(pt) Brazil, Anarkio.net: A-Infos #17 - Existe machismo na esquerda (en)

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Quarta-Feira, 13 de Março de 2013 - 12:45:47 CET


Ontem, meu sábado foi dedicado à causa feminista. Passei o dia num seminário intitulado 
“Há machismo na esquerda”. O evento foi articulado pelos coletivos Anastácia Livre, 
Mulheres do DAR, Revolução Preta e Violeta Parra. ---- Sim, sou feminista e isso não 
significa nem de longe que eu odeie homens ou que eu seja lésbica, associações muito 
comuns que os leigos ou pessoas maldosas costumam referenciar ao conceito. Sou feminista 
porque eu acredito que o fato de ter nascido com uma boceta no lugar de um pau me colocar 
em desigualdade histórica com os homens e eu não acho justo e não quero que aconteça com a 
minha mãe, com as minhas amigas, com minha sobrinha, com uma filha, se acaso eu tiver uma, 
e tampouco quero que aconteça com qualquer mulher conhecida ou desconhecida. Isso de uma 
forma bem básica.

  Pois bem, em outubro, participei de um evento
  promovido pela Marcha das Vadias Sampa e me chamou
  muito a atenção o debate de algumas meninas presentes,
  que militam em movimentos sociais das mais variadas
  causas e que reclamavam do machismo sofrido nestes
  espaços. Isso ia desde ficarem responsáveis pela limpeza
  e organização dos espaços de encontro, em detrimento da
  participação nas discussões, até agressões físicas e
  verbais, quando se opunham ou questionavam decisões.
  Foi o que me levou ao evento de sábado. Era dedicado ao
  tema e achei que poderia me aprofundar na questão.
  Bom, a primeira constatação foi que todos os
  presentes, mulheres e homens, assumiram a existência
  do problema. Acho que é o primeiro passo para combatê-
  lo, mas o que seguiu daí pra frente foi estarrecedor e me
  faz questionar muito se eu quero mesmo fazer parte desta
  esquerda que não é de nada há muito tempo. O que me
  deixou realmente chocada, foi ouvir de mulheres, não sei
  de quais movimentos, porque realmente tive medo de
  perguntar, que os casos de violência dentro dos grupos de
  esquerda devem ser resolvidos internamente, pois a Lei
  Maria da Penha serve para “encarcerar nossos militantes
  pobre e negros”.
  Eu estava preparada para ouvir de um tudo, mas
  nunca achei que dentro de um evento promovido por
  grupos feministas eu escutaria alguém dizer que a Lei
  Maria da Penha era um retrocesso e servia de
  instrumento para promover a política podre de nossa
  polícia de discriminação. Não, definitivamente eu não
  estava preparada para isso. E vamos combinar, agressor
  não fica preso, ele paga meia dúzia de cestas básicas e
  volta pra casa pra ensinar a mulher como não denunciá-
  lo, batendo nela de novo.
  Eu acredito sim que eventos violentos como não
  aceitar que as colegas se pronunciem, gritar, xingar são
  casos que podem ser resolvidos dentro das orgânicas do
  movimento, com diálogo, principalmente mostrando ao
  agressor que o movimento é de todos e que ele está
  reproduzindo o machismo, que nada mais é do que
  instrumento de poder da estrutura que eles combatem.
  Agora, não me venha dizer que casos de espancamentos e
  abusos devem ser combatidos dentro da estrutura do
  movimento porque eu não quero participar de movimento
  com caráter de PCC em que temos um tribunal paralelo.
  Eu quero as vítimas sejam ouvidas, o que não vem
  ocorrendo, e quando houver violência física, seja de qual
  caráter for, que seja denunciada. Porque foram anos
   pedindo uma lei que punisse a violência contra a mulher,
  pra que ela seja colocada de lado sob o argumento de que
   devemos preservar a causa. Que movimento é este que
   precisa tanto ter um agressor em sua estrutura a ponto
   de orientar mulher a não denunciar seus agressores. Um
   movimento que precisa de um agressor em sua estrutura
   pra mim não serve. E é isso o que acaba ocorrendo, as
   mulheres abandonam estes espaços políticos, porque não
   se sentem seguras, enquanto os agressores continuam
   seus caminhos, como se nada houvesse ocorrido. Eu quero
   que os agressores sejam punidos, sejam eles brancos,
   pretos, ou azuis de bolinhas amarelas.
   A segunda coisa que me deixou chocada foi o
   questionamento sobre a solidariedade à mulher. Bom,
   quem já teve contato com mulheres que sofreram
   violência sabem o quanto é difícil elas falarem sobre a
   violência. Elas sentem vergonha, medo e muitas vezes
   culpa que é inculcada pelo próprio agressor, como forma
   de mantê-la calada. Quando uma mulher chega a mim e
   diz que sofreu uma violência, serei sim solidária a ela,
   porque é uma mulher diante de você que está em seu
   limite, pedindo, socorro.
   É claro que não apoio a Elisa Matsunaga ter feito
   picadinho do marido, mas eu tenho certeza, pelo perfil do
   morto, que a todo momento ele fazia questão de lembrá-la
   de onde ele havia a tirado, de como ela perderia a filha,
   que ela não passava de uma prostituta. E neste ponto,
   desculpa, sou solidária a Elisa, MAS também quero que
  ela vá para a cadeia porque matou um homem.
   A mesma pessoa que apontou a Lei Maria da Penha
   como instrumento do Estado (conta uma novidade é uma
   lei), que questionou a solidariedade às vítimas, também
   condenou os escrachos como forma de apontar os
   agressores, citando o caso do escracho de um militante do
  Movimento Passe Livre. Ela, o nome da pessoa é Simone,
  disse que o escracho ao agressor foi feito num momento
  em que o Movimento estava com grande visibilidade da
  imprensa e por isso não deveria ter sido feito. Segundo a
  própria vítima, o escracho foi o que possibilitou a ela
  terminar as disciplinas que cursava e por isso, toda
  solidariedade a ela. O que coloco novamente à dona
  Simone, que eu gostaria muito que lesse este texto, é
  porque ela culpa a vítima e não o agressor pelo ocorrido?
  Quem estava ameaçando a ex-companheira era ele. Por
  que o movimento não tomou providências se era tão
  interessante não ter esta exposição negativa na mídia? E
  escracho por escracho, somos escrachadas todos os dias,
  quando passam por nós e nos chamam de gostosa, quando
  quebram nosso braço em  balada  porque  não
  quisemos dar trela pro  babaca! Vamos novamente
  culpar a vítima?

  Movimentos sociais  são  construídos  por
  indivíduxs engajadxs que  acreditam em
  determinadas causas. Não há movimento sem a
  participação destas pessoas. O movimento não
  se sustenta se estas pessoas não forem vistas
  como indivíduos, se os problemas relatados dentro
  da orgânica destes espaços não forem tratados com
  medidas assertivas e de acordo com sua gravidade.
  Se é esta esquerda que estão construindo, que
  precisa tanto de homens violentos para que o
  coletivo não se enfraqueça, desculpe, eu prefiro ficar
  em casa! E isso que ocorre quando uma vitima tem
  apoio negado nestes espaços.

  Achei que estivesse pronta para militar em
  outras causas, que não somente as feministas,
  porque eu quero mesmo viver num mundo melhor,
  mas com a esquerda que vi ontem, prefiro me manter
  somente nos espaços feministas que frequento e
  que são seguros. Desta esquerda pelega e
  nauseante eu quero distância!

  Solidariedade feminista SEMPRE! - Por Lola
  Blog:
  http://freudanus.blogspot.com.br/


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