(pt) Federação Anarquista Gaúcha - FAG - Tarso, o PT e a lógica do absurdo!

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Sexta-Feira, 4 de Outubro de 2013 - 09:28:57 CEST


"Nota: A análise que divulgamos agora foi concluída na manhã do dia de hoje. Pouco após 
ser concluída, acompanhamos a grande operação da Polícia Política do governo Tarso/PT que 
encaminhou o processo dos 05 companheiros presos ilegalmente no último ato do Bloco de 
Lutas e invadiu residências de militantes do PSOL e PSTU, o Moinho Negro/Centro de Cultura 
Libertária da Azenha, o alojamento do MST, a sede da Via Campesina, o assentamento urbano 
Utopia e Luta e nosso espaço público, o Ateneu Libertário Batalha da Várzea." ---- Nas 
últimas semanas acontecimentos como a expulsão da militância organizada do PT do Bloco de 
Lutas e a greve dos trabalhadores da educação, tem novamente colocado a tona o debate 
sobre o caráter do PT e do governo Tarso. Esse debate não raras vezes da margem para 
"discussões" rasas e por vezes mais emotivas, onde a criatividade e o trapezismo retórico 
predominam em detrimento de um balanço político em torno de fatos que se intensificaram 
nos últimos meses.

Desde a ocupação da câmara de vereadores temos presenciado uma ofensiva por parte do PT e 
de sua militância em se apresentar com um discurso "de esquerda", discurso esse sempre 
visando justificar as medidas empreendidas pelo partido e o governo, silenciando as vezes, 
caluniando abertamente em outras, esse discurso também opera no intuito de sabotar e 
isolar todos aqueles que lutam com independência do governo estadual e federal, colidindo 
com os mesmos em não raras ocasiões.

Um episódio que define bem essa ofensiva por parte do PT foi a realização de um tal 
"Seminário Crise da representação e renovação da democracia no século XXI" que ocorreu nos 
dias 05 e 06 de setembro em Porto Alegre. O tal seminário sugeria promover um "amplo 
debate sobre as perspectivas de renovação das instituições democráticas no Brasil e no 
mundo, na esteira das manifestações do último mês, e seus desdobramentos no cenário 
nacional". Nas palavras de João Pedro Stédile, um dos conferencistas, um espaço de 
"dialogo com a sociedade gaúcha, com a sociedade brasileira. Em todas as suas 
representações, seja de intelectuais e pesquisadores, de mídia independente e dos 
movimentos sociais".

Entre a realização desta operação com o intuito de se lançar o PT e o governo Tarso 
enquanto referentes para a esquerda e as lutas sociais, tivemos dois casos que elucidam o 
verdadeiro caráter deste partido e governo de uma forma mais nítida que qualquer análise 
dos "ilustres dirigentes" que, com imunidade de ferro, se mostraram livres de todas as 
"doenças infantis do esquerdismo" ao irem de encontro com o governo no dito seminário. 
Falamos aqui da repressão durante as mobilizações da jornada nacional de paralisações no 
30 de agosto e a conduta em relação a greve dos trabalhadores da educação.

No 30 de agosto presenciamos o governo Tarso enviar a tropa de choque para as garagens das 
empresas de ônibus de forma a impedir a paralisação no setor além da repressão com bombas 
de gás lacrimogêneo na praça da Matriz durante a Assembléia dos Povos, quando indígenas e 
quilombolas aguardavam por uma audiência com a qual o governador havia se comprometido. No 
local, além da presença de diversos lutadores em solidariedade a esses povos, incluindo 
uma delegação de trabalhadores do CPERS-Sindicato, naquele momento já em greve, havia uma 
quantidade considerável de crianças e idosos que foram feridos por mais este ataque 
covarde da brigada militar.

A ausência de Tarso no compromisso por ele mesmo firmado, se deu em função de uma agenda 
muito mais nobre para a acumulação de forças para a "esquerda", que foi a sua presença na 
EXPOINTER, tradicional evento ruralista no estado, o qual envolve de forma direta 
transnacionais e lideranças do setor.

A "pegadinha" de Tarso no 30 de agosto e os resultados da reunião ocorrida logo em 
seguida, no dia 04 de setembro, no Ministério Público, a qual Tarso não compareceu e seus 
representantes não apresentaram medidas concretas para a titulação das terras indígenas e 
quilombolas, evidenciou o claro matrimonio entre o governo Tarso e a FARSUL na condução de 
uma política agrária que paralisa a reforma agrária, atira famílias a sua própria sorte em 
regiões sem a mínima infra estrutura, sem créditos, auxílio técnico, etc. além de violar 
sistematicamente os povos indígenas e quilombolas ao barrar a titulação de suas terras.

