(pt) As eleições chilenas e as degenerações na teoria e prática do anarco-comunismo - Publicado por União Popular Anarquista - UNIPA - Brasil (en)

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Quinta-Feira, 21 de Novembro de 2013 - 15:01:05 CET


Comunicado Nº 37 da União Popular Anarquista - UNIPA - Brasil, novembro de 2013. ---- 
"(...) O que é certo para mim é que hoje já não há piores inimigos do povo do que os que 
procuram desviá-lo da revolução social, a única que pode lhe dar a verdadeira liberdade, a 
justiça e o bem estar, para o arrastar novamente para as experiências enganosas destas 
reformas ou destas revoluções exclusivamente políticas, das quais ele foi sempre o 
instrumento, a vitima e o papalvo." ---- Mikhail Bakunin ---- O Chile viverá no próximo 
dia 17 de novembro sua eleição presidencial, marcada pela concorrência de oito candidatos 
e pela polarização entre a coligação abertamente de direita "Alianza" (UDI, RN) e os 
oportunistas de centro-esquerda "Nueva Mayoria" (DC, PRSD, PPD, PS, PC).

Frente a essa conjuntura uma série de intelectuais ligados as organizações 
anarco-comunistas autodenominadas "especifistas" iniciaram um debate acerca de sua relação 
com o Estado e a esquerda chilena. Carentes de uma teoria revolucionária o resultado não 
poderia ter sido mais desastroso: a organização Red Libertária declarou apoio ao candidato 
Marcel Claude (Partido Humanista) da coligação Todos a la Moneda[1], e a organização 
Frente de Estudantes Libertários (FEL) também não tardou em apoiar a linha política da Red 
Libertária[2].

Porém, não devemos entender este posicionamento como uma mera traição ou desvio de conduta 
e sim como expressão de um processo histórico de profundo revisionismo em nossa corrente 
proletária anarquista, e que a alguns anos (ao passo que os conflitos de classe se 
agudizaram) estão novamente demonstrando suas principais debilidades. Também o documento 
"A democracia de massas: uma aposta libertária para o período atual" do Centro de Estudos 
Libertários[3], lançado no meio do ano de 2013, é categórico ao demonstrar que, se por um 
lado o especifismo chileno conseguiu ampliar sua presença no movimento de massas, por 
outro lado, a inconsistência teórico-estratégica deste já se desenvolvia em uma clara 
degeneração reformista.

Os também recentes documentos da Federação Anarquista Uruguaia (FAU) e da Federação 
Anarquista Revolucionária da Venezuela (FARV) em apoio ao nacional-populista Hugo Chávez e 
ao bolivarianismo, bem como o apoio eleitoral da FARV aos candidatos bolivarianos, são 
apenas alguns dos exemplos que nos mostram que o processo geral de degeneração do 
especifismo não é de hoje. É por esse motivo que o recente apoio da Red Libertária ao 
candidato Marcel Claude não surpreende os bakuninistas, apenas reforça a necessidade 
histórica de ruptura com o revisionismo. O desenvolvimento atual da luta de classes exige 
de nossa corrente uma postura firme e cada vez mais comprometida com a causa da revolução 
e o rechaço de novas capitulações, políticas e ideológicas.

Além disso, o que também surpreende no apoio eleitoral da Red Libertária e da FEL à 
coligação "Todos a la Moneda" é o grau avançado de colaboracionismo de classe. Ainda que 
os especifistas afirmem retoricamente em seus documentos que "a disputa eleitoral não é 
prioritária", ou que o fundamental é constituir um "grande bloco de classe", a coligação 
"Todos a la Moneda" não corresponde definitivamente com essas intenções (e para nós 
materialistas vale mais os fatos do que mil palavras!). Tal como afirma o documento "8 
Eixos Transversais" da campanha de Marcel Claude:

