(pt) Uniao Popular Anarquista - UNIPA - Causa do Povo #68 - Viva o Levante Popular: a juventude combativa e o ascenso da luta de massas no Brasil!

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Domingo, 24 de Novembro de 2013 - 08:54:57 CET


Os protestos populares nas diferentes regiões (Rio Grande do Sul, Goiânia, São Paulo e 
depois Rio de Janeiro e Brasília) que tomaram por tema a luta contra o preço dos 
transportes se apresentam como o principal elemento de conjuntura dos últimos oito anos. 
Eles representam um desafio prático e teórico ao movimento revolucionário. Quais suas 
causas? Quais os seus sujeitos? Ele é um movimento "novo"? Ele representa uma oposição 
"total" aos movimentos anteriores? Eles são compatíveis com a democracia? Qual a real 
agenda dos movimentos? ---- Em primeiro lugar temos de situar historicamente os protestos. 
Podemos dizer que o Governo Lula teve instrumentos de contenção dos movimentos sociais. 
Tanto macroeconômicos quanto políticos, de cooptação. A partir da posse de Dilma esses 
instrumentos entraram em processo de deterioração. As lutas dos operários das grandes 
obras, as lutas dos indígenas. Depois a grande greve do funcionalismo público e das 
universidades de 2012. A greve das universidades e a participação do movimento estudantil 
na luta contra o Governo Dilma preparou em parte o terreno para as lutas que eclodiriam em 
2013. Muitos militantes de hoje foram formados nessas jornadas.

A mídia burguesa e os pseudocientistas sociais tentam, atônitos, explicar o surgimento das 
mobilizações. Somente eles achavam que a sociedade estava parada ou contemplada no Governo 
do PT. E tentam anular os sujeitos coletivos e criar uma mistificação de que os movimentos 
surgiram pelas "redes sociais". As redes sociais foram um meio fundamental. Mas não foram 
o sujeito principal.

Nesse sentido, podemos dizer que dois componentes se combinaram. De um lado, uma mudança 
no campo governista, de direção. A UNE e FOE-UNE resolveram romper com sua política de 
amarrar o movimento estudantil e levar os estudantes para as ruas. De outro, uma mudança 
nas bases, vários militantes e coletivos independentes e alguns vinculados a partidos de 
esquerda, confluíram para as mobilizações. Dessa maneira, não existe um movimento 
totalmente "novo", nem é uma mera replicação do movimento estudantil. O movimento 
estudantil está apresentando antecipadamente uma crise interna entre o Governo do PT e 
suas bases sociais já ensaiada em 2012. No ano passado vimos a primeiro choque entre a 
articulação partidária /Governo Federal e a articulação sindical da CUT. Esse ano vemos o 
choque entre o PCdoB e suas organizações de massa, a UNE e o Governo Dilma. Ou seja, o 
campo governista começa a refletir as contradições.

Mas a combinação dessas mudanças de direção e das bases explicam o caráter nacional dos 
atos. Não explica nem sua dimensão qualitativa nem a dinâmica, que foi completamente 
imprevisível e que dependeu da entrada em cena de um único fator: a juventude trabalhadora 
e universitária e setores não-organizados (e logo, não tutelados pelo governismo e pelo 
para-governismo). As redes sociais foram o meio de se chegar a esses setores. Não foram o 
sujeito. É difícil definir causas, mas atos cresceram em participação conforme cresceram 
em radicalização e repressão.

A ideia de anular os sujeitos coletivos, múltiplos e plurais que existem não é ingênua. 
Ela apenas reforça ideia de que os trabalhadores não se organizam, são incapazes. Ou o 
capital (a tecnologia da internet) e o individuo (redes sociais), é sujeito ou procura um 
sujeito centralizado, formalizado. O trabalhador e suas formas coletivas locais e 
particulares são apagados da história. O fetiche tecnológico faz parte da campanha 
ideológica da burguesia de negar a existência da ação de massas.

Mas sendo espontâneos e organizados simultaneamente, organizados porque espontâneos e 
espontâneos porque auto-organizados, os atos não foram efetivamente dirigidos em sua 
plenitude por nenhuma força política. E é exatamente por isso que eles assumiram 
progressivamente a dimensão combativa e depois de levante popular nos dia 16, 17 e 18 de 
junho, com a tentativa de protesto nos estádios (RJ e DF) e com a tentativa de ocupação do 
Congresso Nacional, a ocupação da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) e 
depois da prefeitura de São Paulo. O que isso significa? Vandalismo contra bens públicos? 
Contra o patrimônio histórico?

