(pt) Anarkismo.net: Venezuela, Entrevista: "O legado de Chávez" by Bruno Lima Rocha (en)

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Segunda-Feira, 18 de Março de 2013 - 20:10:46 CET


“A Venezuela não retornará para seu estágio anterior, mesmo que a oposição vença as 
eleições presidenciais algum dia”. A afirmação é de Bruno Lima Rocha, em entrevista 
concedida à IHU On-Line por e-mail, ao comentar as expectativas em relação à política 
venezuelana após a morte de Hugo Chávez. Na avaliação dele, o legado chavista é 
evidenciado “na melhor distribuição do PIB do país, sendo que até 1998 este era 
concentrado. 80% da riqueza gerada no país, majoritariamente através do petróleo da PDVSA, 
(…) não chegava nem a 20% da população”. Apesar de vislumbrar uma continuação imediata do 
projeto político chavista, Rocha ressalta que “este legado implica em herança política e 
as lideranças chavistas não têm o grau de coesão interna necessária para mantê-lo. Quando 
a oposição for novamente derrotada nas urnas, o problema voltará a ser endógeno”.

IHU On-Line – Por um lado, o sistema político venezuelano recebeu muitas críticas por 
causa da atuação de Hugo Chávez e, por outro, teve apoio popular e de alguns segmentos de 
esquerda. Qual foi o projeto político dele?

Bruno Lima Rocha – Responder a essa pergunta, como tudo o que se refere à Venezuela após 
1998, é também estabelecer uma posição analítica. Chávez é um personagem que emerge como 
herói nacional após um fracassado intento de golpe em fevereiro de 1992. Este momento 
refletia uma exaustão do pacto oligárquico e ia ao encontro do desespero da população após 
os massacres decorrentes do Caracazo de 1989. O que podemos interpretar é que Chávez e 
seus aliados mais próximos entendiam a necessidade de romper com o Pacto de Punto Fijo e 
trazer para a política as massas excluídas do país. Para tanto, tinham de transferir algum 
tipo de poder para estas e canalizá-lo através do líder carismático. Já a legitimidade 
veio com o mecanismo eleitoral, acusado pela direita de ser plebiscitário. Os quase 14 
anos à frente do Palácio Miraflores também serviram para recompor as elites dirigentes do 
país, com todo o custo que isso acarreta, incluindo a presença de arrivistas e trânsfugas 
vindos do período oligárquico.

IHU On-Line – Chávez sempre falava em desenvolver o socialismo do século XXI. Em que 
consistia tal proposta e como ela foi desenvolvida ao longo do seu governo?

Bruno Lima Rocha – Entendo que o projeto de Chávez foi o de modernização da sociedade, 
desenvolvendo dentro do possível os serviços públicos, fazendo com que o Estado atendesse 
minimamente aos anseios e direitos das maiorias. O socialismo do século XXI chegou a ser 
esboçado em situações como as Mesas Político-Técnicas e experimentos de autonomia comunal 
(nas chamadas comissões de terra), em zonas urbanas, suburbanas e rurais por exemplo. Mas, 
quando o Movimento V República dá vazão para a criação do PSUV, este “partido” com quase 
nenhuma unidade programática não pode ser o motor de câmbio social algum. Se não fosse 
pela presença da oligarquia, veríamos um processo socializante muito mais interessante, 
aflorando contradições e conflitos por dentro do movimento bolivariano e que iria contra a 
chamada direita endógena. Infelizmente, em minha avaliação, o socialismo do século XXI 
torna-se um recurso discursivo para retomar a propagação de ideias socialistas, sobre as 
quais o próprio Chávez não manifestava um alto grau de definição.

IHU On-Line – Quais foram os principais erros e acertos do governo chavista?

Bruno Lima Rocha – Depende do ponto de vista, mas para a perenidade do projeto, seria 
preciso aumentar o nível da cultura política e tentar modificar o Estado por dentro. 
Entendo que um erro era a excessiva centralização decisória e o acionar um tanto 
irregular, muito suscetível. É o que em castelhano se chama de ocurrencias. Ocorria-lhe 
uma ideia e era capaz de mover montanhas para interpretá-la, lia um livro e o citava no 
discurso seguinte. Um acerto foi combater o controle da mídia por capitais e famílias 
oligárquicas, lembrando-as que eram detentoras de concessão pública e não hereditária por 
usucapião do espectro radioelétrico. Outro acerto, esse sim um golaço, foi criar toda uma 
estrutura de assistência e promoção social, totalmente inexistente antes.

IHU On-Line – Quais as transformações sociais, culturais e econômicas da Venezuela 
proporcionadas pelo governo Chávez? Qual é o legado dele?

Bruno Lima Rocha – A Venezuela não retornará a seu estágio anterior, mesmo que a oposição 
vença as eleições presidenciais algum dia. O legado de Chávez está na melhor distribuição 
do PIB do país, sendo que até 1998 este era concentrado. 80% da riqueza gerada no país, 
majoritariamente através do petróleo da PDVSA (uma estatal com Chávez, uma empresa de 
capital misto, mas sob controle oligárquico antes), não chegava nem a 20% da população. 
Para os demais era a loteria da vida, incluindo um elevado grau de repressão política – 
considerando desaparecimentos e assassinatos. Se esta noção de que as maiorias mobilizadas 
conseguem assegurar as conquistas e arrancar os direitos for mantida, com certo grau de 
beligerância de classes, então o legado de Chávez se mantém. O problema é que este legado 
implica em herança política e as lideranças chavistas não têm o grau de coesão interna 
necessária para mantê-lo. Quando a oposição for novamente derrotada nas urnas, o problema 
voltará a ser endógeno.

