(pt) Anarquismo, Teoria e História by Felipe Corrêa e Rafael Viana da Silva - I. (1/2)

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Sexta-Feira, 25 de Outubro de 2013 - 17:11:30 CEST


OS ESTUDOS DO ANARQUISMO E O CONTEXTO ATUAL ---- Ainda que seja um fenômeno que existe, 
permanente e globalmente, há praticamente 15 décadas, e que esteja relacionado à parte 
significativa das mudanças sociais do mundo contemporâneo, o anarquismo é pouco estudado 
e, mesmo, pouco conhecido, dentro e fora da academia.  ---- A motivação do primeiro estudo 
acadêmico sobre o anarquismo, realizado por Paul Eltzbacher (2004, p. 3), em 1900, foi a 
vontade de compreensão científica desse objeto, partindo da constatação sobre a "completa 
falta de idéias claras sobre o anarquismo", "não somente entre as massas, mas entre 
acadêmicos e homens de Estado". Realizando um levantamento bibliográfico de sua época, de 
maneira a analisar as definições vigentes desse objeto, o pesquisador constatou, nas 
distintas fontes encontradas, que:

"ora a lei suprema do anarquismo é descrita como uma lei histórica da evolução, ora é a 
felicidade do indivíduo, ora é a justiça. Ora dizem que o anarquismo culmina na negação de 
todo programa, que ele possui somente um objetivo negativo; ora, por outro lado, que seu 
aspecto negativo e destruidor é equilibrado por um aspecto afirmativo e criativo; ora, em 
conclusão, que o que é original no anarquismo relaciona-se exclusivamente às suas 
afirmações sobre a sociedade ideal, que sua essência verdadeira e real está em seus 
esforços positivos. Ora se diz que o anarquismo rejeita o direito, ora que ele rejeita a 
sociedade, ora que ele rejeita somente o Estado. Ora se declara que, na sociedade futura 
do anarquismo, não há vínculos contratuais ligando as pessoas; ora, por outro lado, que o 
anarquismo busca ter todas as questões públicas solucionadas por contratos entre comunas e 
sociedades federativamente constituídas. Ora se diz que, em geral, o anarquismo rejeita a 
propriedade, ou pelo menos a propriedade privada; ora se realiza uma distinção entre o 
anarquismo comunista e individualista, ou mesmo entre o anarquismo comunista, coletivista 
e individualista. Ora se declara que o anarquismo concebe a sua realização por meio do 
crime, especialmente por meio de uma revolução violenta e com o auxílio da propaganda pelo 
fato; ora, por outro lado, que o anarquismo rejeita as táticas violentas e a propaganda 
pelo fato, ou que esses não são, necessariamente, elementos constitutivos do anarquismo." 
(Eltzbacher, 2004, pp. 3-4)
Por meio das constatações de Eltzbacher, nota-se que havia, naquele momento, um problema, 
caracterizado pela dificuldade de compreensão do anarquismo e que envolvia sua definição, 
suas negações, proposições, estratégias e correntes. Mesmo que tenham se passado mais de 
cem anos de sua realização, e que sejam levados em conta os inúmeros esforços levados a 
cabo desde sua publicação para solucionar o problema por ele colocado, pode-se dizer que 
continuam havendo, ainda hoje, debates e discordâncias nas soluções e respostas dadas a 
esse problema fundamental.

Desde a publicação do estudo de Eltzbacher houve, basicamente, dois tipos de estudos que 
lidaram com o problema por ele colocado. Por um lado, uma produção militante, dos próprios 
anarquistas que, com função mais política do que científica, refletiu sobre os pontos em 
questão; alguns autores, como no caso de Piotr Kropotkin, buscaram conciliar as posições 
políticas e científicas, não sem grandes dificuldades. Por outro lado, uma produção 
acadêmica, que, bastante escassa, debruçou-se sobre algumas dessas questões. A escassez 
dos estudos levados a cabo nas universidades pode ser compreendida como resultado de um 
complicado contexto, do qual se podem destacar alguns aspectos.

Primeiramente, uma correlação de forças desfavorável entre o status-quo e as idéias 
contestadoras em geral. Pode-se dizer que, pelo fato de a produção de conhecimento - e, 
por isso, a educação e, particularmente, a universidade - constituir um dos pilares dos 
sistemas de dominação, é natural que investigações que, de certa maneira, coloquem em 
xeque pressupostos básicos destes sistemas, apresentem ou fortaleçam alternativas a ele, 
tendam a ser desfavorecidas. Em segundo lugar, uma correlação de forças desfavorável 
dentro do próprio campo contestador, que inclui a esquerda e o socialismo. Em termos 
históricos - principalmente após a ascensão do marxismo-leninismo, o estabelecimento da 
URSS e a bipolarização do mundo -, o fato de o anarquismo ter constituído uma corrente 
minoritária fez com que, com freqüência, se identificasse completamente esquerda e 
socialismo com o marxismo, num processo em que as experiências soviética, chinesa e cubana 
contribuíram significativamente. Em diversos países, os comunistas ocuparam muitos espaços 
militantes dos quais os anarquistas outrora se nutriam; as disputas de memória, nesse 
sentido, minimizavam ou negavam o tronco socialista do anarquismo.

Nesse contexto, o anarquismo foi, muitas vezes, apagado da história; em outros casos, ao 
ser tratado por seus adversários e/ou inimigos, foi completamente deturpado e/ou 
ridicularizado. Soma-se a isso o fato de, em diversos países, os marxistas terem, 
deliberadamente, decidido disputar espaço na academia, o que lhes proporcionou, em várias 
circunstâncias, condições para o estudo e a difusão de suas idéias, processo bastante 
beneficiado pelo apoio, inclusive financeiro, do antigo mundo "socialista".

Os anarquistas, em geral, não vêm priorizando a universidade como um espaço de disputa e 
têm se dedicado, com freqüência, às produções próprias, com foco político-ideológico e 
militante, executadas e distribuídas, geralmente, em meio a imensas dificuldades. Ainda 
assim, há uma minoria que, ingressando na academia, tem encontrado alguns simpatizantes e 
conseguido recolocar o anarquismo em cena.

Para além dessas questões, mais políticas do que técnicas, há outra dificuldade, que é o 
acesso às fontes. No Brasil, o acesso às fontes primárias traduzidas ao português é 
restrito, como no caso das obras dos clássicos e autores anarquistas; fontes secundárias 
de qualidade, de estudos sobre o tema, também são escassas. É praticamente impossível 
realizar, hoje, uma pesquisa abrangente sobre o anarquismo, sem o estudo de obras em 
outros idiomas, as quais, também não são abundantes e nem sempre simples de serem encontradas.

