(pt) Brazil, Sobre a Venezuela e ante a morte de Hugo Chávez: Seguir criando Poder Popular!!!,by rusgalibertaria/MT - CAB (en)

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Sábado, 9 de Março de 2013 - 20:44:03 CET


Sua repercussão na América Latina e no mundo. ---- Uma forte comoção passeou pelo mundo, 
pois morre um governante e militante de características singulares. Bastante 
controvertido, polêmico e polemista, de afirmações políticas vigorosas, criativo, 
incansável no seu dizer e propor, de potente carisma. Trouxe para a cena social política o 
nome do socialismo quando já poucos ou quase ninguém, a nível de governos em uma estrutura 
capitalista, fazia menção a tal nome, muito menos depois da queda do chamado socialismo 
real. Com Marx e Deus na sua boca lançou um socialismo original do século XXI. Ainda se 
discute qual conteúdo possui tal conceito. Estava então, como segue estando, no trono da 
infamia, o modelo neoliberal. Seu fazer político o marcou com um selo muito pessoal.

Governante paternalista, personalista, autoritário, foram as definições mais frequentes 
que usou-se para o seu acionar. Criou mística e esperança na maior parte do seu povo e 
também, em parte, de outros povos da América Latina. Gritou energicamente forte, com 
algumas contradições, o seu anti-imperialismo, sobre a grande pátria latino-americana, da 
independência, sobre o Poder Popular criado fundamentalmente a partir de cima. Teceu desde 
seu governo, com o suficiente da sua marca, as relações políticas com vários governos ao 
redor do mundo. Fez uma política de solidariedade com os países latino-americanos e até 
mesmo para além desta área: venda de petróleo em condições favoráveis, e outros tipos de 
ajuda, por exemplo, para recuperação de indústrias que levariam os trabalhadores, como no 
nosso país. Assim como, da mesma forma, propôs e perseverou na construção de novas 
organizações na América Latina fundamentando de que, com isso resultaria em mais 
independência, que pudesse trazer melhorias significativas para a qualidade de vida das 
pessoas.

É um fato que está em vista de sua figura está dimensionada de modo que hoje move 
multidões em seu país e diferentes expressões e manifestações em nossa América Latina e 
diversos países do mundo. Só a prova de exemplo, vamos dizer que o Irã declara um dia de 
luto, Argentina, Equador e Brasil três dias de luto, e moradores da Rússia carregam flores 
para a porta da Embaixada da Venezuela. Há notas expressando tristeza e dor, desde o 
Vaticano até a China. Sua morte se torna um evento incomum.

Dor de povo, dor que dói.

Nesse povo numeroso que sai às ruas na Venezuela há expressão dor, sensação de perda de 
algo querido. Ao mesmo tempo, no interior da dor acentuada, marca que há um caminho à 
frente a seguir, que ficou uma linha traçada. Assim o vivem, o sentem e o dizem. “Hoje, o 
nosso dever é continuar ainda mais fundo com o socialismo, com a luta do projeto que o 
comandante nos deu”, responde um estrevistado a um repórter ao passo. Outros dizem coisas 
semelhantes e luta e socialismo mencionados novamente e novamente. Qual subjetividade se 
produziu nesta experiência social aos de baixo? Difícil de responder rapidamente e menos 
hoje. Se vive na dimensão da emoção, da angústia, do sentimento agredido. Também rebeldia. 
O que trouxeram estes ventos tão fluidos, tão contraditórios, com esperança, para amplos 
setores dos de baixo reais? Local onde houve um apoio mais amplo para Hugo Chávez. Que 
elementos ideológicos se produziram? Como esses elementos se expressarão no amanhã próximo?

É justamente ali, no povo, nos de baixo propriamente dito, onde reside na Venezuela e em 
todos os lugares, a esperança de início de processos para um amanhã melhor, justo e de 
solidário.