Propomos um sistema de economia mista que ponha como máximo valor o ser humano e não a 
auto-regulação do mercado, que equipare a relação entre o trabalho e o capital, entregando 
garantias para condições de vida dignas a todos os cidadãos que vivam no país, que permita 
uma adequada distribuição de renda, que potencialize o desenvolvimento da indústria 
nacional e da pequena e média empresa, que defina o papel do Estado como garantidor da 
igualdade de oportunidades para trabalhadores e empresas produtivas frente ao grande 
capital especulativo.[4]

A declaração eleitoral não deixa dúvidas quanto a defesa de um política 
nacional-desenvolvimentista, em defesa da aliança com a burguesia e, consequentemente, da 
"harmonia entre capital e trabalho". No mesmo programa eleitoral a questão econômica 
aparece da seguinte maneira: "Se trata de un modelo económico que promueva el bienestar 
para todos los habitantes del país, la solidaridad y la cooperación e intercambio entre 
trabajadores, empresarios y el Estado". O conflito de classes como fundamento determinante 
da revolução (historicamente defendido pelos bakuninistas e pelo sindicalismo 
revolucionário) foi abandonado em prol de coligações nacionalistas e com a esquerda 
reformista, reproduzindo o mito do Estado protetor e provedor de direitos 
(intervencionismo), caindo no falso antagonismo entre o "grande capital especulativo" em 
prol do desenvolvimento da burguesia "produtiva" e "nacional". Ora, mas isso não é 
organização autônoma da classe trabalhadora! Isso é colocar o proletariado novamente refém 
de um projeto histórico da burguesia, reforçando o aparato do Estado e as piores ilusões 
reformistas.

A FEL ainda afirma que a coligação Todos a la Moneda: "abre a possibilidade para construir 
um movimento político e social amplo posterior às eleições presidenciais", ou seja, além 
de verem a atuação nesta coligação eleitoral como uma tática possível, elevam-na à 
política estratégica de "Frente Ampla". Retomaremos esse ponto mais a frente.

Mas o que é importante dessa questão desde um ponto de vista revolucionário? A questão é 
que existe uma diferença muito grande entre uma política anti-hegemônica e uma política 
anti-sistêmica. Já havíamos respondido a essa questão quando debatemos porque o "Chavismo" 
não poderia ser uma alternativa para a revolução proletária. Como já havíamos definido:

"A primeira [anti-hegemônica] diz respeito a modelos de desenvolvimento capitalista que 
não se adéquam aos objetivos dos Estados e potências imperialistas hegemônicos, mas que 
não questionam os fundamentos econômicos do imperialismo (basicamente, oscilam entre 
intervencionismo e liberalismo econômico). A segunda política, anti-sistêmica, abala não 
somente os interesses das potências hegemônicas, mas as bases econômicas do imperialismo e 
logo a economia capitalista e do conjunto do sistema interestatal. Nesse sentido, a 
política anti-hegemônica é uma politica que expressa no sistema interestatal os conflitos 
intraclasse da burguesia. Exemplos históricos foram os governos nacionalistas e políticas 
nacionalistas da América Latina "desenvolvimentistas", que eram anti-hegemônicas porque 
tentavam modificar as bases do "subdesenvolvimento" que atendiam aos interesses dos EUA."[5]

É aí que se encontra o cerne de nossa crítica ao revisionismo chileno: exatamente nestas 
conjunturas mundiais em que a burguesia busca se recriar frente ao avanço das crises do 
capitalismo e do aprofundamento do conflito de classes, os revisionistas (e demais 
organizações reformistas e oportunistas) mais uma vez se apresentam como força de apoio às 
"novas" alternativas burguesas. Apesar da baixa probabilidade de vitória do "Todos a la 
Modena", a política dos especifistas chilenos faz um desserviço para o desenvolvimento da 
consciência e organização autônoma da classe trabalhadora. Mais ainda, a posição da Red 
Libertária e FEL-Chile reeditam antecipadamente as piores derrotas que o anarquismo sofreu 
no século XX, vítima do revisionismo em nossas fileiras. A história se repete como farsa.