Os atos foram direcionados para dois alvos principais: os megaeventos, ou seja, o modelo 
desenvolvimentista do PT e contra os núcleos do poder estatal. Devemos fazer uma análise 
dos acontecimentos e questionar a campanha burguesa de criminalização da ação direta 
popular. Devemos situar a eclosão dos protestos violentos no quadro histórico recente.

A juventude trabalhadora e estudantil tem sofrido com a perseguição política e a violência 
da PM nas periferias do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília (devemos lembrar que um 
estudante foi assassinado em Brasília em 2013 numa blitz e da repressão brutal dentro da 
USP). Mas, além disso, a primeira tentativa de construir atos "pacíficos" com a palavra de 
ordem "sem violência" lançada pelos reformistas foi desastrosa. A violência foi iniciativa 
da polícia.

Qual foi a estratégia do discurso da mídia corporativa? Procurar um "ataque inicial" que 
possa justificar a repressão e colocar a atuação da política como uma resposta à 
violência. Mas além da repressão que poderíamos usar para questionar esse discurso, 
existem ainda várias ações específicas nos últimos meses: 1) assassinatos e prisões de 
jovens e estudantes em várias partes do Brasil; 2) o desalojamento violento da Aldeia 
Maracanã no Rio de Janeiro no primeiro semestre; 3) as ações de abuso policial nos 
primeiros dias de protesto. Ou seja, a violência estava dada. O que faltava era a 
resistência. E ela surgiu.

Os setores das massas marginais às organizações e ao sistema político se organizaram em 
pequenos grupos e individualmente. Centenas de pequenos grupos de estudantes e 
trabalhadores se formaram no ato do Rio de Janeiro. Não somente para enfrentar nas ruas, 
mas os grupos de advogados e médicos que se formaram para apoiar a luta. As organizações 
políticas como a UNIPA e outras, eram um universo pequeno dentro de outra força da qual 
ela faz parte, mas que não se encontra organizada, ou melhor, que está se auto-organizando 
para a resistência e para a reivindicação social e política. E é claro que o movimento é 
heterogêneo na sua composição e expressão ideológica, que ainda não está definida. Mas 
esse é seu maior desafio e maior virtude.

A tomada da ALERJ em 18 de junho expressou o desejo de luta de todos. De todos os que 
sofrem e morrem nos hospitais públicos. Os que sofrem nos transportes públicos. Os que 
sofrem nas mãos da polícia e do Estado. Os "vândalos", as "classes perigosas", os 
indesejáveis sempre estiveram ai. Eles estavam sussurrando, através do voto nulo, através 
da resistência passiva. E agora passaram a ação. E na ação eles se defrontam com a 
violência do Estado e a violência simbólica dos jornalistas e pseudocientistas. E 
certamente esse processo, amadurecendo e se desenvolvendo, será o fator fundamental da 
conjuntura política.

1 - A Luta contra a reação: classismo e luta entre reforma x revolução

Os protestos populares provocaram uma rápida reação da burguesia: a criminalização. Eles 
taxaram o movimento de "baderna" nos primeiros dias e convocaram a repressão. A 
brutalidade policial e o apoio popular levaram, primeiramente, às contradições e depois a 
uma mudança de linha. A burguesia, o Estado e a mídia corporativa criaram a polarização 
entre "vandalismo x movimento pacífico".

De maneira geral, essa polarização é aceita como base dos próprios partidos reformistas. 
Daí o fato de rapidamente o PSTU, o PSOL, PT e PCdoB fazerem coro com a rede Globo e o 
Governo Federal. Dessa maneira, a agenda política dos Partidos reformistas é aquela da 
mídia corporativa e do Estado e isso ajuda a aumentar a antipatia e antagonismo entre 
essas manifestações autônomas e as organizações partidárias. Por quê?

Porque essa é uma falsa contradição. Porque essa contradição é vazia? A propaganda é a 
política por outros meios. A política expressa nesses conceitos é a política da reação. 
Quem ataca, quebra não está apenas quebrando objetos. Está atacando os símbolos e 
conceitos da dominação burguesa. Responde com violência simbólica e a violência simbólica 
e real de 500 anos de opressão.