Esse panorama explica, em grande medida, o motivo de o anarquismo ser pouco estudado - e, 
portanto, pouco compreendido - nas universidades. Conforme afirma Lucien van der Walt 
(s/d, p. 6), "mais do que qualquer outra ideologia moderna, o anarquismo tem sido 
mal-compreendido, inclusive pelos acadêmicos". Segundo sustenta, "o anarquismo 'não tem 
sido bem tratado na academia'; marginalizado no currículo universitário, suas visões 
continuam a não ser 'completamente respeitáveis, em termos acadêmicos'". Constatamos, sem 
dificuldades, que essas constatações do autor são verídicas.

Entretanto, há exceções; algumas produções - realizadas por anarquistas, pesquisadores 
simpáticos ao anarquismo e, em menor grau, acadêmicos comprometidos com o rigor 
metodológico -, lidando com todas as dificuldades em questão, conseguiram atingir 
excelente qualidade e proporcionar avanços significativos. Desenvolveram-se investigações 
sobre o anarquismo na História, nas Ciências Sociais, na Pedagogia, na Geografia, na 
Filosofia entre outras áreas do conhecimento.[1]

Muitas dessas pesquisas, buscando solucionar a problemática das fontes, têm se apoiado nas 
produções próprias dos anarquistas (jornais, panfletos, brochuras, livros, estudos etc.), 
as quais não são muito fáceis de encontrar, visto que estão dispersas e, diversas vezes, 
restritas ao universo dos próprios militantes; entretanto, iniciativas como o Arquivo 
Edgar Leuenroth, da UNICAMP; a Biblioteca Social Fábio Luz, do Rio de Janeiro; o Arquivo 
de Memória Operária do Rio de Janeiro (AMORJ); e, mais recentemente, a Biblioteca Terra 
Livre, de São Paulo, oferecem possibilidades. Outras investigações têm se apoiado nas 
fontes de adversários dos anarquistas, como no material produzido por correntes distintas 
da esquerda e/ou do socialismo, e lidam com a problemática política anteriormente 
mencionada. Há, também, aquelas que têm se apoiado em material produzido por seus 
inimigos, como no caso de arquivos do Estado, incluindo os da polícia política.

Entre os anos 1960 e 1980 houve, globalmente, uma retomada do interesse nos estudos sobre 
o anarquismo, motivada, em grande medida, pela Nova Esquerda, potencializada pelo Maio de 
1968 e pelo fim das ditaduras civis-militares em muitos países. Desenvolveram-se, nesse 
período, algumas das produções que constituem, até o presente, estudos referências do 
anarquismo. Num balanço histórico panorâmico, que leva em conta estudos realizados desde o 
século XIX até o presente, podemos dizer que, em meio a avanços significativos, 
proporcionados pelas várias pesquisas em questão, há, também, problemas significativos; 
permanecem, principalmente pela influência desses estudos de referência, elementos 
metodológicos, teóricos e históricos que complicam e limitam a continuidade das investigações.

O processo de globalização, fortalecido nos fins dos anos 1990 com o desenvolvimento e a 
generalização da internet, a reorganização e o aumento da visibilidade dos anarquistas no 
último período vêm contribuindo com uma mudança de contexto que oferece possibilidades 
imensas para as investigações em geral, e do anarquismo em particular. Duas delas merecem 
ser comentadas.

Primeiramente, as possibilidades abertas pela internet, que envolvem a melhoria no acesso 
e no compartilhamento das fontes e na comunicação entre os pesquisadores; hoje, sem 
grandes dificuldades, podem-se acessar materiais on-line, comprar livros atuais e antigos, 
mesmo os raros, contatar pessoas de dentro e de fora do país e trocar informações com 
outros pesquisadores. Isso, ao mesmo tempo, e em alguma medida, tem contribuído para a 
melhoria na qualidade dos estudos. Em segundo lugar, em termos globais, o crescimento das 
traduções e das publicações de obras anarquistas e de estudos sobre o tema, realizados, 
dentro e fora da internet, por novos projetos e editoras; especialmente no Brasil, houve, 
a partir dos anos 1980, um aumento significativo das traduções de obras clássicas e 
históricas do anarquismo, em especial as realizadas pela editora Novos Tempos / Imaginário.

Os estudos atuais do anarquismo inserem-se nesse complexo contexto, representado, por um 
lado, por todas as dificuldades relacionadas à pesquisa do anarquismo - tanto no que diz 
respeito às questões políticas, quanto os problemas que envolvem método, teoria e 
história, em especial na academia; por outro, por esse momento particularmente favorável 
às investigações.

O principal desafio colocado àqueles que hoje se debruçam sobre o estudo do anarquismo é 
solucionar os problemas precedentes e usufruir deste contexto, de maneira a avançar nas 
pesquisas, colocando-as em outro patamar. O contexto, apesar de ser favorável e oferecer 
possibilidades sem precedentes, não soluciona, por si só, todas essas questões; é 
necessário encontrar os entraves que têm impedido os avanços nas investigações e, 
debruçando-se sobre eles, avançar para compreensões e explicações mais adequadas do 
anarquismo.

Trabalhos que vêm buscando cumprir este desafio têm sido empreendidos por alguns 
pesquisadores, dentro e fora do Brasil, dentre os quais se destacam o dos africanos 
Michael Schmidt e Lucien van der Walt. Entre outras produções, eles vêm trabalhando, há 
mais de uma década, na série Counter-Power, que inclui dois livros: Black Flame: the 
revolutionary class politics of anarchism and syndicalism (Schmidt; van der Walt, 2009), 
de base teórica, e Global Fire: 150 fighting years of international anarchism and 
syndicalism (Schmidt; van der Walt, no prelo), de base histórica.[2]
A PROBLEMÁTICA DOS ESTUDOS DO ANARQUISMO

As concepções vigentes de anarquismo têm estado profundamente permeadas de senso comum, 
abordagens completamente ideológicas[3] e problemas teórico-metodológicos. Isso tem 
contribuído significativamente para que o anarquismo não seja compreendido adequadamente.
Senso comum e abordagens ideológicas

Primeiramente, trataremos das abordagens que se pautam no senso comum. Os termos 
"anarquia" e seus derivados vêm sendo conceituados em termos de desordem, confusão, 
desorganização e caos. O Dicionário Online de Português[4], por exemplo, em sua 
conceituação de "anarquia", inclui "desordem, confusão: uma instituição onde reina a 
anarquia; a anarquia dos espíritos". O Dicionário Informal[5] coloca como sinônimos de 
"anarquia": "bagunça, confusão, desordem, fuzarca, presepada, atrapalhação, babel, 
balbúrdia, caos, desarranjo, desorganização" e como antônimos "autoridade, ordem, 
organizado". Mesmo autores que, em tese, defendem o anarquismo, como no caso de Hakim Bey 
(2003, p. 85), afirmam que "anarquISMO em última análise implica anarquia - e anarquia é 
caos".

