(pt) Anarquismo, Poder, Classe e Transformação Social by Felipe Corrêa

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Quinta-Feira, 7 de Novembro de 2013 - 12:10:25 CET


O presente artigo discute, por meio de elementos teóricos e históricos, a relação do 
anarquismo com poder, classe e transformação social. Partindo de uma definição do 
anarquismo, sustenta que relacionar anarquismo e poder exige superar uma problemática 
semântica, e propõe conceituar o poder em termos de relação entre forças sociais 
assimétricas. Sustenta ainda que os anarquistas têm uma concepção e um projeto geral de 
poder que subsidia sua concepção de classe, estabelecida por meio de um tipo de poder (a 
dominação), e constitui as bases de sua noção de transformação social, que se caracteriza 
por: sua crença na capacidade de realização dos sujeitos que constituem parte das 
distintas classes dominadas, seu investimento na transformação dessa capacidade em força 
social, seu intento para que esta força aumente permanentemente, sua defesa de um processo 
revolucionário que permita superar as forças inimigas e substituir o poder dominador da 
sociedade por um poder autogestionário.

Anarquismo: teoria e ideologia, princípios e estratégias

Abordar o anarquismo num estudo como este, implica retomar três posições desenvolvidas 
mais amplamente em outro trabalho. (Corrêa, 2012)

Primeiramente, sustenta-se que o anarquismo constitui uma ideologia, sendo esta definida 
como um "conjunto de pensamento e ação fundamentado em preceitos éticos que orienta 
comportamentos políticos coletivos, pautados em estratégias determinadas. Similar à 
doutrina política, possui relações com a teoria, mas não se resume a ela." (Corrêa, 2012, 
p. 80) A ideologia distingue-se da teoria, no sentido de que a segunda está relacionada ao 
conhecimento da sociedade e a primeira às intervenções que se realizam sobre ela; 
portanto, o anarquismo se caracteriza mais por seus elementos ideológico-doutrinários do 
que por questões teórico-metodológicas.

Essa distinção é substantiva, pois assume que a unidade e a coerência histórica do 
anarquismo está relacionada a seus princípios político-ideológicos e não os métodos de 
análise e as teorias sociais que têm sido utilizados pelos anarquistas para a 
interpretação da realidade; conforme se sustenta, no campo teórico, os anarquistas têm 
utilizado diferentes ferramentas, profundamente conectadas com o tempo e o espaço em que 
foram e são produzidas.

Em segundo lugar, define-se o anarquismo da seguinte maneira:

"O anarquismo é uma ideologia socialista e revolucionária que se fundamenta em princípios 
determinados, cujas bases se definem a partir de uma crítica da dominação e de uma defesa 
da autogestão; em termos estruturais, o anarquismo defende uma transformação social 
fundamentada em estratégias, que devem permitir a substituição de um sistema de dominação 
por um sistema de autogestão." (Corrêa, 2012, p. 87)

Discutindo-se a definição de maneira mais pormenorizada, argumenta-se que há um conjunto 
relativamente fixo de dez princípios político-ideológicos que se mantém, contínua e 
permanentemente, entre os anarquistas, e que constituem as bases fundamentais dessa 
definição de anarquismo. Tais princípios são:

"1.) Ética e valores. A defesa de uma concepção ética, capaz de subsidiar críticas e 
proposições racionais, pautada nos seguintes valores: liberdade individual e coletiva; 
igualdade em termos econômicos, políticos e sociais; solidariedade e apoio mútuo; estímulo 
permanente à felicidade, à motivação e à vontade. 2.) Crítica da dominação. A crítica das 
dominações da classe - constituídas por exploração, coação física e dominações 
político-burocrática e cultural-ideológica - e de outros tipos de dominação (gênero, raça, 
imperialismo, etc.). 3.) Transformação social do sistema e do modelo de poder. O 
reconhecimento de que as estruturas sistêmicas fundamentadas em distintas dominações 
constituem sistemas de dominação e a identificação, por meio de uma crítica racional, 
fundamentada nos valores éticos especificados, de que esse sistema tem de ser transformado 
em um sistema de autogestão. Para isso, torna-se fundamental a transformação do modelo de 
poder vigente, de um poder dominador, em um poder autogestionário. Nas sociedades 
contemporâneas, essa crítica da dominação implica uma oposição clara ao capitalismo, ao 
Estado e às outras instituições criadas e sustentadas para a manutenção da dominação. 4.) 
Classes e luta de classes. A identificação de que, nos diversos sistemas de dominação, com 
suas respectivas estruturas de classes, as dominações de classe permitem conceber a 
divisão fundamental da sociedade em duas grandes categorias globais e universais, 
constituídas por classes com interesses inconciliáveis: as classes dominantes e as classes 
dominadas. O conflito social entre essas classes caracteriza a luta de classes. [...] 
Outras dominações devem ser combatidas concomitantemente às dominações de classe, sendo 
que o fim das últimas não significa, obrigatoriamente, o fim das primeiras. 5.) Classismo 
e força social. A compreensão de que essa transformação social de base classista implica 
uma prática política, constituída a partir da intervenção na correlação de forças que 
constitui as bases das relações de poder vigentes. Busca-se, nesse sentido, transformar a 
capacidade de realização dos agentes sociais que são membros das classes dominadas em 
força social, aplicando-a na luta de classes e buscando aumentá-la permanentemente. [...] 
6.) Internacionalismo. A defesa de um classismo que não se restrinja às fronteiras 
nacionais e que, por isso, fundamente-se no internacionalismo, o qual implica, no caso das 
práticas junto a agentes dominados por relações imperialistas, a rejeição do nacionalismo 
e, nas lutas pela transformação social, a necessidade de ampliação da mobilização das 
classes dominadas para além das fronteiras nacionais. [...] 7.) Estratégia. A concepção 
racional, para esse projeto de transformação social, de estratégias adequadas, que 
implicam leituras da realidade e o estabelecimento de caminhos para as lutas. [...] 8.) 
Elementos estratégicos. Ainda que os anarquistas defendam estratégias distintas, alguns 
elementos estratégicos são considerados princípios: o estímulo à criação de sujeitos 
revolucionários, mobilizados entre os agentes que constituem parte das classes sociais 
concretas de cada época e localidade, as quais dão corpo às classes dominadas, a partir de 
processos que envolvem a consciência de classe e do estímulo à vontade de transformação; o 
estímulo permanente ao aumento de força social das classes dominadas, de maneira a 
permitir um processo revolucionário de transformação social; a coerência entre objetivos, 
estratégias e táticas e, por isso, a coerência entre fins e meios e a construção, nas 
práticas de hoje, da sociedade que se quer amanhã; a utilização de meios autogestionários 
de luta que não impliquem a dominação, seja entre os próprios anarquistas ou na relação 
dos anarquistas com outros agentes; a defesa da independência e da autonomia de classe, 
que implica a recusa às relações de dominação estabelecidas com partidos políticos, Estado 
ou outras instituições ou agentes, garantindo o protagonismo popular das classes 
dominadas, o qual deve ser promovido por meio da construção da luta pela base, de baixo 
para cima, envolvendo a ação direta. 9.) Revolução social e violência. A busca de uma 
revolução social, que transforme o sistema e o modelo de poder vigentes, sendo que a 
violência, como expressão de um nível mais acirrado de confronto, é aceita, na maioria dos 
casos, por ser considerada inevitável. Essa revolução implica lutas combativas e mudanças 
de fundo nas três esferas estruturadas da sociedade e não se encontra dentro dos marcos do 
sistema de dominação presente - está além do capitalismo, do Estado, das instituições 
dominadoras. 10.) Defesa da autogestão. A defesa da autogestão que fundamenta a prática 
política e a estratégia anarquistas constitui as bases para a sociedade futura que se 
deseja construir e envolve socialização da propriedade em termos econômicos, o autogoverno 
democrático em termos políticos e uma cultura autogestionária. [...]" (Corrêa, 2012, pp. 
143-147)