O bolivarianismo e a disputa do Estado burguês: a "Ruptura Democrática"

Como dissemos, esse posicionamento do revisionismo chileno não é algo ocasional. As bases 
teóricas e práticas já estavam sendo a algum tempo desenvolvidas e, vale ressaltar, sob o 
silêncio de grande parte do "movimento libertário". Nesse sentido, um importante documento 
foi "A democracia de massas: uma aposta libertária para o período atual" do Centro de 
Estudos Libertários, onde está expresso um desenvolvimento teórico mais claro no sentido 
de ruptura com o anarquismo e defesa do revisionismo e do reformismo.

O documento inicia citando o Chavismo enquanto um exemplo de processo revolucionário, 
citando para tal uma declaração do ex-ministro do governo venezuelano, Rolando Denis, do 
qual reproduzimos um trecho: "O processo de cooptação jamais foi um processo total (...). 
Sempre ficam resquícios dentro dessa realidade desde os quais se pode ir desenvolvendo uma 
experiência de autonomia, de autogestão, de auto-governo. (...) Evidentemente não será 
fácil pela própria composição orgânica do que é nossa sociedade, quer dizer, uma sociedade 
clientelista que necessita permanentemente do Estado." Para o ministro (e para a Red 
Libertaria) as dificuldades da revolução bolivariana estão na sociedade venezuelana que é 
clientelista em relação ao Estado, e não na natureza de classe do Estado e na sua 
característica intrínseca de tutela e repressão sobre as massas trabalhadoras.

É fundamental pontuar aqui a semelhança desta defesa de democratização interna da 
estrutura estatal-capitalista com a análise feita pelo anarco-comunista renegado Diego 
Abad Santilán (1897-1983) quando este afirma que "Primeiro: [...] o capitalismo não é mais 
uma massa uniforme e petrificada, é um conjunto de atitude e de categorias que não se 
mostra sempre solidária nem sequer frente aos adversários comuns; (...) Terceiro: 
Resumindo, achamos que hoje importa muita mais a luta contra o totalitarismo estatal que 
contra o sistema capitalista que já mostra fissuras suficientes para que o espírito de 
iniciativa e desejo criador podem praticar formas de vida econômica não-capitalista". 
Santilán nesse texto expressa o resultado final de sua política reformista na CNT de 
composição dos ministérios burgueses durante a Guerra Civil Espanhola. Demostra assim dois 
elementos históricos do reformismo anarco-comunista: a) A ideia de revolução é moral e 
cultural (combater a sociedade clientelista é o maior problema e não destruir o próprio 
Estado venezuelano e expropriar a burguesia); b) Ambos vislumbram a construção de "espaços 
libertários" de "coexistência pacífica" com o capitalismo ou o Estado (no caso o 
venezuelano e chileno).

Nesse sentido, a palavra de ordem que vem mobilizando o reformismo libertário chileno é o 
de "Ruptura Democrática", que perpassa o processo de luta pela integração dos movimentos 
populares ao Estado via a estratégia da democratização e reforma de seus espaços internos 
num processo continuo que avançaria até o Poder Popular. O conceito de Ruptura Democrática 
não a toa aparece claramente em oposição à Ruptura Revolucionária, e não é uma modificação 
meramente formal, mas principalmente de conteúdo. O documento busca a todo o momento 
expressar uma crítica às posições "sectárias", "esquerdistas" (especialmente aquelas que 
defenderam a via da luta armada) e defender uma política de "alianças amplas" e "táticas 
flexíveis" como marcas da "nova" proposta. O que o documento busca ressaltar obviamente é 
a possibilidade de que, mesmo no interior do Estado burguês e suas instituições, é 
possível ir modificando paulatinamente ("democraticamente") a realidade através de 
"experiências" de autonomia, autogestão, etc. dentro e fora do Estado, como se o problema 
central da revolução fosse cultural e educacional. Em um momento o texto deixa mais clara 
suas pretensões:

