Um
exemplo desses sindicatos foi a Federación Regional Española (FRE), fundada em
1870, inspirada pelo delegado de Bakunin na Espanha, Fanelli. Outro foi o Gran Círculo
de Obreros México (GCOM), a segunda maior associação sindicalista, levando em
conta esse primeiro período, de 1876. Outra grande associação foi criada nos Estados
Unidos, a Central Labour Union (CLU): foi dela que vieram os Mártires de Haymarket.
Ela foi a principal associação sindical de Chicago; constituía parte de um movimento
anarquista capaz de colocar 100 mil pessoas nas ruas - 250 mil no funeral dos mártires
de Haymarket. É isso que celebra o Primeiro de Maio; um dos pequenos presentes do
anarquismo para a classe trabalhadora internacional. O Círculo de Trabajadores de La
Habana (CTH), de Cuba, foi outro caso importante.
Além disso, em muitos casos, os anarquistas e sindicalistas criaram sindicatos
em países coloniais ou pós-coloniais - os quais estiveram sob o jugo direto do
colonialismo ou, de alguma maneira menos formal, sujeitos aos grandes poderes.
Observando esses países, podemos notar o padrão de um importante pioneirismo e de
uma presença de longo prazo dos anarquistas nos
movimentos de massas.

Isabelo de los Reyes foi um lutador da
independência filipina. Quando se inicia o colapso do
Império espanhol, nos anos 1890, os Estados Unidos
começam a tomar Porto Rico, Cuba e as Filipinas. Ele foi
preso em Barcelona com anarquistas espanhóis e leu
várias de suas publicações que o agradaram; voltando,
construiu um sindicato em Manila, por volta de 1904,
nos moldes dos sindicatos anarquistas espanhóis.

Outras vozes Liu Shifu, na China

Seu grupo, a Sociedade de Companheiros Anarco-Comunistas, estabeleceu os
primeiros sindicatos na China na década de 1910; no começo dos anos 1920,
especialmente na região de Yunnan, os anarquistas constituíam as principais lideranças
nos sindicatos. Infelizmente, Shifu morreu jovem de tuberculose, mas o movimento por
ele impulsionado foi muito importante. Para citar um legado menos glorioso do
anarquismo, havia um jovem bibliotecário chamado Mao Tse-Tung que, por volta de
1919/1920, era anarquista e identificava-se com o movimento anarquista. No início dos
anos 1920, era possível encontrar a maioria dos principais textos de Piotr Kropotkin na
China; não havia, na época, uma cópia oficial do Manifesto Comunista disponível.

T.W. Thibedi, na África do Sul

Filho de um ex-padre, ele estudou e lecionou num colégio religioso.
Em 1915, estava em Johanesburgo, num encontro da International Socialist
League, um grupo sindicalista revolucionário;
apreciando as posições apresentadas, juntou-se ao
grupo. Ele foi o primeiro de toda uma geração de
africanos de cor e nativos que fizeram parte do
movimento anarquista e sindicalista. Foi também uma das figuras principais de uma
confederação sindicalista chamada Industrial Workers of Africa, que foi o primeiro
sindicato de intenção revolucionária [syndicalist union] na África do Sul britânica
voltado para trabalhadores negros africanos.

Shanghai, 1927

Anarquistas envolveram-se coreanos com série e chineses
de projetos associativos. A Coréia estava sob o domínio
colonial japonês e muito do movimento
anarquista coreano estava situado fora da
Coréia. Em geral, esses anarquistas
7encontravam-se na China ou no Japão, e essa seção em particular envolveu-se com a
Universidade Nacional do Trabalho [National Labour University] e, posteriormente,
com uma iniciativa chamada de Faculdade Líder [Leader College]. Tratavam-se de
universidades completamente controladas pelos anarquistas e, ainda que fossem
financiadas por um setor do Kuomintang, formavam pessoas em aulas de esperanto,
jardinagem e teoria anarquista. Os anarquistas também estiveram envolvidos com o
treinamento de milícias e com um Movimento Pela Autodefesa das Vilas.

Revoluções anarquistas

Há três revoluções que, creio, poderiam razoavelmente ser caracterizadas como
revoluções anarquistas.
A primeira foi o movimento dos makhnovistas na Ucrânia, de 1918 até 1921,
quando foi suprimido.
A segunda ocorreu na Manchúria, entre 1929 e 1932. Ela não está muito bem
documentada em inglês, mas sua figura principal foi Kim Jwa-Jin: ele foi general do
Exército de Independência Coreano.
Por que os coreanos estavam na Manchúria? O domínio colonial japonês sobre a
península coreana era extremamente repressivo e abrangente; nos anos 1930, por
exemplo, eles instruíram todos os coreanos a mudarem seus nomes para nomes
japoneses. Grande parte da resistência se deu na região fronteiriça da Manchúria. O
Exército de Independência Coreano tinha vários baluartes. Kim Jwa-Jin ficou muito
famoso por ter ganhado várias batalhas contra os japoneses. Ele, um anarquista,
concebeu um plano junto com a Federação Anarquista Coreana na Manchúria para
estabelecer um Movimento Anarquista Popular Coreano [Korean Anarchist People's
Movement]. Essa foi uma área em que predominou uma sociedade nas mesmas linhas
que a makhnovitchina, com um sistema de
conselhos contendo certo grau de pluralismo
político, cooperativas e uma milícia para
defendê-los.

Kim Jwa-Jin foi assassinado em 1931 por um comunista e, logo depois, as forças
japonesas vieram do sul e acabaram com tudo; ele é chamado de "Makhno coreano",
8mas creio que poderíamos, da mesma forma, chamar o Makhno de "Kim Jwa-Jin
ucraniano". Na Coréia, esses não são episódios de menor importância. As grandes
figuras desse processo são reconhecidas e aparecem nos livros escolares; normalmente,
entretanto, o anarquismo é removido. A casa de Kim Jwa-Jin constitui um monumento
nacional; há uma estátua dele e alguns dias do calendário são a ele dedicados. Diversos
anarquistas importantes são considerados "heróis da independência" e estão até em
selos; o anarquismo, no entanto, é geralmente omitido dessa história.
Há também, é claro, o caso da Espanha, de 1936.

Anticolonial

Um aspecto importante é que duas dessas revoluções
ocorreram em contextos de lutas anticoloniais.
Muito movimento frequentemente, makhnovista, quando tendemos observamos a
  o considerá-lo, principalmente, no contexto da Revolução Russa, como um de
seus aspectos. No entanto, deve-se compreender que a Ucrânia
constituía um dos principais territórios da Rússia. Era uma das
terras mais exploradas, representava uma das principais fontes
de renda de exportação para os russos, tinha uma grande área
de plantação de trigo, que era exportado na forma de massa; o proletário da indústria da
massa ucraniana foi uma importante força revolucionária!
Nestor Makhno esteve envolvido, depois que saiu da prisão, em atividades
sindicais nessa região. Tratava-se de uma área muito desenvolvida onde o movimento
de independência era forte. Os principais rivais dos makhnovistas, eram, de um lado, as
forças bolcheviques, e de outro, os nacionalistas de Symon Petliura e a Rada Central.
Tendo isso em mente, pode-se reler toda a história do movimento makhnovista
pensando que parte do que se fazia era buscar um caminho anarquista para a
independência. Como alcançar a independência de um país sem que simplesmente se
transferisse poder de uma elite estrangeira para uma elite local? Como proceder? Eles
estavam tentando encontrar um caminho distinto para a descolonização.

Tradução: Alexandre Guerra
Revisão: Felipe Corrêa


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