(pt) Brazil, Anarkio.net: A-Infos #17 - ANTICLERICAL & CIA + O COMBATE AOS PADRES (en)

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Segunda-Feira, 11 de Março de 2013 - 09:16:43 CET


Anticlericalismo ---- Os discursos e práticas anarquistas produzidos no final do século 
XIX e no princípio do século XX revelam uma vasta tentativa de subversão dos costumes 
vigentes. Os militantes libertários pareciam ser dotados de uma verve inesgotável na 
crítica ao instituído. Entre as mais significativas oposições destacava-se um manifesto 
anticlericalismo e a defesa de uma extensa secularização da vida. Os libertários, mais do 
qualquer outra corrente do Movimento Operário, odiaram a Igreja Católica. "A importância 
do anticlericalismo para a doutrina e propaganda anarquista era muito grande e conjugava 
tanto a defesa que faziam do livre  pensamento dos homens, quanto com sua crença no 
progresso social orientado pela  ciência e pela experiência."(2)

  Os libertários eram incansáveis nas
  denúncias de que o Estado traz privilégios e
  miséria e a Igreja, sua Intima aliada, viola as
  consciências. Sempre tentavam mostrar que a
  vida miserável dos trabalhadores não era
  decorrente de uma vontade divina, e sim da
  união existente entre os capitalistas e seus
  aliados, a Igreja e o Estado. Para Bakunin: "A
  abolição da Igreja e do Estado deve ser a
  primeira e indispensável condição para a
  verdadeira libertação da sociedade; só depois
  que isso acontecer é que a sociedade poderá ser
  organizada de outra maneira."(3)

Em suma, os considerados três grandes
  inimigos – Estado, Capital e Religião – eram
  atacados com ferocidade. Os autores libertários
  esgrimiam ferozes críticas denunciando que a
  articulação entre eles assegurava a
  continuidade da exploração. Como afirmou

Sébastien Faure, um noviço jesuíta que se
  transformou em anticlerical e pacifista, na
  Enciclopédia Anarquista: "A Autoridade assume
  três formas principais que geram três tipos de
  coação: 1o a forma política: o Estado; 2o a forma
  econômica: o Capital; 3o a forma moral: a
  Religião."(4)

  O Estado é acusado de não promover a
  segurança de todos, pelo contrário, ele apenas
  garante a segurança dos proprietários ante à
  ameaça de expropriação das camadas
  despossuídas. Para Bakunin: ..."Estado quer
  dizer dominação, e toda dominação supõe a
  subjugação das massas e conseqüentemente sua
  exploração em proveito de uma minoria
  governamental qualquer. (5)

  O Capital usurpa o produto do trabalho
  coletivo. Essa apropriação é feita através de
  determinadas relações de força entre os
  capitalistas e as massas trabalhadoras. O
  antagonismo presente nessas relações foi
  explicitado no provocativo mote de Proudhon:
  "A propriedade é um roubo!".

  A Religião era considerada um elemento de
sustentação da de propriedade privada e das
relações sociais de dominação. Dessa forma,
todas as religiões, exceto aquelas menos
elaboradas, eram associadas aos dominadores.
A ideologia dominante procura defender uma
visão harmônica da sociedade e a aceitação de
cada um do lugar destinado na estrutura social.
Ao procurar incutir nos explorados a aceitação
do seu destino miserável como um desejo de
Deus, a religião corrompe a consciência social e
ocasiona um conformismo letárgico, tornando-se
aliada dos demais inimigos dos trabalhadores.(6)

  A Igreja Católica era acusada de ser igual
  às outras instituições centralizadas,
  autoritárias e burocráticas. Para os padres, a
  vida cristã é uma totalidade, da qual nenhum
  espaço ou comportamento pode escapar das
  regras por eles ditadas. O cuidado da Igreja em
  demarcar a vida das pessoas através dos
  sacramentos era ridicularizado pelos
libertários: A religião, nomeadamente a
  católica, é um amontoado de fantasmagóricas
  que trazem o homem preso do berço ao túmulo,
  ao nascer, já que entra no molho da água benta,
  ao correr da vida os jejuns, as macerações, as
  confissões e o casamento. Na morte a
  encomendação, as missas, etc...(7)

   Entre o último quartel do século XIX e o
  início da Primeira Guerra, embora as religiões
  não apresentassem em escala mundial um
  aparente decréscimo, foi evidente que nos
  países ocidentais centrais, talvez com exceção
  dos Estados Unidos, ocorreu um recuo sem
  precedentes das religiões tradicionais.(8)

O processo de descristianização e laicização da
sociedade ocorreu, com graus de radicalidade,
em todos os países de população católica. O
progresso, o avanço da ciência e da razão,
assim como o crescimento da secularização
promoveram uma perda no status da Igreja. As lutas
emancipatórias promovidas pelos setores oprimidos e
mesmo interesses estratégicos de políticos liberais
fizeram com que ocorresse uma acentuada descristianização e
uma laicização cada vez mais militante.