(...) é necessário que este posicionamento político se erga a partir de uma continua 
experiência prática, apostando na disputa do Estado com todo o poder possível na medida 
que as organizações populares se fortaleçam; a transformação econômica não pode 
realizar-se sem modificar de forma radical o modo pelo qual se tomam as decisões, e para 
isto as massas devem educar-se politicamente, tanto com a teoria como com a prática.

Aqui estão expressos dois elementos fundamentais do revisionismo chileno: 1º) A mudança 
política, através de reformas com o objetivo de democratização do Estado, deve preceder as 
mudanças econômicas, sendo uma condição para tal. É claro que a destruição das relações 
econômicas capitalistas só serão efetivadas em âmbito geral através da destruição do 
Estado (enquanto órgão de dominação de classe) e construção do Poder Popular, porém, 
dialeticamente, o povo trabalhador só exercerá efetivamente o seu autogoverno com a 
destruição das desigualdades econômicas e sociais, caso contrário, o povo se manterá 
vítima da opressão/exploração diária enquanto os partidos políticos e as burocracias 
sindicais traficam em nome dos seus interesses. Ou seja, a premissa revisionista acima 
nega o programa bakuninista de revolução integral (econômica, política e cultural) como 
condição para emancipação dos trabalhadores e como fundamento teórico dialético para 
compreensão das tarefas revolucionárias. Adota-se descaradamente um programa reformista e 
etapista, que caminha necessariamente para a colaboração de classes dentro das esferas do 
Estado, através de governos e "frentes amplas";

2º) Por sua vez, a transformação nas formas de decisão política aparecem como uma tarefa 
centralmente de mudança de consciência, na cultura e na educação. A "revolução" não é 
vista como fruto do conflito direto e sem trégua entre burguesia e proletariado, em que 
este último acumula forças no sentido da expropriação econômica e destruição das 
instituições políticas estatais para construção do socialismo e do auto-governo. A 
"revolução" é vista por um viés idealista (educacionista e culturalista) onde caberia aos 
libertários propagandear suas ideias e modificar a cultura de participação da "sociedade 
civil".

Vemos, portanto, que na Ruptura Democrática a socialdemocracia e o bolivarianismo 
nacional-desenvolvimentista são em geral reeditados sob outros nomes (e com uma linguagem 
e aparência "libertária"). A estratégia revolucionária anarquista perpassa ao contrário, 
pela luta reivindicativa sim, mas num processo continuado de enfretamento ao Estado e a 
burguesia visando constituir uma situação de duplo poder e luta armada de massas, e não de 
integração "democrática" e alianças de classe. A importância estratégica da greve geral e 
da violência de massas (da ginástica insurrecional), partes integrantes da política 
anarquista, não são sequer consideradas como elementos definidores nas análises de 
conjuntura e escolhas táticas dos "libertários" chilenos.

A via reformista e a via revolucionária: o debate sobre a guerra civil espanhola e a 
política de Frente Popular

"As revoluções não são um jogo de crianças, nem um debate acadêmico em que as vaidades se 
matam umas às outras, nem um torneio literário onde só se derrama tinta. A revolução é 
guerra, e quem diz guerra diz destruição dos homens e das coisas. Sem dúvida que é uma 
pena que a humanidade ainda não tenha inventado um meio mais pacífico de progresso, mas 
até hoje qualquer passo novo na história só foi realizado na realidade depois de ter 
recebido o batismo de sangue."