Na realidade, do ponto de vista histórico, esse senso comum vem sendo forjado há séculos, 
em grande medida como uma caricatura e um contra-imaginário produzido pelos adversários do 
anarquismo. No que tange ao campo político, as origens etimológicas do termo "anarquia" 
remetem-se, conforme sustenta Kropotkin (1987, p. 19), à sua raiz grega "an - e arke", 
significando "contrário à autoridade". George Woodcock (1998, p. 11) confirma essas raízes 
gregas do termo: "archon, que significa governante, e o prefixo an, que indica sem. 
Portanto, anarquia significa estar ou viver sem governo".

Em alguma medida, essa noção foi adotada por pensadores clássicos da teoria política, que 
contribuíram com essa significação terminológica. Thomas Hobbes (2008, p. 159), em 
Leviatã, de 1651, afirma que anarquia "significa ausência de governo"; John Locke (2005, 
p. 560), em Segundo Tratado sobre o Governo, provavelmente de 1689, defende que a anarquia 
"muito se assemelha à ausência total de governo"; Jean-Jaques Rousseau (2010, pp. 56; 71), 
em Do Contrato Social, de 1762, coloca que "o Estado, dissolvido, cai assim no despotismo 
ou na anarquia" e que "quando o Estado se dissolve, o abuso do governo, qualquer que seja, 
toma o nome de anarquia".

Essa utilização terminológica se fortalece no contexto da Revolução Francesa, conforme 
notam Alexandre Samis (2002, p. 47) e James Joll (1970, p. 48), o qual afirma que 
"anarquista" era "o termo adotado por Robespierre para atacar os da esquerda, de que se 
servira para os seus próprios fins, mas de quem resolvera se libertar". Sans-cullotes 
franceses afirmavam serem seus amigos "aqueles a quem os aristocratas chamam anarquistas, 
facciosos, maratistas".

Em suma, são bastante antigas as noções de que "anarquia" constitui ausência de governo e 
dissolução do Estado e, a partir da Revolução Francesa, de que "anarquistas" são aqueles 
que possuem um papel desagregador e nocivo para a sociedade, visto que, questionando o 
status-quo, o Estado, o governo, colocam em xeque a própria sociedade. A concepção de que 
Estado é sinônimo de sociedade, hegemônica durante significativo período, contribuiu 
amplamente para que a contraposição a ele significasse a destruição da sociedade e o 
próprio caos.

Entretanto, termo "anarquia" foi reivindicado positivamente, tanto em contextos isolados - 
como foi o caso do venezuelano Antonio Muñoz Tébar (apud Gonzáles, 2009) que, em 1811, 
defendeu, como forma para a república, a anarquia, dizendo ser ela a liberdade: "Senhores, 
que a anarquia, com a tocha das fúrias em mãos, nos guie ao congresso, para que sua fumaça 
embriague os facciosos da ordem e os siga pelas ruas e praças gritando: Liberdade!" -, 
quanto em casos mais conhecidos e relacionados aos movimentos populares - como foi o caso 
de Pierre-Joseph Proudhon (1988, p. 233-237) que, em 1840, afirmou ser anarquista, 
entendendo por isso uma oposição aberta ao governo dos homens pelos homens e a "ausência 
de senhor, de soberano". No Brasil, ainda antes de 1890, em uma das matérias publicadas em 
Província de São Paulo, Euclides da Cunha, à época simpático a Proudhon, escreve: "Nós (os 
republicanos), podíamos perfeitamente levantar esta palavra (a anarquia), que se nos atira 
como um armamento inquebrável; podíamos revestir-nos do título de anarquistas". (Cf. 
Lopes, 2004, p. 27)

Ainda assim, o sentido comum atribuído aos termos "anarquia" e seus derivados continuou a 
existir e grandes anarquistas da primeira onda[6], como foram os casos de Mikhail Bakunin 
e James Guillaume, conforme apontam Marianne Enckel (1991, p. 199) e René Berthier (2010, 
p. 127), tiveram reticências em relação à utilização dos termos, justamente por razão do 
senso comum que existia em torno deles. Foi somente a partir da cisão da Primeira 
Internacional, em 1872, e da fundação, naquele mesmo ano, da Internacional 
Antiautoritária, uma associação popular e operária que reuniu a maior parte dos 
anarquistas europeus, que o termo "anarquia" e seus derivados passaram a ser utilizados 
mais constantemente pelos próprios anarquistas. Ainda assim, apesar dos esforços 
contrários dos anarquistas, o senso comum vem subsidiando, até o presente, a compreensão 
de grande parte da sociedade.

Em segundo lugar, enfocaremos as abordagens completamente ideológicas, em geral 
relacionadas aos adversários políticos do anarquismo. Especialmente o marxismo tem 
contribuído, tanto em termos político-ideológicos, quanto dentro das universidades, para 
que o anarquismo seja considerado uma doutrina pequeno burguesa, liberal, idealista, 
individualista, espontaneísta, contrária à organização e ligada essencialmente aos 
camponeses e artesãos do "mundo atrasado" em declínio.

A relação entre o anarquismo, o idealismo e o individualismo já se encontra nas obras de 
Karl Marx e Friedrich Engels. Marx (1976, p. 23) critica os proudhonianos franceses da 
Primeira Internacional, falando no "individualismo antiautoritário desses senhores", que 
defenderiam a economia burguesa vulgar, "à maneira do idealismo proudhoniano". Engels 
(1976, p. 162) afirma ser Max Stirner "o profeta do anarquismo moderno". Lênin (1976, pp. 
173-174), na esteira de Marx e Engels, mas ideologizando ainda mais, enfatiza que "o 
anarquismo é o individualismo burguês invertido. O individualismo como base de toda a 
concepção de mundo do anarquismo". Dentre os aspectos constitutivos do anarquismo ele 
lista: a "defesa da pequena propriedade", a negação das decisões por maioria, a 
"incompreensão do desenvolvimento da sociedade - papel da grande produção - na 
transformação do capitalismo em socialismo", a "incompreensão da luta de classes do 
proletariado", a "negação absurda da política na sociedade burguesa", a "incompreensão do 
papel da organização e da educação dos operários". Enfim, o anarquismo, em sua história, 
não teria produzido, para Lênin, "nenhuma doutrina, nenhum ensinamento revolucionário, 
nenhuma teoria". Kolpinsky, ao reafirmar as posições leninistas em sua reflexão sobre o 
anarquismo, coloca:
"Esta doutrina, alheia ao proletariado por seu conteúdo de classe, substitui o pensamento 
revolucionário pela fraseologia dogmática; a autêntica organização proletária pelo 
sectarismo; a tática bem pensada, baseada em uma análise serena dos fatores objetivos, 
pelo aventureirismo, nascido de concepções voluntaristas; a análise científica das leis do 
desenvolvimento social por sonhos utópicos sobre a liberdade absoluta do indivíduo." 
(Kolpinsky, 1976, p. 333)
Eric Hobsbawm (1985, pp. 96; 91) argumenta que o anarquismo fundamenta-se em "versões 
extremadas do liberalismo individualista", "não tem qualquer contribuição significativa a 
fazer à teoria socialista" e apóia-se no atrativo "emocional e não intelectual". Em termos 
históricos, Hobsbawm (1985, pp. 90-92) continua: o anarquismo pertence "ao período 
pré-industrial e, em todo caso, à era anterior à Primeira Guerra Mundial e à Revolução de 
Outubro, exceto na Espanha"; "como movimento revolucionário" foi "ideado quase para o 
fracasso" constituindo "um capítulo definitivamente encerrado no desenvolvimento dos 
movimentos revolucionários e operários modernos".

