(pt) Revista anarquista Aurora Obreira #24 - Março de 2013 (en)

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Sábado, 16 de Março de 2013 - 09:21:40 CET


EDUCAR, ORGANIZAR, EMANCIPAR! ---- Devemos reiterar que nenhum tipo de violência será 
tolerada no meio anarquista. ---- Assim, aquelxs que se acham xs mais oprimidxs e 
exploradxs (se fazendo de vitima) para atacarem outrxs oprimidxs e exploradxs não serão 
bem-vindxs. ---- O dia de luta dxs trabalhadorxs é muito importante, pois lembra a 
organização de operárixs em busca de suas reinvindicações, tanto contra uma patronal 
machista patriarcal, muito arrogante, como de companheirxs tão oprimidxs mas que por serem 
de um genero diferente, se sentem donos e lideres de todxs. Em nosso meio, condenamos esse 
tipo de ação e nenhumx companheirx é mais do que xs outrxs. ---- O data marca 
simbolicamente a união da luta por emancipação, não só economica, como em outras esferas 
onde temos muita opressão e exploração como no ambito sexual, do genero, da cultura, da 
família, etc.

É importante salientar: o anarquismo nunca propos só uma ruptura economica ou politica, 
sempre foi marcado por uma proposta de amplitude em todas as esferas das relações humanas.
Então é condenável que ainda tenhamos companheirxs que não entendam isso e tentem 
controlar e partidarizar o anarquismo e promover cisões e mais cisões em vez de unir as 
diversas lutas que formam o cadeiloscópio anarquista.

União entre nós, luta contra xs senhorxs!!!!
A nossa emancipação é nossa obra e de mais ninguém!!!
Nos vemos nas ruas!!!
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Prática Libertária p4

Esse material é mais uma
contribuição para construção do
socialismo libertário, através de nossa
práticas no dia-a-dia. Auxiliará axs
companheirxs nos momentos de
organização, onde ainda carecemos de
uma prática cotidiana e continuada.

Use-o como referência na luta,
adapte-o as necessidade locais.

Construindo o socialismo libertário
através de práticas não-autoritárias!

Os Movimentos Populares P4

As classes oprimidas e exploradas
ao se unir, se movimentam.
As motivações para mobilização
nascem das necessidades da população.
A mobilização dessas classes acontecem
por inúmeros motivos, cabendo
interpretar esses motivos e apresentá-
los de forma clara, que os leve a
  participar. É necessário discernimento
para isso, pois podemos levantar
  elementos estranhos ou não familiares
  as suas realidades, levando a
  consequências desfavoráveis.
  Uma vez que se mobilizam, é
  necessário pensar a organização.
  Invariavelmente a mobilização é
  esporádica, espontânea e temporária, o
  que a organização não precisa ser.
  Organizar é formar uma estrutura
  coordenada, onde as tarefas assumidas
  são realizadas de forma horizontal e
dão a cara do movimento.

Para isso:
a) Compromisso de ação dxs
companheirxs para com o movimento e
sua organização.
b) Condições para isso acontecer
(traçar objetivos, metas e como atingi-
las), tanto de forma lenta, gradual ou
de forma brusca, imediata.

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Estudos de Necessidades P5

Os estudo de necessidade é a
compreensão dos problemas sociais
locais, suas necessidades. Cabe
identificar se é isolado ou é semelhante
ou tem relação a outros lugares.

  A sua finalidade é gerar
conhecimento da região onde vivemos,
orienta onde podemos atuar, onde
iniciar e como interagir nossas ações e
nosso movimento.

  Sugestão para Estudo: A classe
social da área; perfil geopolítico (etnias,
gênero, influências partidárias,
religiosas, assistencialismos); situação
geral de exploração e opressão (rondas
policiais, chacinas, milicias, trafico,
desemprego, forças direita, forças
esquerda, etc); identificação de agentes
causadores de miséria local (nomes
identificáveis, nada muito além, nesse
caso empresas, fábricas, famílias
influentes, comerciantes, fazendeiros,
etc); problemas enfrentados na região;
atividades do público (lazer, esportes,
ocupações); lutas envolvidas e história
dessas lutas; referências de lutas;
espirito para luta; crenças; cultura
predominante; tabus; escolaridade;
possíveis “aliados”.