Mikhail Bakunin

O próximo passo do documento "A democracia de massas..." revela sua face mais funesta. Os 
autores fazem uma defesa sem reservas da política de Frente Popular da União Soviética na 
década de 30, apontando as orientações deste período da Internacional Comunista como um 
ótimo exemplo de política de alianças, defendendo ser necessário reunir sob o programa dos 
trabalhadores amplos setores, inclusive burgueses, para combater a direita. A política da 
Frente Popular na Espanha expressou exatamente a capitulação da CNT frente ao Governo 
Republicano burguês, considerado progressista pelos ministerialistas em 1936. Aquestão é 
que, dado o ecletismo teórico próprio da proposta "especifista", os posicionamentos sobre 
a capitulação dos dirigentes da CNT durante a guerra civil espanhola é sintomático já que 
não apenas foi saudado pelos revisionistas chilenos e argentinos como um exemplo de 
"maturidade política", como também foi utilizado pela FARV como argumentação para sua 
participação nas eleições venezuelanas[6].

Tal análise revisionista da possibilidade de apoio a "Governos Progressistas" produz a 
seguinte resposta para a conjuntura: "Mas o que nos leva a pensar no aproveitamento que 
podemos realizar da relativa ampliação que existirá no futuro governo concertacionista no 
país. Governo que, a diferença do lapso direitista que termina, pode nos permitir 
aproveitar de uma maneira antes impensada os espaços e lutas democráticas." A brecha para 
a política de colaboração está aberta. A CNT precisou de milhares de presos e uma 
conjuntura pré-revolucionária para capitular, os "libertários" chilenos estão indicando os 
vícios reformistas muito antes. Além disso, a eleição é colocada como fato que elevará a 
luta a patamares "impensados". Mais abaixo, no mesmo parágrafo, saudará como elemento 
positivo a entrada do PC na coalização partidária Nueva Mayoría (ex-Concertacion), o que 
para eles elevará o grau de disputa das massas sobre o Governo. Não tardou para a Red 
Libertária chegar a conclusão que a criação de um partido libertário eleitoral seja mais 
efetivo do que esperar que o PC defenda as massas dentro do Governo.

Dois desafios para o próximo período apontados pelo texto são sintomáticos: a) Vanguarda 
compartilhada; b) Frente Unida de Esquerda. Os dois pontos estão intimamente relacionados. 
No primeiro deles, ao querer se diferenciar da proposta de partido único leninista (mas 
não da Frente Popular de Stalin!) caem em uma política de cúpulas e rebaixada, na qual o 
poder futuro seria compartilhado entre os diversos partidos de esquerda, sem que, no 
entanto, o texto faça qualquer diferenciação de conteúdo político (reformistas, 
revolucionários) ou de classe (burgueses, pequeno-burgueses, proletários) dessa futura 
"vanguarda compartilhada". Pra justificar essa posição, criticam tanto a concepção do 
partido único leninista quanto retomam o mito da guerra civil espanhola sobre uma possível 
"ditadura anarquista": "devemos deixar de lado os sonhos sobre revoluções com um programa 
completamente anarquista, na qual o Estado é dissolvido e existe uma única força hegemônica".

Está claro para os anarquistas revolucionários que tal mito revisionista da "ditadura 
anarquista" não passa de um desvio covarde e pequeno-burguês em relação a natureza de 
classe do processo revolucionário. Em nossa visão o poder revolucionário não deve estar 
baseado em uma coalizão de partidos de esquerda e sim no poder das organizações de base 
dos trabalhadores, nos conselhos, sindicatos, comitês etc. A vanguarda será das 
organizações revolucionárias que tenham apoio nas massas, sejam quantas forem, uma ou dez. 
Além disso, recorrentemente as coalizões entre a esquerda ou "setores progressistas" (como 
na Frente Popular) foram responsáveis pela capitulação e não pelo avanço da luta 
revolucionária. A revolução representou na maioria dos casos a ruptura com estas 
coalizões, tal como foi no caso russo. A Revolução de Outubro foi a ruptura com o Governo 
Provisório, espaço de coalizão entre a esquerda republicana e a burguesia.