Em terceiro, argumenta-se que o anarquismo possui debates internos relevantes, que 
fornecem as bases para o estabelecimento de suas correntes. As diferentes posições 
teóricas não constituem fundamentos para a definição das correntes anarquistas, visto que 
não servem sequer para definir o próprio anarquismo. Nas criticas dos anarquistas à 
dominação, não há debates relevantes. Em sua defesa da autogestão, há quatro debates 
fundamentais: mercado autogestionário versus planificação democrática, coletivismo versus 
comunismo, articulação política pelo local de moradia ou de trabalho, limites e 
possibilidades da cultura; ainda assim, afirma-se que esses debates são secundários em 
relação aos debates estratégicos.

Dentre as diferentes estratégicas dos anarquistas, apresentam-se quatro debates, que são 
os mais relevantes, por razão de sua continuidade e permanência histórica, assim como pela 
maior falta de acordo entre os anarquistas: posições favoráveis e contrárias à 
organização, sendo que entre os organizacionistas, há distintas concepções de organização 
no nível de massas, incluindo articulação comunitária e sindical, e diferentes concepções 
que sobre a organização específica anarquista; posições favoráveis e contrárias aos ganhos 
de curto prazo (reformas), tomando em conta sua contribuição ou não para a revolução; 
posições distintas em relação ao contexto de utilização e a função da violência, 
considerando se ela deve responder a movimentos de massas já estabelecidos ou se ela pode 
funcionar como um "gatilho" gerador desses movimentos; posições diferentes em relação ao 
modelo da organização específica anarquista, um debate transversal aos outros.

A definição das correntes anarquistas é estabelecida em função dos três primeiros debates 
estratégicos. O anarquismo de massas, historicamente, defende a organização em distintos 
níveis, sustenta que, dependendo da maneira como forem conquistadas, as reformas podem 
conduzir à revolução, e afirma que a violência deve fortalecer movimentos já 
estabelecidos; as duas estratégias mais conhecidas dessa corrente são o sindicalismo 
revolucionário e o anarco-sindicalismo. O anarquismo insurrecionalista, historicamente, se 
opõe à organização estruturada, contrapõe-se às lutas por reformas e considera que a 
violência deve funcionar como um gatilho para gerar movimentos revolucionários.
***

O argumento fundamental deste artigo é que a mesma coerência do anarquismo, que se pode 
verificar em seus princípios político-ideológicos, existe na posição dos anarquistas 
acerca dos temas poder, classe e transformação social; entretanto, para que isso possa ser 
demonstrado, é fundamental extrapolar a problemática semântica que envolve os termos em 
questão e analisar o conteúdo histórico das posições anarquistas.


Anarquismo e poder

A discussão do poder no anarquismo tem sido prejudicada pelos problemas semânticos, que - 
conforme afirma Tomás Ibáñez, em seu rigoroso estudo sobre o tema, que leva em conta mais 
de 300 obras - não se restringem aos estudos anarquistas:

"O fato de os pesquisadores das relações de poder seguirem, depois de tantos anos, 
dedicando parte importante de seus esforços para esclarecer e depurar o conteúdo da noção 
de poder, o fato de não haver um acordo minimamente generalizado sobre o significado desse 
termo e o fato de as polêmicas se darem mais sobre as diferenças de conceituação do que 
sobre as operações e resultados conseguidos a partir dessas conceituações, tudo isso 
indica claramente que a teorização sobre o poder encontra-se, em algum momento, com um 
obstáculo epistemológico que a impede de progredir." (Ibáñez, 1982, p. 11)

A falta de significação comum em relação ao termo poder e o obstáculo epistemológico aos 
quais se refere Ibáñez faz-se notar, também, entre os próprios anarquistas clássicos, 
complicando a realização de uma discussão qualificada do poder no anarquismo. Bakunin 
(1998, p. 100) enfatiza que "quem fala de poder político, fala de dominação"; Kropotkin 
(1970a, p. 189) afirma que "na medida em que os socialistas constituírem um poder na 
sociedade burguesa e no Estado atual, seu socialismo morrerá"; Malatesta (2008, pp. 183; 
200) critica os socialistas autoritários afirmando que eles "se propõem à conquista do 
poder" para emancipar o povo, que isso significa utilizar o "mesmo mecanismo que hoje o 
tem escravizado" e, como proposta libertária, sugere a "abolição do governo e de todo poder".