O anarquismo histórico ombro a ombro com o povo

A FAU é fortemente uma herdeira daquele anarquismo que os imigrantes trouxeram para estas 
terras. Daqueles semeadores que colocavam tudo para mudar esse sistema brutal, injusto até 
a demência. Diziam de modo direto nas publicações da época, que nada podia se esperar a 
partir desta burguesia cruel e exploradora, pois tínhamos que lutar por outra sociedade. O 
que eles diziam levavam-no à prática. Lá se encontravam metidos até os ombros dentro do 
seio daquele povo ao que sentiam pertencer. Eles não tinham nenhuma dúvida de que era o 
seu lugar. A sensibilidade social daqueles militantes libertários que vinham de diferentes 
partes da Europa lhes perimitiram tomar contato rápido com o sentimento, com todo o 
imaginário daqueles “nacionais”, que nunca tinham ouvido falar em sindicatos, muito menos 
em socialismo libertário ou anarquismo. Mas bem tinham como referentes caudilhos políticos 
e partidos criados descaradamente para manter privilégios. Na vida cotidiana, vivendo com 
os mesmos problemas de seu povo, sofrendo aquela superexploração, dando, de fato, um 
exemplo de companheirismo, oferecendo coisas como o desejo de tecer com colegas de 
trabalho a sensibilidade espremida, foram criando os primeiros sindicatos, explicando que 
poderia ser alcançado um mundo melhor, que se devia lutar para arrancar dignas condições 
de existência e da preparação de um amanhã próprio. Depois, nos sindicatos se ensinava a 
leitura e a escrita, havia palestras sobre vários temas, se formavam temas dramáticos, se 
levantavam panelas solidárias durante as greves. Ao fazê-lo, em seguida, nesse amassar dos 
sonhos, foi-se construindo um outro sujeito. Não veio só nem dos livros, veio da ação 
cotidiana, das práticas que se foram realizando, da participação que estavam levando os 
trabalhadores que não conheciam a palavra “sindicato”. É claro que aquela militância 
estava inserida profundamente e propunha uma orientação nas tarefas sociais cotidianas. 
Propostas que calçavam com aqueles desejos. Mas bem se sabe que desejo não se engravida. 
Aquele trabalho diário estava, na verdade, organizando representações, idéias, 
comportamentos, produzindo ao mesmo tempo determinadas mudanças no imaginário dos de 
baixo. Este foi o caso aqui e, pelo menos, na maioria dos países da América Latina.

Hoje, o imaginário dos de baixo é mais rico, contém muitas experiências-primas e cruas, e 
a sua subjetividade é ao mesmo tempo mais complexa. Contém elementos de rebeldia e 
compreensão geral da injustiça que o rodeia. E assim, por vezes, ganha as ruas. Além 
disso, sempre resulta mais proveitoso que se esteja participando dos eventos sociais do 
que esteja em um estado de resignação e alheio ao seu entorno. Como estará o imaginário 
dos de baixo na Venezuela, quando muito se falou do Poder Popular, quando muito se falou 
sobre o imperialismo, quando certas formas de participação social têm sido eficazes? O que 
sabemos é que o quietismo e a resignação não produzem nenhum grau de resistência, a 
possibilidade está na ação política social real, por mais contraditória e confuso que seja.

Imperialismo e poder popular

São conceitos, tanto do imperialismo como o do poder popular, que estiveram com freqüencia 
nas palestras de Hugo Chávez. Seguem ainda presentes no discurso neste momento nos lábios 
de estadistas e militantes populares. O conteúdo e sua implementação são já farinha de 
outra história.

Podemos dizer que são muitas as pessoas que queriam passar o horizonte linguístico do 
termo imperialismo. Sugerem, às vezes o dizem, que é algo que pertence ao passado do 
capitalismo. Sugere-se que, nesta era pós-moderna as relações sociais mudaram com o grau 
de tais problemas que já se dissolveram. Se hoje há algo que fica claro é que a existência 
de relações de dependência, tudo o que constitui uma política imperial, é um componente 
constitutivo do sistema capitalista.

Quem deu por morto ao imperialismo não serve para coveiro. O imperialismo vive e oprime 
como nunca. Enquanto isso, os Estados dos países mais industrializados têm aumentado seus 
papéis em vários campos. Não é há contradição nisso de que muitos desses países se 
encontram no que designam como crise e que estão jogando para o desemprego milhões de 
trabalhadores.

É verdade, hoje, há outra forma de capitalismo de Estado, não deixou de se ocupar de 
algumas funções anteriores e se ocupou de outras que considera estratégicas para esta 
etapa. Uma etapa onde o feroz capital financeiro viaja o mundo deixando o rastro de miséria.