IHU On-Line – Que leituras podem ser feitas dos dados sociais apresentadas ao longo do 
governo Chávez. Hoje o povo vive melhor na Venezuela?

Bruno Lima Rocha – Não vou ficar listando dados aqui, pois os índices de PIB e o 
coeficiente de GINI – padrões que são contestáveis, mas aceitos em escala mundial – são 
irrefutáveis. Hoje os venezuelanos vivem melhor, têm identidade própria, serviços básicos 
de assistência e direitos e, diante da economia venezuelana, uma expectativa de vida 
considerável. Antes, as maiorias da Venezuela não tinham nada, o que inclui populações 
rurais, afro, remanescentes de quilombo, pescadores artesanais, agricultores e demais 
setores que viviam em produção artesanal. As missões sociais e as atividades vinculadas 
aos ministérios do poder Executivo são irrefutáveis. Não vejo um retrocesso possível, com 
a piora nas condições de vida sendo aceitas pelas maiorias.

IHU On-Line – Quais as expectativas políticas para a Venezuela nos próximos anos?

Bruno Lima Rocha – Entendo que Nicolás Maduro vai ganhar as eleições de forma marcante 
contra a nova unidade da oposição através do governador do estado de Miranda, Henrique 
Capriles. Nas últimas eleições estaduais, o PSUV levou 20 de 23 estados. Após a vitória 
provável, o futuro repousará na relação entre Maduro e os demais chefes políticos e entre 
o PSUV e os movimentos populares.

IHU On-Line – Que paralelo é possível traçar entre Lula e Chávez com demais líderes da 
América Latina?

Bruno Lima Rocha – Chávez vem a ser uma versão mais crível de Lula, sendo que o 
ex-presidente do Brasil é considerado por ideólogos da direita latino-americana como o 
líder de uma centro-esquerda não classista. A dimensão de classe, em sua perspectiva mais 
comum (vinculada ao mundo do trabalho), está pouco presente no discurso de Chávez e 
totalmente ausente no discurso e na prática política de Lula. Mas o governo de Chávez 
rompe com a oligarquia de seu país enquanto aqui ela saiu fortalecida, assim como os 
setores da indústria, da construção civil, do latifúndio e financeiro. Chávez e Lula 
disputariam uma hegemonia nas relações internacionais latino-americanas e, mesmo sob a 
liderança brasileira, foi o acionar da Venezuela que levou a frear a instalação da Área de 
Livre Comércio das Américas – Alca e reposicionar parcialmente a política externa do 
Brasil. A política externa mais agressiva e disposta a reinvestir em cadeias produtivas 
quebradas nos países vizinhos também foi muito positiva.

IHU On-Line – Barack Obama declarou que está disposto a uma reaproximação com a Venezuela. 
Após a morte do presidente Hugo Chávez, haverá alguma mudança quanto às relações 
estadunidenses com a América Latina?

Bruno Lima Rocha – Isso sim pode acontecer e pode vir a abalar as relações 
latino-americanas. Se a Venezuela é o pilar de uma proposta de unidade da América Latina, 
caso o Departamento de Estado consiga modificar a posição da Venezuela, ou, por exemplo, 
intervenha de alguma forma no comércio bilateral entre os dois países, talvez a nova 
liderança de Maduro venha a abrandar as relações políticas. O que ocorre é uma parceria 
comercial dissociada das relações políticas. O primeiro governo de Obama à frente do 
Departamento de Estado conseguiu algumas vitórias no continente, tais como os golpes 
brancos em Honduras e no Paraguai. Seria uma vitória para o acionar do Império o 
abrandamento das posições da Venezuela como pilar de uma proposta de unidade política e 
econômica – dentro dos marcos do capitalismo, a exemplo do que ocorria no período do 
Estado Nacional-Desenvolvimentista – no continente.

IHU On-Line – Que futuro vislumbra para o chavismo? A linha político-ideológica 
implementada poderá se manter sem Chávez?

Bruno Lima Rocha – É justamente nesta multiplicidade de linhas e interpretações que reside 
o perigo. Chávez diante dos opositores gera mais coesão do que à frente de seus aliados e 
seguidores. Internamente, o seguro é a manutenção dos serviços de assistência e 
distribuição de renda através de vários programas de benefícios. Externamente, a 
manutenção das relações comerciais variadas e aproximações políticas com líderes e países 
que estejam afastados da órbita dos EUA. Mas, a partir destas definições mais amplas, 
agora qualquer previsão seria mais especulativa do que analítica.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Bruno Lima Rocha – Uma das características mais importantes no período de Chávez foi a 
incorporação de uma nova simbologia no país. Os movimentos venezuelanos inspiram-se nas 
releituras de Bolívar, Sucre, Miranda, Bóves, Zamora e outros líderes populares do período 
da independência e dos primeiros anos de república. É muito relevante haver várias 
esquerdas que saibam mesclar o uso das novas tecnologias, que operem na chamada guerra de 
4ª geração (informação, sentido, identidades, versões) e, ao mesmo, tempo que tentem 
refletir uma continuidade com a formação da sociedade venezuelana.

http://www.anarkismo.net/article/25151
Related Link: http://estrategiaeanalise.com.br


More information about the A-infos-pt mailing list