Para os anarquistas clássicos, o termo poder está, em praticamente todos os casos, 
associado ao Estado e/ou à dominação. Além disso, eles tratam, muitas vezes, como 
sinônimos os termos poder, dominação e autoridade.[1] Entretanto, o poder deve ser 
conceituado tão-somente como dominação ou Estado? Poder, dominação e autoridade são 
sinônimos? Sustenta-se que não, em ambos os casos.

Pode-se dizer que a posição hegemônica no anarquismo, até os anos 1970, e que ainda existe 
na atualidade, é a de que os anarquistas são contrários ao poder, compreendendo-o como 
sinônimo de dominação e/ou de Estado. Posições como a de Patrick Rossineri (2011, pp. 
19-20) foram, e ainda são, relativamente comuns: "toda a teoria anarquista se funda sobre 
uma crítica ao poder e aos efeitos que ele produz". E ainda: "Os anarquistas nunca 
propuseram o poder popular, nem o poder para uma classe. [...] Quando existe simetria e 
reciprocidade em uma relação social, é porque a relação de poder deixou de existir." Tais 
posições, extraídas de uma análise em grande medida supérflua e semântica, foram 
responsáveis, em alguns momentos históricos, pelo afastamento de anarquistas da política, 
da intervenção real no jogo de forças da sociedade, terminando por resigná-los ao papel de 
observadores críticos da realidade, sem condições de nela intervir.

Entretanto, aprofundando a análise e extrapolando os aspectos semânticos, pode-se afirmar, 
como se vem fazendo mais enfática e claramente nos últimos 40 anos, que não parece 
aceitável, conforme coloca Ibáñez (2007, p. 42), "considerar que a relação do pensamento 
libertário com o conceito de poder só possa ser formulada em termos de negação, de 
exclusão, de rechaço, de oposição e até de antinomia". Ibáñez (2007, pp. 42-44) considera, 
ainda, que as inúmeras definições do poder podem ser agrupadas em três grandes abordagens: 
1.) do poder como capacidade, 2.) do poder como assimetria nas relações de força, e 3.) do 
poder como estruturas e mecanismos de regulação e controle. Tomando em conta essas três 
abordagens, Ibáñez afirma: "existe uma concepção libertária do poder, e é falso que esta 
tenha que constituir uma negação do poder".

Exemplos históricos são abundantes para demonstrar que os anarquistas nunca se opuseram à 
noção de que pessoas, grupos e classes sociais possuem capacidade de realizar algo; que a 
sociedade é composta por diversas forças em jogo e que, se buscam uma transformação 
social, os anarquistas devem estimular o crescimento de uma força determinada que se 
sobreponha às forças inimigas, então preponderantes no campo social; que, ao mesmo tempo 
em que se opõem às estruturas e mecanismo de regulação e controle autoritárias, os 
anarquistas propõem outras, de base libertária, que constituem os fundamentos da sociedade 
futura que propõem.

Bakunin (2009, p. 34) afirma que "o ser humano mais ínfimo representa uma minúscula fração 
da força social". Kropotkin (1970b, p. 69) enfatiza: "força - e uma grande quantidade de 
força - é necessária para prevenir os trabalhadores de se apropriar daquilo que consideram 
ter sido injustamente apropriado por poucos". Malatesta recomenda:

"Devemos trabalhar para despertar nos oprimidos o desejo vivo de uma transformação social 
radical e persuadi-los que, unindo-se, eles têm a força necessária para vencer; devemos 
propagar nosso ideal e preparar as forças morais e materiais necessárias para vencer as 
forças inimigas e organizar a nova sociedade." (Malatesta, 2008, p. 94)

Vencer as forçar inimigas implica, para Malatesta, fazer a revolução, socializando a 
economia e a política com a "criação de novas instituições, de novos agrupamentos, de 
novas relações sociais"; trata-se de iniciar uma reconstrução social que possa "prover a 
satisfação das necessidades imediatas e preparar o porvir", que deverá destruir "os 
privilégios e as instituições nocivas e fazendo [...] funcionar, em benefício de todos, as 
instituições úteis que hoje servem exclusiva ou principalmente para benefício das classes 
dominantes". (Richards, 2007, pp. 147; 154)

Não há, portanto, como afirmar, a partir da tripla definição de Ibáñez, que os anarquistas 
sejam contrários ao poder.


Poder: entre a dominação e a autogestão

Quando os anarquistas afirmaram ser contra o "poder", coloca Ibáñez (2007, p. 45), eles 
utilizavam o "termo 'poder' para se referir, de fato, a um 'certo tipo de relação de 
poder', ou seja, muito concretamente, ao tipo de poder que se encontra nas 'relações de 
dominação', nas 'estruturas de dominação', nos 'dispositivos de dominação', ou nos 
'instrumentos de dominação' etc." A crítica anarquista à exploração, à coerção, à 
alienação, sempre teve como pano de fundo uma crítica à dominação de maneira geral, 
incluindo a dominação de classe e as dominações de gênero, raça e entre países ou povos 
(imperialismo).

Ao defender o federalismo, os anarquistas sustentavam, segundo René Berthier (2011, p. 
32), relações sociais forjadas por uma ampla participação nos processos decisórios, por 
meio de um sistema em que não houvesse "nem captação de todo o poder pelo cume 
(centralismo), nem atomização do poder (autonomismo)". Conforme aponta Frank Mintz (1977, 
pp. 26-27), o termo "autogestão" surgiu somente nos anos 1960 para referir-se, também, a 
um modelo organizativo respaldado em uma ampla participação popular.[2] Ainda que tenham 
havido tentativas posteriores de restringir o federalismo ao âmbito político e a 
autogestão ao econômico, o fato é que os termos envolvem noções bastante próximas e têm 
sido comumente utilizados pelos anarquistas. A defesa anarquista da socialização da 
propriedade privada, da socialização do poder político, de uma cultura que reforce esse 
projeto, e de uma articulação de baixo para cima, fundamenta-se em uma defesa da 
autogestão generalizada, tomada em conta em todos seus aspectos sociais, e que contém a 
noção de federalismo.