Capital financeiro internacional que diariamente se cruza com a esfera política e 
ideológica. Os banqueiros não têm dificuldade em pagar os bilhões de dólares que eles 
mesmos roubaram. As estruturas: econômicas, jurídico-políticas e ideológico-culturais 
revestem hoje uma articulação muito específica. Para isso deve-se acrescentar o uso muito 
importante da tecnologia da informação para o benefício dos poderosos. Tudo isto interessa 
aos efeitos de recolocar os temas do presente, os processos em curso, o estado atual da 
estrutura imperialista.

Não há dúvida de que devemos continuar falando sobre imperialismo. Mas não perdemos a 
perspectiva, programas táticos a parte, de que consequente anti-imperialismo deva ser 
anticapitalista.

O bloco imperial, apesar da sua situação interna, continuou operando a todo momento. Nem 
na América Latina ou em outras partes do mundo. Seguem tentando hoje subordinar seus 
projetos em todo o Sul. Há ataques e campanhas que vão desde sutis a grotescas, sobre cada 
país que tenta algum grau mínimo de independência política. Em termos de nossa América a 
penetração imperial está em várias pontas. No econômico, eles conhecidos por tratados, tal 
a Alca na etapa anterior e, em seguida, para a resistência oferecida, são populares como 
substitutos, o TLC e TIFA. Militarmente são as várias políticas do Comando Sul. 
Ideologicamente, instrumento de primeira ordem para estruturar toda a política, há 
produção de “teorias” gerais e parciais para justificar todas as suas ações. O pensamento 
único está composto por uma grande variedade de discursos que abrangem vários domínios.

Ao contrário do que a mídia diz, os EUA introduziram e continuam colocando bases na 
América Latina, com a Amazônia e o Brasil cercados, financiam a repressão e o tráfico de 
drogas no Plano Colômbia e, mais recentemente, em sua penetração no México; sempre 
latentes estão os “clássicos” golpes da CIA e suas políticas desestabilizadoras. Somemos 
as guerras, intervenções militares, massacres.

Descontamos a intervenção tradicional do FMI, Banco Mundial, a ex-Organização Mundial do 
Comércio e o BID. Os projetos globais e todos esses mecanismos de prisão e predação.

Sabemos que é impossível separar a estrutura imperialista e os interesses das 
transnacionais das suas matrizes. Assim estamos em um momento histórico onde as 500 
maiores empresas do mundo controlam 80% da circulação da riqueza, bens e serviços. E 
dentro dos serviços nós colocamos a informática que é bem conhecido, na forma como é 
utilizada, o serviço singular e implacável que proporciona a toda a política de dominação, 
com a constante criação de novos mecanismos e símbolos.

A propósito da Venezuela, algo sobre a América Latina hoje

Antes da implantação desta nova fase do capitalismo e das suas brutais e sistemáticas 
práticas imperiais relacionadas com isso, não se pode dizer que os povos têm estado 
tranquilos. Apenas mencionaremos de passagem e, genericamente, a chamada “Primavera 
Árabe”, as revoltas populares, como na Grécia, Portugal, Espanha e mesmo até nos EUA.

Mas queremos enfatizar nossa área. Resumidamente lembraremos da resistência na nossa 
América Latina na última década, onde, sob diferentes condições sociais e econômicas, em 
curto espaço de tempo, o povo do Equador, Peru, Bolívia, Argentina, México e Venezuela, 
protagonizaram confrontos violentos, muitas vezes desesperados , quebrando o circuito da 
miséria e da injustiça brutal que os aprisionava em um nível elevado. Filha da situação da 
política neoliberal feroz neste último período. O Caracazo foi quase um precursor destas 
revoltas populares.

Com diferentes graus de intensidade, o questionamento de tal situação foi se tornando em 
escolha urgente de luta. Uma luta não orientada geralmente, por aparelhos políticos 
tradicionais da esquerda, mas do tipo da ação direta popular. Governos caíram, outros 
tiveram que repensar a sua continuidade de projeto para apaziguar a raiva e tentar não 
mudar nada de substância. Assim, apesar da cumplicidade de governos na América Latina com 
a continuidade dos projetos imperiais, continuidade que assumiu várias formas e graus, o 
cenário político do continente ficou um pouco revolto. No entanto, pode-se observar que 
após a substituição “progressista”, realizada em vários países, em muitos deles, não houve 
alterações relevantes nos fundamentos da política interna ou da estrutura de dependência. 
É claro que não queremos dizer com isso que todas as coisas seguem iguais, seria de pouco 
rigor. Há um certo número de elementos que compõem uma conjuntura política distinta. Há 
registros de que existem tentativas de criar estruturas e instituições na América Latina 
que limitem essa dependência assim como há reformismo forte em países como Bolívia, 
Venezuela e Equador. Enquanto que, um conjunto de fatores internacionais trouxeram alguns 
efeitos positivos para a economia da maioria dos nossos países. Definitivamente são 
questões que merecem um tratamento mais profundo que hoje o deixamos por aqui.