É lamentável identificarmos aqui que entre os responsáveis pela nefasta política de 
violação aos povos indígenas e quilombolas temos a presença da Consulta Popular, 
organização com incidência em movimentos populares do campo e na juventude. Miltom Viário, 
destacada liderança desta organização é hoje um dos assessores diretos do governador e um 
dos responsáveis pela condução das "negociações" com indígenas e quilombolas por parte do 
governo, como apontado no relatório redigido pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), 
Grupo de Apoio aos Povos Indígenas (GAPIN) e Conselho de Articulação Indígena Kaigang 
(CAIK) no dia 02 de setembro.

Se no dia 04 Tarso delegou a seus assessores a tarefa de dar a negativa da titulação de 
terras indígenas e quilombolas, no dia seguinte, pouco antes de se dirigir ao tal 
seminário sobre "crise de representações", Tarso não vacilou e parou para um café da manhã 
com a Brigada Militar em seu clube de oficiais Farrapos. O objetivo do encontro era 
elogiar, novamente, a conduta da Brigada nas jornadas de junho e se comprometer com suas 
reivindicações salariais.

Assim como os povos indígenas e quilombolas, os trabalhadores da educação do estado também 
estiveram em luta com o governo. Professores e demais funcionários da comunidade escolar 
foram à greve pela aprovação do piso nacional do magistério e pelo fim da reforma do 
ensino médio a partir do modelo politécnico, ou como bem ficou conhecido em função de sua 
intenção em formar mão de obra barata para a patronal gaúcha, o politreco.

Após ser o responsável pela elaboração da lei nacional do piso do magistério, quando 
ministro da educação, e de a ter defendido veementemente durante sua campanha eleitoral 
foi Tarso quem a ignorou de forma sistemática, se prestando inclusive ao patife papel de 
se articular com outros governadores para rebaixar seus valores, por si só já bem 
questionáveis.

Assim como os trabalhadores rodoviários, indígenas e quilombolas o diálogo encontrado 
pelos educadores em greve não foi aquele tão defendido no tal seminário ou tão comemorado 
por agentes do partido em textos publicados na rede e outros espaços. O "diálogo" 
encontrado pelos educadores foi a repressão direta quando, no dia 09 receberam bombas de 
gás lacrimogêneo e spray de pimenta ao realizarem um ato em frente a casa do governador, 
que assim que logrou dissipar o ato se apressou a pedir desculpas pelo incomodo aos 
vizinhos. Nunca é demais lembrar que cada bomba de gás lacrimogêneo custa em torno de 
R$800,00, ou seja, mais do que o salário de muitos dos trabalhadores da educação.

Para além da repressão covarde em frente a casa de Tarso, no melhor estilo de sua 
antecessora Yeda Crusius, tivemos uma vez mais a completa intransigência do governo e da 
secretaria de educação através do secretário José Clovis Azevedo que chegou a cortar o 
ponto dos trabalhadores da educação em greve, decisão que posteriormente foi revertida por 
medida judicial. Ao abordar a greve, o "progressista" secretário de educação e ex 
dirigente do CPERS-Sindicato disparou uma pérola que poderia muito bem ser atribuída a 
"analistas" da claque de Reinaldo Azevedo, ao afirmar que "A posição do CPERS é política, 
de embate permanente com o governo. Essa é a orientação dos grupos ideológicos que 
hegemonizam a entidade e não representam a maioria dos professores".

Tais lutas, que estiveram em curso em nosso Estado nestes dois últimos meses, contaram com 
uma ativa participação do Bloco de Lutas a partir de suas mais diversas comissões. Seja no 
ombro a ombro com companheiros do movimento indígena e quilombola, seja na contundente 
intervenção de sua comissão de educação, que foi capaz de dinamizar a agenda da greve, 
mobilizando professores, funcionários e secundaristas, e protagonizando atos importantes 
como a ocupação da assembléia legislativa. Em todas estas lutas brilhou a ausência de 
solidariedade por parte da militância organizada do PT que, até a ocupação da câmara de 
vereadores, estava voltada a si e suas disputas nos clássicos aparatos institucionais, 
contando com escassa, quase nula presença nas lutas que a antecederam.