Dominação e autogestão estão diretamente relacionadas ao conceito de poder que será aqui 
definido de acordo com a segunda abordagem de Ibáñez, como assimetria nas relações de 
força. Definir o poder dessa maneira permite conceituá-lo, mais especificamente, como uma 
relação que se estabelece nas lutas e disputas entre diversas forças sociais, quando 
uma(s) força se impõe à(s) outra(s); poder e relação de poder funcionam, dessa maneira, 
como sinônimos. (Corrêa, 2011a) O vínculo entre a dominação, a autogestão e o poder se dão 
por meio da noção de participação; considerando que a participação é estabelecida pelas 
relações de poder, ela pode ser maior, aproximando-se da noção de autogestão, ou menor, 
aproximando-se da dominação. Dominação e autogestão seriam, assim, tipos-ideais das 
relações de poder, tomando por base um eixo da participação; quando mais dominador for o 
poder, menor participação; quanto mais autogestionário, maior participação.

"Os extremos constituídos pela dominação e pela autogestão demarcam, teoricamente, as 
possibilidades lógicas de limites nos processos de participação. Independente da 
possibilidade real ou não de se chegar a um dos tipos ideais, esses extremos, o que é 
relevante é concebê-los como um modelo teórico lógico para a compreensão das diferentes 
relações de poder, dos tipos dessas relações, e das distintas formas de participação que 
delas derivam. [...] Conceber as relações de poder dentro desses dois extremos, a partir 
do eixo da participação, constitui um método de análise para relações nos distintos 
níveis." (Corrêa, 2011a)

De acordo com esse modelo, o objetivo dos anarquistas foi sempre sustentar relações 
sociais que incorporassem maior participação e substituíssem poder dominador - "dominação, 
hierarquia, alienação, monopólio das decisões por uma minoria, estrutura de classes e 
exploração" - por poder autogestionário - "autogestão, participação ampla nas decisões, 
agentes não alienados, relações não hierárquicas, sem relações de dominação, sem estrutura 
de classes e exploração". (Corrêa, 2012, p. 98)

Tal maneira de conceber o poder contesta que ele seja sinônimo de dominação e/ou de 
Estado. A dominação, segundo se sustenta, é um tipo de poder, assim como a autogestão; as 
relações de poder podem se estabelecer envolvendo maior ou menor participação; assim, 
poder não implica, necessariamente dominação. O Estado é um elemento central do sistema de 
dominação e, em todas as suas formas históricas, tem implicado relações de dominação, 
fundamentalmente as de tipo político-burocrático e a coerção; por outro lado, as 
estruturas de poder político autogestionário, defendidas pelos anarquistas para a 
substituição do Estado, também envolvem poder, mas não dominação.


Anarquismo e classes sociais

Michael Schmidt e Lucien van der Walt (2009, pp. 71; 45; 51) afirmam que o anarquismo é um 
tipo revolucionário "de socialismo libertário que surgiu na segunda metade do século XIX"; 
segundo afirmam, "foi do movimento e das associações da classe trabalhadora que o 
anarquismo nasceu". Assim, pode-se conceber o anarquismo como uma ideologia que surge no 
seio das classes dominadas durante o processo de luta de classes levado a cabo no século 
XIX. "Os anarquistas [...] viam a luta de classes como um aspecto necessário da 
transformação social e viam nas vítimas da dominação e na exploração de classe - o 
operariado e o campesinato - os agentes dessa mudança". O anarquismo, uma ideologia 
essencialmente classista, possui críticas enfáticas à dominação de classe e projetos 
concretos de classe, que buscam substituir o sistema de dominação e sua estrutura de 
classes por um sistema de autogestão, em que as classes sociais, e a própria estrutura de 
dominadores e dominados, deixaria de existir.

Para os anarquistas, em geral, as classes sociais são estabelecidas a partir da noção de 
dominação, e estão, portanto, para além da propriedade dos meios de produção e da 
exploração econômica do trabalho. Ainda que reflexões contemporâneas como as de Alfredo 
Errandonea (1989) aprofundem e recontextualizem o debate, pode-se afirmar que, desde os 
primeiros tempos, os anarquistas constataram a dominação nas esferas econômica, 
política/jurídica/militar, cultural/ideológica e, portanto, os sistemas que envolvem o 
capitalismo e o Estado, e perceberam seu impacto sobre a questão das classes sociais.

Ao refletir sobre as classes sociais de seu tempo, Bakunin enfatiza que a diferença entre 
elas é bastante clara; a aristocracia nobiliária, a aristocracia financeira, a alta 
burguesia, a pequena burguesia, os proletários das fábricas e das cidades, os grandes 
proprietários de terra, os rendeiros, os camponeses, os fazendeiros, os proletários do 
campo seriam classes sociais concretas de seu tempo. Ele sustenta ainda que

"todas essas diferentes existências políticas e sociais deixam-se, hoje, reduzir a duas 
categorias principais, diametralmente opostas uma às outra, e inimigas naturais uma da 
outra: as classes políticas, compostas por todos os privilegiados, tanto da terra quanto 
do capital, ou mesmo somente da educação burguesa, e as classes operárias, deserdadas 
tanto do capital quanto da terra, e privadas de qualquer educação e de qualquer 
instrução." (Bakunin, 1988, p. 16)

Kropotkin (2005, p. 180) afirma que, em sua crítica do Estado, os anarquistas têm 
demonstrado que "a missão de todos os governos, monárquicos, constitucionais e 
republicanos, é proteger e manter pela força os privilégios das classes dominantes, 
aristocracia, padralhada e burguesia". Posições similares às defendidas por Malatesta, 
quando aponta os resultados das lutas humanas que terminaram por dividir a sociedade em 
oprimidos e opressores.