Poder Popular

Nestes anos, especialmente aqueles de baixo da alça da Venezuela, estavam-se desenvolvendo 
uma série de atividades populares. Isso foi tomando formas organizacionais: coletivos, 
conselhos comunais, comunas, etc. Isto, como um todo, foi chamado de Poder Popular. A 
burocracia partidária foi crescendo em interferência e cada vez mais substituindo os 
autênticos representantes destas formações populares. Havia, e ainda continuam havendo 
protestos de coletivos e comunas que reivindicam autonomia e que ganhos obtidos tenham 
efeito. Nós temos a recente situação dramática das reivindicações indígenas para as suas 
terras e que resultaram no assassinato vil do militante Sabino Romero feito por contratados.

Aliás, sabemos que o movimento bolivariano não é algo homogêneo, e sua composição é 
fluida. Diferentes abordagens políticas e ideológicas não são escassas. Em um momento de 
descontentamento dos de baixo, aqueles que trabalham em organizações sociais em 
comunidades, que rejeitavam o controle crescente da burocracia partidária, e que em um 
evento popular, Hugo Chávez fazia a leitura de uma carta de Kropotkin a Lênin. Sua maior 
área de apoio estava sendo afectada pelo comportamento burocrático. Nesta oportunidade 
apela para enfatizar uma prática de Poder Popular diferente. Vejamos.

Hugo Chávez diz: “Parece-me vital tomar isso como uma referência ao que aconteceu na União 
Soviética que só começava a Revolução Russa.” Começa a ler a carta:

“Sem a participação das forças locais, sem uma organização a partir dos de baixo dos 
trabalhadores e camponeses, se é impossível construir uma nova vida por eles mesmos.

Parecia que os soviets serviriam justamente para cumprir a função de criar uma organização 
desde baixo. Mas a Rússia tornou-se uma República Soviética, só de nome (comenta: 1920, 
isso começou mal, não?) A influência dirigente do “partido” sobre as pessoas (acrescenta: 
“partido entre aspas, partido falso”), que consiste de recém-chegados, porque os ideólogos 
comunistas, estão, principalmente, nas grandes cidades, já destruiram a influência e 
energia construtiva que os soviets tinham, no momento atual, são os comitês do partido e 
não os soviets que carregam a direção na Rússia e sua organização sofre os efeitos de toda 
organização burocrática. Para sair desta confusão a Rússia deve retomar todo o gênio 
criativo das forças locais, em cada comunidade, o que a meu ver, podem ser um fator na 
construção da nova vida, e quanto mais cedo a necessidade de retomar o caminho, quanto 
melhor será. As pessoas então estarão prontas e dispostas a aceitar novas formas sociais 
de vida, se a situação atual continuar, mesmo a palavra ‘socialismo’ será transformada em 
uma maldição.” “Temos que olhar para isso”, diz ele em tom de forte crítica da sua militância.

O empoderamento do povo, o Poder Popular é sem dúvida, com uma consequente prática um 
fator político de primeira ordem. Para encarar adequadamente política e teoricamente esse 
conceito, que rapidamente definimos como a capacidade de uma força político-social de 
realizar seu projeto, há questões de caráter estratégico e teórico que devemos considerar. 
Hoje faremos de forma breve e para uma situação específica que se está chamando.

