(pt) Anarkio.net: Neoliberalismo do Plano Real após 19 anos (en)

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Quinta-Feira, 16 de Maio de 2013 - 11:39:11 CEST


Concebido a partir do mesmo padrão dos programas de estabilização e ajuste usados na 
América Latina inspirados no neoliberalismo (veja sobre o liberalismo) na década de 80. 
Concebido de forma criativa e inovações como a desindexação da economia através da URV 
(Unidade Real de Valor), a estabilização foi fundamentada na articulação entre aumento 
acelerado das importações e absorção de recursos externos. A base cambial (âncora) foi o 
eixo central da politica e se mantém hoje associada à uma politica monetária de juros 
elevados. Mantido exaltado e intocável até por gestões de oposição ao PSDB de Fernando 
Henrique (dois governos do ex-sindicalista Luis Ignácio da Silva, vulgo Lula e da Dilma 
Russef que é atual, todos do PT), os discursos de todas as gestões pós-Real são de combate 
a inflação, distribuição de renda e na modernização produtiva do país, reduzindo ao mesmo 
tempo a gravidade dos desajustes de grande envergadura econômica e dos custos sociais que 
continuam acumulados nessas duas décadas.

A estratégia de estabilização usada foi baseada na agenda proposta pelo denominado 
Consenso de Washington, isto é, abertura comercial completa, desregulamentação geral da 
economia, reconhecimento irrestrito de patentes, privatizações, Estado mínimo com a 
desarticulação dos mecanismo de apoio ao crescimento e regulação econômica, flexibilização 
dos direitos trabalhistas sempre orientados para estabelecer a primazia absoluta de 
mercado. Tal processo foi acompanhado pelo avanço ideológico da inevitabilidade das 
“reformas”, “modernização” e “globalização”, partes de uma unificação de pensamento em 
torno da racionalidade de mercado.

As opções governamentais, mantendo-se dentro da lógica econômica inaugurada pela gestão 
Fernando Collor de Mello, pela introdução subalterna do Brasil a instabilidade 
internacional representou um marco final do ciclo considerado de estagnação com elevadas 
taxas inflacionárias, uma crise cambial sobre constante pressão do endividamento externo e 
o esgotamento do modelo de desenvolvimento inspirado nas substituições de importações. No 
panorama politico foi o termino da longa transição do regime militar para um regime 
pseudo-democrático, recheado de escândalos de corrupção, a fragilização e aparelhamento do 
Estado por todas as gestões até o presente momento. Ao mesmo tempo se tem grandes 
movimentos sociais que são sistematicamente desmobilizados ou cooptados pelas gestões, 
removendo toda a critica radical que levariam a propostas emancipatórias mais que 
necessárias nessa ciranda de poder e manutenção das desigualdades sociais, apesar de todos 
os bilhões gastos em assistencialismos paliativos e propagandas exageradas da suposta 
eficiência das gestões no poder.

Passados 19 anos, está consolidado o neoliberalismo, o qual muitos apontavam como tardio, 
e mantido, ironicamente, por gestões que criticavam abertamente o plano e seus criadores. 
Parte da esquerda institucional não só se rendeu ao plano, mas como se adaptou e o usou, 
assim como todas as técnicas e estratégias de controle, corrupção inerentes ao modelo, 
dando uma aula de imoralidade a toda sociedade. A esquerda institucional, partidária se 
tornou o mesmo que tanto atacou: uma imagem igual da direita que tanto se opôs.
As mudanças incorporadas pela agenda neoliberal após 19 anos, acompanharam o mercado 
internacional e o impacto que o modelo tecnológico se tornou uma tendência fundamental nas 
economias contemporâneas. Informática, automação, biotecnologia, comunicação digital, 
oriundos de novos materiais e novas formas de gestão dos sistemas produtivos redesenham as 
relações entre países e nações, como também as relações sociais produtivas. A economia 
ruma a uma rapidez e agilidade de comunicação em uma sociedade de predomínio das 
especulações financeiras. O aumento da produtividade é extraordinário, as escalas de 
produção atingem novos horizontes e geram grandes áreas de mercados (macromercados), 
redefiniu a concorrência mundial que agora está abalada pela instabilidade financeira, 
obra dessa interferência especulativa nas relações financeiras, como ocorreu na bolha 
especulativa do mercado imobiliário nos USA e como ocorre na Europa e uma possível 
fragmentação do Mercado Comum Europeu.