Tais abordagens não possuem qualquer fundamento histórico ou teórico e fundamentam-se, na 
maioria dos casos, em um "senso comum douto"[7], uma transcrição do discurso do senso 
comum para o campo científico, mas, ainda assim, senso comum. Elas têm servido somente 
para a disputa política; por meio da desqualificação dos adversários tem-se visado 
fortalecer o próprio campo. Fatores como o financiamento que as produções marxistas 
receberam do antigo "mundo socialista" e a inserção acadêmica de pensadores vinculados ao 
marxismo têm contribuído com a difusão dessas visões.
Estudos referenciais do anarquismo

Em terceiro lugar, sairemos do senso comum e das produções ideológicas. Avaliaremos sete 
estudos referenciais do anarquismo[8] que, juntamente com alguns outros, vêm sendo 
realizados por autores em alguma medida simpáticos ao anarquismo, e que avançam 
significativamente - em termos históricos e teóricos e, portanto, científicos - em relação 
às abordagens previamente mencionadas. Dentre esses estudos, que sem dúvidas possuem 
inúmeros méritos, em especial se considerarmos o contexto em que foram produzidos, e que 
têm subsidiado investigações posteriores, dois deles se destacam: O Anarquismo: da 
doutrina à ação, de Daniel Guérin (1968) e o Anarchist FAQ, de Iain McKay (2008). Ainda 
assim, todos esses estudos, incluindo esses dois mais destacados, não estão isentos de 
problemas teórico-metodológicos, que subsidiam uma série de conclusões equivocadas.

Consideramos imprescindível realizar uma crítica das limitações desses estudos, ainda que 
seja uma crítica generosa, que reconhece sua importância, em seu tempo e lugar e as 
dificuldades contextuais de sua produção; não se trata, por isso, de desqualificá-los, mas 
de identificar problemas precedentes de maneira a avançar nas pesquisas, colocando-as, 
conforme falamos, num patamar distinto.

Há nesses estudos pelo menos sete problemas, que serão discutidos a seguir: 1.) Conjunto 
restrito de autores e episódios tomados em conta nas investigações, assim como 
generalizações a partir de um restrita base de dados. 2.) Foco quase exclusivo na Europa 
Ocidental / eixo do Atlântico Norte. 3.) Foco nos grandes homens, com a utilização da 
história vista de cima. 4.) Abordagens ahistóricas, que vinculam o anarquismo à utilização 
terminológica e/ou à autoidentificação dos anarquistas. 5.) Abordagens teóricas sem base 
histórica e vice-versa. 6.) Desconsideração dos vetores sociais do anarquismo, em especial 
o sindicalismo de intenção revolucionária. 7.) Definições inadequadas de anarquismo que 
não permitem compreendê-lo adequadamente e nem diferenciá-lo de outras ideologias.

O conjunto restrito de autores e episódios e o foco em grande medida eurocêntrico aparecem 
em praticamente todo o conjunto desses estudos.

Eltzbacher (2004) trata do anarquismo a partir de uma abordagem teórica que se fundamenta 
na obra de "sete sábios": William Godwin, Proudhon, Stirner, Bakunin, Kropotkin, Benjamin 
Tucker e Liev Tolstoi. Na maioria, esses autores são europeus; Eltzbacher não aborda 
episódios e movimentos em que o anarquismo esteve envolvido. Max Nettlau (2008; no prelo), 
ainda que tome um conjunto mais amplo de autores, em relação ao escopo geográfico aborda 
fundamentalmente a Europa ocidental e a Rússia, discutindo brevemente os Estados Unidos e 
dedicando ao leste Europeu, América Latina, Ásia e Oceania menos de 10% de seus dois volumes.

Woodcock (2002) dedica praticamente todo seu volume teórico à análise da produção de seis 
teóricos, todos europeus: Godwin, Stirner, Proudhon, Bakunin, Kropotkin e Tolstoi. No 
volume que analisa a prática do anarquismo, o autor dedica em torno de 60% de seu conteúdo 
às análises de França, Espanha, Itália e Rússia; dedica somente algumas páginas à América 
Latina e aos Estados Unidos. Joll (1970), na parte teórica de sua obra, dedica-se ao 
estudo de idéias, lutas por liberdade e surgimento do socialismo, com o foco na Europa; 
dedica-se, também, ao estudo aprofundado da obra de Proudhon e Bakunin. A parte prática - 
tanto os debates estratégicos que envolvem a propaganda pelo fato, quanto o sindicalismo, 
além das experiências revolucionárias - tem foco principalmente na Europa. Guérin (1968) 
fundamenta sua elaboração teórica, basicamente, em três autores: Proudhon, Bakunin e 
Stirner; a partir da prática de fenômenos revolucionários na Europa Ocidental e na Rússia, 
trabalha com uma bibliografia basicamente européia, sem também dedicar espaço a outros 
continentes.

Peter Marshall (2010) elabora quase que toda sua reflexão teórica de mais de 200 páginas 
com a análise de dez autores - Godwin, Stirner, Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Élisée 
Reclus, Errico Malatesta, Tolstoi, Emma Goldman e Mahatma Gandhi -, na grande maioria, 
europeus. Em seu volume de mais de 800 páginas dedica menos de 10% aos estudos da Ásia e 
da América Latina; África e Oceania não são abordadas. McKay (2008) trabalha com um 
conjunto bem mais amplo de autores do que a maioria dos estudos de referência. Ainda 
assim, destacam-se significativamente os clássicos europeus e os autores norte-americanos.