Como afirmou Hobsbawm: "O anticlericalismo se
tornou um problema central países da católicos política dos
por duas razões principais: porque a Igreja Católica
Romana optara por uma rejeição total da ideologia da razão e do
progresso, só podendo, portanto, ser identificada à direita
política, e porque a luta contra a superstição e o obscurantismo, mais
que dividir capitalistas e proletários, uniu a burguesia liberal e a
classe trabalhador".(9)

A palavra anticlerical é de origem francesa, aparecendo pela
primeira vez por volta da década de 1850. O anticlericalismo foi
incorporado ao programa dos agrupamentos de esquerda e de centro
naquele país. Em pouco tempo, espalhou-se por toda a Europa e chegou na
América.(10)

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O COMBATE AOS PADRES

  A Expressão anarquista anticlerical:
  a) luta contra os padres, para mostrar as
  contradições· de suas vidas com as doutrinas
  que professam; o sacerdócio como profissão,
  tendo o interesse material como base;

  b) luta contra a influência política da Igreja
  pela ação direta e pela propaganda
  extraparlamentar;

  c) denúncia do poder econômico da Igreja, da
  Igreja como empresa, como auxiliar de
  exploração capitalista, como fator do
  crumirismo.
  Esse é o anticlericalismo dos anarquistas.(11)
  Neno Vasco (12)

  A maior influência dos anarquistas se deu
  nos países latinos, onde a presença do
  catolicismo era mais forte. O choque entre duas
  concepções tão antagônicas foi inevitável. O
  radicalismo dos discursos anticlericais cresceu
  conforme foi aumentando o tom irado dos
  padres. Toda ocasião era aproveitada para
  repudiar o cristianismo e o membros do clero.
  Bakunin, no artigo "O Estado: alienação e
  natureza , assim como em outras ocasiões,
  destacou a necessidade de se combater a Igreja
  Católica: Todos os Estados onde os povos ainda
  podem respirar, são, do ponto de vista ideal do
  Estado, incompletos, como são todas as Igrejas
  em comparação com a Igreja Católica!"

  Ante a ameaça do inferno pregada pelos
  padres a todos aqueles que se desviassem do
  reto caminho de Cristo, os anarquistas
  apontavam que entre a vida levada pelas
  exploradas classes trabalhadoras e o local da
  penação bíblica a diferença era, talvez, apenas
  de grau.

  O clero era sempre atacado com ferocidade.
  "O Clero Católico é uma vasta associação
  religiosa-política- social, cujos fins se afastam
  da civilização contemporânea, cujos membros,
  pela característica de seus modos de vida,
  afastando-se da realidade da vida, constituem
  uma constante ameaça ao progresso e à
  civilização, à moral e aos bons costumes."

  Ou ainda: "Os clérigos, esses instrumentos
  cegos dos ricos, esses parasitas que somente
  servem para embrutecer ao povo, conservando-o
  no maior obscurantismo, dizem a seus ouvintes:

  Filhos! Trabalhai, sofrei, respeitai aos
  nossos patrões, aos poderosos, porque quanto
  mais sofreis na terra tanto mais gozarás no céu!

  Os papas, como chefes máximos da Igreja,
  eram acusados de serem a cabeça da serpente:
  ...."A Igreja é um réptil que dá a volta ao
  mundo, / e em cujas espirais ébrias de raiva
  insana/ um laconte imortal a consciência
  humana,/ há séculos se estorce em convulsão
  atroz/ Os elos desse monstro implacável sois
  vós, sacristas/ A cabeça é o papal Ora as
  serpentes/ têm a força na cauda e o veneno nos
  dentes!’

   A Bíblia era considerada "literatura de
   dominadores, destinada a celebrar os tiranos e
   suas leis e a ensinar o povo a resignação e a
   obediência; a Bíblia expõe o mecanismo da
   escravidão em termos claros, quase cândidos à
   luz da hipocrisia democrática moderna!"

  A Igreja era acusada de manter o celibato
  clerical como um valor importante, embora não
  fosse sempre cumprido pelos seus membros. A
  castidade era apontada como uma violação das
  leis biológicas, contribuindo para a perpetração
  de hediondos crimes. A denúncia das violações
  das normas sexuais de abstinência e de
  comportamentos considerados imorais por parte
  do clero foi uma característica marcante do
  discurso anticlerical. Para os anarquistas,
  muitos padres e freiras relativizavam as
  prescrições de Roma sobre a matéria de moral
  sexual. No púlpito e nas suas conservas com os
  fiéis até eram capazes de pregar as
recomendações da Igreja. Porém, essa
  misogamia não era cumprida. Na iconografia
  libertária, os padres e freiras eram
  freqüentemente representados através de
imagens de homens e mulheres obesos,
  aparentemente bêbados e com olhares
  concupiscentes.

  Na temática anticlerical, um outro aspecto
  importante era a luta a favor da razão, da
  ciência e do conhecimento e contra o
  "obscurantismo medieval da Igreja. Os padres
  eram acusados de temerem o avanço da ciência,
  pois isso dificultaria a retórica da superstição
  impingida por eles.

Nos artigos publicados na imprensa anticlerical, era
comum a presença de biografias de cientistas, destacando-se
as perseguições promovidas pela Inquisição.

Apesar de um tom muitas vezes profético e irado, é inegável que
a sátira e o sarcasmo ferino também eram componentes importantes
no discurso libertário. Os antigos anarquistas – e isso deveria servir de
exemplo para os atuais – protestariam e gozariam desbragadamente da
visita do papa João Paulo fie talvez até fizessem caricaturas mostrando que a
Madre Tereza de Calcutá foi amante do Frei Damião. Os católicos ficariam
escandalizados, para o deleite dos anticlericais libertários. A luta dos
antigos hereges e excomungados ainda merece ser lembrada.

  Eduardo Valladares


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