Diferentes abordagens e orientações podem surgir a partir de tal conceito de Poder 
Popular. Por exemplo, existe toda uma conceituação em torno do conceito de vanguarda que 
pode fazer com que práticas opostas ao que se tenta, ponham-se em ação. O conceito de 
vanguarda que foi todo um paradigma para quase um século. Na verdade, este conceito nos 
indica o critério de que deve haver uma única direção: do partido para a classe e toda à 
população. Hoje seria de, pelo menos em alguns lugares, do partido para o movimento 
popular. Contém a crença de que a população, o sujeito histórico estabelecido, já seja 
classe, ou movimento popular, deve permanecer subordinado ao Partido. De que a “massa” 
operária ou popular, em geral,  sozinha é incapaz de criar instâncias de deliberação. Além 
disso, também a crença de que no seio da sociedade capitalista não pode ser gerada a 
partir de baixo, condições básicas para a sua dissolução. Muito não importa, então, com 
essa concepção, o grau de desenvolvimento da auto-organização, de auto-gestão, de 
instâncias contínuas de participação popular. Não se trata, no fundo, de criar um povo 
forte, senão um partido forte. Reducionismo político total, filho, por outro lado de toda 
uma concepção geral reducionista.

Uma ideología para o Poder Popular

Se trata de apostar a um processo que produza uma ideologia de ruptura. Ela articulada com 
a prática política nesse sentido.

E a ideologia não vem de fora, ocorre no coração das práticas, idéias e comportamentos que 
o povo vai realizando através dos seus vários enfrentamentos. A produção de uma nova 
tecnologia sócio-política e “discursos de saber” correspondentes à libertação não podem 
ocorrer sem deslocar aos que fazem a dominação. É tarefa política de desconstrução. São 
discursos que devem entrar em confronto e que devem regar todos os casos em que o povo 
protagonize lutas de resistência.

Uma estratégia de Poder Popular não é uma enteléquia, ou algo que vem com o feitiço certo. 
Não é um ato isolado. Requer a modificação de práticas, de ruptura, de descontinuidade, em 
áreas como o econômico, o ideológico, o político-jurídico, o cultura geral. É estar 
batendo e quebrando esta vasta rede de dominação. Todas essas idéias se concretizam em um 
processo com participação ativa popular. Um povo, que compondríamos como um amplo espectro 
dos oprimidos e explorados, nesta fase, designamos como conjunto histórico de Classes 
Oprimidas. Um povo que sofre, dentro das mudanças estruturais, uma fragmentação de 
importância que deve ser superada. Onde novas estruturas de dominação têm sido 
desenvolvidas e surgidas em outros lugares do que àquelas tradicionais. Necessário, 
indispensável, construir laços de solidariedade que vinculem, que façam com que a unidade 
das suas lutas constituam uma base de primeira ordem para que conformem uma força social 
capaz de dar confrontamentos efetivos e dar passos em qualidade. Nós não estamos falando 
de gradualismo, nem linearidade ou de tomar os inimigos um por um. Estamos falando de 
oporem-se sistematicamente, estrategicamente, um universo que inclui a nova realidade 
histórica, as mudanças que foram surgindo em processos complexos. A nova militância que 
esta situação impõe.

Nossa América Latina teve na última década, por exemplo, várias experiências de luta. Ela 
enriqueceu seu quintal ideológico.

Em certos momentos históricos se produzem com peso um conjunto integrado de idéias, 
representações, noções no interior do imaginário dos diferentes sujeitos sociais. É este 
conjunto articulado de caráter imaginário, e que toma a forma de “certezas” que é 
defendido pelos mesmos sujeitos sociais. Isto é o que pode transformar estes sujeitos em 
protagonistas de sua própria história ou em sujeitos passivos e/ou disciplinados pelas 
forças dominantes ou por estratégias equivocadas que o pedem quietude, silêncio, “disciplina”.

Assim, a ideologia tem a ver diretamente com a constituição histórica dos sujeitos 
sociais, e com a forma como estes se expressam na sociedade. É algo muito diferente da 
noção de que a ideologia é a falsificação da realidade, precisamente porque ela é um dos 
componentes fundamentais de qualquer realidade social.

A ideologia tem na sua constituição elementos de natureza não-científica e que contribuem 
para aumentar a ação, motivando-a com base a circunstâncias que não derivam estritamente 
delas. A ideologia está condicionada pelas condições históricas, mas não determinados por 
elas mecanicamente.

Nesta relação entre a ideologia ea produção de sujeitos históricos, relação que se não 
existisse, não haveria nem ideologia nem sujeito, é que vai moldando-se os momentos de 
vigência ideológicas. Bem como, os sujeitos/agentes históricos se expandem e levam a 
hegemonia dos corpos sociais, a partir da vigência das ideologias.