Para fundamentar sua proposta política de alianças flexíveis com distintas classes e 
setores o texto afirma que a política de "classe contra classe" dos primeiros anos da 
União Soviética seria a responsável pela vitória do nazismo na Alemanha e fascismo na 
Itália. Discordamos terminantemente desta análise! A vitória do fascismo não foi fruto de 
uma política "classe contra classe", e sim da incapacidade dos partidos socialdemocratas e 
comunistas darem respostas frente ao aprofundamento da luta de classes internacional, dado 
suas burocratizações e tradições reformista-legalistas. Apesar de todas as nossas 
divergências, Trotsky faz uma análise importante sobre o papel da socialdemocracia no 
avanço do fascismo: "A situação era completamente diferente na Alemanha, onde a direção 
pertencia a poderosos partidos, contando um deles com 70 anos de existência e outro com 
cerca de 15. Esses dois partidos, que possuíam milhões de eleitores, encontraram-se 
moralmente paralisados antes da luta e renderam-se sem combate. Jamais houve na História 
semelhante catástrofe. O proletariado alemão não foi derrotado pelo inimigo em um combate: 
foi abatido pela covardia, abjeção e traição de seus próprios partidos. Não é de se 
espantar que tenham perdido a fé em tudo o que estava habituado a crer a quase três 
gerações. A vitória de Hitler, por sua vez, reforçou Mussoline".[7]


Os anarquistas devem atuar junto as massas para aprofundar o conflito de classes! (Foto: 
Chile)

É importante explorar esse debate não apenas como análise conjuntural ou "tática" (como 
alguns nos querem fazer entender) pois a concepção dos "libertários" chilenos faz uma 
completa inversão dos fatores da luta de classes, elevando o fator da Conciliação sobre o 
Conflito, e isso representa uma profunda revisão na teoria anarquista de Bakunin, Makhno, 
Archinov, Jaime Balius e tantos outros. Seria o mesmo dizer que a derrota do proletariado 
francês na guerra franco-prussiana (1870-71) foi oriunda da linha de ruptura com o 
republicanismo, quando ao contrário, a derrota teve suas causas na ruptura tardia dos 
operários e camponeses com a burguesia republicana "progressista", nem um pouco 
interessada em arcar com os desafios de armar o povo contra a invasão estrangeira e se ver 
diante da própria revolução social em marcha. Foi dessa forma que Bakunin apontou neste 
período que o único caminho para o proletariado francês era realizar a revolução social 
conjuntamente com a guerra contra a invasão prussiana, ou seja, transformar a guerra 
imperialista em guerra civil revolucionária. O mesmo foi proposto pelo grupo Amigos de 
Durruti em 1936 quando defenderam que a guerra contra o fascismo não deveria ser separada 
da revolução espanhola. Fazer a revolução na Espanha naquele momento significava romper 
com os Comitês AntiFascistas, espaços que reuniam setores da burguesia republicana e da 
esquerda espanhola, que se opunham a coletivização e boicotavam o armamento geral dos 
trabalhadores.

Na Espanha, a CNT compôs e apoiou o "Governo Provisório" ao invés de destruí-lo sob o 
poder das massas. Ou seja, a CNT optou por fazer a guerra contra o fascismo e não a 
revolução social, tudo em nome da "unidade da esquerda" contra o inimigo de direita. Mas 
foi exatamente essa política de separação entre Guerra e Revolução (tendo como 
consequencia o colaboracionismo), somado a sabotagem burguesa e stalinista (que não foram 
combatidas para manter a "unidade"), que levaram a derrota histórica dos trabalhadores 
espanhóis. A guerra e a revolução foram derrotadas pela colaboração de classes.