Além disso, a maioria desses estudos utiliza um modelo de história das idéias políticas, 
que prioriza a análise e o comentário das grandes obras, dos "grandes homens". O 
anarquismo - em especial nos casos de Eltzbacher (2004), Woodcock (2002), Joll (1970), 
Guérin (1968) e Marshall (2010) - é conceituado a partir de um conjunto restrito de seus 
"grandes representantes".

Outro problema desses estudos - em especial os de Marshall, Nettlau e Woodcock - é que o 
anarquismo não é situado historicamente; para esses autores, o anarquismo sempre teria 
existido e constituiria, assim, um fenômeno ahistórico, sem relação com o contexto. 
Marshall (2010, pp. 3-4) considera que o "primeiro anarquista foi a primeira pessoa que 
sentiu a opressão de outra e rebelou-se contra ela" e que o anarquismo é uma "tendência 
reconhecível na história humana", cuja origem deve ser buscada "milhares de anos atrás". 
Nettlau (2008, no prelo) inicia sua história do anarquismo um capítulo que vai desde Zenão 
(333-264 a.C.) até a Revolução Francesa. Woodcock (2002, vol. I, p. 40) também remete o 
anarquismo aos tempos remotos, identificando elementos anarquistas nas obras de filósofos 
como "Lao Tsé e Zenão, Étienne de la Boetie, Fénelon e Diderot", na Abadia de Thélème e em 
Rabelais, "com seu lema libertário: 'Faça o que quiser!'", e também em movimentos 
religiosos como "anabatistas, hussitas, os doukhobors e os essenes", além do próprio Jesus 
Cristo.

Os estudos referenciais também se utilizam de um recurso de partir da análise etimológica 
do termo "anarquia" e seus derivados para chegar a um conceito de anarquismo, como são os 
casos de Woodcock (2002, vol. I, p. 8) e Marshall (2010, p. 3). Woodcock (1998, p. 11), 
conforme mencionado, explica as origens gregas da palavra anarquismo e afirma: "anarquia 
significa estar ou viver sem governo". Ainda que Guérin (1968, p. 19-20) e McKay (2008, p. 
19-21) façam referência às análises etimológicas, não as tomam como fundamento para suas 
definições do anarquismo.

Woodcock e McKay apóiam-se na autoidentificação como um critério fundamental para definir 
quem são os anarquistas e, assim, o que é o anarquismo. Woodcock (2002, vol. I, p. 17) 
sustenta que o anarquismo "existe na Europa desde 1840 ininterruptamente", um marco que 
certamente se refere à utilização positiva que Proudhon (1988, p. 233-237) fez do termo 
"anarquia", em O que é a Propriedade? Ainda que não se apóie nesse critério de maneira 
absoluta, McKay (2008) toma em conta, em diversos momentos, individualistas como Susan 
Brown, Tucker, o periódico Anarchy: a journal of desire armed, primitivistas como John 
Zerzan e o periódico Green Anarchy que, para além do fato de se considerarem anarquistas, 
não possuem muito em comum com os princípios históricos do anarquismo.

Podemos notar que a problemática da relação interdependente entre teoria e história, já 
notada e discutida por Eltzbacher (2004), continua a complicar estudos do anarquismo. Sua 
obra tem como foco o pensamento dos autores considerados anarquistas e não os movimentos 
históricos com os quais estiveram envolvidos. Outras obras, distintamente - como Nettlau 
(2008, no prelo), Woodcock (2002), Joll (1970) e Marshall (2010) -, buscam abordar o 
anarquismo conectando teoria e história. O problema dessas obras, parece-nos, está ligado 
à maneira de estabelecer essa relação. Teorizações são freqüentemente realizadas sem 
respaldo histórico e as seleções de autores e episódios históricos, também, com 
freqüência, não obedecem aos critérios teóricos estabelecidos pelos próprios autores.

Outro ponto crítico que tem sido relativamente comum é a realização de estudos do 
anarquismo que tomam em conta exclusivamente militantes, periódicos ou grupos/organizações 
que se reivindicavam explicitamente anarquistas, deixando de lado as lutas sociais com as 
quais os anarquistas estiveram envolvidos e foram, muitas vezes, a força hegemônica, como 
no caso do sindicalismo revolucionário e do anarco-sindicalismo. Dos estudos referenciais 
que abordam as lutas sociais, podemos dizer que a maioria deles, conforme apontamos, 
prioriza os personagens de destaque em relação aos processos de mobilização e os 
movimentos populares neles envolvidos.

No caso específico do sindicalismo de intenção revolucionária, a posição de Joll (1970, 
pp. 244), que coloca Georges Sorel como um de seus grandes teóricos, é um dos fatores que 
tem permitido o afastamento desse sindicalismo de suas origens anarquistas: "a admiração 
de Sorel pelo proletariado, pela ação direta e pela violência revolucionária, que o 
aproximaram dos anarquistas militantes e o levaram a ser olhado como o teórico do 
anarco-sindicalismo". Há outros autores que vão ainda mais longe, como Edilene Toledo 
(2004, p. 12) que, juntamente a outros historiadores, vem defendendo que o sindicalismo 
revolucionário deve ser considerado como uma ideologia distinta e concorrente do 
anarquismo. O sindicalismo revolucionário constituiria, para ela, uma ideologia própria, 
"um movimento que, em várias partes do mundo, se transformara em uma corrente política 
autônoma em relação ao anarquismo e o socialismo".

Finalmente, esses estudos referenciais apresentam definições de anarquismo que não 
conseguem identificar seus traços fundamentais e nem diferenciá-lo de outras ideologias. 
Isso ocorre especialmente com as definições que conceituam o anarquismo como sinônimo de 
luta contra a dominação (ou contra a autoridade), em geral, ou como antiestatismo, em 
particular; isso subsidia, para alguns autores, a afirmação do anarquismo como uma 
doutrina que é a antítese do marxismo.