Com esse material, é possível uma
maio compreensão da região e
desenvolver nossa ações de acordo as
necessidades locais. Não se deve
colocar de lado as lutas nacionais e
internacionais contudo, mas
desenvolvê-las da base para o topo.

Sem ação local, não há crítica
global.

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  A Convivência P5

Conhecer a realidade é se manter
em nossa classe, viver o cotidiano, seus
problemas, suas alegrias. Não há
nenhum processo de inserção por esse
fato, não estamos entrando em nada.
Nenhumx companheirx sincerx
abandona a luta de sua região, onde
  mora sua família e onde acontece as
  lutas para faze-la em outro lugar, isso é
  um erro. É importante interagirmos
  com nossxs próximxs, com nossxs
  irmãxs de classe.

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A Formulação de Propostas P6

  A população pode não estar
consciente dos problemas que tem, mas
sabe das dificuldades que possuem.
Entendem que falta (embora, em
muitas vezes não o por que, o motivo e a
causa e quem o que são os culpados
disso), o que causa problemas para
organizar. Não sabendo contra quem ou
o que lutar, não se levanta, não luta. Há
sempre a necessidade de formar
propostas concretas que resolvam
problemas imediatos (saúde, educação,
transporte, moradia, econômico) e a
partir delas é que agrupamos nossa
classe para a luta. É necessário
trabalhar a proposta que seja eficiente
e aceitável por nossa classe, nesse
aspecto, podemos destacar:

-Concretas: ligada diretamente ao
problema de nossa classe;
-Compreensíveis: nossa classe
precisa entender o que é a proposta e
assim aceita-la e defendê-la, sem
clareza, logo ela é abandonada ou
descartada

-Justas: tem que ser feita no
momento oportuno, nem muito antes
ou nem depois de um fato relevante.

Para sua elaboração, devemos
considerar a realidade e as
possibilidades de sua realização no
momento.


O Planejamento P6

  Junto à proposta, acompanha as
formas de executá-la, geralmente em 5
partes:

-Definir objetivos: o que se
pretende, como fazer e o que alcançar
(curto, médio e longo prazo);

-Definir as atividades e buscar
meios: de acordo com os objetivos, o que
é preciso para realiza-lo e também os
meios necessários de sua efetuação:
logística adequada, verba e divulgação
e onde adquirir isso. Elencar
prioridades, atender as mais
importantes (não as mais urgentes),
tendo como essenciais ao movimento;

-Definir as tarefas e os
responsáveis: ao término do item
acima, é necessário distribuir as
responsabilidades para sua execução
como as tarefas a serem feitas,
distribuídas cronologicamente,
evitando a sobrecarga de alguns sobre
outros, é necessário que todos
assumam tarefas, participem;

  -Definir as metas e o tempo:
prevendo as metas e o tempo para
consegui-las. Evite as metas ousadas
demais, quase irreais ou ao contrário,

tímidas e sem destaque aos
participantes. Sempre equilibre as
tarefas, para não haver sobrecarga ou
ócio;

  -Prever avaliações constantes:
durante o processo, avaliem o andamento
das atividades e a correção de possíveis
falhas (iniciativa de to  s).


  A Mobilização P7

  Para estabelecer-se como uma força
social, a mobilização precisa ter um
caráter durável.

  Nossa classe se desenvolve, cada vez
mais torna consciente com uma prática
continua de mobilização.

  Mobilizações são atos pontuais que
visam preparar, informar e formar as
estruturas para ações diretas diversas
(pacificas ou não). Mobilizar é preparar
os companheiros, conscientizando,
explanando, discursando, apresentando
filmes, músicas e outros recursos que
visam manter nossa classe atenta e
pronta em relação a um determinado
fato de relevância para nossa classe.

  Isso qualifica nossa classe,
organizando sua luta e atrai setores e
indivíduos indecisos. A força de nossa
classe está em sua capacidade de
  mobilizar e isso se deve a sua
capacidade de organizar, quanto mais
organizado, mais mobilizados e
prontos para respostas concretas aos
desafios da luta. Mobilizações não
devem ser distantes umas das outras.
Quanto mais o povo se mobiliza, mais
aprende a participar em atividades de
classe, coletivas. As mobilizações
precisam, sempre no possível, trazer
estímulos aos envolvidos visando
aumentar sempre mais a adesão e
participação dos atos, eventos e
mobilizações.