Em meio a esse processo o partido desatou uma de suas operações de marketing político, 
rigorosamente elaboradas em agências publicitárias, lançando um comercial como campanha de 
filiação ao partido. De forma oportunista e demagoga, a peça busca apresentar o PT 
enquanto um grande agente organizador das jornadas de luta que vivemos ao longo deste ano, 
inserindo uma imagem de companheiros de organizações que são publicamente conhecidas como 
oposição de esquerda ao governo em uma reunião com Tarso onde lhe foi entregue a pauta de 
reivindicações do Bloco. É sempre bom recordar que enquanto esse grupo de companheiros se 
encontrava no interior do Piratini para entrega da pauta, acontecia um ato em frente ao 
palácio, ato esse que pouco após a saída dos companheiros foi dispersado pelas bombas da 
brigada que pouco depois foi elogiada pelo mesmo Tarso por sua conduta.

Para além dos referidos acontecimentos envolvendo o governo Tarso, tivemos, a poucos dias 
a reunião em caráter de urgência de Dilma com representantes do Itaú e AMBEV, 
patrocinadores da Copa que, preocupados com a possibilidade de uma nova onda de 
manifestações durante o mundial, exigiram que a presidente interviesse de forma a 
impedi-las, solicitação prontamente atendida.

O conjunto destes eventos, aliada a intervenção de uma militância que se desdobrou para 
fazer o possível e o impossível para que o Bloco de Lutas fosse uma correia de transmissão 
do partido e governo levaram, de forma inevitável, a opção em assembléia, pela expulsão da 
militância organizada do partido das instâncias do movimento. Não se trata, portanto, como 
querem fazer crer muitos que reduziram o acontecimento a um problema de fundo emocional, 
de uma expulsão pelo fato de certas pessoas terem determinada concepção política. Em nossa 
militância cotidiana lidamos diariamente com gente do povo com as mais diversas idéias e 
convicções políticas e religiosas. Esse contato cotidiano, fruto do trabalho militante, 
com gente que acredita seja em Tarso, Dilma, Lula, Serra, FHC ou quem quer que seja é algo 
muito distinto da atuação meticulosa de uma corrente, ou uma composição de correntes, 
determinada em transformar um legítimo movimento popular em correia de transmissão de um 
partido e governo que atacam ostensivamente os que ousam lutar com independência política 
e de classe.

A tese de uma possível disputa dos governos petistas e do próprio partido já não podem 
mais ser defendidas se não pela lógica do absurdo. A ardilosa engenharia do pacto social, 
meticulosamente costurado entre o governo, a patronal e burocracias sindicais e do campo 
popular, caminha, invariavelmente para uma colaboração com os de cima, ao passo que 
trabalha na fragmentação e cooptação de setores dos de baixo por um lado e o progressivo 
isolamento e repressão daqueles setores que não se submetem a tais acordos espúrios por outro.

Enquanto "crises de representações" e "renovação da democracia" são discutidas em algum 
fantástico mundo de gente livre de "doenças infantis", de forma sórdida e já não mais as 
escuras, este mesmo governo e partido reafirma e intensifica o domínio estrutural dos cima 
no cenário político e econômico do país e do estado, ainda que para tanto tenha que 
recorrer de forma sistemática ao aparato repressivo.

O faz, é bom frisar, em um cenário de fragmentação e cooptação de instrumentos de luta dos 
de baixo, muitos dos quais já paralisados pela burocratização. Esse processo tem afirmado 
cada vez mais o personalismo e por vezes o culto a personalidade de certos dirigentes, 
assim como a conversão de muitos dos então instrumentos de luta dos de baixo em 
instrumentos agentes dos de cima, cenário propício para um avanço do conservadorismo, seja 
no senso comum, seja em estruturas organizativas dada a ausência de força social para 
disputar uma agenda a esquerda.

Ao nosso ver os eventos que sucederam nos últimos 02 meses só fazem reafirmar que certas 
representações não tenham crise alguma; são claras, evidentes e politicamente convictas. 
Haja trapezismo retórico e demagogia para justificá-los.

Resta a todos nós, militantes de base dos mais distintos setores não nos dobrarmos frente 
a tais desmandos, fortalecendo nossos instrumentos organizativos a partir de uma sólida 
independência política e de classe.

Não passarão!
Não ta morto quem peleia!

Porto Alegre, 01 de Outubro de 2013.

Tarso, o PT e a lógica do absurdo!
Fonte: http://batalhadavarzea.blogspot.com.br/2013/10/tarso-o-pt-e-logica-do-absurdo.html

-- 
Federação Anarquista Gaúcha - FAG
Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira - CAB


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