"Disto depende o estado de miséria em que se encontram geralmente os trabalhadores, e 
todos os males decorrentes: ignorância, crime, prostituição, definhamento físico, abjeção 
moral, morte prematura. Daí a constituição de uma classe especial (o governo) que, provida 
dos meios materiais de repressão, tem por missão legalizar e defender os proprietários 
contra as reivindicações do proletariado. Ele se serve, em seguida, da força que possui 
para arrogar-se privilégios e submeter, se ela pode fazê-lo, à sua própria supremacia, a 
classe dos proprietários. Disso decorre a formação de outra classe especial (o clero), que 
por uma série de fábulas relativas à vontade de Deus, à vida futura, etc, procura conduzir 
os oprimidos a suportarem docilmente o opressor, o governo, os interesses dos 
proprietários e os seus próprios." (Malatesta, 2000, p. 9)

Bakunin, Kropotkin e Malatesta, ao definir os fundamentos das classes sociais, têm como 
base as dominações que se dão nas três esferas sociais. Enfatizam distintos tipos de 
dominação que possuem impacto na definição das classes sociais: a exploração do trabalho 
de proletários urbanos, rurais e do campesinato, fruto da dominação econômica; a coação 
física e a dominação político-burocrática, fruto da dominação política/jurídica/militar; a 
educação e a religião, que envolvem a alienação, a obediência, fortalecendo os interesses 
dominantes, fruto da dominação cultural/ideológica.

Schmidt e van der Walt enfatizam que "a ampla tradição anarquista vê as classes 
estabelecidas pelo controle de um conjunto de recursos e não somente da propriedade 
econômica". A definição das classes sociais no anarquismo, segundo afirmam,

"não diz respeito apenas às relações de produção, mas também às relações de dominação, não 
apenas à propriedade dos meios de produção, mas também à propriedade dos meios de coerção 
- a capacidade de forçar fisicamente as decisões - e dos meios de administração - os 
instrumentos que governam a sociedade. Vista desta maneira, a propriedade desigual dos 
meios de produção constitui uma descrição necessária, mas não suficiente de um sistema de 
classes." (Schmidt; van der Walt, 2009, p. 109)

Essa definição das classes sociais com base na dominação teve, historicamente, uma 
implicação direta sobre a estratificação social e a noção de sujeito revolucionário dos 
anarquistas. Ao passo que as classes dominadas incluíram trabalhadores assalariados, 
precarizados, marginalizados e campesinato, as classes dominantes incluíram, além dos 
proprietários dos meios de produção, "presidentes, reis, generais, membros do parlamento, 
prefeitos, diretores dos departamentos do governo, dirigentes de empresas estatais", entre 
outros. (Schmidt; van der Walt, 2009, p. 110)

No processo de luta de classes, os anarquistas impulsionaram movimentos populares 
opondo-se diretamente a proprietários, governantes, militares de alta patente, policiais, 
juízes, clero e outros inimigos de classe. Buscaram fortalecer distintos sujeitos 
oprimidos; conforme apontam Schmidt e van der Walt, além do campesinato, foram também 
mobilizados outros setores de trabalhadores urbanos.

"Primeiro, trabalhadores temporários ou por período, como trabalhadores da construção, das 
docas, rurais, marinheiros, da indústria do gás, cujas vidas caracterizaram-se pela 
instabilidade, pelas freqüentes mudanças de emprego e pelo movimento em busca de trabalho; 
e segundo, trabalhadores da indústria leve e pesada, como trabalhadores de fábricas, 
mineiros e ferroviários. Além dessas categorias principais, houve também um número menor 
de trabalhadores e profissionais qualificados, particularmente jornalistas, professores, 
enfermeiras e médicos. [...]" (Schmidt; van der Walt, 2009, p. 279)

Os sujeitos revolucionários historicamente envolvidos nas mobilizações impulsionadas pelos 
anarquistas não estavam somente em meio ao proletariado urbano-industrial, ainda que este 
tenha sido um setor importante - talvez o mais relevante, em termos quantitativos - nessas 
mobilizações. Os anarquistas envolveram-se em movimentos populares cuja base assentava-se 
tanto em trabalhadores da cidade quanto do campo, tanto em assalariados quanto camponeses, 
assim como em precarizados, marginalizados e pobres em geral.


Anarquismo e transformação social

A estratégia revolucionária do anarquismo vem se fundamentando em um modelo de conflito 
social para a superação do sistema de dominação e o estabelecimento do sistema de 
autogestão. Trata-se, assim, de substituir o capitalismo, o Estado e a dominação de 
maneira geral, pela propriedade e o poder socializados e por novas relações sociais 
libertárias.

O processo para esta transformação social preconizado historicamente pelos anarquistas 
fundamenta-se em cinco aspectos: 1.) a definição das classes sociais e do processo de luta 
de classes; 2.) a crença na capacidade de realização das classes dominadas; 3.) a 
articulação e a mobilização dessas classes, o estímulo permanente à conformação e ao 
crescimento de sua força social e a busca de superação dos inimigos estratégicos; 4.) a 
escolha de meios adequados para esse processo; 5.) o estabelecimento de um poder 
autogestionário, com suas respectivas estruturas de regulação e controle.

Anteriormente, apontou-se como três clássicos anarquistas - Bakunin, Kropotkin e Malatesta 
- compreendem algumas dessas questões. Demonstrou-se: sua concepção das classes sociais a 
partir do conceito de dominação e sua definição da luta de classes entre dominadores e 
dominados, opressores e oprimidos; sua crença na capacidade de realização das classes 
dominadas e dos oprimidos em geral; sua busca de uma nova sociedade, socialista e 
libertária, conformada sobre novas instituições e relações sociais.

Para a compreensão do processo de articulação e mobilização das classes dominadas e do 
estímulo ao crescimento de sua força social, torna-se fundamental discutir o conceito de 
força social e diferenciá-lo de capacidade de realização.

A noção de força social - desenvolvida por Proudhon (s/d, pp. 211-229) em sua dialética 
serial, e que foi, em certa medida, apropriada por Bakunin (2009, p. 35) - implica uma 
compreensão de que, nos conflitos sociais e na luta de classes, as classes dominadas devem 
se articular, pois quando os indivíduos se associam, "conjugam seus esforços para alcançar 
um objetivo comum, constitui-se entre eles uma nova força que ultrapassa, e de longe, a 
simples soma aritmética dos esforços individuais de cada um". Articular e mobilizar as 
classes dominadas possibilitaria um ganho significativo de força, a qual, levada a cabo 
coletivamente, teria um resultado muito maior do que a simples soma das forças individuais 
de cada pessoa envolvida nesse processo. Além disso, a articulação e a organização para 
intervir nos conflitos e lutas permite transformar a capacidade de realização das classes 
dominadas em força social, conforme aponta Bakunin:

"É verdade, há no povo bastante força espontânea; esta é incomparavelmente maior que a 
força do governo, incluindo aquela das classes; todavia, por falta de organização, a força 
espontânea não é uma força real. Ela não está em condição de sustentar uma longa luta 
contra forças muito mais fracas mas bem organizadas. Sobre essa incontestável 
superioridade da força organizada sobre a força elementar do povo, repousa todo o poder do 
Estado. Eis por que a primeira condição da vitória do povo é a união ou a organização das 
forças populares." (Bakunin, 2009, p. 67)

Quando fala que uma força espontânea não é uma força real, Bakunin distingue a capacidade 
de realização dos oprimidos, que se localiza no campo potencial, e sua força social, que 
permite que as classes dominadas ingressem, de fato, no campo político, como um ator 
relevante no jogo de forças que forja as relações de poder da sociedade. Entretanto, não 
se trata somente de criar uma força social, mas de permitir que ela consiga enfrentar as 
classes dominantes e sobrepor suas forças.

