(pt) Anarkismo.net: Venezuela, O legado de Chávez e a encruzilhada bolivariana by Bruno Lima Rocha (en)

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Domingo, 10 de Março de 2013 - 09:35:52 CET


Fenômenos populares como o da marea roja quando o povo saía a tomar as ruas de Caracas são 
o termômetro da aceitação e capilaridade das ações sociais do governo Chávez. Qualquer 
recuo nestas políticas públicas não será aceito pelas maiorias. --- É impossível pensarmos 
em uma Venezuela após a morte de Hugo Chávez sem compreender que seu legado simbólico 
balizará tudo. Antes de terem sido postas em prática suas políticas públicas de amparo, 
conhecidas como missões sociais (como a Boves, Sucre, Miranda e Bolívar), os royalties do 
petróleo concentravam 80% do PIB em menos de 20% da população. Após treze anos de governo 
e as camadas mais pobres do país vivem melhor e tornam-se reserva eleitoral perene. Mudou 
o Estado e a sociedade.

Mudaram o Estado e sociedade através do método chavista, que traz em si a contradição. 
Aposta na constitucionalidade possível, apesar de haver entrado na política originalmente 
pela força. A eleição de 1998 transforma em presidente o ex-golpista de fevereiro de 1992 
que era herói nacional. Desde então Chávez enfrentou dois golpes de Estado (abril de 2002 
e o locaute petroleiro na virada daquele ano) e algumas eleições (quatro presidenciais) e 
alguns referendos.

Na urna o caudilho falecido venceu quase tudo, sendo que na última conseguiu ganhar sem 
chegar a tomar posse. Livrou mais de 11pontos do governador do estado de Miranda, Enrique 
Capriles. Internado em Cuba para tratamento do câncer já quase em estado terminal, seu 
vice e herdeiro político indicado, Nicolás Maduro, veio a assumir de forma provisória. 
Agora, mais que nunca, a sobrevida do sucessor implica na difícil coesão do partido 
chavista (PSUV) e na lealdade dos altos mandos militares. O risco de virada de mesa é 
real, mas não para logo.

O mais provável é que Maduro cumpra os prazos constitucionais, convoque eleições para 
presidente e ganhe de forma esmagadora. A oposição, ou as oposições, são uma rara mescla 
de cadáveres políticos do período oligárquico (conhecido como Pacto de Punto Fijo) e 
algumas estrelas em ascensão, como o ainda jovem Enrique Capriles, este também envolvido 
nas conspirações anteriores.

O grave problema para a continuidade do processo bolivariano é a interna chavista. 
Qualquer pessoa com contatos na base de movimentos sociais, como meios alternativos e 
comunitários, movimentos indígenas e afros, bairros bravos de Caracas como o 23 de Enero e 
a zona de Petare, além do pouco de sindicalismo classista que há, sabe o tamanho do abismo 
ideológico. A liderança política é pouco afeita à democracia interna e dependia 
basicamente das relações com o Palácio Miraflores, ou junto ao próprio Chávez. Sem o líder 
carismático, a tendência no médio prazo é a fragmentação. Até Maduro ser reeleito valerá o 
lema de Unidade e Disciplina. Na metade de seu governo, veremos o que há de organização 
social para levar adiante o legado de Chávez.

Bruno Lima Rocha

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