Nettlau (2008, p. 27) afirma que "uma história da idéia anarquista é inseparável da 
história de todas as evoluções progressivas e das aspirações à liberdade". Woodcock (2002, 
vol. I, p. 7) enfatiza que "todos os anarquistas contestam a autoridade e muitos lutam 
contra ela". Marshall (2010, p. 3), embora considere ser "enganoso dar uma definição clara 
de anarquismo", afirma: "todos os anarquistas rejeitam a legitimidade do governo exterior 
e do Estado e condenam a autoridade política, a hierarquia e a dominação impostas". Tais 
posições relacionam-se à afirmação de Sébastien Faure (1998, p. 58): "quem nega a 
autoridade e luta contra ela é um anarquista". De acordo com a discussão conceitual dos 
estudos de referência do anarquismo realizada em Corrêa (2012a, pp. 29-36), pode-se 
afirmar que as definições de anarquismo de Nettlau, Woodcock e Marshall, assim como a de 
Faure, caminham no sentido de definir o anarquismo como sinônimo de luta contra a 
dominação.[9]

Eltzbacher (2004, p. 292) conceitua o anarquismo como sinônimo de antiestatismo: "os 
ensinamentos anarquistas têm em comum apenas uma coisa: eles negam o Estado no futuro", 
concepção também utilizada por autores como Kedward (1971) e Jacker (1968). Para Horowitz 
(1982, p. 23), o classismo, a crítica da propriedade privada e da centralização do poder 
pertencem exclusivamente ao socialismo marxista e, assim, são estranhos ao anarquismo. 
Também no campo das definições amplas, ainda que num outro sentido, Joll (1970) define o 
anarquismo como uma busca da transformação social e da crença na racionalidade humana e na 
possibilidade do aperfeiçoamento humano.
* * *

Há inúmeras conclusões equivocadas que derivam desses problemas, dentre as quais apontamos 
seis, que sustentam que o anarquismo: 1.) É sinônimo de luta contra a dominação, 
antiestatismo e/ou antítese do marxismo; 2.) Constitui uma ideologia incoerente; 3.) Não 
teve um impacto popular significativo; 4.) Praticamente terminou depois da derrota na 
Revolução Espanhola, em 1939, episódio que, inclusive, constitui uma exceção na história 
anarquista, por ter sido um dos poucos casos em que converteu-se em um significativo 
movimento de massas; 5.) Mobilizou bases classistas restritas, restringindo-se aos 
camponeses e artesãos em declínio, não conseguindo adaptar-se ao capitalismo industrial; 
6.) Fundamenta-se em bases idealistas, espontaneístas, individualistas e juvenis.

As definições de anarquismo mencionadas anteriormente - elaboradas por Nettlau, Woodcock, 
Marshall, Faure, Eltzbacher, Kedward, Jacker e Horowitz - que conceituam o anarquismo como 
sinônimo de luta contra a dominação, antiestatismo e/ou antítese do marxismo, apresentam 
problemas teórico-metodológicos e, de fato, não definem adequadamente o anarquismo. As 
definições do anarquismo como luta contra a dominação não permitem situá-lo 
historicamente, e nem distingui-lo de outras lutas antiautoritárias que foram levadas a 
cabo durante a história. Conceituar o anarquismo como sinônimo de antiestatismo tem 
permitido extrapolações que beiram o absurdo, quando, por exemplo, Marshall (2010, p. 
559-565) fala em uma corrente "anarco-capitalista" e inclui entre os anarquistas Margareth 
Thatcher, Buda, Marques de Sade, Che Guevara e outros.

Eltzbacher (2004, p. 270) concluiu que os sete sábios do anarquismo, em geral, "nada têm 
em comum"; Joll (1970, p. 29) afirma que "foi o conflito entre estes dois tipos de 
temperamento, o religioso e o racionalista, o apocalíptico e o humanista, que tornou a 
doutrina anarquista tão contraditória"; Kedward (1971, p. 6) afirma que "nunca surgiu um 
programa coerente do anarquismo". Essa incoerência apontada pelos autores motivo de 
celebração por outros autores. Tal é o caso de Marshall (2010, p. 3) e de McKay (2008, p. 
18), que consideram que o antidogmatismo do anarquismo permite abarcar todas essas 
concepções e, de algum modo, conciliá-las. Guérin (1968, p. 12), também nesse sentido, 
afirma: "malgrado a variedade e a riqueza do pensamento anarquista, malgrado as suas 
contradições [...] estamos perante um conjunto de concepções muito homogêneas". Essas 
posições consideram que não há grandes contradições entre Stirner e Bakunin, ou entre 
Tucker e Kropotkin; em alguns casos, elas têm subsidiado posições como as de Caio T. Costa 
(1990, p. 7; 12), que falam na existência de "anarquismos", definidos por distintas e 
inconciliáveis maneiras de se conceber o próprio anarquismo. Ou, segundo uma versão mais 
extremada e igualmente problemática: "há tantos anarquismos quanto anarquistas", já que, 
segundo uma análise baseada na "ereção do texto em objeto fechado e auto-suficiente" 
(Bourdieu, 2004, p. 19), a singularidade/distinção de seus teóricos seria tão grande, que 
justificaria a adoção do conceito no plural.

Kedward (1971, p. 120) enfatiza que o "ideal da anarquia nunca foi popular, que ele 
encontrou a oposição de todas as classes e de todas as idades". Horowitz (1982, p. 9) 
aponta o "desaparecimento virtual do anarquismo como um movimento social 'organizado'"; 
ele considera que o anarquismo não somente teria desaparecido nos anos 1930 ou 1960 como 
um movimento social organizado, da maneira como sustentam outros autores. Para ele, o 
anarquismo nunca teria ultrapassado um ideal utópico, sem impacto popular relevante.

Woodcock (2002, vol. II, p. 295), ainda que tenha revisado sua afirmação posteriormente, 
coloca que a perda da Revolução Espanhola "foi a última e a maior derrota do movimento 
anarquista histórico. Nesse dia, virtualmente deixou de existir como uma causa viva. 
Restaram tão-somente anarquistas e a idéia anarquista." Guérin (1968, p. 155) enfatiza, de 
maneira semelhante, que "a derrota da Revolução Espanhola privou o anarquismo do seu único 
bastião no mundo".

Joll (1970, p. 325), fundido os argumentos do fim do anarquismo em 1939 e de sua 
incoerência, afirma: "quando olhamos para os repetidos fracassos do anarquismo em ação, 
fracassos que culminaram na tragédia da guerra civil espanhola", enfatiza, poder-se-ia 
afirmar que "as contradições e as inconsistências da teoria anarquista, a dificuldade, se 
não a impossibilidade de pô-la em prática, parecem ilustradas pelas experiências dos 
passados cento e cinqüenta anos".