  Continua no próximo número

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Crônica Operária P8

  Herbert Spencer, referindo-se a certos
  grêmios operários, disse em um artigo
  de seus livros “Não há um só vestígio de
  espírito altruísta em cujo nome o
  socialismo deveria propagar-se...”
  E assim pensamos nós, também, há
  dias, refletindo sobre o que, em Porto
  Alegre, se chama propaganda pelo bem-
  estar e pela emancipação do
  proletariado.

  Circunstâncias de origem doméstica
  nos haviam impelido a uma caminhada
  aos Navegantes, antes do romper dia.
  Foi, isto, numa dessa última
  madrugadas siberianas com que junho
  impõe que nos recordemos dele. Tão
  baixa era a temperatura, que a morte,
  por ela, desceria, para aprisionar,
  enregelado, o notívago adormecido ao
  relento e fora do alcance das vistas
  policiais.

  Regressamos às 6 e meia da manhã; a
  temperatura era quase a mesma de 2
  horas antes. Tiritávamos. Na ida,
  encontramos apenas 4 infelizes
soldados de polícia, a cavalo e
abrigados em ponchos, como espectros
negros, de contornos indecisos, sob a
cerração densa da manhã; na volta,
porém, mudara-se o aspecto das ruas,
apesar da cerração e do frio serem
cruelmente intensos.

Viemos transitando por umas quantas
daquelas estradas dos Navegantes,
incompletas e margeadas, de longe em
  longe, por edifícios baixos, de modesta
construção, e às quais houve quem
  desse a vaidosa denominação de
  avenidas de cidades grandiosas. Pouco
  antes, ali dominava a solidão; havia,
  envolto na meia treva da madrugada
  tardia, algo de pavoroso no silêncio que
  o viadante quebrava, de leve, com o
  ruído dos seus passos, sobre o caminho
  macadamizado. Na volta seguiam,
  pelas mesmas avenidas que
  trilhávamos homens, mulheres e
  crianças, quase todos apressados que
  sabe para reagir contra a gelidez da
  temperatura, embuçados – uns em
  capotes e ponchos, outros em chalés ou
  mantas, ou somente com a cabeça
  abrigada por lenços ou chalinhos de
  malha, de algodão ou lã, atados sob os
  queixos.

  Eram operários em marcha para o
  trabalho nas oficinas.

  Ver adultos em caminho para o labor,
  embora sob cortante inclemência de
  uma manhã hibernal, não nos causou
  impressão estranha. Pois que o homem
  é de estrutura para as lutas mais
fortes, a ele compete manter a parte
  mais árdua do “struggle for life”,
  sabemo-lo, por experiência própria.

  Mas, ver a crianças e mulher sujeitas,
  em nossa terra a cruezas iguais àquela,
  causou-nos a mais penosa das
  impressões! Provavelmente, as almas
  boas que existem em Porto Alegre
  ignoram que, aqui, a necessidade do
  ganha-pão cotidiano cilícia a vida de
  pobres meninos e meninas, de infelizes
  donzelas, de mães de família, casadas
  ou viúvas, arrojando-as todas à
  escravidão dos regulamentos
  desumanos de certos estabelecimentos
  fabris, tal qual sucede nos grandes
  países industriais, onde a densidade da
  população e o acúmulo de fortunas
  colossais em mãos de poucos indivíduos
  transformam quase que em irracionais
  famintos, os deserdados da sorte, na
  avidez da imprescindível consecução
  dos meios de subsistência...

  Que no país em que vivemos, como em
  todos, afinal, o homem luta nos mais
  ferozes combates, pela conquista do
  pão; que, nesses, padeça todas as
  agruras da pugna, todos os efeitos
  correlatos à descendência, que tem e
  defende, sobre o outro sexo – é lógico.
  Porém, que, aqui – onde a intensidade
  da concorrência industrial nem de leve
  possui o caráter de que existe na
  Europa, nos Estados Unidos, mesmo na
  Austrália e em parte da América do Sul
  – a criança e a mulher se vejam na
  dolorosa contingencia de abandonar o
  lar, à hora em que a treva reluta em
  ceder o espaço “al albor”, para serem
  rebaixadas a condições impiedosas,
  impostas pela ganância dos grandes e
  pequenos “Shylocks”, é coisa irrazoável,
  e que, dolorosamente, comove.