O discurso contra o vandalismo é uma forma de violência simbólica contra o povo, contra a 
juventude pobre e trabalhadores precarizados. Porque os atos dos manifestantes foram 
taxados de vandalismo? Porque eles atingem e questionam o núcleo do poder reacionário. Em 
primeiro lugar, eles constituem uma manifestação espontânea de um povo julgado incapaz, 
passivo. Em segundo lugar, os atos têm alvos específicos: bancos, propriedades públicas 
que representam o poder de Estado e história de exploração. E por fim os levantes foram 
direcionados para o poder legislativo e executivo, ou seja, para o foco de todo movimento 
revolucionário. A falsa contradição, portanto, visa despolitizar um movimento que 
questiona os fundamentos do poder reacionário em atos de resistência de massas.

Porque podemos falar da violência simbólica? Porque ela apenas reforça a legitimidade do 
Estado, dos governos e dos empresários e caminha de mãos dadas com a violência 
policial-militar. Ao criar essa falsa contradição, se pretende criar a divisão no 
movimento de massas entre um setor que pode ser legitimamente alvo da repressão e outro 
que não. Um setor que é ator político legítimo e outro que não. A reação está se 
organizando para defender: 1) o caráter absoluto e inquestionável da propriedade privada; 
2) a legitimidade absoluta do Estado e de seus atos, e mesmo os mais violentos e 
arbitrários. A reação, representada pelo capital monopolista, pelo Estado e pela coalizão 
partidária no poder precisa então ganhar a sociedade para esse discurso. A campanha contra 
o vandalismo é apenas farsa. A defesa do patrimônio histórico também.

Por que o capital pode demolir o Maracanã, patrimônio histórico? Por que o Museu do Índio 
pode ser demolido, desalojando os indígenas e não é considerado patrimônmio histórico? Por 
que o Estado pode demolir o Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro, o IASERJ? Por que a 
floresta amazônica pode ser destruída pela Usina de Belo Monte em nome do capital? O 
capital pode destruir tudo. Está destruindo tudo. O levante popular não está destruindo 
nada além dos obstáculos a sua própria ação criativa. Não lutamos só pelo bem "público". 
Lutamos para definir o conceito de bem público. E não respeitamos os conceitos da reação. 
Pois não há como combater a reação sem combater esse discurso e sua violência simbólica e 
física.

Qual é a contradição do movimento de massas? Ou seja, existe no interior da classe 
trabalhadora e juventude uma diferença entre as concepções e estratégias de luta dos 
revolucionários e dos reformistas. Entretanto, quando um setor que supostamente defende as 
reformas se alinha ao bloco reacionário, à mídia corporativa, significa que está abdicando 
do princípio básico da unidade de ação de classe trabalhadora frente à reação. E este é o 
desafio. Os partidos reformistas devem ou renunciar a seu comportamento de alinhamento com 
o discurso de denuncia o vandalismo e, consequentemente, defender incondicionalmente os 
protestos populares ou passar definitivamente ao lado da reação. A contradição entre 
reforma e revolução se apresenta hoje no movimento da seguinte maneira: os reformistas 
ficam do lado do povo e fazem sua defesa dentro dos órgãos legítimos dos trabalhadores, ou 
denunciam a massa e passam à reação.

Diante da eclosão do movimento de massas conclamamos a unidade a todos. Mas sabemos que o 
reformismo está cada vez mais numa relação de promiscuidade com a reação. A tarefa dos 
militantes sinceros e eventualmente equivocados é rever essa linha. O inimigo é o Estado e 
o Capital, e os pilares da reação, a polícia, a força nacional e os governos. A discussão 
sobre o método e estratégia não deve romper à unidade geral da classe frente à reação. 
Trair essa unidade é trair ao próprio povo. Dessa maneira, devemos opor a contrarrevolução 
e reação o método revolucionário. A ação direta de massas e a greve geral.

Por isso fazemos uma saudação à juventude combativa do Brasil. Levamos uma saudação todos 
os trabalhadores e estudantes que enfrentam à violência física e simbólica. E dizemos que 
estamos juntos nas linhas das barricadas. Mas a nossa tarefa é levar uma política e uma 
palavra de ordem revolucionária. A política é: organizando para desorganizar a reação, 
desorganizando a reação para organizar a revolução. É preciso avançar nas mobilizações e 
garantir a autonomia e ação direta de classe.

Anarquismo é Luta!

UNIPA - União Popular Anarquista


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