Estes momentos podem ser expandidos chegando a se totalizarem, em outros momentos as 
ideologias se sobrepõem na mesma sociedade ou ficam vivendo em áreas isoladas. Frente ao 
fruto da fragmentação neoliberal, quebrar o isolamento de representações ideológicas com 
potencial emancipador é tarefa permanente de uma organização política com intenções de 
mudança.

Assim podemos concluir a importância da luta ideológica, presentes principalmente em 
tempos históricos atuais no nosso continente. Onde a operação da ideologia neoliberal, com 
todos os meios operacionais informáticos funcionando; o que dá a curva à direita das 
esquerdas institucionais que vão cada vez mais inserindo-se no sistema.

Em suma, uma concepção e uma prática do Poder Popular tem a sua produção específica, tem o 
seu próprio universo. Ele tem a sua própria produção. Para jogar como uma força 
transformadora, condicionante de conjunturas, produzindo progressos desestruturantes há 
uma condição necessária: deve sempre manter sua independência. “A independência de classe” 
se dizia em outros momentos do desenvolvimento histórico, hoje diríamos, ajustando ao novo 
contexto: a independência das classes oprimidas, isto é, de todos os movimentos populares.

Mas queremos salientar que, apontando esta categoria, em especial tendo em conta as 
características particulares de cada formação social, sua história, suas transformações, 
sem negligenciar o que tem de comum com outros países, principalmente na área e, 
obviamente, as condicionantes que globais estruturas de poder estabelecem.

É bem sabido, as malhas de podera dominante esmagam, manipulam, moldam. Inserem em seu 
seio, partidos, ideologias, movimentos, histórias, os amassam e depois os devolvem como 
bons seguidores do antigo e reprodutores do atual. O mecanismo se repete uma e outra vez. 
E muitas são reiteradas como forças incomensuráveis girando nessa roda louca. Nestes 
dispositivos é que temos que atirar com propostas e ações de conteúdos diferentes. Com uma 
coerência que permita pisar firme.

Está a mais notar que a circulação infinita das mesmas dinâmicas e lógicas não podem criar 
algo novo, apenas recriar o existente, com menor ou maior fantasia.

Para permitir que outras relações sociais, os fatos parecem indicar a necessidade de usar 
outros materiais para a nova construção. Uma outra abordagem, outra perspectiva, outra 
lógica, outras práticas, outros mecanismos. Outro ponto de partida. Nada original, é a 
nova civilização que elaboraram os socialistas antigos. Esse processo deve descansar e 
implantar-se em uma feroz independência das classes oprimidas. De um povo construindo seu 
destino no ritmo que permitem as condições históricas. As armadilhas, as relações, as 
próprias alianças tácitas e explícitas devem ser feitas a partir dessa perspectiva de 
independência. Uma vez que não pode ser isolado, como deve se estar no meio do povo e nos 
eventos sociais complexos e variáveis, esse fator adquire uma importância de caráter 
estratégico de primeira ordem.

Diante de todas essas mudanças e perdas sociais, contra a cultura que proclama o fim das 
ideologias e da história, declarando o capitalismo e suas instituições como a única 
realidade possível, é que atualmente a luta ideológica ganha dimensões estratégicas para a 
produção de um novo sujeito histórico, capaz de enfrentar tais concepções dominantes com 
base na ação direta. A partir da ideologia, do poder das ideias, é que se pode mobilizar 
os corações e razões, coletivamente, articulando-os em uma expressão de resistência e 
progresso na medida que convoca diferentes sujeitos sociais e os transforma em agentes 
capazes de reescrever a história e conceber um mundo novo. Tudo isso articulado na 
expressão política subsequente.

Inseridos em nosso povo, vivendo seus problemas cotidianos, com esperança e ferramentas 
eficazes iremos construindo crescentes espaços de socialismo e liberdade.

Arriba los que luchan, sempre.

6 de marzo de 2013

Fonte do texto traduzido: http://www.cabn.libertar.org/?p=879

Texto original  da FAU: 
http://federacionanarquistauruguaya.com.uy/2013/03/07/sobre-venezuela-y-ante-la-muerte-de-hugo-chavez-seguir-creando-un-pueblo-fuerte/

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