  Aquelas mulheres madrugadoras e
  aquela madrugadora criançadas iam
  para as fábricas de espartilhos, de
  meias, de gravatas, de tecidos, etc.,
  mourejar, em troca de um salário.

  Nalguns desses estabelecimentos, o
  primeiro apito da máquina, chamando
  ao serviço o pessoal, já havia
  estridulado. E, por certo, muitas
  daquelas operárias, adultas ou não,
  alargavam os passos, a fim de vencer,
  com brevidades, a distância entre as
  suas moradas e as fábricas onde ima
  laborara, pois que, se lá chegassem 2
  ou 3 minutos que fosses após a hora da
  entrada, ver-se-iam obrigadas a perder,
  pelo menos, meio dia de trabalho,
  tendo, conseqüentemente, que voltar
  para casa.

  - Mas, talvez haja compensação ao
  sacrifício que fazem, como operárias –
  pensará o leitor.

  - Sim, talvez – diremos nós – se é
  compensação, aquilo, o salário que, em
  regra, elas recebem, e que varia de 300
  a 1500 réis por dia. Há, é certo,
  algumas que ganham mais do que isto,
  pois chegam a obter um salário de 4$;
  porém são bem poucas – umas 20, se
  tanto, entre as centenas de operárias
  de fábrica que se encontram em Porto
Alegre. E, para que tal suceda, é mister
que concorram em seu favor diversas
circunstâncias excepcionais.

Mas, não é tudo. Há multas pecuniárias
nas fábricas. Se a operária conversa com
outra, sem que seja em assunto de
serviço; se comete um erro qualquer,
embora de somenos importância, no
trabalho; se não tolera uma
admoestação, e replica paga a falta com
multas, que vão desde 200 réis a 2$, em
vários estabelecimentos, e que, em
outros, ascendem a quantia superior.
Ante coisas assim, compreende-se
porque muitíssimas moças pobres
preferem entisicar costurando, à
máquina, em casa, dia e noite, por tuta
e meia, para lojas de roupas feitas, ou
estafar-se, como engomadeiras, a se
empregarem nas fábricas.

Em todos caso, é do rol das coisas bem
tristes que uma pobre mulher, solteira
ou viúva, para prover a própria
subsistência e, as vezes, à de filhas ou
irmãs menores, ficadas, como ela, ao
desamparo, tenha de se sujeitar a tais
martírios.

E sofre-se a mesma impressão que isso
causa, ver, como vimos, por uma dessas
últimas madrugadas frígidas, de céu
plumboso e forne nevoeiro, infelizes
crianças – meninos e meninas- com o
rosto congestionado pela friagem,
ocultando as mãos sob as axilas, a bater
queixo, encolhidas, tiritantes, em
caminho para as fábricas, onde, se
chegassem a hora em que o rigor do
regulamento exige, iam ganhar, no
fim do dia, uns magros tostões, à laia
de ordenado.

Ao reparar aquela criançada, pareceu-
nos enxergar,, mais, um rebanho de
cordeirinhos, que colhidos pela
tempestade, desavisados do instinto,
fugissem para um pouso onde se
esperava a tosa...

Eram, de fato, muito semelhantes a
isso, os grupos daqueles inocentinhos.
Há, em Porto Alegre, umas quantas
associações operárias que funcionam,
segundo os seus estatutos, para tratar
dos interesses gerais da classe.

E por que motivo deixam ao
desamparo os interesses das pobres
mulheres e crianças operárias?

A verdade é flagrante, neste ponto
estas sofrem muito mais do que os
homens operários.

Qual a causa do desamparo em que os
homens obreiros deixam aquela
porção mais fraca de sua classe?

Esquecimento ou egoísmo masculino?

Seja qual for a causa, a realidade é
que, à vista das condições em que se
encontram as mulheres e crianças
operárias, o observador imparcial que
julgar a ação dos operários associados
porto-alegrenses bem pode crer que a
censura irrogada pelo famoso filósofo
inglês não cabe às “trade-unions” da
terra britânica...

Correio do Povo. Porto Alegre, 30 de
junho de 1911.


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