(pt) 142 anos da Comuna de Paris: Louise Michel e o protagonismo feminino na luta pela liberdade

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Quarta-Feira, 20 de Março de 2013 - 13:20:40 CET


A Comuna de Paris completa hoje 142 anos. Foi no dia 18 de março de 1871 que se iniciou a 
constituição da primeira experiência histórica de autogoverno operário e popular, a qual 
durou cerca de quarenta dias, resistindo ante as tropas francesas e alemãs que executaram 
mais de 20 mil rebeldes até o esmagamento da Comuna, que até então contava entre suas 
realizações: ---- O trabalho noturno foi abolido; ---- Oficinas que estavam fechadas foram 
reabertas para que cooperativas fossem instaladas; ---- Residências vazias foram 
desapropriadas e ocupadas; ---- Em cada residência oficial foi instalado um comitê para 
organizar a ocupação de moradias; ---- Todas os descontos em salário foram abolidos; ---- 
A jornada de trabalho foi reduzida, e chegou-se a propor a jornada de oito horas; ---- Os 
sindicatos foram legalizados; ---- Instituiu-se a igualdade entre os sexos;

Projetou-se a autogestão das fábricas (mas não foi possível implantá-la);

O monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários foram abolidos;

Testamentos, adoções e a contratação de advogados se tornaram gratuitos;

O casamento se tornou gratuito e simplificado;

A pena de morte foi abolida;

O cargo de juiz se tornou eletivo;

O calendário revolucionário foi novamente adotado;

O Estado e a Igreja foram separados; a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado e os 
espólios sem herdeiros passaram a ser confiscados pelo Estado;

A educação se tornou gratuita, secular, e compulsória. Escolas noturnas foram criadas e 
todas as escolas passaram a ser de sexo misto;

Imagens santas foram derretidas e sociedades de discussão foram adotadas nas Igrejas;

A Igreja de Brea, erguida em memória de um dos homens envolvidos na repressão da Revolução 
de 1848, foi demolida. O confessionário de Luís XVI e a coluna Vendôme também;

A Bandeira Vermelha foi adotada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade;

O internacionalismo foi posto em prática: o fato de ser estrangeiro se tornou irrelevante. 
Os integrantes da Comuna incluíam belgas, italianos, poloneses, húngaros;

Instituiu-se um escritório central de imprensa;

Emitiu-se um apelo à Associação Internacional dos Trabalhadores;

O serviço militar obrigatório e o exército regular foram abolidos;

Todas as finanças foram reorganizadas, incluindo os correios, a assistência pública e os 
telégrafos;

Havia um plano para a rotação de trabalhadores;

Considerou-se instituir uma Escola Nacional de Serviço Público, da qual a atual ENA 
francesa é uma cópia;

Os artistas passaram a autogestionar os teatros e editoras;

O salário dos professores foi duplicado.

Das barricadas levantadas no dia 18 de março de 1871, a Comuna de Paris provou para todo o 
movimento operário que o processo de ruptura revolucionária pela luta de classes pôde 
posicionar um universo de valores e ideologias do socialismo concretamente. As classes 
oprimidas e exploradas não chegaram ao poder do Estado constituindo-o, pelo contrário, o 
destruíram, através do projeto da construção federalista de poder, o “poder popular”. Não 
partindo da continuidade das reformas políticas francesas como muitos afirmam, mas do 
acúmulo prático e teórico que as classes trabalhadoras souberam aproveitar, implementando 
as longas experiências das greves operárias e da recente Associação Internacional dos 
Trabalhadores. Pela defesa intransigente da concepção da autogestão social, a vitória 
alcançada a muito custo foi justamente o avanço histórico de demonstrar que a tutela do 
Estado pode desmoronar quando as classes oprimidas organizam-se de baixo para cima, 
destruindo os grilhões que impediam sua emancipação.

A derrota da Comuna não está firmada sob o critério da impossibilidade do povo se 
auto-organizar. A repressão e o fortalecimento das nações capitalistas se articulam e se 
readequam gradativamente conforme existe o risco de superação da própria ordem 
capitalista. A Comuna de Paris representa a afirmação de levar adiante a primazia do 
internacionalismo e das realizações históricas da classe trabalhadora. Dentre estas 
realizações, é fundamental destacar a importância da luta das mulheres. Como no 08 de 
março a mídia sempre acaba simbolizando esta data de forma comemorativa, superficialmente, 
o resgate da história das lutas pela emancipação feminina está mais do que contido no 
episódio revolucionário da Comuna de Paris. Em homenagem às combatentes anônimas e 
conhecidas, relembramos artigo que a Federação Anarquista Gaúcha trouxe a público, que 
denota o protagonismo do passado estendendo-se até o presente.

De Mary Wollstonecraft a Louise Michel, e de Lucy Parsons a Elena Quinteros, este 
reconhecimento cumpre a tentativa de romper com as visões e práticas, ainda em vigência, 
do patriarcado nas relações no campo da esquerda. A questão de gênero tem avançado em 
visibilidade social, mas ainda sabemos que falta elementos materiais concretos de mudança. 
Este texto fala destas verdadeiras lutadoras do povo, como Louise Michel, filha de 
servente, professora, criadora do grupo “O direito da mulher”, formado por socialistas e 
feministas, e das milícias, onde comandou batalhões de mulheres à frente das barricadas na 
Comuna. Guerreira e libertária, defendeu a independência da colônia francesa da Nova 
Caledônia quando esteve lá deportada. Em “Memórias da Comuna”, de 1898, Louise Michel 
defendia o feminismo libertário e classista, vindo a conhecer na década de 1890, 
Malatesta, Emma Goldmam, Kropotkin e Pietro Gori. Em 1905, ano das primeiras experiências 
federalistas na Rússia, é enterrada envolta pelo estandarte da Comuna de Paris.

Em 1902, Louise Michel escreveu:

Aqui o inverno não tem onde amarrar-se,
Aqui as fragas sempre são verdes (…)

Aqui, em cadeias expira:
O presídio é pior que a morte.
Nos nossos corações sobrevive a esperança,
E se vemos a França novamente,
será para seguir combatendo! (…)

No ar paira a Liberdade!
A batalha nos chama
O clamor do deserdado!…
… A alvorada caçou a sombra espessa,
E o mundo novo se ergue

***

retirado de: http://www.cabn.libertar.org/?p=907


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