Para Kropotkin (1970a, pp. 181-182), esse momento em que as forças populares se sobrepõem 
às forças capitalistas e estatistas caracteriza-se como uma revolução social. Esta, além 
das transformações culturais e ideológicas, envolve mudanças substantivas no campo 
econômico e político: "as duas mudanças, políticas e econômicas, devem caminhar lado a 
lado, de mãos dadas". Ele afirma que "cada passo em direção à liberdade econômica, cada 
vitória estabelecida sobre o capitalismo será, ao mesmo tempo, um passo rumo à liberdade 
política"; ao mesmo tempo, "cada passo no sentido de retirar do Estado cada um de seus 
poderes e atributos ajudará as massas a estabelecerem sua vitória sobre o capitalismo".

Malatesta, ao refletir sobre a escolha de meios para esse processo, enfatiza a necessidade 
de uma coerência estratégica entre os fins que se busca atingir e os meios que são 
empregados para tanto:

"Esses meios não são arbitrários: derivam necessariamente dos fins a que nos propomos e 
das circunstâncias nas quais lutamos. Enganando-nos na escolha dos meios, não alcançamos o 
objetivo contemplado, mas, ao contrário, afastamo-nos dele rumo a realidades freqüentes 
opostas, e que são a conseqüência natural e necessária aos métodos que empregamos. Quem se 
opõe a caminho e se engana de estrada, não vai aonde quer, mas aonde o conduz o caminho 
tomado." (Malatesta, 2000, p. 11)

As posições de Bakunin, Kropotkin e Malatesta implicam noções fundamentais sobre a 
perspectiva anarquista da transformação social. Bakunin reforça a idéia de Proudhon de que 
a associação coletiva multiplica as forças individuais e diferencia a capacidade de 
realização de força social; trata-se, portanto, de articular e mobilizar as classes 
dominadas e de estimular o crescimento permanente de sua força social. Kropotkin demonstra 
como um processo revolucionário de transformação deve modificar as relações nas três 
esferas sociais, sobrepujando as forças inimigas. Malatesta afirma a necessidade de que os 
meios convirjam com os fins.

Os argumentos de Malatesta proporcionam condições de avançar; fundamentados nos próprios 
teóricos da estratégia, eles exigem uma coerência entre a realização da tática em relação 
à estratégia, e entre a realização da estratégia e os objetivos estratégicos. Se os fins 
da transformação social anarquista se caracterizam por uma mudança no modelo do poder da 
sociedade - superando um poder dominador e estabelecendo um poder autogestionário -, os 
meios empregados para tanto devem reforçar a autogestão.

Meios que não condigam com esse fim devem ser descartados: aqueles que reforçam o 
capitalismo, o Estado e as instituições que os sustentam; aqueles que retiram das massas o 
necessário protagonismo no processo de transformação social; aqueles que nelas estimulam o 
espírito de subserviência e obediência. Construir a autogestão generalizada implica, 
portanto, a defesa da socialização econômica e política e a transformação revolucionária 
das instituições sociais, o protagonismo das massas por meio da independência de classe e 
a construção democrática das lutas pela base.

As posições anarquistas sobre a natureza do Estado e sua concepção das classes sociais 
constituem um exemplo relevante de aplicação dessa noção de coerência estratégica; elas 
estão nas bases da cisão entre o anarquismo e a maior parte das correntes marxistas e têm 
como pano de fundo suas diferentes estratégias de transformação social.

Errandonea (1989, p. 45) afirma que "desde suas origens, o anarquismo foi um movimento 
sócio-político revolucionário que, em conseqüência com sua postulação antiestatista e 
antiautoritária, desdenhou do caminho da conquista do poder social centralizado, em 
benefício da coletivização autogestionária do poder descentralizado". Para os anarquistas, 
o Estado é uma instituição fundamental do sistema de dominação contemporâneo e um 
instrumento essencialmente dominador; governantes, militares de alta patente, policiais, 
juízes são inimigos de classe. A estratégia de tomada do Estado, seja por meio de reformas 
- como defendem as correntes social-democratas - ou por meio de revolução - como defendem 
os bolcheviques em suas distintas versões - implica, necessariamente, a utilização de um 
meio que não condiz com fins como a abolição do capitalismo, do Estado, das classes 
sociais, o socialismo/comunismo, etc. Segundo os anarquistas, conquistar o Estado implica, 
necessariamente, substituir uma classe dominante por outra, mesmo que os novos governantes 
tenham origem nas classes dominadas; trata-se de substituir alguns dominadores por outros.

Esse procedimento poderia proporcionar uma mudança social, mas o modelo de poder 
continuaria a ser caracterizado, essencialmente, pela dominação, pela completa falta de 
participação. A defesa da transformação no modelo de poder realizada pelos anarquistas 
implica, obrigatoriamente, o fim do Estado e sua substituição por mecanismos 
autogestionários de poder que envolvam altos níveis de participação, juntamente com o fim 
do capitalismo, das instituições e das relações que fundamentam o presente sistema de 
dominação.