Além disso, de acordo com Joll (1970, p. 327-328), o anarquismo sustenta-se em uma "visão 
romântica, saudosista, de uma sociedade do passado" composta por "artesãos e camponeses", 
a qual lhe caracterizaria como algo antigo, do passado, e pouco adaptado para a sociedade 
industrial; trata-se de um argumento similar ao de Hobsbawm discutido anteriormente. Essa 
inadequação do anarquismo à sociedade moderna justificaria, segundo Woodcock (2002, vol. 
II, p. 293; 290), sua falta de influência: "as pessoas comuns das classes média e operária 
[...] rejeitaram a visão anarquista por que esta [...] carecia de concretismo e precisão 
tranqüilizadores que elas desejavam". Essa inadequação ao presente também se demonstraria 
pela vontade dos anarquistas de voltar ao passado e pelo desenvolvimento do anarquismo, de 
maneira mais evidente, nas sociedades atrasadas: "os países e as regiões onde o anarquismo 
fez-se mais forte foram aqueles em que a indústria era menos desenvolvida e em que o pobre 
era mais pobre".

Esse flerte com certo "primitivismo" seria, assim, uma característica inata do anarquismo 
e um dos fatores que o teria impedido de se desenvolver de maneira mais ampla, 
fundamentalmente entre o operariado urbano e industrial; a rejeição do anarquismo às lutas 
por reformas, conforme afirmam Woodcock (2002, vol. II, p. 293) e Joll (1970, p. 30; 327), 
sua política do "tudo ou nada", teria reforçado esse distanciamento entre os anarquistas e 
os trabalhadores modernos.

Inadequado para a sociedade de seu tempo, o anarquismo possui, de acordo com Woodcock 
(2002, vol. I, p. 15; 23; 28), bases idealistas que "em muitos países teve muito pouco a 
ver com a realidade". Além disso, ele afirma que o anarquismo sempre teve uma "visão 
naturalista da sociedade", venerando "tudo que fosse natural, espontâneo e individual", o 
que permite, conforme colocado por Joll (1970, p. 32-33) e Horowitz (1982, p. 16), 
relacioná-lo às idéias de Rousseau e sua concepção de natureza humana.

O individualismo, também de acordo com estudos referenciais, seria também uma 
característica básica do anarquismo. Sobre isso, Woodcock (2002, vol. I, p. 36) enfatiza 
que "a preocupação extremada com a soberania da escolha individual domina [...] as idéias 
anarquistas" e que, ao passo que a "democracia prega a soberania do povo", o "anarquismo 
[defende] a soberania da pessoa". "Rebeldes diletantes altamente individualistas" 
(Woodcock, 2002, vol. II, p. 292), os anarquistas, segundo Costa (1990, p. 11), "se é que 
se pode encontrar algo de comum entre eles, têm sempre em mira apenas o indivíduo, sem 
delegações, produtor, naturalmente em sociedade".

Finalmente, Joll (1970, p. 330) afirma que "o ardente e irreprimível otimismo das 
doutrinas anarquistas terá sempre uma aceitação entre a juventude em revolta contra as 
concepções morais e sociais dos mais velhos".

Reafirmamos que essas conclusões estão, a nosso ver, bastante equivocadas e a razão desses 
equívocos funda-se, pensamos, na problemática teórico-metodológica anteriormente 
discutida. Tentaremos, em seguida, apontar alguns caminhos para soluções desses problemas 
e buscar respostas para contrapor essas conclusões.
ANARQUISMO, TEORIA E HISTÓRIA

Realizar uma discussão adequada do anarquismo implica realizar uma crítica às abordagens 
teórico-metodológicas prévias, presentes em grande medida nos estudos referenciais, e 
apresentar os elementos teórico-metodológicos sobre os quais compreendemos ser 
imprescindível que as novas investigações se apóiem, de maneira a solucionar os problemas 
discutidos. Nos dedicaremos, a seguir, a essa tarefa. Partido desses elementos, 
elaboraremos na seqüência um conjunto de sete teses sobre o anarquismo, que tem por 
objetivo apresentar as principais conclusões que temos extraído das investigações 
realizadas por meio desse novo aparato teórico-metodológico, que consideramos ser mais 
adequado que os antigos.
Crítica às abordagens teórico-metodológicas prévias

Conforme vêm demonstrando novas pesquisas sobre o anarquismo - como os estudos de Michael 
Schmidt e Lucien van der Walt (Schmidt e van der Walt, 2009, no prelo; van der Walt e 
Hirsch, 2010a, Schmidt, 2012a) e nossas próprias produções (Corrêa, 2012a, 2013; Silva, 
2013) -, o anarquismo é um fenômeno global, com presença permanente nos cinco continentes 
do mundo, há praticamente 15 décadas, ainda que entre fluxos e refluxos.

Por isso, não consideramos ser possível discutir o anarquismo de maneira adequada sem 
tomar em conta autores desses diversos contextos e episódios fundamentais em que o 
anarquismo esteve presente. Alguns desses episódios vêm tendo destaque em produções 
precedentes, como o caso Haymarket, que envolveu as mobilizações do Primeiro de Maio e a 
morte dos Mártires de Chicago entre 1886-1887; a Confédération Générale du Travail (CGT) 
francesa, fundada em 1895, cuja Carta de Amiens, de 1906, teve significativa influência no 
desenvolvimento do sindicalismo revolucionário; a Revolta de Kronstadt, no contexto da 
Revolução Russa, em 1921; a Revolução Espanhola de 1936-1939 e as revoltas francesas do 
Maio de 68.

Entretanto, outros episódios, fundamentais a nosso ver, e alguns dos quais maiores e mais 
significativos que esses, são, em geral, pouco abordados ou mesmo completamente ignorados: 
a Primeira Internacional (1864-1877), os levantes cantonalistas ocorridos na Espanha em 
1873, a Revolta da Macedônia de 1903, a Revolução Mexicana iniciada em 1910; a Revolução 
Russa e Ucraniana iniciadas em 1917, a Revolução na Manchúria (1929-1931), a Revolução 
Cubana, entre 1952 e 1959 entre outros.

Consideramos imprescindível para as investigações contemporâneas do anarquismo tomar em 
conta não somente suas manifestações nos países da Europa ocidental e da América do Norte, 
mas também nos países do Leste Europeu, em especial na Rússia, na Ucrânia e na Bulgária; 
da América Latina, em especial em Cuba, no México, na Argentina, no Uruguai, no Brasil e 
no Chile; da Ásia, em especial na China, no Japão e na Coréia; da África, em especial na 
África do Sul, no Egito e na Argélia; da Oceania, em especial na Austrália e na Nova Zelândia.

Esse constitui um dos principais motivos de consideramos insuficientes as conclusões 
precipitadas levadas a cabo pelos estudos referenciais, visto que conceituam o anarquismo 
a partir de uma base restrita de autores e episódios, generalizando sobre um número muito 
restrito de autores e ignorando grande parte, senão a maior, das manifestações históricas 
do anarquismo.