O conceito de globalização que é o aprofundamento do processo de internacionalização, 
concentração e centralização do capital se manteve. Os fluxos financeiros materializam a 
“mundialização do capital”, através das inovações tecnológicas que fazem os mercados 
financeiros não fecharem um segundo sequer. As empresas transnacionais e oligopolistas 
avançaram e muito na economia globalizada, aceleradas por fusões e incorporações de 
empresas locais.

A composição de grandes mercados influenciaram de forma negativa a organização dos 
trabalhadores, fragmentando, desestabilizando, flexibilizando e realojando de forma 
precária a mão-de-obra, podendo as plantas industriais serem instaladas onde o peso 
organizacional dos trabalhadores seja menor ou inexistente. Fábricas e setores de produção 
são fechados, desempregando milhares de trabalhadores em uma região; e pouco tempo são 
abertos em lugares onde há mais vantagens lucrativas para o empreendimento. O mundo do 
trabalho é duramente atingido portanto, por essas inovações e pelas políticas de ajuste 
neoliberal. A reestruturação produtiva promovida nesse modelo destrói postos de trabalho, 
flexibiliza e degrada ainda mais os contratos de trabalho e joga uma parcela crescente dos 
trabalhadores na economia informal e em relações de trabalho precárias. Recentemente, foi 
divulgado que mais de 50 milhões de pessoas não usam o sistema financeiro, e porque a 
maioria desses não possuem estabilidade de emprego a ponto de manter uma conta corrente e 
seus custos mensais.

A globalização continua restringindo as margens de manobra dos Estados Nacionais, mesmo 
com os abalos ocorridos nos 6 últimos anos. A Comunidade Europeia mantém os postulados 
clássicos do FMI com suas medidas de contenção de gastos, que impactam diretamente nas 
demandas sociais, como vemos ocorrer na Grécia, Itália, Espanha, Portugal entre outros.
Após quase duas décadas, os países da América Latina e o Brasil, continuam atingidos por 
esse processo. No Brasil, as gestões maquiaram a “marolinha” da crise mundial que aqui 
chegou, através de práticas clientelistas e assistencialistas que disfarçaram o 
nivelamento por baixo que a manutenção do Plano Real provocou. Milhões de brasileiros 
foram demitidos para serem recontratados com salários abaixo do que ganhavam; fábricas 
foram fechadas em regiões industriais tradicionais, para serem reerguidas em regiões com 
maiores incentivos fiscais e mão-de-obra mais barata. Nesse sentido, muitos empreendedores 
estão se inspirando no modelo chinês, que oferece uma produção com grande apelo 
tecnológico aliada a uma mão-de-obra altamente qualificada mas extremamente barata, graças 
a um regime totalitário que assegura o controle absoluto da população.

Das crises internacionais, o BRICS (bloco de países formado pelo Brasil, Rússia, Índia, 
China e Africa do Sul, ditos “emergentes”) tem assegurado alguma influência, 
principalmente por terem maquiado de forma positiva as misérias sociais de suas 
sociedades, como propagandas maciças de como estão sendo “bem sucedidos” em tempos de 
crises. Com as mesmas propostas que deram força ao Plano Real, os impactos negativos na 
sociedade estão começando a aparecer, o índice inflacionário que até então estava sobre 
“controle”, está voltando, aumento os preços nos mercados. E mesmo recentemente assumindo 
a direção da OMC (ver texto sobre), os impactos continuarão sendo os mesmos destes 19 
anos: favorecimentos dos setores especulativos e empreendedores, fadando a maioria da 
população pagas as contas das aventuras sociais, politicas e econômicas de gestões que 
possuem compromisso exclusivo com seus parceiros dominantes mundiais.

É mantido a politica monetária baseada na manutenção de juros altos, estimula a captação 
de capital especulativo volátil e estéril e em nada contribui para implementação 
construtiva que geraria infraestrutura e empregos. É ilusório ver nos investimentos da 
Copa e das Olimpíadas como passos nesse sentido, uma vez que estão visando atender 
principalmente aos setores empresariais e muito pouco revertido a população, ao contrário 
das propagandas maquiadas nos fazem crer. Mais grave são essas facilidades que atendem aos 
grandes empresários e empurram a iniciativa de pequeno e médio porte para o abismo de 
inadimplência e falência. As taxas elevadas de juros comprometem o crescimento econômico, 
prejudicando a capacidade de arrecadação fiscal, e ajuda a deteriorar as finanças publicas.

Continua ...


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