Poder, classe e transformação social em perspectiva histórica

Dentre os episódios que mais se destacam na história do anarquismo estão: a Revolta da 
Macedônia, de 1903; a Revolução Mexicana, iniciada em 1910; a Revolução Russa e Ucraniana, 
respectivamente de 1917 e 1919; a mobilização na Bulgária entre os anos 1920 e 1940; a 
Revolução Espanhola, entre 1936 e 1939; a Revolução da Manchúria, na Coréia, entre 1929 e 
1932; a mobilização no Uruguai nos anos 1960 e 1970.[3] Neste momento, sustentam-se 
argumentos teóricos apresentados anteriormente recorrendo a um ou mais desses episódios 
históricos.

O pressuposto anarquista nessas e em outras mobilizações se estabelece por meio da crença 
em uma capacidade de realização das classes dominadas, que pudesse converter-se em força 
social. No México, o manifesto do Partido Liberal Mexicano (PLM) - o qual, durante a 
revolução, tornou-se anarquista - "previa uma transformação radical nas relações 
trabalhistas, na distribuição das terras e na organização da sociedade mexicana"; 
transformação esta que deveria ser protagonizada pelos pobres. (Samis, 2003, p. 17) Na 
Ucrânia, segundo a concepção dos makhnovistas: "as massas são capazes", se "entusiasmadas 
com um verdadeiro ímpeto revolucionário" e se lhes for "deixada a liberdade total de 
atuar". (Volin, 1976, p. 20) Na Espanha, o ideal de emancipação dos trabalhadores "não se 
trata de abstrações filosóficas, mas de justiça social, de trabalho solidariamente 
organizado, de fraternidade ativa criada pelo gozo igualitário dos bens produzidos pelo 
trabalho de todos". (Leval, 1972, vol. I, p. 35)

Essa força social deveria ter base classista e, portanto, mobilizar as diferentes classes 
sociais concretas, que constituem partes do conjunto mais amplo de classes dominadas. "Na 
Macedônia, os anarquistas conquistaram um apoio massivo dos camponeses." (Schmidt; van der 
Walt, 2009, p. 284) Na Ucrânia, o processo revolucionário foi "produzido pura e unicamente 
pelas camadas mais 'baixas' das massas populares" (Volin, 1976, p. 7); o objetivo dos 
anarquista era "auxiliar as massas a interpretar a significação da luta que as espera, 
[...] definir as obras a realizar e os seus objetivos, a tomar as necessárias disposições 
de combate e organizar as suas forças." (Arshinov, 1976, p. 259) Na Espanha, durante a 
revolução, "indústrias e propriedades rurais [foram] colocadas sob autogestão de operários 
e camponeses", um processo no qual "anarquistas e sindicalistas tiveram um papel central". 
(Schmidt; van der Walt, 2009, p. 180) No Uruguai, a radicalização dos trabalhadores 
contou, no seio da Convención Nacional de Trabajadores (CNT), impulsionada pelos 
anarquistas, com "mobilizações do movimento operário organizado na CNT". (Rugai, 2003, p. 220)

Na busca do crescimento permanente da força social classista, os anarquistas, por meio das 
organizações que participavam e impulsionavam, tinham por objetivo derrotar as forças 
inimigas e estabelecer suas proposições. No México, "o PLM rejeitava o nacionalismo mesmo 
tendo que lutar tanto contra o capitalismo e o imperialismo, recomendando a resistência no 
México como parte de uma luta de classes global". (Schmidt; van der Walt, 2009, p. 315) Na 
Bulgária, os anarquistas tiveram de lutar contra capitalistas e "tanto contra o fascismo, 
quanto contra o stalinismo"; estabeleceram "um movimento de massas com diversidade e 
resistência notáveis". (Schmidt, 2009, p. 6)

"O movimento anarquista búlgaro edificou-se com uma força formidável, o terceiro maior do 
campo da esquerda, usando o desencanto dos trabalhadores com o reformismo agrário e 
comunista para construir muitos sindicatos urbanos, e, depois, inserindo-se em todos os 
níveis da sociedade, com uma rede de organismos interligados agregando trabalhadores, 
operários, estudantes e guerrilheiros." (Schmidt, 2009, p. 46)

Na Manchúria, os anarquistas defendiam a criação de um poder próprio; "é notório que os 
libertários coreanos estejam falando de um poder próprio das classes oprimidas". (Crisi et 
alli, 2013, p. 8) No Uruguai, "a organização [FAU] gestou uma concepção de 'poder 
popular', não estatal, organizado de baixo para cima, mas possuindo organismos de 
coordenação global". (Rugai, 2003, pp. 205-206)

Nesse processo de superar estabelecer suas próprias forças, e adequando coerente e 
estrategicamente os fins que buscavam atingir e os meios utilizados para tanto, os 
anarquistas buscaram impulsionar meios que estimulassem a autogestão e contrariassem a 
dominação; reivindicaram a independência de classe em relação a partidos, Estados, 
instituições e agentes que ameaçassem o protagonismo popular, a construção democrática das 
lutas pela base, por meio da ação direta. Na Rússia, os anarquistas defenderam os sovietes 
com os seguintes argumentos: "o poder deveria ser descentralizado da seguinte maneira: 
cada indivíduo se coloca em acordo com outros para formar uma comuna, a federação de 
comunas forma uma província (região, cidade, distrito, bairro), e da federação das 
províncias surge uma república federativa pan-russa." (Skirda, 2000, p. 82) Na Rússia, 
buscou-se "a independência verdadeira e completa do movimento, que foi consciente e 
energicamente garantida contra as forças intrusas". (Volin, 1976, p. 21) No Uruguai, 
tratava-se de construir a "ação direta em todos os níveis", por meio de "vários âmbitos de 
atuação", de maneira a "construir o protagonismo da classe através de seus próprios 
organismos". (Rugai, 2003, pp. 165; 256)

Foram várias as ferramentas de luta utilizadas nesse processo. Organizações sindicais, nas 
cidades e nos campos, incluindo mobilização por local de trabalho e moradia, como foi o 
caso da Confederación Nacional de Trabajadores (CNT) espanhola; organizações armadas de 
defesa, como foram os casos do Exército Insurrecional Revolucionário da Ucrânia e da 
Organização Popular Revolucionária - 33 Orientales (OPR-33), do Uruguai; organizações 
políticas anarquistas, como foram os casos do PLM no México e da Federação dos 
Anarco-Comunistas da Bulgária (FAKB); sovietes (conselhos) populares, como os que 
constituíram as bases da revolução na Rússia; cooperativas, como as Vlassovden, 
impulsionadas pelos búlgaros.