Entendemos, também, ser necessário criticar as abordagens que se apóiam na "história vista 
de cima"; muito mais do que uma história de vida de alguns grandes homens, o anarquismo 
constituiu uma vasta experiência histórica, que envolveu milhões de pessoas. Consideramos, 
nesse sentido, que os maiores autores anarquistas, dentre os quais se encontram Bakunin e 
Kropotkin, não foram gênios isolados, que inventaram uma ideologia descolados da 
realidade, comunicando-a posteriormente aos trabalhadores do mundo todo. Há, 
inegavelmente, nesse movimento, uma relação dialética: mesmo que esses grandes homens 
tenham influenciado os movimentos populares de seu tempo, eles também são produtos desses 
movimentos, foram influenciados por eles, e grande parte daquilo que elaboraram 
teoricamente teve por base as práticas desses movimentos. Por isso, consideramos que esse 
modelo de história - que teve seus limites demonstrados por diversos historiadores, com 
destaque para a influência de E. P. Thompson e, de modo mais ampliado, da História Social 
do Trabalho - não pode continuar subsidiando as investigações sobre o anarquismo. Como o 
estudo de qualquer categoria política (tal como o anarquismo) remete necessariamente ao 
ambiente em que ela opera, é necessário superar a "história do pensamento político 
abstrato desenvolvido sem relação com o contexto". (Clark, 2006, p. 687)

Consideramos, também, que as abordagens ahistóricas são insuficientes para o estudo de um 
fenômeno como o anarquismo. Não consideramos adequado relacionar o anarquismo com o 
surgimento de um "espírito antiautoritário", mais ou menos ligado à natureza humana, e que 
teria se manifestado desde o início dos tempos. Concordamos com Schmidt e van der Walt 
(2009, p. 34) que o verbete sobre o anarquismo da Encyclopaedia Britannica, produzido por 
Kropotkin (1987), foi provavelmente o primeiro estudo a elaborar essa "meta-história" do 
anarquismo, e, mais do que produzir um estudo historiográfico, criou um "mito 
legitimador". Seu objetivo, assim como o entendemos, era demonstrar aos adversários do 
anarquismo que aquilo que pregavam os anarquistas não contrariava a natureza humana; e, 
para isso, ele sem dúvidas contribuiu, ao demonstrar que as manifestações autoritárias 
acompanham o desenrolar de toda a história humana. Entretanto, acreditamos que esse texto 
não pode ser considerado uma história adequada do anarquismo, visto que não analisa o 
fenômeno em seu contexto, não consegue explicar por que ele surge ou não em alguns 
contextos e não em outros, por que se destaca mais ou menos em um contexto ou em outro. 
Portanto, parece-nos bastante problemática a continuidade dessa abordagem ahistórica, que 
continua a ser utilizada.[10]

Vincular a conceituação do anarquismo às análises etimológicas, à utilização dos termos 
"anarquia" e seus derivados e à autoidentificação dos anarquistas também não nos parece 
adequado, principalmente se esses critérios forem tomados em conta isoladamente como único 
fundamento para definir quem são os anarquistas e o que é o anarquismo.

Podemos questionar a equiparação pura e simples de um termo com um fenômeno histórico, o 
que já nos parece bem problemático; um fenômeno histórico não pode ser reduzido ao termo 
utilizado para referir-se a ele. Além disso, uma análise etimológica do termo "anarquia" e 
de seus derivados só pode apontar para uma negação - do governo, do Estado, da autoridade 
-, ou seja, para elementos "destrutivos", de crítica social; o anarquismo, entretanto, 
sempre possuiu elementos construtivos, objetivos e estratégias para atingi-los. Conforme 
colocamos, a utilização histórica do termo anarquismo surge em meio ao senso comum. Mesmo 
que Proudhon tenha sido o primeiro pensador conhecido a reivindicar sua utilização 
positiva, o fato de grandes anarquistas clássicos, como Bakunin e Guillaume, terem 
utilizado os termos "anarquismo" e "anarquista/s" com reservas e, em diversos casos, se 
recusado a utilizá-los[11], parece contribuir com a nossa posição. A autoidentificação 
também não nos parece um critério adequado para tanto. Há uma tradição histórica 
anarquista, que apresenta continuidades e permanências, e consideramos que a 
autoidentificação deve ser analisada dentro dos parâmetros estabelecidos por essa 
tradição. Se uma organização ou teórico afirma ser anarquista, mas os aspectos 
fundamentais de seu pensamento e sua ação encontram-se no campo do marxismo, ela deve ser 
considerada anarquista? Parece-nos evidente que não.

Para nós, teoria e história são interdependentes; assim, uma pesquisa de anarquismo só 
pode ser adequadamente realizada se houver um conceito de anarquismo que possua respaldo 
em um conjunto de fenômenos históricos e, ao mesmo tempo, se houver uma experiência 
histórica que tenha respaldo em uma conceituação teórica adequada. No caso de Eltzbacher 
(2004, p. 292), que estava plenamente ciente dessa questão, pesquisadores considerados por 
ele comprometidos cientificamente com as investigações do anarquismo indicaram-lhe os 
"sete sábios" que foram por eles avaliados e comparados. Sua conclusão foi a seguinte: "os 
ensinamentos anarquistas têm em comum apenas uma coisa: eles negam o Estado no futuro". 
Certamente, conscientes ou não disso, as fontes de Eltzbacher, esses "pesquisadores 
comprometidos cientificamente com as investigações do anarquismo", possuíam de antemão um 
conceito de anarquismo que o colocava como sinônimo de antiestatismo. Assim, quando 
Eltzbacher os comparou, chegou inevitavelmente a essa conclusão.

Ainda assim, as conclusões do estudo de Eltzbacher poderiam ter sido melhor avaliadas 
pelos pensadores posteriores; se aqueles autores só possuem em comum a oposição ao Estado 
no futuro, e se isso não é suficiente para definir o anarquismo, pois, por exemplo, não 
permite diferenciá-lo do marxismo, necessariamente há algo de errado. Se o anarquismo é 
mais que oposição do Estado no futuro, então há "sábios" em seu estudo que não são 
anarquistas. Entretanto, isso parece não ter sido devidamente observado, pois os "sete 
sábios" continuaram presentes em grande parte dos estudos referenciais.

Os recentes estudos anteriormente apresentados também nos permitem afirmar que o 
sindicalismo de intenção revolucionária foi o maior "vetor social" histórico do 
anarquismo[12]; durante o século XX, por exemplo, a principal tarefa à qual se dedicaram 
os anarquistas foi a construção de sindicatos revolucionários e a participação nesses 
sindicatos. Portanto, ignorar as manifestações do anarquismo nos movimentos populares, em 
especial no seio do sindicalismo de intenção revolucionária, implica amputar do anarquismo 
sua principal manifestação histórica.


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