Outro exemplo é a Revolução Russa. Em 1917 os mencheviques e SR's clamavam pela unidade em 
primeiro lugar para vencer a primeira guerra mundial para depois fazer a revolução 
socialista, situação que levou a revolução de outubro ser acusada de dividir a Rússia 
"progressista" frente ao Imperialismo Alemão. Porém, apoiado no poder revolucionário dos 
sovietes, o povo não apenas venceu a burguesia interna como o próprio imperialismo. Ao 
contrário do que se possa pensar, os bolcheviques quando rompem com a "Coalizão de 
Esquerda" não estavam sendo sectários, estavam se apoiando na força das massas, da 
influencia que tinham nos sovietes, se aliando com o povo contra os demais partidos que se 
opunham ao poder das massas revolucionárias. Essa política foi fruto do movimento de 
massas que se radicalizava e do combate à socialdemocracia operada por Lênin[8], que 
criticou parcialmente (em 1917) o etapismo dos mencheviques que queriam apenas uma 
república burguesa. Após a Revolução de Outubro o etapismo é retomado como centro da 
política da União Soviética tendo a sua frente o mesmo Lênin saindo em defesa da 
construção de um Estado Socialista tendo por modelo o Estado Junker-Burguês Alemão[9], 
política que "matou" os sovietes e reconstruiu uma casta privilegiada no país.

Reconstruir o Anarquismo Revolucionário!

  "Mais do que qualquer outro conceito, o anarquismo deveria se tornar o conceito 
dirigente de revolução, pois é somente dentro da base teórica anarquista que a revolução 
social pode ser bem sucedida na total emancipação dos trabalhadores"

Dielo Trouda, 1926

A crítica ao posicionamento "tático" das organizações Red Libertaria e FEL deve ser feito 
pela retomada das bases teórico-estratégicas do anarquismo revolucionário (que é o que 
define as táticas), e não pela crítica moralista em relação as eleições "em geral". O 
anarquismo, formulado por Mikhail Bakunin e desenvolvido por Makhno, Arshinov, Durruti, 
Jaime Balius e tantos outros combatentes do povo, é uma teoria revolucionária que possui 
concepções específicas acerca do Estado capitalista moderno, da dialética Guerra e 
Revolução (e da necessidade estratégica da violência das massas), da contradição Reforma x 
Revolução, da experiência coletiva na luta de classes como a verdadeira "escola" do 
proletariado, do papel dos anarquistas na revolução, bem como em relação a Ação Direta e a 
Independência de Classe em oposição ao colaboracionismo. Estas concepções 
teórico-estratégicas são as definidoras das táticas na luta popular, o que não é diferente 
no caso do boicote as eleições burguesas.

Deve-se compreender então que as táticas não são definidas ou debatidas "do nada" ou como 
meras exigências conjunturais (como fazem crer no caso da guerra civil espanhola, da 
Venezuela e do Chile), existem concepções e princípios mais amplos que as determinam. 
Nesse sentido, o boicote às eleições burguesas defendido pelos anarquistas possui um papel 
completamente diferente do que para uma possível "tática" dos comunistas ou conservadores. 
Para os anarquistas estão contidos nesta "tática" os elementos de separação 
(independência) do proletariado frente aos espaços e instituições burguesas, da negação do 
Estado, da afirmação da capacidade política dos trabalhadores através da ação direta. Não 
é uma "tática" que pode-se aplicar ou não sem maiores consequências para a coerência 
teórica e ideológica geral do anarquismo. Na verdade, poderíamos dizer que a negação 
anarquista da democracia estatal-burguesa e do reformismo pressupõe o boicote as eleições.