Nos processos revolucionários que mais avançaram, estabeleceram-se estruturas 
autogestionárias de regulação e controle. Na Macedônia, os estabelecimentos da Comuna de 
Krouchevo e da Comuna de Strandzha fundaram as bases de "um movimento revolucionário de 
libertação social com aspectos claramente libertários" (Balkansky, 1982, p. 5); realizaram 
experiências de autogestão durante um mês, constituindo a primeira tentativa local de 
edificar uma nova sociedade sobre os princípios do comunismo libertário. Na Rússia,

"os anarco-sindicalistas controlam um certo número de comitês de fábrica, de sindicatos de 
padeiros, metalúrgicos, doqueiros etc. Eles enalteciam a tomada direta e coletiva pelos 
próprios trabalhadores de toda a produção. Esse controle operário distingue-se daquele 
preconizado pelos bolcheviques por razão de sua organização pela base e não pelo Estado." 
(Skirda, 2000, p. 67)

Na Espanha, os primeiros organismos estabelecidos pela revolução foram os "Comités de 
Abastos", de distribuição de alimentos; "desses comitês partiram as primeiras medidas de 
distribuição e racionamento" (Peirats, 2006, pp. 131-132), que incluíam prioridade para 
feridos na guerra, crianças e idosos. Na Manchúria, com o estabelecimento da Comuna de 
Shimin, a autogestão se estabeleceu em um território com mais de dois milhões de 
camponeses e "conseguiu libertar grandes zonas rurais e pequenos povoados. Foram 
instalados, não sem inconvenientes, Conselhos Administrativos que suplantaram e 
extinguiram em todos os níveis o Estado." Por meio de uma estrutura conselhista, que 
contava com "Conselhos Municipais ou de Aldeias, [...] Conselhos Distritais [...] e 
Conselhos de Área ou Regionais", se "promoveram juntas de decisão de democracia direta". 
(Crisi et alli, 2013, pp. 4; 10)


Apontamentos conclusivos

Os elementos teóricos e as experiências históricas discutidas, subsidiam as teses 
desenvolvidas ao longo deste artigo. Os anarquistas têm uma concepção e um projeto geral 
de poder que subsidia sua concepção de classe, estabelecida por meio de um tipo de poder 
(a dominação), e constitui as bases de sua noção de transformação social, que se 
caracteriza por: sua crença na capacidade de realização dos sujeitos que constituem parte 
das distintas classes dominadas, seu investimento na transformação dessa capacidade em 
força social, seu intento para que esta força aumente permanentemente, sua defesa de um 
processo revolucionário que permita superar as forças inimigas e substituir o poder 
dominador da sociedade por um poder autogestionário.


Notas:

1. Essa problemática semântica também pode ser vista nas traduções, como no caso de 
Estatismo e Anarquia, de Bakunin. A tradução em castelhano coloca: "Não se deve dar nem a 
eles e nem a ninguém o poder, porque aquele que está investido de um poder tornar-se-á, 
inevitavelmente, pela lei social imutável, um opressor, um explorador da sociedade". 
(grifos meus) (Bakunin, 2006, pp. 159-160) A tradução em português coloca: "Não há por que 
lhes dar, assim como nenhum outro, autoridade, pois quem dela é investido, torna-se, de 
modo infalível, segundo uma lei social invariável, um opressor e explorador da sociedade". 
(grifos meus) (Bakunin, 2003, p. 166) Poder e autoridade são utilizados como tradução do 
mesmo termo original.

2. Realizando um levantamento em dicionários da época, Mintz verificou que, durante a 
década de 1950, o termo ainda não aparecia em idiomas hispânicos; nos idiomas eslavos, o 
termo "samupravlenie", que era traduzido como "governo ou poder independente", 
"auto-administração" e "autonomia", só foi traduzido como autogestão a partir da década de 
1960. Ele afirma ainda que: "[...] do ponto de vista político, utilizou-se 'gestão direta' 
e logo se adotou 'autogestão'. Assim, a revista Noir et Rouge publicou um estudo em duas 
partes sobre as coletividades espanholas cujo número de junho de 1965 intitulava-se 
'Coletividades Espanholas' e, o número seguinte, de fevereiro de 1966, 'Autogestão'. 
Também as descrições da Iugoslávia e da Argélia popularizaram a palavra." (Mintz, 1977, 
pp. 26-27)

3. Para uma breve história do anarquismo e diversas indicações bibliográficas, ver: 
Corrêa, 2013. Sobre a Revolta da Macedônia e o anarquismo na Bulgária, ver: Schmidt, 2009; 
Balkansky, 1982. Sobre a Revolução Mexicana, ver: Zarcone, 2006; Trejo, 2005. Sobre a 
Revolução Russa, ver: Tragtenberg, 2007; Skirda, 2000. Sobre a Revolução Ucraniana, ver: 
Schujman, 2000; Aschinov, 1976. Sobre a Revolução Espanhola, ver: Paz, s/d; Peirats, 2006; 
Leval, 1972. Sobre a Revolução na Manchúria e o anarquismo na Coréia, ver: Crisi et alli, 
2013. Sobre o anarquismo no Uruguai, ver: Mechoso, 2011, 2005, 2006, 2009; Rugai, 2003.



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1. Destacamento Gerdzikhov, Revolta da Macedônia, 1903
Ao seu lado direito, em cima:
2. Tomada da Baixa Califórnia, Revolução Mexicana, 1911
Abaixo e à esquerda:
3. Makhnovistas durante a Revolução Ucraniana (1919-1921)
Ao lado direito e acima:
4. Primeiro número da revista "Sociedade Livre" da Federação dos Anarco-Comunistas da 
Bulgária (FAKB), 1932
Logo abaixo:
5. Guerrilheiro da Comuna de Shimin, na Revolução da Manchúria, 1929
Ao lado direito:
6. Revolução Espanhola (1936-1939)
Ao lado direito:
7. Convención Nacional de Trabajadores (CNT), principal espaço de trabalho de massas da 
Federación Anarquista Uruguaya (FAU) no período 1968-1972.
Link esterno: http://ithanarquista.wordpress.com


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