O problema é que o especifismo esconde seus posicionamentos equivocados atrás de um 
punhado de organizações e grupos espalhados pelo mundo sem nenhuma unidade séria entre si 
(sem nenhuma organização internacional), o que retira a responsabilidade (aparente!) 
destes distintos grupos sobre os posicionamentos e capitulações de outros. É necessário 
que esse silêncio, esse abafamento das concepções e práticas equivocadas tenha fim, em 
nome do próprio triunfo da causa dos trabalhadores e da revolução social. Os bakuninistas 
já vinham afirmando a algum tempo a necessidade de ruptura com o revisionismo, mas esta 
tarefa havia sido sistematicamente negada por grande parte dos grupos anarquistas e 
"libertários". Agora fica mais claro do que nunca a necessidade de reconhecer a existência 
do revisionismo e o dever de lutar contra ele (como parte da própria luta contra a burguesia).

Camaradas, o que não avança retrocede. As organizações anarquistas devem se posicionar 
teoricamente sobre a nossa história, bem como analisar e depurar cada passo que é dado por 
nossos camaradas e por nós mesmos. Hoje fica evidente que as interpretações sobre a Guerra 
Civil Espanhola e a Revolução Russa são fundamentais, e não apenas sob um viés 
historicista ou acadêmico, mas direcionado por uma teoria revolucionária que seja capaz de 
olhar para os eventos históricos e extrair as lições para nossa luta cotidiana.

Vivemos um momento onde a crise capitalista está aprofundando as contradições sociais e 
elevando a luta de classes a um novo patamar. Não podemos nos permitir cair nos mesmos 
erros do passado, frutos do revisionismo e da colaboração de classes. Portanto, é 
fundamental que os militantes e as organizações anarquistas do mundo inteiro se coloquem 
na responsabilidade histórica de apontar uma direção autônoma e revolucionária para o 
movimento dos trabalhadores, abandonando de vez as concepções educacionistas e 
pequeno-burguesas do anarco-comunismo e a visível autolimitação do especifismo (que propõe 
a "organização anarquista" em abstrato). Da mesma forma é necessário enterrar de uma vez 
por todas a falsa dicotomia entre movimento de massas e movimento insurrecional! Como já 
defendia a FAU-histórica: "Não há política revolucionária sem teoria revolucionária. Não 
há política revolucionária sem linha militar revolucionária" (FAU, 1972). Estamos certos 
de que da correção destes erros e desvios históricos depende em grande parte o avanço do 
anarquismo como força revolucionária das massas trabalhadoras. Sigamos em frente, na luta 
sem trégua por socialismo e liberdade.

ANARQUISMO É LUTA!

VIVA A REVOLUÇÃO SOCIAL PROLETÁRIA!

MORTE AO ESTADO E AO CAPITAL!

CONSTRUIR A REDE ANARQUISTA INTERNACIONAL!

POR UMA TENDÊNCIA CLASSISTA E INTERNACIONALISTA!

[1] "Declaración pública de la Red Libertaria". Pode ser visualizado pelo sitio: 
http://www.elciudadano.cl/2013/07/01/72475/declaracion-publica-de-la-red-libertaria/

[2] "Declaración publica de FEL chile frente a la conyuntura eleccionaria de 2013ŽŽ. Pode 
ser visualizada pelo sitio: 
http://fel-chile.org/declaracion-publica-fel-chile-frente-a-la-coyuntura-eleccionaria-2013/

[3] Pode ser visualizada pelo sitio: 
http://cel-arg.org/blog/2013/08/02/la-democracia-de-masas-una-apuesta-libertaria-para-el-actual-periodo/

[4] Disponível em: 
http://www.humanistas.cl/elecciones-2013/marcel-claude-presidente/programa-marcel-claude/8-ejes-transversales/

[5] Texto da UNIPA: "Chavismo e Bolivarianismo: os limites da política anti-hegemônica 
desenvolvimentista e o protagonismo popular". Disponível em: 
http://uniaoanarquista.wordpress.com/2013/03/13/chavismo/

[6] Disponível em: http://farvespecifistas.blogspot.com.br/

[7] "Programa de Transição", Leon Trotsky.

[8] Referência: "Teses de Abril".

[9] Referência: "Infantilismo de Esquerda e a mentalidade pequeno burguesa"


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